Um conto sobre a Senhora que nunca envelhece.
Existem coisas que fogem o entendimento. Existem coisas que não deveriam ser lembradas pelos que respiram.
O tempo é algo que comumente é visto como o remédio mágico para todas as coisas, bem, pelo menos é o que dizem. Mas, não para Henrico.
Vamos falar um pouco sobre Henrico: um homem de trinta e alguns anos, construiu uma vida confortável e estável no quesito financeiro, tinha uma boa relação com sua família, estava em um relacionamento monótono embora agradável, com alguns planos para o futuro (mas que mais serviam como uma maneira de preencher e o ocupar o tempo até os dias que o levariam ao fim).
Ao passar dos dias que vieram após o término do verão e começo do outono, Henrico começou a sentir que algo havia mudado. Não sabia explicar nem detalhar em palavras. Algumas coisas que sempre fez e acreditou começaram a perder o sentido. As noites já não eram mais as mesmas, acordava sem sono sentindo-se desprendido temporalmente dos dias que estava vivendo. Em algumas dessas noites, lembrava que eventualmente sonhava com uma senhora de cabelos longos e cinzas, que transparecia um tom sombrio de mistério. Acordava, ligava a televisão e buscava assistir qualquer programa que fosse para conseguir parar um pouco com esses sentimentos súbitos que o assolavam.
O tempo. Dentro de minutos sentia como se pudesse ver sua vida toda se esvaindo entre seus dedos, e então a percepção "normal" voltava, e junto um baque de realidade que era tão forte como um soco na boca do estômago a ponto de deixá-lo sem ar.
Era um dia bem normal, final de expediente, estava saindo do escritório da empresa de publicidade que trabalhava. Por algum motivo e acaso, resolveu fazer um caminho diferente do qual fazia todos os dias ao voltar para casa. Dessa vez voltou a pé, deixou sua moto dentro da garagem da empresa.
Era um fim de tarde agradável. O vento era fresco, mas não ainda frio, o sol se deitava atrás das montanhas e o mar cinza azulado cedia espaço para uma noite escura que viria. Resolveu pegar um caminho muito mais longo, que passava por uma estrada entre árvores em um trecho um pouco mais retirado da cidade, mas que ao fim ligava-se a uma estrada de chão que fazia conexão com a avenida que morava.
E foi, caminhando, sentindo os cheiros daquela estrada rodeada por árvores. Se desligando um pouco de tantas coisas que aconteciam durante seu dia. Apenas caminhando passo a passo... Observando apenas o chão, perdendo até mesmo a noção de quanto tempo fazia desde que começara a caminhar. Em algum momento percebeu que já estava mais noite do que esperava estar enquanto passava por aquele lugar.
Em certo instante, reparou que com certeza tinha entrado em trilhas que denotavam claramente que há muito tempo ninguém passava. As árvores pareciam que carregavam um sentimento de efemeridade, mesmo elas, que viviam mais do que muitos animais de longa vida.
Uma certa coceira começou em seu pescoço, pensou ser algum inseto ou animal que poderia ter provocado isso, e então passou sua mão sobre seu pescoço. Não sentiu nenhum animal ali, nenhum inseto. O que sentiu, foi uma pele enrugada, dura, quebradiça, e ao coçar, percebeu que camadas finíssimas de pele se desfaziam conforme coçava com suas unhas e pontas de seus dedos.
Tinha algo de muito estranho acontecendo. Sentiu como se estivesse se acordando, e olhou de fato para seu redor para conseguir se situar melhor de onde estava e... Bem, tudo estava escuro, nem mesmo árvores estavam visíveis. Pegou seu celular e ligou a lanterna, mas não adiantou. A lanterna iluminou o vazio, o nada.
Eis que, dessa vez, sentiu o mesmo sentimento que sentia sempre que acordava de madrugada sem sono. Mas sentiu algo muito mais forte. Dessa vez não existia televisão, tentou pegar seu celular para ligar para alguém ou mandar uma mensagem, ver o GPS, enfim, nada adiantou ao perceber que, em algum momento deixou seu celular cair e não estava mais com ele.
Henrico sentiu algo que havia anos que não sentia. Sentiu frio na barriga de se aventurar em algo novo. Mas ao mesmo tempo sentiu a dúvida que era acompanhada com
algo muito próximo do que chamamos de medo. Talvez receio, mas não exatamente isso.
Ouviu uma voz muito familiar, daquela senhora do qual as vezes sonhava, que tinha os longos cabelos cinzas. "Faz tanto tempo que eu te espero Henrico"... A voz um pouco rouca, trêmula, mas ao mesmo tempo incisiva e ainda com o tom de mistério dos sonhos.
-"As crianças daqui não aprendem nunca. Não quero que você aprenda algo também, mas pelo menos, você consegue me ouvir"
Henrico sentiu um medo do qual não conseguia descrever, mas ao mesmo tempo sentia-se tão familiar ao escutar a voz da senhora que falava quase que convidando-o para adentrar no caminho escuro.
-"Tem me sido um presente desde que nos encontramos durante as noites. Eu agradeço por abrir as portas para que um pouquinho de seu tempo se torne meu"- Falou aquela voz que invadia cada vez mais os silêncios daquela noite.
Enrico notou que a senhora estava distante, mas a voz parecia estar ao seu lado. Do breu da noite, surgiu a silhueta da mulher que usava um vestido longo, cinza escuro, com brilhos estranhos que eram na verdade contrastes de escuro com mais escuro, e não luz.
Henrico nem se quer percebeu que estava caminhando a passos largos em velocidade a ela, mas notou que menos velha ela parecia ser na medida que se aproximava dela. Ela abria um sorriso feliz, alegre, e abria os braços em um pedido de abraço. Henrico começou a se sentir fraco, sem ar, com dor em suas pernas e sua coluna, sentiu não ter mais forças para caminhar por conta, caiu ao chão de joelhos. Suas unhas estavam longas, toda a sua pele estava enrugada, notou que seu cabelo também estava longo, e branco.
Henrico percebeu que, toda vez que sonhava e acordava sentindo como se sua vida estivesse se esvaindo entre seus dedos, era uma parte de seu tempo em vida sendo absorvido, sendo sugado por algo ou por alguém que precisava daquilo pra se manter "vivo". E foi então que as coisas fizeram sentido.
Aquilo nunca foram sonhos, aqueles sentimentos nunca foram loucura. A senhora então olhando o desespero nos olhos de Henrico que percebera o que estava acontecendo, falou:
- Por qual motivo sente medo? Você está sempre buscando preencher seu tempo na covardia de apenas prolongar o inevitável pra todos que não respiram sua própria vida. Você há anos não sente mais diferença entre o que foi, o que é e o que será. Foi você quem permitiu que eu me aproximasse. A noite é sempre linda quando o escuro nos abraça, não acha Henrico? Dessa vez, desse que eu lhe abrace por completo, deixe-me sentir o seu corpo entre meus braços jovem Henrico!
A senhora que antes tinha cabelos longos e cinzas, agora estava trajando um vestido vermelho, que marcava muito bem o seu corpo e exibia um corte lateral sensual. Sua pele estava lisa e fina, seus cabelos eram loiros, em chanel, na altura de seus ombros. Os olhos azuis e frios, lábios carnudos e vermelhos, quentes certamente.
Henrico foi aos poucos perdendo o ar que preenchia sues pulmões, foi percebendo tudo mais lentamente ao tempo que sua visão ficava cada vez mais borrada e disforme, mas ainda conseguia escutar a voz, mesmo que agora sem entender, da "senhora" que lhe envoltara em um abraço doloroso e frio, mas prazeroso e sombriamente familiar...
A família de Henrico o procurou por dias, semanas, a polícia investigou mas nunca o achou... Seu celular está desaparecido desde então, e nenhum rastro foi encontrado de sobre onde ele pode ter ido.