A precisão dos passos e o silêncio cortante no olhar denunciam que KHANIN KITJARUWANNAKUL não está no Instituto Valentinov por acaso. Sendo PERSPICAZ e HOSTIL, foi escolhido — ou amaldiçoado — como um dos observados de Volkov, selado entre sombras e expectativas antigas. Aos VINTE E TRÊS, cursa o PENÚLTIMO ANO DE LINGUÍSTICA COMPARADA movendo-se entre os corredores como parte do cenário. Filho de uma origem HUMILDE, BOLSISTA E ATLETA, sua reputação circula com mais força que seu nome e dizem que sua semelhança com BIBLE WICHAPAS (WICHAPAS SUMETTIKUL) já virou lenda entre os estudantes do dormitório. Seus amigos mais íntimos o chamam de Thorn, você pode encontra-lo em alguma aula de Latim ou no Clube de Natação.
Na família de Khanin, sobreviver sempre foi uma prioridade. A vida não fora nada gentil com a mãe de Khanin, a senhora Malai. Oriunda da parte rural de Sakon Nakhon, com quinze anos mudou-se sozinha para Bangkok em busca de uma condição de vida melhor. Os primeiros anos na cidade foram muito difíceis e as opções de empregos bem escassas. Trabalhou por anos na mesma empresa de costura em condições que beiravam a escravidão. Trabalhava muito até a exaustão e recebia, naturalmente, muito pouco por isso. Por muito tempo, viveu numa quitinete bem maltratada pelo tempo numa parte mais esquecida e desfavorecida da cidade. Nunca teve o privilégio de se apaixonar, mas juntou-se a um rapaz da mesma fábrica em que trabalhava e viveu bem com o próprio por algum tempo, até engravidar.
Ao sinal da criança vir ao mundo e a falta de comida na mesa, consequência da carência de dinheiro, foi motivo o suficiente para fazer o rapaz rapidamente sumir do mapa, deixando uma mulher desamparada e desempregada para trás. Prestes a ser despejada do local por conta dos múltiplos alugueis atrasados, viu sua vida melhorar um pouco ao conseguir um emprego de doméstica para um senhor russo que vivia viajando para Bangkok a negócios. Ele lhe ofereceu um teto – um quartinho para empregados nos fundos da casa –, alimento e um salário satisfatório, suficiente para mandar um bocadinho para a família em Sakon Nakhon e ainda ser o bastante para prestar cuidados para seu primogênito. Quando o patrão anunciou que estaria voltando em definitivo para São Petersburgo, a chamou para continuar trabalhando com ele. Mesmo com diversas ressalvas em se mudar para um país estrangeiro, a doméstica assumiu o risco, pois era tudo que possuía.
Com 3 anos, Khanin e sua mãe chegam à Rússia. O patrão era exigente, mas a senhora era trabalhadora e não se deixava cair sobre o perfeccionismo do homem. A realidade era muito dura, mas a vida não era tão insuportável, pelo menos por algum tempo. Khanin cresceu nos fundos da casa do patrão da sua mãe, trancado no pequeno quarto que dividia com a materna. Quando não estava na escola, era mantido fora de vista de todos, como um fantasma, uma presença inconveniente, sem sequer ser permitido a respirar alto demais. Viver daquela começou a beirar o insuportável conforme a pré-adolescência e adolescência foram se aproximando, mas não existiam outras alternativas. Tudo o que conseguia sentir naquele período era raiva, mas a controlava para evitar preocupar sua mãe. Essa raiva existia por muitas razões, mas a mais pungente entre elas vinha de uma infância de privações, vendo a mãe contar centavos enquanto outros esbanjavam.
A única maneira que encontrou para controlar sua raiva quando estava próximo da mãe foi passando o mínimo possível de tempo na casa dos patrões dela. Ao passá-lo mais tempo na escola que em 'casa', foi aí que teve contato com a natação através do clube extracurricular da escola em que frequentava. Aos 13 anos, já era um nadador bastante competente e participava de competições entre as escolas da região. Com o passar dos anos, foi só melhorando no esporte, competindo nacionalmente também, embora seu comportamento agressivo, competitivo e raivoso frequentemente lhe causava problemas na escola e com os demais competidores.
Na escola, Khanin tornou-se conhecido por seu silêncio e por sua capacidade de se envolver em brigas que, surpreendentemente, não era ele quem iniciava. Embora claramente violento, era preciso muito para tirá-lo do sério. Porém, tal como um animal selvagem e raivoso, uma vez envolvido em uma luta, não parava por vontade própria. Sua calma inicial escondia o quão perigoso ele podia ser. Quando certos gatilhos eram acionados, revelavam uma violência bruta e incontrolável. No entanto, por trás da fachada bruta e de toda a violência, há um contraste inesperado. Khanin tem uma mente afiada, destacando-se nos estudos, especialmente em línguas, mas escondia esse talento por trás de um cinismo agressivo, como se negasse ao mundo seu potencial.
Khanin não esperava que um olheiro fosse recrutá-lo para o Instituto Valentinov com uma bolsa de atleta, inclusive, estava praticamente convicto que deixaria a Rússia, só precisava para isso convencer a mãe a deixar o país com ele. Não aconteceu, e sem qualquer outra melhor perspectiva de futuro, aceitou a bolsa, ingressando no curso de Linguística Comparada. Foi em uma das brigas que o professor Volkov o viu lutar e o notou ali, recém-chegado. Embora tenha esperado a expulsão, não conseguiu esconder a surpresa ao ser recrutado como um dos dez da Decápolis. A promessa de se tornar importante, alguém com controle sobre sua própria vida, foi irresistível para Khanin. Não tinha nada a perder, já que não era nada, e por isso aceitou. A partir dali, sua vida mudou da água para o vinho. Fora da instituição, continuava o zé-ninguém que sempre fora, mas dentro de Valentinov, carregava uma nova função e, acima de tudo, um propósito.