Baralhos e bolas de gude
As mãos magras e envelhecidas embaralhavam as cartas com maestria, sem prestar muita atenção no que faziam, enquanto Maria estava perdida em pensamento. Maria não era o seu verdadeiro nome, até porque não havia ninguém para lhe dar um nome quando ela nasceu. Mas Maria era um nome comum o suficiente por um período de tempo longo o suficiente, e ela sempre gostou das pequenas constantes, como separar as cartas em três montes, pegando o do meio e pondo por cima do monte à esquerda e depois pondo as duas sobre o monte da direita, o barulho da cadeira à sua frente sendo puxada para dar lugar ao pobre diabo que veio vê-la. Pequenas coisas que sempre aconteciam de novo e de novo, sem falha.
- Bom dia, Maria - disse o jovem, confiante como eles sempre eram. - Pronta para revanche?
Maria deu sua risada que parecia quase uma tosse. - Não espere que eu pegue leve com você por eu ser sua madrinha. O que vai apostar?
O jovem tirou um saco de bolinhas de gude de dentro da mochila, colocando em cima da mesa no espaço entre ele e Maria. Apesar de serem bolinhas como a de muitos garotos geralmente mais jovens que ele, elas não tinham a carga de lembranças que se esperava do brinquedo.
- Estas são as bolinhas que a vovó usava para dar ponto no doce de leite caseiro dela, você lembra?
- Não - disse Maria, parando de embaralhar as cartas, se lembrando da mulher em questão quando ela ainda era viva - Eu nunca consegui ganhar esse segredo dela. - Maria encarou bem o garoto que ela vira crescer, pesando cada decisão que ele já fez durante a vida até chegar ali. - Você tem certeza disso?
O garoto assentiu. Maria embaralhou as cartas uma última vez antes de servir sete para ele e sete para si, deixando as restantes no meio da mesa.
- Faça o seu pedido, mas não me diga qual é - instruiu Maria antes de ver as próprias cartas. - Jogue com este pedido em mente. Se você ganhar, eu passarei para você instruções para realizar este pedido. Se você perder, as bolinhas de gude ficam comigo. Entendido? - o jovem assentiu novamente. - Então comecemos.
O tarot começou como um jogo de taverna antes de ser usado para vidência. Maria conhecia o princípio e os aplicava em outros jogos, geralmente os que estavam mais em voga no momento, para manter a atenção do consulente no jogo enquanto ela fazia seu trabalho. A aposta vinha como o único pagamento que ela recebia, uma iguaria que ela não tinha acesso, já que Maria não precisava de nada.
O jogo correu com vantagem para Maria, em pouco tempo o jovem declarou derrota. Não era incomum Maria ganhar, ela sempre sabia quem deveria ganhar ou perder, mas nunca com tanta facilidade. Maria encarou o jovem novamente.
- Você não precisava perder de propósito, garoto.
- Eu sei - disse o jovem, rindo - A vovó pediu para que eu as entregasse assim para você O garoto se levantou e abraçou Maria, se despedindo da madrinha. Maria pegou as bolinhas de gude nas mãos, absorvendo as memórias e sentimentos bons associados a elas.

















