1/2: Australia has two Sister Cities with Israel - part one of two
seen from China
seen from United States
seen from China
seen from China

seen from Algeria
seen from United States
seen from United States
seen from United States
seen from Namibia

seen from Canada
seen from United States
seen from China
seen from Hungary
seen from Canada
seen from United States

seen from United States
seen from China
seen from Canada
seen from United States

seen from Malaysia
1/2: Australia has two Sister Cities with Israel - part one of two
We Are... Unlucky
43. We Are… Unlucky
EUA, Texas – Dallas – 2017, 02h49 AM
Point of View Justin Bieber
— O que? — Brooke abaixou minhas mãos, deu um passo atrás e estreitou os olhos para mim.
Eu senti minha boca secar; me preparei para um provável tumulto e desviei os olhos para ganhar tempo numa boa resposta, umedecendo os lábios.
— É isso. — foi o que saiu quando encolhi os ombros e as sobrancelhas tristemente.
A reação dela quase me assustou.
— Não! — Brooke bateu o pé, inconformada; sua respiração aumentou um grau de aceleração. — Você não pode! Eu não vou deixar... — ela parou, tampando a boca ao me dar as costas, muito nervosa para continuar.
Engoli em seco, sem sair do meu lugar.
— Vamos para casa. — pedi, calmamente.
— Por quê? — ela voltou de repente; apontou para meu peito quando parou a minha frente, a poucos centímetros de distância. — Você precisa me explicar, quer que eu entenda. Me explique, por favor, porque eu não entendo. — a frase teve um fim suplicante por ela ter agarrado minha blusa.
E encarar seus olhos de tão perto era uma tortura. Ela estava tão bonita, eu queria tirar aquelas roupas do seu corpo essa noite. Mas não consegui a reação esperada pela confissão.
— Vamos para casa, Brooke. — toquei suas mãos, abaixando-as antes de desviar o olhar e me afastar um passo, coçando a nuca.
A garota ficou quieta, forçadamente, pois, eu vi as palavras se acumularem na sua boca. Mas ela guardou todas e apertou os punhos ao lado do corpo, liberando a respiração pesada depois e levando as mãos ao cabelo quando finalmente pisou em direção ao carro.
Eu olhei para a boate ainda cheia, aliviado por não avistar nenhum policial suspeito que esteja na minha cola. E na cola de Raymond e toda merda que ainda andamos fazendo pela fronteira. A viagem para casa foi silenciosa e tensa. Eu apenas ouvia o baixo som do motor da Ranger e alguns carros passando na pista. Brooke não queria olhar para mim, muito menos ficar na minha direção. Seus braços estavam cruzados na altura dos seios, os joelhos juntos da porta, o olhar fixo lá fora, o máximo possível longe de mim.
Eu liguei o rádio para amenizar a situação dentro do veículo, ouvindo a voz de PartyNextDoor soar por ali, num tipo de música que eu adorava escutar quando dirigia a noite. Pensei em uma playlist que pudesse levar caso fosse fazer minha fuga sobre quatro rodas. Respirei fundo, mudando a marcha, acelerando um pouco mais.
— You got niggas and I got bitches... — arrisquei um olhar para lá, vendo ela se remexer sobre o banco; a ruga ainda entre suas sobrancelhas. — You got niggas, I want you...
Prestei atenção na pista outra vez, as vezes cantarolando os versos só para mim. Molhei os lábios. Porra, gostaria de pedir a ela para que esquecesse o que disse, e aceitasse parar comigo no motel mais próximo. Não tinha culpa se nós éramos azarados. Eu tive que contar, antes que não suportasse quebrar o sorriso que consegui manter no seu rosto por toda essa semana. E olhe só agora, eu estava sendo odiado de novo.
Talvez fosse melhor. Ainda tinha Jackson para lidar.
Brooke mal esperou que eu tirasse a chave da ignição assim que estacionei o carro dentro do quintal. Eu a vi bater a porta e sair andando em direção a casa, não a ponto de correr. Eram passos certos de si, dignos de um aviso para não interrompê-la. Mas eu saí logo depois, sentindo a brisa fria da noite, seguindo-a até que passássemos pela porta da entrada.
A casa estava silenciosa e escura; seus saltos fizeram um mini assovio sobre o piso quando agarrei seu braço, virando-a para mim. Uns fios de cabelo ficaram em seu rosto e Brooke travou o maxilar como se meu pescoço estivesse entre seus dentes.
— O que é? — ela só não gritou pelo horário, pois, havia raiva o suficiente na sua voz para parecer um rosnado.
— Precisamos falar sobre isso. — soei sério, porque, por mais que eu não quisesse aquilo era complexo demais. E eu tinha que fazer antes que fosse tarde demais para todos nós.
— Eu não quero ouvir, já entendi o que vai fazer. — sua mão afastou a minha, e então seus passos duros soaram pelos degraus acima.
— Eu não vou ir enquanto não entender que não estou me esforçando para ser um babaca agora, Brooke. — estreitei as sobrancelhas, a seguindo.
— Ah, claro. — zombou, mesmo com o ar chateado em sua voz. — Você está sendo o melhor bem feitor de todo o mun...
— Eu não tenho escolha! — minha voz ecoou pelo corredor quando a parei novamente, muito mais bruto dessa vez. — E se você parasse com essa porra de relutância, eu poderia explicar o “por que”!
— Por quê? — repetiu, com raiva, em um tom exigente. — Porque você faz todas essas coisas e depois... — ela parou, abrindo a boca enquanto pensava numa palavra. — Destrói.
Foi um sussurro gritante. Eu vi Brooke me implorar por uma explicação; suas mãos estáticas em gestos. Meu peito se carregou de culpa, mas desviei o olhar para conseguir me manter com razão.
— Não é o que eu quero, B. — larguei os braços, estalando a língua. — Porra, você pode facilitar? Parar de pensar em mim como o egoísta e se lembrar de que ainda estou me escondendo da polícia?
Ela balançou a cabeça, negando como se não aceitasse, e me deu as costas outra vez. E então eu pensei, “Porra, eu tenho uma sorte do caralho por isso sempre terminar em sexo e não em mortes”.
E não seria eu quem sairia morto.
— Brooke? Me deixe explicar, você me pediu isso, eu quero fazer. — meus dedos puxaram seu ombro para trás três segundos depois.
— Estou passando mal. — foi sua desculpa seca.
— Não, você não está. — a interrompi. — Sei quando está.
— Não é uma boa hora para você agir como um namoradinho doce que me conhe...
— Porra, Brooke! — ela se calou quando minha voz ultrapassou dois níveis de altura a mais que a sua. — Você pode me deixar explicar, caralho? Eu não tenho toda a merda da noite, porque você tem que ser tão burra?
— E porque você tem que ser tão filho da puta? — devolveu, empurrando-me; minha mão agarrou o corrimão da escada. — Suma daqui! Você conseguiu o que queria, estragou tudo de novo!
Eu nem me comovi, eu apenas bufei longamente, puxando o cabelo entre os dedos, apertando os dentes depois. Fechando os olhos para um canto, buscando uma calma que foi interrompida quando ouvi o barulho dos seus saltos batendo em direção ao seu quarto.
Tive uma recaída tão grande sobre a minha doçura forçada por essas semanas que achei que teria de levar algum tapa para me controlar. Eu quebrei minha promessa como sempre tenho feito, e cheguei a pensar que haviam me dado alguma droga muito louca para que eu tivesse decidido controlar a vontade de agarrar essa garota e empurrá-la para a cama mais próxima, em todos esses dias.
Os olhos de Brooke se arregalaram para mim naquele quarto escuro, o motivo provavelmente seria a dor em suas costas quando a puxei e empurrei para a sua própria porta com brutalidade, assim que a fechei atrás de mim. Não tinha mais nenhum vestígio de paciência. Sua boca também se abriu, um arfar escapou entre nós e suas mãos... ah, eu fui bem esperto num pretexto para segurar seus pulsos a frente dos seus seios, os pressionando sobre eles. Tentei não deixar meu olhar cair para o volume que formaram.
— Eu disse que não tenho toda a merda da noite. — repeti, quase pausadamente. — Se você não quiser me ouvir, tudo bem, foda-se, eu vou embora. Não vou estar aqui para que fique me culpando depois, de qualquer jeito, não é? Uma ótima maneira de se despedir, Brooke.
— Não. — ela agarrou minha blusa quando pensei em me afastar; eu vi tudo se desmanchar diante dos seus olhos; suas sobrancelhas deixarem sua expressão triste. — Não vai. Por favor. Não posso ficar sem você, não outra vez.
Ah, porra, eu amava aquilo.
Espalmei uma das mãos na madeira ao lado da sua cabeça; minha boca se curvou num sorriso satisfeito assim que toquei sua cintura. Eu mordi o lábio apenas por olhar para ela, espantei todo o problema por qual estávamos passando para pensar numa boa despedida. Uma que ficaria guardada, que me faria pensar que valia a pena sair daqui para morrer em outro lugar, para salvar a raça de quem amava.
— Gosto tanto quando diz isso. — sussurrei, abaixando a cabeça para beijar seu ombro nu. — Me faz pensar que não sou alguém insignificante.
Segurando seu rosto, desci um caminho de beijos pela sua garganta abaixo, cheguei ao seu pescoço e subi outra vez, fechando os olhos como se estivesse apreciando a coisa mais gostosa na minha vida. Brooke tinha os olhos quase fechados também, como se tivesse outro tipo de coisa afetando suas reações; ela pareceu tão desnorteada quanto eu quando finalmente encontrei seus lábios, os pressionando com meu polegar e finalmente pressionando os meus em seguida.
E então ela agiu, e me empurrou, ofegante como se tivéssemos passado horas naquilo.
Eu só tive tempo de enrugar minha testa em reprovação, pois, um dos seus pés deu um passo à frente como se estivesse arrependida. Os lábios dela estavam entreabertos e úmidos, eu passei a língua entre os meus sem perceber. Não soube decifrar nada do que estava sentindo quando se aproximou de mim, não sabia se a ruga entre suas sobrancelhas era de raiva ou confusão. Porra, não poderia estar mais confusa que eu.
Suas mãos me empurraram para trás, eu deixei. Deixei, pois, encontrei a cama macia cinco segundos depois, onde me apoiei sobre os antebraços no impacto. E então vi seu corpo cheio de curvas acentuadas pelo vestido justo, vir para cima de mim, suas mãos se afundando ao lado da minha cabeça à medida que se abaixava para me beijar. E empurrar a língua para minha boca por vontade própria, criando um beijo lento.
Suspirei, aliviado. Toquei suas pernas, subindo pelas coxas; o vestido deslizava para cima sozinho, deixando minhas mãos apertarem sua bunda sem nenhum pudor. Meus dedos se afundaram na sua pele, procurando a calcinha pequena, a qual sumia entre suas nádegas. Agarrando seus quadris, a empurrei para o lado, ficando sobre seu corpo, encarando seus olhos um segundo antes que ficasse de joelhos entre suas pernas, tirando minha jaqueta.
— Eu preciso mesmo falar com você. — joguei o pano para algum lugar. — Mas, porra, eu esperei por isso a semana toda. — voltei para baixo, recriando o beijo, apertando sua cintura, sentindo seu corpo se arquear para mim.
A risadinha que deu, foi como música para meus ouvidos.
— Eu senti tanta falta da sua boca, J. — sussurrou, mordendo o lábio. — Você não faz ideia... — suas mãos empurraram minha blusa para cima enquanto a beijava. — do quanto eu esperava cada merda de noite para que entrasse no meu quarto, me acordasse e me levasse para sua cama. — Brooke tocou meu pescoço assim que terminei de subir a camisa, jogando-a para qualquer canto. — Eu queria que...
A calei, buscando sua boca, empurrando a língua para dentro para me lembrar de cada lugar. Podia ouvir os sons apressados dos nossos lábios trabalhando juntos, enquanto eu levava meu quadril para frente entre suas coxas, criando movimentos conhecidos no sexo. Era uma merda que ainda tivéssemos roupas entre nós. Estava em cima dela, beijando-a outra vez e mal podia acreditar nisso. Voltei a subir a palma da mão sobre sua coxa, levando o vestido, tocando o elástico da sua calcinha. Apertei os olhos entre o beijo, pressionando os dedos em sua pele por uma ansiedade tão grande que estava acabando comigo.
Brooke tocou meu queixo, ela fez a infelicidade de afastar minha boca da sua, me deixando apenas com a sensação do hálito quente entre nós e minha respiração ofegante. Seus olhos se dividiram entre dois lugares. No fim, não consegui desviar dos seus.
— Mas eu não vou me despedir de você. — sussurrou. — Muito menos assim. — ela já estava me empurrando quando comecei a me recuperar do universo rodando em volta, sendo empurrado para o colchão para que ela pudesse sair da cama.
Eu fui rápido, deixei meu subconsciente, revoltado e desesperado por sexo, me dizer como agir e puxei seu corpo para que voltasse. A joguei na cama, planejava fode-la tanto que apagaria; não ligaria para nenhuma das suas objeções. Mas, porra, nós tínhamos pessoas com sono mais leve que o de Lucy dormindo a uma parede de distância. E enquanto eu tentava não usar palavrões berrantes, Brooke me recusava a cada merda de tentativa.
— Justin... — gemeu, quando a pressionei sobre meu colo, depois de puxá-la de volta. — O quão difícil é entender um...
— Eu sei que quer isso tanto quanto eu, B, não tente me enrolar. — estava beijando seu colo abaixo das clavículas no momento em que puxei seu vestido para baixo, envolvendo um dos seus seios em minha mão.
Irmão, eu não sei explicar o quanto meu pau latejou só de ter o contato com eles outra vez. Quase explodi apenas por ouvi-la liberar um gemido involuntário.
— Caralho, eu preciso tanto foder você. — grunhi sozinho, apenas imaginando enquanto beijava seu corpo, descendo, quase chegando lá. — Não vou conseguir...
— Vai ter tempo o suficiente para isso depois. — foi um pouco bruta para escapar das minhas mãos. — Jackson acordou.
Eu não discuti com seu sexto sentido materno quando arrumou sua roupa, se afastando para a porta. Apenas fui atrás dela, confuso pelo o que ouvi.
— O que quer dizer? — nós atravessamos o corredor, até o quarto infantil e agora completamente decorado.
— Você entendeu. — soou ríspida. — Agora, tente não piorar as coisas.
Parei no batente da porta, olhando-a ir até o berço onde Jackson estava de pé, apoiando as mãos nas grades, choramingando com uma chupeta na boca. Brooke o pegou no colo e sussurrou coisas, fazendo sua mágica enquanto o balançava. Era bem mais rápida que eu para fazê-lo dormir de novo.
Eu não sabia se refletia sobre o que tinha dito minutos atrás ou sobre o quanto estava duro, quando passou por mim outra vez, indo direto para seu quarto. Girando a chave. Eu só fiquei no corredor, sozinho. A única coisa que consegui no final foi um banho gelado por meia hora.
E depois eu dormi estressado.
***
O clima na cozinha na manhã seguinte não parecia dos melhores. Apesar dos olhos inchados, a cara amassada e a sonolência evidente eu não quis nem sequer olhar para Brooke assim que cheguei, para não dizer uma porção de insultos, por ter me feito dormir incomodado toda a merda da noite com bolas doloridas por não ter me aliviado como queria.
O banho, aquele maldito banho não bastou.
Não ouvi nada do que Raymond disse, ele lia seu jornal e contava as novas para a gente. Por algum motivo, não contou a sua filhinha que todos nós poderíamos ir para o saco ou a cadeia se caso eu não metesse o pé daqui e arranjasse uma boa grana o mais rápido possível. Sem falar que, sua vadia da Califórnia estava ameaçando nos infernizar de um estado que ela nem sequer morava. Apenas tinha uma porrada de boates herdadas do filho da puta do seu marido.
Empurrei o prato assim que terminei, ainda afundado em minha cadeira, com uma carranca para a louça vazia.
— Hm, Ray? — pude ouvir a voz dela, interrompendo a conversação do pai. — Lembra-se do que me disse? Sobre falar com Justin, e toda nossa paz... — olhei para cima apenas por escutar meu nome. — Bem, nós conversamos, e eu sei que você está escondendo algo de mim. Por tanto, não precisa mais, já que decidimos que vou com ele para onde for.
— O que? — eu me pronunciei, quando menos esperava, erguendo uma das sobrancelhas.
A única voz que se fez presente naquela cozinha por quase um minuto em seguida foi de Jackson. Eu não sabia o que ele estava dizendo, acho que estava resmungando sozinho enquanto brincava com a comida.
— É o que ouviu. — Brooke apoiou os braços no balcão, olhando inexpressivamente para mim. — Não vai se livrar de mim.
— Putz grila. — Raymond deu uma risadinha quando olhou para mim. — Eu te disse, garoto.
— Não! — eu proibi, me desencostando da cadeira, franzindo o cenho para ela. — Que porra você tomou essa manhã?
Brooke demonstrou uma expressão muito entediada para mim antes de deixar meu olhar, e me dar às costas. Eu me levantei da cadeira, causando um som irritante quando a empurrei para trás, para ir atrás da senhorita teimosia. Não a deixaria fugir de uma possível briga, ela sabia que teria.
— Brooke? — fui atrás dela, até as escadas onde puxei seu braço. — Você ficou louca? — estreitei as sobrancelhas.
Ela nem sequer contraiu a expressão para nenhuma outra, parecia indiferente a tudo quando voltou a me dar as costas, puxando o braço.
— Brooke! — dessa vez eu agarrei seus dois braços. — Você não vai. Está me ouvindo? Por acaso está se esquecendo de Jackson?
Ela absorveu as palavras e foi como um choque de realidade, pois, eu finalmente vi emoção passar por seus olhos. Algo como raiva e confusão.
— Eu... — procurou palavras, olhando para os lados primeiro. — Eu não o esqueci. E eu não quero deixa-lo, mas... — levou as mãos ao cabelo, apertando os olhos. — Merda, porque está jogando tudo para cima de mim!
— O que?
— Eu não o fiz sozinha! Você também está nos deixando como se não significássemos mais nada!
— Porra, você... — eu me afastei, desci um degrau, respirando fundo para manter paciência. — Você sabe que não é assim! Nós conversamos sobre isso na noite passada e você não estava bêbada a ponto de esquecer! — acusei.
— Nós não conversamos, nós brigamos! — rebateu. — É muito, muito diferente!
— O que você quer de mim? — exigi, dando um passo para lá. — Hein? O que eu posso fazer? Você quer que eu fique? Certo! Eu posso ficar. Mas não me culpe quando a polícia levar todos nós para a porra da cadeia enquanto traficantes matam seu filho por acerto de contas!
Ela, por algum milagre, me ouviu. Sua mão tocou o corrimão quando prestou atenção, descendo um degrau. Os lábios se abriram para perguntar e eu relaxei os ombros, pronto para contar tudo que quisesse saber.
{...}
Nossos pedidos acabavam de serem servidos quando Brooke esfregou o rosto com as mãos, apoiando os cotovelos na mesa. Eu esperei que ela engolisse toda a informação, e voltasse para trás, suspirando longamente. E então olhasse para mim, encolhendo as sobrancelhas frustradas.
— Espero que eu esteja perdoado agora. — tentei ser descontraído para amenizar a tensão.
Ela voltou a apoiar o cotovelo ali, e enfiou a mão entre seu cabelo enrolado ao levantar o olhar.
— J... — abriu os lábios duas vezes, pensando no que dizer. — O que nós vamos fazer?
Eu desmanchei minha descontração, piscando para baixo brevemente, me mexendo sobre o assento. Minha boca pareceu seca e eu umedeci os lábios antes de voltar a encará-la, quase pedindo perdão visualmente por não ter algo melhor para dizer e confortá-la.
— Nós... — encolhi os ombros devagar. — Vamos ter que tentar. — bufei, inclinando-me e esfregando meu rosto também. — Quer dizer, eu vou ter que tentar. Vou tirar a gente dessa.
— Eu vou com você.
— Não, você não vai.
— É lógico que vou, Justin, isso não faz sen...
— Brooke...
— Você não vai sozinho! — me repreendeu. — Eu vou com você, não adianta discutir. — disse óbvia.
Havia um monte de palavras na minha boca, elas ficaram acumuladas e presas quando respirei fundo, me contendo.
— Eu não quero que venha atrás de mim, e morra nessa merda toda. — continuei. — Porra, garota, você tem que ficar, tem que cuidar de Jackson, eu não quero que ele fique nas mãos de Raymond por tudo, não vai ser seguro.
— Você não está só lidando com a polícia. — apoiou as mãos na mesa; seu olhar era tão sério que não consegui desviar. — Eu e Jack estamos no meio. E eu não vou deixar que se arrisque sozinho quando posso facilitar muito mais as coisas com você ao invés de esperar aqui e ver o meu filho morrer porque fui uma covarde.
Absorvi as palavras duras e certas por um minuto.
E puxei o ar novamente.
— E se eu não voltar? — perguntei. — Uh? E se eu for pego no caminho e você for... — eu acabaria ficando calvo, por puxar tantas vezes os meus fios. — Porra, Brooke, você é uma garota boa. — olhei em seus olhos, muito convincente. — Eu sei que te fiz fazer um monte de merdas por aí, mas eu conheço você. Sei como fica a noite quando vê todo aquele sangue, quando tem participação em tudo isso. — minhas palavras estavam baixas agora, só por precaução. — Essa não é você. Eu não quero te levar ainda mais para o fundo do posso até que não possa voltar e se afogue por minha culpa.
Eu me lembrei das palavras de Raymond enquanto a observava olhar para baixo, e apertar os olhos diante dos punhos à frente do rosto. Me lembrei da conversa que tivemos uns dias atrás, numa noite em um bar. Eu já tinha dito que iria, e que não sabia como contar. Aquele cara, ele era uma pessoa boa. Mas todos nós temos ambições, não que fosse por mal, talvez Raymond pensasse como Brooke. Achasse que eu me daria muito melhor com um tipo de escolta, como se ela fosse alguma assassina ou ladra profissional.
“Você vai ensinar a garota como se faz.”
Foi quase uma ordem. Eu deveria. Eu seria obrigado.
Respirei fundo. Brooke já estava chegando aqui, ao meu lado nesse banco, vindo para baixo de um dos meus braços para que eu o pusesse sobre seus ombros. Apoiando o queixo sobre sua cabeça enquanto forçava meu cérebro a pensar mais. Fechei os olhos.
— Tudo bem. — eu disse, muito baixo. — Você vem, se é o que quer.
Ela se remexeu, e olhou para cima. E eu vi esperança em seus olhos para acreditar que ficaríamos bem. Que voltaríamos para abraçar o garotinho que fizemos.
— Eu amo você. — sussurrou, como se dissesse que nada de ruim aconteceria.
Enquanto levava a mão com um anel que eu mesmo dei, para meu pescoço; sorrindo levemente para me confortar, e inclinando-se no fim para encostar nossos lábios.
E eu acreditei nela outra vez. Porque ela sempre acreditava em mim.
“Se não está quebrada, então não precisamos consertar
Acreditando no que ela diz, você vai ficar pálido
Sabe que não ela será feliz até o nosso amor acabar
Eles tentam nos separar, mas você não quer isso
Eles nunca me apoiaram como você apoia
Eles nunca tiveram uma chance como você tem
Não conseguem evitar então eles nos odeiam
Eles veem o que temos e você sabe que eles querem, não questione (...)
É como se você sempre estivesse à procura de um problema
Uma chuva de equações para você resolver
Tão rápida para fazer nada virar alguma coisa
Pegue os números no meu telefone, vá em frente, ligue pra eles (...)
Você não precisa perguntar isso
Você já sabe a resposta
A verdade não nos faz relevante
Dói, mas é necessário
Não quero que percamos o que nós somos
Não quero que percamos o que nós somos
Perder o que nós somos...” – We Are
No Pressure
42. No Pressure
EUA, Texas – Dallas – 2017, 10h38 AM
Enfim, estávamos terminando. Depois de todos os dias de enrolação, aquilo finalmente se tornou algo descente para se olhar. Ainda me lembro da expressão satisfeita e aliviada que trocamos assim que abaixamos os rolos sujos de tinta daquelas paredes. Sem nenhum outro sentimento ruim que nos atrapalhasse.
Era cômico, pois, me lembro de ter desviado para o chão primeiro. Talvez ele tivesse sorrido, talvez faltasse menos que há uma semana atrás para que resolvêssemos aquilo também.
Eu estava tão ansiosa quanto preocupada para quando caminhões com móveis novos comprados fossem chegar. Foram três decorações forçadas a serem deixadas para trás por causa da nossa vida bagunçada. Jackson não teve oportunidade de se apegar demais a nenhum lugar até agora, mas ele parecia tão à vontade por aqui. Fui eu quem escolhi seu novo berço, ainda sim indecisa se deveria procurar por uma cama. Ele estava comigo aquele dia na loja, deixei sua opinião fluir de algum jeito e no fim sorrimos para o móvel branco.
Acho que não saberia como pagar Raymond por tudo depois. A questão "grana" ainda embaçava meus pensamentos, fazendo-me se perguntar se por um acaso Justin ainda estaria tendo ideias egoístas para se vangloriar.
Ah, e quanto a ele... tinha progredido.
Não nos falávamos demais. Ainda. Mas não nos repugnávamos como antes. Trocávamos mais olhares cheios de significados do que palavras cortantes depois que me entregou a aliança. Eram esses os quais me faziam comprimir os lábios para não sorrir, ou mordê-los e desviar o olhar, pois, Justin era um tipo de projeto magnético. E eu era o tipo de metal mais fraco contra seus puxões.
Eu o estranhei, pois, em uma semana depois que comecei a reparar nas mudanças de comportamento, Justin não parecia mais guardar uma banheira de ódio para mim.
Eu acho que fiquei um pouco assustada. Como quando me perguntou "Quer que eu o coloque na sua cama quando subir?", aquela noite na sala. Jackson estava sobre seu corpo, dormindo tranquilamente com sua chupeta. Justin tinha largado um filme na TV, deitado naquele sofá, para erguer o olhar para mim. Vendo minha expressão paralisada em confusão.
Não era como se eu estivesse recebendo carinho exagerado do nada, achei que o máximo que faríamos de esquisito por um longo tempo seria aquele momento na varanda. Onde me tocou e disse coisas em minha orelha como se não estivéssemos entre uma linha tênue do perdão e o amor quebrado. Na manhã seguinte nem sequer tínhamos permanecido no mesmo cômodo por mais de cinco segundos, parecíamos envergonhados.
Ou então estávamos fugindo de uma tensão sexual.
Porém, uma porção de coisas boas e momentos calmos se seguiram pelo resto dos dias. Ele até chegou a sorrir para mim numa noite, quando passamos ao lado um do outro naquele corredor escuro, fazendo coisas que a insônia nos obrigava. Não pude ver seus dentes, mas era tão doce... que quase o parei e pedi para que viesse se deitar comigo e com Jackson em minha cama.
Mas eu apenas usei palavras.
— Justin? — eu o fiz parar na soleira da sua porta, onde entraria e dormiria sozinho essa noite.
Virando-se muito calmamente para mim, ele ergueu as sobrancelhas, e apoiou o ombro na parede.
Demorei um pouco para falar.
— O que tá pegando? — minhas mãos caçaram os bolsos, mas eu não tinha bolsos naquele pijama curto de algodão.
— O que tá pegando? — repetiu, achando alguma graça em meio à confusão.
— É... — abaixei o olhar, e suspirei antes de voltar, e me encorajar a dar alguns passos calmos até lá. — Não está mais com raiva de mim? — era tão tosco perguntar aquilo quanto esperar por uma resposta.
Justin enrugou as sobrancelhas levemente, pensando. Não tinha mais ódio.
Eu senti meus ombros relaxarem.
— Não. — foi simples.
— Não?
Peça por mim, peça por mim, por favor.
Justin respirou fundo, olhando para longe e depois para mim de volta. Ele veio até aqui, ficou apenas a um passo e meio de distância. E então as nossas confissões nos sobrecarregaram, pois, eu tinha algo entalado na garganta. Tanto quanto ele pareceu ter.
Quando dei um passo à frente, Justin se afastou.
— Eu não... — pensou um pouco, lembrando-se de coisas que fez naquela varanda há algumas noites. — Não vou mais forçar nada. Não vou... tocar em você. A não ser que me peça — suas sobrancelhas fizeram aquela coisa que tocava meu coração, antes que desviasse o olhar, aparentemente envergonhado de tudo. — Se eu pudesse...
Justin fechou os olhos por metade de um segundo, respirando fundo e levando sua mão até a nuca para acariciar.
Depois esfregou o rosto, perdido, até bagunçar o cabelo para trás. Estava vermelho.
— Eu apagaria tudo que fiz. — confessou. — Eu apagaria mesmo, Brooke, eu fiz coisas... ruins, que nunca vou poder me esquecer, muito menos você. E isso é horrível pra caralho, então... eu só vou tentar. Porque no fim, não valeu a pena. Eu não ganhei nada disso, eu apenas... fui te perdendo. — o olhar sôfrego caiu sobre mim. — Não é?
Meus lábios mal gaguejaram para responder, porque, eu estava parada como se tivesse medo do simples ato de respirar. Ele achava mesmo que eu não o amava mais, ou que, pelo nosso grande ciclo de loucura, eu não carregasse mais minha obsessão. Mesmo sobre todos os obstáculos.
Justin deu um passo à frente agora; pegou minha mão e a abrigou entre as suas, apertando um pouco. Ignorando sua promessa de um minuto atrás, pois ele não era bom com promessas. E apenas nesse instante, eu agradeci.
— Eu não vou te pressionar. — ele disse. — Nós podemos fazer isso devagar... certo?
Não me movi, ainda tinha minha paralisia em cada músculo. As costas eretas e meu olhar preso em seus olhos.
Balancei a cabeça devagar.
— Certo. — sussurrei. — É uma ótima ideia. — concordei ainda baixinho como se precisássemos fazê-lo para não acordar alguém.
Justin curvou os lábios em satisfação quase imperceptivelmente, e eu retribuí.
Ele não se aproximou e nem me tocou mais antes de ir.
No entanto, eu conhecia muito bem o cérebro abaixo dos fios loiros para saber que todo o bom tratamento seria uma forma de conseguir tirar minhas roupas. Tinha pensado nisso noite passada. E então me perguntei se estava sendo ridícula demais. Dar mais uma chance a Justin também seria ridículo.
Não que ele precisasse. Não inteiramente, pois, eu também tinha errado. Mas nós... argh, era difícil.
Meu pobre cérebro estava cansado de raciocinar sobre a mesma coisa e não chegar a nada. Talvez eu devesse dar um tempo, Justin tinha dado um tempo, ele parecia em paz, apenas centrado em manter as coisas calmas, principalmente quando estávamos com Jackson por perto. Cumpriu com sua palavra de que o faria parar com a birra absurda, e o fato de colocá-lo contra mim. Raymond parecia obter nossa graça, ele ficava tão feliz de nos ver feliz que eu tinha vontade de mandá-lo parar de contrabandear drogas, pois, seu coração não valia acusações da polícia.
Justin tinha um chapéu preto sobre a cabeça enquanto colocava Jackson em cima daquele cavalo. Meu bebê não chorava, ele era bem corajoso. Eu não sabia por que o Bieber estava usando aquilo, talvez fosse influência de Raymond, pois, não fazia seu estilo. Mas se ele fumasse um charuto agora, eu apenas o agarraria. Não me lembro de tê-lo visto levar nada daquela loja de chapéus em que entramos essa tarde com Jackson e seu avô. Foi um passeio bem divertido por Dallas, Ray me contou sobre sua cidade favorita no Texas, com o nome da minha mãe.
Ele me comprou um chapéu, de presente. E um para Jack também, acho que só faltava nos vestir como caipiras agora. Justin reclamava de tudo isso, menos do que gostou e pôs sobre a cabeça. E agora, ele até parecia ter se integrado, sorrindo orgulhoso enquanto segurava Jackson em cima daquele animal. Eu parei de apenas observar quieta do meu canto, quando as patas se moveram, o que me fez arregalar os olhos e dar um passo, pronta para qualquer coisa à frente.
— Relaxa, menina, a Kiara é mansa. — me assegurou Raymond. — E Justin está por perto.
— Oh, é uma égua? — balancei a cabeça. — Certo. Eu só... — pude ver o sorriso no rosto da criança. — Bem, ele está se divertindo.
— Está. — Raymond sorriu. — Acho que puxou a mim.
— Uma ótima combinação de Justin e você. — murmurei, rindo baixo.
Ele devolveu a risada.
— Você deveria tentar um dia. — tocou minha cabeça, empurrando o chapéu para baixo.
— Qual é, pai, vai amassar todo meu cabelo. — ri, afastando sua mão enquanto consertava o acessório.
E depois de um segundo, o olhei sem saber o que dizer. O canto dos olhos de Raymond chegou a criar ruguinhas quando sorriu orgulhoso, sem jeito e feliz.
— Eu... — tentei.
— Está tudo bem. — me confortou. — Fico feliz de ouvir isso. — me vi ao seu lado quando seu braço circulou meus ombros, e então ele olhou para os outros dois. — Eu espero que já tenha conversado com Justin, eu não quero que toda essa paz vá embora, mas...
— O que? — o encarei, me afastando devagar.
— Ah. — pareceu perdido. — Ele ainda não te contou.
— Me contou o que?
— Essa conversa não é minha. — ergueu as mãos. — Bem, eu vou terminar de pendurar aquelas cabeças antes que criem vida e fujam. — tentou uma piada, desviando o olhar da minha exigência ao dar as costas.
— Ray... — eu parei, e mudei para ver onde Justin estava. Eles estavam entrando naquele estábulo agora.
E eu fui para lá quase decidida, ouvindo o barulho do feno quando meus pés o tocaram debaixo daquela cobertura onde, uma porta escondida ao canto, guardava drogas. Provavelmente armas. Coisas que pareciam de um passado distante para mim. Queria me ver livre de toda a bagunça, me esquecer de sangues derramados enquanto estivéssemos aqui. Sentia pena de Lucy e vontade de ligar para ela.
— Vaca taidola! — eu arregalei os olhos ao ouvir o bebê dizer, mas não tinha sido para mim.
Jackson estava solto no chão, e ele apontava para um outro cavalo preso, onde apenas sua cabeça aparecia para nós sobre uma porta, como se brigasse com o animal. Meus ombros relaxaram só um pouco, e logo depois, eu pude encontrar o olhar de Justin lá na frente. Ele terminou de por Kiara em seu lugar e bateu as mãos, voltando para cá.
Minha defesa se ativou, e meus braços se cruzaram.
— Acho que ele ainda não sabe diferenciar os animais. — o assunto me interrompeu.
Justin não parou até que estivesse a um passo e meio de distância de mim, como sempre tem feito em certos casos. Isso estava começando a me incomodar.
— Yeah, não sabe. — murmurei, lembrando-me; e olhando para Jackson interessado em dar broncas emboladas novamente.
Eu tive um minuto para notar os olhos me queimando. Primeiro, verifiquei de esguelha. Apenas depois virei meu rosto para tentar ler o olhar vindo de Justin, muito penetrante enquanto pensava em alguma coisa; levemente estreitos. Odiava quando ele fazia isso. Talvez fossem suas roupas, a blusa clara de botões, alguns abertos e mangas arregaçadas até os cotovelos; ele parecia tão... atraentemente diferente.
Eu esperei como se estivesse presa. Os lábios quase se abriram para falar, mas eu nem me lembrava mais.
— Porque não quis montar?
— O que? — não quis pensar em outras coisas.
— Ficou com medo? — apontou brevemente para trás, para Kiara.
— Ah... — balancei a cabeça. — Não. — ri, brevemente. — Não fiquei com medo, eu só...
— Dorme comigo essa noite? — pediu de repente.
E eu desmanchei pouco do meu divertimento por ter sido pega de surpresa. Justin não mudou seu olhar, ele ainda estava ali me desafiando estreitamente, um leve sorriso em seus lábios.
— O que?
Uma risada baixa soou por ali.
— Eu não disse sexo, Brooke. Apenas... durma comigo. — encolheu os ombros, à vontade.
— Achei que... — quase gaguejei. — Achei que iríamos deva...
— Você não me ouviu? Não vou te tocar... — seus olhos me analisaram, de qualquer jeito. — A menos que você queira. — foi um murmúrio cheio de razões para me fazer acreditar que ele estava voltando ao normal.
E Justin mordeu o lábio discretamente logo depois de molhá-lo com a ponta da língua. A região abaixo do meu umbigo se contraiu.
— Posso pensar. — minha voz quase vacilou quando assenti, talvez nervosa. — Se... eu... — apontei sobre o ombro, dizendo algo, ou melhor, murmurando alguma coisa embolada como se explicasse uma tarefa complicada da qual devesse cumprir naquele instante.
Meu cérebro deu um nó. Justin riu pelo nariz.
— Não precisa ficar nervosa.
— Não estou. — estava sim.
Mas ergui o queixo testando superioridade quando finalmente relaxei meus ombros. E deixei seu olhar devagar, dando as costas para ir, sabendo onde os orbes claros provavelmente estariam observando. Voltei para pegar meu filho revoltado com os bichinhos de repente, e então finalmente fui.
Eu não vou. Isso é tão cômico, aquele cara era louco. Aliás, existia Jackson, e eu não o deixaria sozinho para ter uma noite de qualidade sem toques com seu pai no quarto ao lado. Certo?
Mas ele teria seu próprio quarto daqui a uma semana e estava acostumado.
Porém, eu finalmente estava conseguindo pegar o meu lugar de volta, era bom ficar ali e ver seu sono doce. Saber que ninguém o levaria de mim naquele momento. Eu me pareci realmente com um guarda àquela noite, pois, nem sequer consegui dormir. Estava sentada a beira da cama, os pés inquietos batendo no chão assim como minhas pernas se balançando levemente. Apertei as mãos uma à outra e me inclinei para frente, soltando uma lufada de ar pela boca.
Meu estômago se revirava como se tivessem libertado um cativeiro de borboletas dentro dele. E por quê? Eu não era nova nisso. Nós podíamos passar a noite na mesma cama como... como o que? Sem toques. A não ser que eu queira.
E o problema era que eu queria. Queria muito.
Não daria batidas como se pedisse permissão, tinha sido convidada. Minha mão rodou a maçaneta lentamente, e meus olhos analisaram o escuro do quarto até pegar a cama vazia. Tinha posto os pés lá dentro, ainda travada. Poderia ter levado um susto com sua forma voltando da varanda se não estivesse esperando por isso.
— Resolveu vir? — foi a primeira coisa que disse. — Achei que não viria.
— Achei que já estivesse dormindo.
— Gosto de fumar antes de dormir. — encolheu os ombros, e eu quis questioná-lo sobre o uso de outras drogas. — Me sinto mais... relaxado.
Quase perguntei se Jackson convivia com a merda do seu cheiro de erva. Bem, eu nunca o peguei nessa situação. Suspirei.
— Okay... — comprimi os lábios, desviando o olhar para a cama, depois para ele. — Você pode... me explicar?
— Explicar o que? — talvez eu devesse segurar a porta por ele ainda estar se aproximando.
— Isso. — respondi. — O pedido. Qual é, Justin, o que você quer? Isso está me deixando confusa. — fui sincera, fazendo um gesto.
E ele riu. Aquilo também estava me irritando.
— Só quero que se deite aqui. — parou quando estava a um metro de distância. — E durma comigo.
Franzi a testa, querendo mesmo saber.
— Porque?
Justin estalou a língua, um pouco exasperado quando passou a mão entre o cabelo, respirando fundo.
— Você parece uma criança curiosa demais, Brooke. Só deite na merda da cama. — o fiapo do seu verdadeiro eu escapou. — Se quiser. — completou rápido.
Estreitei os olhos.
Ainda estava parada ali quando Justin puxou a coberta para cima, subindo em sua cama. Ele pegou o celular e checou suas notificações – as quais eu não senti nem um pingo de curiosidade, obviamente. Era perda de tempo ainda estar aqui como uma idiota desconfiada; meus pés me levaram até lá quando me decidi, pegando a outra ponta do cobertor.
— Isso é tão estranho. — soltei o ar e cruzei os braços, afundando as costas no travesseiro. — Ainda acho que tenha alguma coisa para me dizer.
— Porque eu teria?
O analisei de esguelha para notar a luz do celular ainda acesa. Rolei os olhos.
— Também quero saber.
— Espere. — Justin enrugou as sobrancelhas confusas para mim. — O que?
— Você entendeu.
— Não, agora sou eu quem realmente não entendi.
Bufei longamente, e me virei para ele.
— Você não quer sexo, certo? — disse, por fim. — E você não vai me tocar, — toquei meu peito com as duas mãos. — a menos que eu peça, certo também? O que posso pensar disso?
Justin abriu a boca, estreitou os olhos analisando a situação e dispensou seu celular sobre a mesa ao lado. Riu pelo nariz, e se recostou a cama. Olhei muito rapidamente para seu peito e suas tatuagens antes de subir, segurando minha exigência no ar para não parecer afetada de alguma forma.
No entanto... eu tinha pedido por alguma coisa, indiretamente. Se fizesse um simples gesto com a mão, eu engatinharia para seu colo.
— Acho que precisa relaxar um pouco também. — foi óbvio.
— É algum perito em abstinência de drogas? — o encarei, arqueando uma das sobrancelhas.
— Talvez. E sei do que mais você sente falta, garota. — riu pelo nariz, me fazendo desmanchar o sorrisinho zombador. Justin se inclinou para sua mesa de cabeceira. — Pega aí.
Sobre meu colo parou um saquinho verde.
Lembro-me de ter me arrastado para perto da cabeceira da cama também, dobrando uma das pernas quando comecei a arrumar aquilo para mim com minhas próprias mãos. Justin me observava, estávamos iluminados discretamente pela luz do abajur.
Na primeira tragada me concentrei em espantar a dureza dos meus músculos. Mas abri os olhos imediatamente quando me lembrei da atenção que puxava de alguém. Justin apenas respirou fundo e se recostou outra vez.
— Jackson está dormindo? — perguntou.
— Está. — assenti devagar. — Tenho medo de que acorde e ache que eu o deix...
— Ele não vai, Brooke. — um braço parou sobre seus olhos e então achei que estivesse buscando o sono. — Vai te ver pela manhã.
Balancei a cabeça apenas para mim.
Porque eu era tão mais fraca que ele para aquela coisa? Eu tinha certeza de que poderia rir da merda mais idiota que me dissesse minutos depois. Tinha deixado uma risada muito baixinha escapar quando terminei, ouvindo algo que saiu da sua boca, os olhos fechados para aquele teto; logo depois esfreguei o rosto.
Tinha me deitado e voltei a me sentar, apoiando as mãos atrás do corpo.
Não me importava com meu cabelo bagunçado e até me virei para Justin sobre o colchão, analisando seu rosto bonito quando finalmente olhou para mim. Seu braço agora estava atrás da nuca. E nossa, eu estava tão perto. Faltavam poucos centímetros para tocar seu corpo. E então eu estaria sobre ele, e nós...
— Quero me beije. — respondi, vagamente, sem nunca desviar o olhar dali.
E Justin ergueu as sobrancelhas como sempre; sorriu como se me subestimasse.
— Prefere dormir. — disse ele, construindo minha confusão.
— Não... — apoiei uma mão a frente, e enruguei a testa quando me aproximei. — Beijar. Sabe o que é, você sabe.
— Está chapada, Brooke. — se inclinou para frente. — Não quero que me xingue amanhã.
— Porque eu te xingaria?
— Porque iria estar nua. — sua mão subiu e ela beliscou meu queixo quando piscou. — Agora vamos dormir.
Eu o impedi; agarrando seu braço e invadindo seu espaço pessoal sem querer saber das consequências. Uma das piores coisas na vida é ter um beijo recusado pela pessoa que você ama. Não que Justin tenha sido tão bruto, ele apenas virou o rosto. Mas aquilo me cortou e me fez ceder sobre os joelhos, murchando aos pouquinhos.
— Não pode sempre reclamar de mim se ignora minhas tentativas de melhorar, uh?
Meu olhar caiu para o colchão e o cobertor embolado entre nós. Acho que nem deveria estar aqui, gostaria de voltar no tempo agora e nem sequer ter entrado por aquela porta.
— Quem é você? — sussurrei, estreitando meus olhos.
Tudo o que faltava era ter a maconha me incitando a agir como uma louca.
Eu gostei quando sua respiração se liberou derrotada. Quando seus olhos avelãs desceram por um caminho abaixo do meu nariz e meu coração se esperançou outra vez. Eu cheguei a fechar meus olhos quando Justin voltou a tocar meu rosto, quando se aproximou cheio de decisão. Porém, primeiro ele beijou o meio entre minhas sobrancelhas. Desceu e beijou minha bochecha. A ponta do meu nariz e por fim, colou nossas testas quando faltavam poucos centímetros para trocarmos saliva.
Eu entreabri os lábios, quase sussurrei alguma coisa, pedindo muito por aquilo. Mas quando ele se moveu, seu beijo pegou abaixo do meu lábio inferior, na curva do meu queixo. E eu desisti.
— Vamos dormir. — repetiu baixinho, acariciando seu polegar em minha pele antes de abaixar a mão.
Eu não quis, talvez por 90% de vergonha, permanecer virada para ele naquela cama. Quase tampei meu rosto com o pano. Mas eu ainda tinha uma chance de fazê-lo ficar de olhos abertos e presos em mim.
— Raymond me disse que você tinha algo para me contar. — voltei a me sentar, sendo chata agora ao balançá-lo. — Não me esconda...
— Porra, Brooke. — Justin puxou o cobertor de volta. — Você pode me ajudar? Já disse para irmos dormir.
— Porque não se vira para mim?
— Porque não.
— Está com raiva? Não deveria ter me chamado então! — eu tinha me livrado do tecido quente quando decidi sair dali. — O que vai fazer? Ouvir Big Sean enquanto finge não dar mais a mínima para mim? Aliás, você não me comprou uma casa de três andares!
— Brooke?
— Mas continua fumando tanta maconha que está acabando com todo o ozônio!
— Caralho, você está cantando a música do cara?
Talvez ainda estivesse tonta, não me liguei de metade das coisas que disse e depois achei que o chão estivesse tão cheio de obstáculos que nem sequer existiam, que não pus os pés para fora dali.
— Será que você pode ficar sem fazer um escândalo só porque não quero te foder? — olhei para seu rosto quando me parou ainda em cima do colchão.
E estreitei os olhos baixos, sendo invasiva mais uma vez quando levei minha mão para baixo do cobertor, procurando um volume que encontrei muito facilmente sobre sua roupa.
Justin prendeu minhas duas mãos dessa vez.
— Qual é... — foi um pedido junto de um sorriso derrotado.
— Quer me comer. — sorri preguiçosamente. — Está duro e louco pra me foder, mas não quer admitir. Pode dizer, eu sei a verdade. — disse perto do seu rosto antes de rir.
Uma risada bonitinha e lenta.
— Eu te dei a merda da maconha errada, não foi? — soltando-me, ele voltou a puxar seu cobertor, rindo breve quando me deu as costas para se deitar outra vez.
Me senti uma maníaca.
Emburrei quieta na minha, muito antes de dormir sem nem sequer perceber. E rezei pela manhã.
Rezei e ela veio como onda sobre onde após aquela noite, curando meu constrangimento e me confundindo ainda mais. Justin estava tentando nos consertar ou terminar de levar minha sanidade?
Tinha tirado a prova na manhã seguinte.
— Clitóris de ouro maciço. — eu pude ouvi-lo dizer, sorrateiramente.
Ergui meus olhos para notar seu olhar fixo em mim, levemente estreito como provocação, do outro lado daquele balcão na cozinha. O canto da sua boca se curvou quando Justin molhou os lábios, muito devagar.
— O que? — eu tinha me perdido.
— Sua blusa.
Li a frase feminista escrita no tecido branco, me lembrando. E então abri a boca para assentir, sorrindo fechado.
— Yeah. — peguei as coisas para deixar na pia.
Dizendo a mim mesma que aquilo não tinha entrado no meu corpo para provocar aquele homem. Era apenas algo desafiador para o mundo, eu usava o que bem entendesse. Eu nem sabia o que ele ainda estava fazendo aqui, o normal seria ter saído assim que cheguei. Gostei que não tivesse ido. Mas era tão perigoso ficar... a sós. Com essa coisa em volta de nós. Aquela que nos fazia querer arrancar as roupas.
Se Justin chegasse até aqui como a algumas noites atrás e dissesse algo em minha orelha, eu... fiz uma careta, como se estivesse falando sozinha, desligando a torneira depois.
Mãos apertaram minha cintura.
— Eu diria a coisa mais doce que já provei na minha vida. — Justin sussurrou e, sua voz bateu como ar quente no local onde não deveria.
Eu poderia, poderia mesmo, estar definhando agora.
Principalmente quando ele escorregou suas mãos para baixo e apertou cada uma das duas partes redondas da minha bunda sobre meu short jeans. Fazendo o tecido subir, os dedos se afundando na minha carne me obrigando a puxar o ar, sentindo. Sentindo tudo. Justin beijou meu pescoço, beijou mesmo o meu pescoço como se nossa bolha fosse autorizada. Ainda tinha a sensação das suas mãos grandes me tocando quando se afastou de mim. Tinha deixado apenas um copo sobre a pia que eu não me empenharia em lavar, pois, eu não era sua empregada.
Aliás, foi bom que a mulher que trabalha por aqui não tenha aparecido hoje, seria muito constrangedor.
Mordendo o lábio, segui seus passos para longe com o olhar, tendo seu rosto com um sorriso malicioso me deixando, e então suas costas até que saísse da cozinha.
Meu Deus.
Meu Deus, eu vou cair.
Quis saber por que eu não fazia nada. Por quê? Porque eu gostava. Só não precisava deixar algum curioso ver e me denunciar. Estávamos nos torturando saudavelmente dessa vez, era como se ele me prensasse no corredor; e ficasse me encarando por horas, acariciando o contorno dos meus lábios com seu polegar e me enganando sempre que se inclinasse para perto. E então depois era minha vez de encurralá-lo.
Imaginei o que sairia disso no final.
— Eu não estou dizendo que você planejou alguma porra contra...
— Se continuar dando corda a esse assunto não iremos chegar a lugar nenhum. — o interrompi, cruzando meus braços ao preferir encarar a praça.
Não estávamos gritando. Parecíamos pais normais discutindo civilizadamente enquanto vigiávamos nosso bebê. Estávamos quase sussurrando, para ser mais precisa. Falando sobre aquilo. Acho que tínhamos voltado, sem voltar ao certo.
Jackson estava bem, a princípio; eu o vi se levantar naquela grama e caminhar devagar com sua chupeta sempre na boca até um garotinho do seu tamanho. Eles tinham acabado de interagir quando Justin estalou a língua ao meu lado, conseguindo minha atenção de volta.
— Porra. — repetiu ele. — Eu não vou me culpar por tudo, Brooke. — ele falava sobre a questão pedir desculpas por tudo, e quem diria primeiro.
Eu estava começando a odiar essa palavra. Rolei os olhos, discretamente.
— Claro que não. — balancei a cabeça. — Você é sempre o mocinho.
— Estou correndo risco de ser preso aqui fora. Não sou o mocinho. — repetiu a última parte enojado.
— Não seria ruim ser. — disse óbvia.
— Eu nem ao menos teria você se fosse. — suas sobrancelhas estavam unidas quando enfiou as mãos no bolso e deixou meu rosto. — Não está tudo bem. — murmurou.
— Realmente não está tudo bem. — concordei, talvez exasperada. — Não há como chegarmos a um acordo se você não admite...
— Quando vai parar de agir como se carregasse a merda de uma auréola? — me repreendeu; e nem parecia que tínhamos dormido sobre o mesmo local na noite passada outra vez; e que seu braço me manteve por perto em todo o momento. — E eu não estou falando sobre isso.
— Eu só quero saber o que está tentando fazer! — eu não deixei seu rosto, pedi uma explicação parando a sua frente. — Disse para irmos devagar e eu... eu estou tentando também, mas, — suspirei para longe. — Você me tenta!
— O que?
— Sabe o que quero dizer e não minta. — o passo acusativo que dei para perto o fez pensar melhor.
Muito mesmo.
— Eu não fiz exatamente nada.
— Você me disse...
— Eu não comi você, comi? — me cortou. — Não, então não. Eu não fiz exatamente nada.
— Mas...
O choro esganiçado vindo de longe interrompeu nossa conversa incerta, e nossos olhos se voltaram para lá. Para onde Jackson estava antes, e não era ele quem berrava. Ainda sim, eu me esqueci de Justin e andei preocupada até lá, analisando a situação.
— O que aconteceu? — me agachei ao seu lado. — Ei...
— Você poderia mandar seu filho devolver o que pegou? — antes que pudesse tocar o garotinho e saber, sua mãe chegou por perto, pegando-o no colo.
Franzi as sobrancelhas, me pondo de pé também.
— Está insinuando o que?
— Você sabe muito bem. — ela cuspiu. — Devolva.
— Está chamando meu filho de ladrão? — perguntei incrédula, pondo agora uma mão na cintura.
— Aí, aí, o que tá pegando? — era Justin quem chegou.
— Ele é de vocês? — a mulher apontou. — Eu não vou pedir de novo.
A criança em seu colo não tinha parado de chorar, e agora, esticava a mão acusatória em direção à Jackson abaixo. O qual se encolheu um pouquinho para perto de mim, tocando minha canela.
— Pedir o que?
— O que ele roubou!
— Aí, qual é... — Justin ergueu as mãos, uma risada sem humor o acompanhando. — Eu vi muito bem o que aconteceu, o pirralho aí não queria emprestar os brinquedos.
— Eram dele! — defendeu a mãe. — E isso não dá direito do seu...
— Ele não está segurando nada, você é louca? — não havia nada com Jackson quando o defendi, pois, joguei para trás de nós sem que vissem; sendo erradamente inteligente. — Se por algum acaso vier aqui dizer que o meu...
— Ela não vai. — Justin tocou meu braço para me parar, estreitando os olhos para lá. — Não é mesmo? Não queremos problemas.
A mulher nos encarou bem. E ela não disse mais nada quando nos deu as costas, consolando sua cria para longe de nós, se afastando irritada e com pressa. Provavelmente chamaria o marido por não saber resolver os problemas sozinha. Fiz uma careta, cruzando os braços. Tinha parado de frente para Justin.
Ele ergueu as sobrancelhas. Eu desviei para pegar Jackson do chão e sair dali na frente.
— É a segunda vez. — eu não estava feliz. — Ele não tinha problemas em fazer amigos.
Jackson nem sequer nos escutava nesse instante, estava concentrado em rabiscar de qualquer jeito um livrinho qualquer que veio de brinde com o lanche. Estava de pé ao nosso lado, sobre o banco da mesa, nenhum risco de se desequilibrar para o chão. Sua chupeta não nos deixou ouvir muita coisa por hoje.
— Isso deve ser normal. — Justin deu de ombros, pegando uma batata de seu prato. — Deve ser uma fase.
— Deve ser nós. — suspirei chateada. — Criando problemas em sua cabeça. Não o quero batendo em qualquer criança que não faça o que ele queira.
— O que quer? Matricula-lo numa creche? — foi quase uma piada saída da sua boca.
— Seria uma boa ideia. — pensei. — Há várias crianças por lá, e coisas educativas, nós podemos ir...
— Ah, quer que eu vá agora? — zombou.
Demorei um pouco.
— Faça-me o favor. — resmunguei.
— Seria uma boa chance para ficar com ele.
— Não vai escapar da merda da primeira matrícula dele numa creche, Justin. — deixei claro. — Não vai demorar, faz parte. Ou achou que iria usá-lo apenas para atrair buce...
— Ele não está com problemas. — bufou. — Basta aprender a se defender. Eu posso ensinar.
— Não. — disse imediatamente.
Justin me ignorou. E eu o ignorei, olhando para Jackson. Ele tinha prestado atenção em nós agora.
— Olha, não... — respirei profundamente, dizendo a ele. — Não pode pegar as coisas dos outros sem permissão, tudo bem? É feio, muito...
— Eu vou te dar um melhor, cara. — Justin apoiou os braços na mesa, sorrindo para Jackson, se referindo ao carrinho. — Muito mais real e bonito, vai poder colocar mais de três garotinhas dentro, o que acha?
Eu abri a boca muito devagar, fulminando ele e sua ideia estúpida. Justin subiu os olhos; ele piscou para mim quando umedeceu os lábios, convencido pela atenção do bebê.
— Yeah, nós vamos ter muito dinheiro outra vez. — Justin prometeu um tempo depois enquanto eu me enchia de perguntas internas, ciscando o lanche.
— Dinhelo! — foi o que saiu da boca com uma chupeta.
— O que mais está ensinando a ele? — exigi baixinho a Justin.
— A assistir pornô.
— O que?
— Isso não é sério, Brooke, qual é. — riu, passando um braço sobre meus ombros. — Você precisa relaxar, aquela vagabunda não vai mais se meter com nenhum Bieber, uh?
Eu levei um tempo para processar tudo de uma vez.
— Está relaxado agora? — quando virei meu rosto, vi seu sorriso tão próximo se desmanchar lentamente. — E nós não somos casados, diz isso sobre seu filho.
Não quis parecer tão seca. Mas Justin se afastou discretamente, pigarreando ao se ajeitar no banco, quieto. Eu apertei os olhos.
— Vou ao banheiro. — foi minha desculpa.
Não havia mais um clima bom quando voltei.
Mas isso não era tão longo quanto antes. Nós tivemos um progresso imenso por conseguir paz. Era estranho passar por fases; lembrar que Justin praticamente tinha tentado consertar nossa relação agindo como se nem sequer tivéssemos brigado. Tive que admitir, era bem melhor pular o processo.
Gostávamos da ideia. Estávamos colocando-a em prática. E se continuássemos, estaríamos suando sobre um colchão em menos de 42 horas.
As rodas do carro pararam sobre o chão seco do quintal daquela grande casa. Justin tinha alugado uma Ranger preta há algumas semanas, ele e Raymond gostavam tanto dela que passaram um dia inteiro a admirando. Eu saí do carro primeiro, indo até a porta de trás para abri-la e tirar Jackson de sua cadeira de segurança.
Ele ainda estava em meu colo quando Justin chegou aqui fazendo barulho com suas chaves sendo jogadas para cima, depois de rodear o carro. Era eu quem carregava uma expressão receosa. Coloquei o bebê no chão quando os tênis brancos de marca pararam a minha frente.
— Então... — Justin começou, empurrando as chaves para dentro do bolso. — Eu vou com você, se quiser. É só me avisar.
Eu assenti, pondo as mãos nos meus bolsos atrás.
— Não quis ser tão seca... tudo bem? — mordi o lábio. — Eu só estava... merda, eu só estou preocupada com ele. — suspirei, encontrando o carro para minhas costas.
Justin passou os olhos pelo filho e subiu para mim; dando passos para chegar a minha frente outra vez.
— Ele não está doente, Brooke, qual é... — tocou meu braço. — Não esquente a cabeça à toa.
— Eu sei. — puxei a barra da sua blusa para que viesse para mais perto de mim.
— Podemos sair essa noite. — ele tocou meus quadris, os dedos massagearam o local sobre a roupa. — E distrair um pouco, uh?
Eu quase me deixei cair novamente, acreditando quando colou nossas testas, me olhando de cima. Recebendo meu olhar preso de baixo, antes que piscasse para os lábios vermelhos que gostava tanto. E que sentia a merda de uma falta tão grande... que era um absurdo ainda não termos nos beijado.
— É uma boa ideia. — concordei baixinho, apertando sua blusa sem perceber; fechando os olhos quando seu nariz esbarrou o meu também. — Ele está olhando. — sussurrei.
Produzi uma risada breve quando Justin ergueu as sobrancelhas para Jackson e sua atenção voltada para cá. Estava vidrado de verdade, e por algum motivo não tinha nos interrompido.
— Ele vai aprender sobre isso algum dia. — eu o empurrei quando tentou continuar, e ri de sua expressão.
Pegando Jackson para entrarmos depois.
{...}
Meus pés doíam. Por uma boa causa, tinha dançado tanto que o suor grudava em meu pescoço, me obrigando ir ao banheiro toda hora para dar um jeito nisso. Era uma boa sensação estar naquele lugar, com Justin, sem brigas e apenas luzes e músicas. Me fazia se lembrar de casa, do West e todos que frequentavam lá.
Dallas tinha sua parte completamente suburbana, por sorte. E nós tínhamos descoberto uma boate super movimentada por aqui, com músicas de nosso gosto, nada tão ligado a country. Eu sorri quando saí daquela pista, voltando para perto do balcão onde Justin estava encostado, me observando de longe. Acho que estava um pouco elétrica; eu só precisava mesmo de um pouco de diversão e sua companhia.
— Eu estou com sede. — disse assim que parei por perto, respirando rapidamente antes de analisar seu copo sobre o balcão. — O que está bebendo? — eu não o esperei responder, havia roubado e entornado tudo de uma vez.
Fazendo uma careta ao enrugar o nariz, sentindo o líquido queimar. Parecíamos jovens e renovados dos estragos essa noite.
— Ual. — Justin riu. — Melhor ir devagar, não acha?
— Porque não volta para a pista comigo? — toquei seu braço, sorrindo. — Não pode ter se cansado.
— Achei que fosse você quem estaria cansada depois de subir lá com suas “amigas”. — apontou com o queixo. — Ainda mais de pé nesses sapatos, uh?
— Você gostou, não foi? — espalmei as mãos em seu peito quando me aproximei, rindo. — Sei que me secou daqui.
— Tirei todas as suas roupas nos meus pensamentos. — mordeu o lábio entre um sorriso malicioso.
— E fez mais alguma coisa? — retribui o gesto.
Ele tocou minha cintura, e aproximou a boca da minha orelha, sussurrando coisas que criaram de arrepios a uma risada de mim.
— Não vai vir? — insisti assim que o vi pagar a conta.
Justin se perdeu um pouco na hora de dizer, viu algo lá atrás.
— B? — me parou, e me deu alguma insegurança por umedecer os lábios tão tensamente. — Tenho uma coisa para falar com você... mas acho melhor sairmos daqui primeiro.
— O que foi? — minha eletricidade foi embora. — É tão sério assim?
— Um pouco. — olhou para os lados. — Podemos ir?
— Okay... — assenti, deixando que segurasse minha mão quando fossemos abrir caminho para irmos embora dali.
Eu não sabia bem, a primeira coisa que pensei foi que estivéssemos sendo seguidos. Meus olhos procuraram por todos os lados, agradeci pela bebida não ter me afetado completamente, não até agora. Justin não soltou minha mão até que estivéssemos do lado de fora, passando pela fila de pessoas que ainda queriam entrar.
Estávamos a poucos metros do carro quando ele me fez parar, e sentir medo do que fosse dizer somente em analisar sua expressão.
Cheguei a puxar o ar para falar.
— Eu vou embora. — despejou primeiro, como uma avalanche agressiva de neve. — E... provavelmente eu não volte, mas quero que fique bem. E que cuide de Jackson também. — tocou meu rosto paralisado. — Quero que saiba que apesar de toda a merda eu não diminuí nem um pouco do que sinto por você, Brooke. Mas eu realmente preciso que entenda, estou fazendo isso por nós e preciso que me ajude.
Foi tudo muito rápido para processar. Eu nem soube o que dizer quando finalmente consegui piscar.
“Achei que você estava aqui pelo dinheiro
Nunca achei que te levaria a sério
Agora eu preciso de você, não depois
Estou perdendo a cabeça, estou delirando
E eu vou lutar por isso
Nunca vou desistir de um amor como esse
Finalmente eu achei alguém
Que me faz bem, como mais ninguém faz
Estou falando com minha consciência
Eu cometi alguns erros
Eu mesmo que cometi
Sou o único culpado
Eu sei que você precisa de um tempo para acreditar de novo
Para amar de novo (...)
Coloco minha chave na ignição
Não corra garota, apenas se aqueça para mim
Eu sei que você não tem para onde ir embora
Garota, eu preciso da sua atenção
E toda vez que vejo você fazer aquela cara
Eu quero te amar em todos os cantos
Não faça isso, meu bem
Não faça isso comigo, não (...)
Sei que não quer conversar, beleza
Nós terminamos e voltamos, igual apagar e acender luzes
Você ouviu que estou dando tacadas com essas vadias, igual quando jogo golf, certo?
Quando te toco, eu me congelo
Garota, você é tão fria, tão fria, tão fria
Como nós somos tão jovens e vivemos como se fossemos tão velhos?
Na cama nós dormimos juntos, mas sozinhos
Isso poderia te deixar louca
Você deveria ser minha única, Yoko Ono
Oh, não, round dois de novo
Estamos brigando mais do que o Ryu e Ken
Da última vez discutimos oito dias direto
Aprendi minha lição, tirei só A
E eu sei que é mais sério do que uma dessas massagistas
Oh, você sabe que eu gosto de comer cookies igual o Lucius, de Empire
Vá em frente e não se apresse
Mas é um desperdício de tempo se não estiver desperdiçando o tempo comigo
Pense nisso (...)
Você não precisa se decidir agora
Sei que errei com você
Deixe seu coração se curar
Sem pressa, sem pressão...” – No Pressure
Lose It All
36. Lose It All
EUA, NY, Brooklyn – The Bronx – 2017, 23h56 PM
Point of View Justin Bieber
Três batidas.
Eu apertei os olhos contra aquela madeira, esperando que alguém viesse me atender mesmo estando tarde. Parecia haver um bando de formigas na minha cabeça, irritantes, me perturbando. Era tanto tempo.
Era a merda de um ano inteiro perdido e sofrido longe dela. Porra.
Eu estava sendo dramático? Grudento e maluco demais?
Pois, eu podia jurar que não seria nada fácil e tranquilo dormir longe daquela mulher com o pensamento de que estivesse me odiando. E se Brooke fosse atrás de Andrew para curar suas mágoas causadas por mim, como antigamente?
E se dissesse a ele que eu não era a pessoa certa e que Jackson precisava de alguém menos bagunçado na vida?
Eu arregalei os olhos perante o mármore, sentindo meu peito subir e descer com mais força que o normal. Eu não tinha neurônios mais.
— Quem é? Já viu que horas são, mano? — o resmungo de Brandon soou do outro lado.
Aquela porra de casa nem sequer era dele, inteiramente, para tanta reclamação.
— Abra aí, irmão, sou eu. — murmurei.
Talvez envergonhado internamente.
— Bizzle? — pude ver seu rosto quando abriu a porta. — O que tá pegando? Cadê a Brooke?
— Ela tá bem. — soei um tanto amargo, fazendo uma careta para o canto. — Sou eu quem está na rua.
— O papo não colou, não foi? — um sorriso zombeteiro apareceu em seu rosto.
Rolei os olhos, bufando.
— Há algum lugar para mim aqui? — perguntei depois de empurrá-lo para passar. — É lógico que tem, vocês não podem ter enchido todos os quartos com buce...
— Sério, cara, o que aconteceu? — insistiu. — Ela te jogou um balde de água quente?
— Não, cara. — respondi óbvio. — Só... fechou a porta na minha cara. E não abriu mais.
Lembro-me de ter ficado minutos naquele corredor, me forçando a ser civilizado apenas pelo meu filho, pedindo para que Brooke abrisse aquilo com toda a calma do mundo. Pedindo desculpas e tudo mais, como um babaca. Eu, realmente, deveria ser recompensado por isso e por ter conseguido a grana para mais um mês, mesmo que ela tenha cuspido na minha cara que não havia dito sequer uma palavra sobre como conseguiríamos aquilo.
Eu iria explodir. Eu iria me esquecer do tanto de tempo que ficamos longe, do quanto apenas quero aproveitar o momento ao lado dela e enfim ser o covarde estúpido dentro de mim. Ter uma coleira era sufocante.
Brooke era tão insuportavelmente burra que eu sentia vontade de arrancar meu coração para não me lembrar dela depois. Pois, toda a merda sobre essa garota estava guardada ali.
Porra, o que estou dizendo?
Eu tinha um relógio, um cronômetro em uma contagem regressiva lenta que soava em minha cabeça a cada porcentagem de tempo que estávamos perdendo.
Dez, eu a conheci quando criança.
Nove, eu a odiei.
Oito, nós nos apaixonamos.
Sete, eu fodi meu orgulho dizendo que a amava.
Seis, dividi a mesma quantidade de crimes com ela.
Cinco, nós fizemos um bebê.
Quatro, eu a pedi em casamento.
Três...
É, nós estávamos aqui.
Faltava apenas isso de números para nossa morte?
— Relaxa, depois você vai aparecer por lá com uma bolsa de compras para o J e ela com certeza vai te perdoar. — Brandon bateu em minhas costas quando passei por ele. — Isso se não ficar só com as coisas e te empurrar para fora de novo. — riu.
Eu me deixei cair no sofá, suspirando pesadamente. Fitei a tela da TV desligada por um longo tempo, com o pensamento longe, acho que nem sequer cheguei a piscar. E então me lembrei de algo que estava no meu bolso desde a noite passada.
Eu o cavouquei, procurando pela caixinha preta de camurça. E a abri para ver o brilho daquela pedra posta sobre o anel do qual havia dado para Brooke à algum tempo atrás. Lembro-me do grafite feito por ela no muro perto da quadra no dia em que aceitou meu pedido de casamento. Tínhamos nossa marca por aqui, era tão ruim que tudo tivesse saído dos trilhos.
Eu achei o anel no meio das suas coisas essa semana. Ela não soube, eu escondi depois de parecer aliviado, por Brooke não ter vendido na primeira oportunidade. E depois pensei em chegar até ela e dizer para que trocasse aquilo por uma boa grana, para ajudar. Mas era a única coisa que sobrou de todo o luxo lá atrás, nem mesma a minha estava aqui.
Isso era egoísmo?
Me inclinei para frente, esfregando as mãos no rosto, e logo após isso, meu peito inteiro sofreu com uma dor repentina.
E eu larguei os braços apoiados nas pernas, ofegando uma vez para o chão. Era quase como se tivessem me acertado em algum lugar do corpo. Também. Deixei meu amigo preocupado quando murmurei algum lamento, passando os dedos entre o cabelo, voltando para trás.
E finalmente relaxando no sofá.
— Aí, mano, tá tudo bem? — perguntou. — Você sabe, eu não tenho experiência com loucuras de presidiários.
Balancei a cabeça.
— Cale a merda da sua boca, Brandon. — estalei a língua. — Onde estão os caras?
— Tem certeza de que é uma boa ideia deixar ela sozinha por lá? — pediu de repente. — Eu ia até lá antes, cara, mas você voltou e então... — encolheu os ombros.
— Brooke tem uma porrada de trancas naquela porta. — soei óbvio. — Eu não entraria lá nem que quisesse.
— Para que existem armas? — ele se jogou ao meu lado. — É sério, mano, eu deveria ir dar uma olhada.
— Porra, eu acabei de sair de lá. — apontei. — Não quero que a louca da sua irmã ache que te mandei a meu favor.
Eu senti seu cotovelo, reclamando por isso.
— Vocês dois são um porre, só vão precisar de dois dias. — riu breve, para si mesmo.
E eu quis acreditar na sua previsão.
{...}
Eu andei por aquela sala pela centésima vez naquela manhã, esticando o pescoço para ver a rua através da janela. Enrugando as sobrancelhas e empurrando o resto do meu café da manhã para dentro da boca ao não ver nenhuma garota com Harem Pants e uma blusa curta que faria qualquer um duvidar que fosse mãe da criança em seu colo.
Eu adoraria ver sua cara emburrada para mim agora e ouvir uma desculpa esfarrapada dizendo para que eu voltasse para casa pelo bem do laço familiar envolvendo Jackson. Mas continuei ali, vagando em círculos, fitando cada canto daquela casa nostálgica. Minha camisa estava jogada sobre o sofá e eu tinha certeza de que havia emagrecido alguns quilos, aquela calça caía e por ser algo usado de Brandon, não ajudava.
Eu bufei, me sentindo sem rumo ao travar meus pés.
— Aí, mano, você tá bem mesmo? — perguntou Twist, chegando à sala. — De verdade?
Eu dei de ombros, fazendo um bico rápido.
— Estou.
— Não parece, você sabe, vai cavar um buraco se continuar rodando aí. — ele se jogou no sofá, buscando o controle para por num canal de basquete.
— Cadê seu irmão?
— Precisando de conselhos?
— Não me enche, sei lidar com a minha mulher. — resmunguei, para o outro lado. — Não preciso da ajuda dos outros.
— Ah, certo. — Twist não tirou os olhos da TV. — Sabe muito bem o que tá fazendo e por isso deixou a vadia te colocar para fora como um vira-lata, certo?
— Eu disse para não me encher, porra. — franzi a testa.
— Aí, aí, irmão, você não tem meu respeito mais. — abanou uma das mãos. — Desde o dia que seguiu o viadinho do Za e deu um anel a ela.
— Você sabe o que isso me garante? — estreitei os olhos, rindo breve. — Sexo, irmão. A hora em que eu quiser, porque nós temos um contrato. Sem falar que eu sou O chefe, sabe do que tô falando? — apontei para meu próprio peito.
— E ela ainda te colocou para fora. — zombou. — Yeah, yeah, irmão, está passando a merda de uma vergonha e mal voltou para cá.
— Eu posso ir até lá agora e ficar naquela merda, você acha mesmo que Brooke manda em alguma coisa?
— Você se tornou o cachorrinho dela. — riu. — Como aqueles das garotas de LA, admita.
— Qual foi? Vai continuar com isso? — bufei, o dando as costas para vagar mais uma vez, verificando a rua.
— Não vou ficar surpreso se contar para a gente que deu a bunda na prisão. — continuou. — Você, definitivamente, não é mais o mesmo.
— Vá se foder, seu neguinho estúpido. — cuspi, olhando para trás. — Com quem acha que tá falando? Ainda posso te derrubar, Twist, sabemos quem vence no final, não me provoque.
— Eu malhei enquanto esteve fora, mano. Te derrubo com um soco. — garantiu.
— Claro, e eu continuo rico. — resmunguei, afastando as dobras da cortina para olhar outra vez.
A única coisa que aconteceu foi a campainha sendo tocada. Minha atenção voou para o lado, e antes que qualquer outro pudesse vir até aqui atender, eu me meti à frente da porta, girando a maçaneta e a puxando para trás. Ninguém havia contado a minha mãe que eu estava aqui, e eu não pretendia contar. Mas, isso a pouparia de se preocupar em juntar grana para ir me visitar em Los Angeles. Até, porque, eu esperava que apenas eu voltasse a aquele lugar, e não era para tirar férias.
Bem, não era nenhuma das duas mulheres que eu esperava.
A ansiedade nos meus olhos sumiu como o ar.
— Justin? — as sobrancelhas grossas de Chantel me questionaram quando ela me fitou por completo. — O que tá fazendo aqui?
— Oh, então é verdade? — Ashley sorriu, cruzando os braços. — Está de volta?
Soltei a respiração.
— É. — respondi, talvez desanimado, largando a cerimônia para lá ao me virar.
Eu levei minhas mãos até a nuca, suspirando longamente enquanto tentava conter a merda da vontade de fazer alguma coisa. Como catar minhas coisas e cair fora daqui.
— Eu não acreditei quando disseram que você estava vagando por aí outra vez. — dizia Ashley. — Porque Khalil não me contou? — ela parecia inconformada agora.
— Bem... — eu observei Chantel quando ela chegou para perto de mim, analisando-me com os braços cruzados abaixo dos seios que quase pulavam para fora do decote. — Você não está nada mal.
Ela levantou os cílios longos para mim, a vadia tinha olhos bonitos. E então um leve sorriso malicioso se formou nos seus lábios cheios. Eu demorei um segundo, mas deixei escapar uma risada baixa, balançando a cabeça.
Umedecendo os lábios e devolvendo o sorriso.
— Estou tão bom quanto se lembra, CeeJay. — murmurei.
Não tendo muito tempo para planejar alguma coisa, pois, viramos o rosto ao ouvir os passos daquele cara irritante chegando à sala.
— E aí. — Brandon acenou com o queixo. — A gangue arrumada na sala, porque não me chamaram?
— Porque não são precisos dois pintos para foder uma galinha. — zombei, amargo talvez, rolando os olhos antes de me afastar para a janela mais uma vez.
E até cheguei a me repreender por isso mentalmente, mas não olhei para trás quando todos começaram a falar ao mesmo tempo.
— Quem está chamando de galinha? — pude ouvir Chantel reclamar.
— O que tá pegando? — perguntou Brandon.
— Onde está Khalil? — exigia Ashley, andando por ali como se já morasse no lugar. — Preciso ter uma conversinha séria com ele.
— Vocês todos são tão entediantes. — resmungou Lil Twist em seu assento.
E eu imaginei que, se ele fosse branco como eu, pularia para o lado gótico da vida.
Bufei, pegando minha camisa para sair dali.
{...}
Minhas sobrancelhas se estreitavam à medida que eu entrava no apartamento, depois de notar aquela porta apenas encostada. Brooke poderia ter deixado para mim, e eu fiquei puto por saber que tinha perdido a noite de sono ao lado dela na porra da cama atoa.
No entanto, aquilo ainda era loucura. Seria eu quem a repreenderia por ter deixado caminho livre para uma morte.
— Aí, irmão. — começou Brandon, logo atrás de mim, olhando em volta também. — Ela não está aqui.
Eu continuei calado, a tensão estampada em meu rosto enquanto tentava ouvir qualquer ruído. É, ela não estava aqui. E tinha alguma coisa estranha. Mas não havia nada desarrumado, nenhum bilhete, nem mesmo malas prontas para que eu fosse embora.
Eu andei devagar até o sofá, olhando para a cozinha sobre o balcão. Olhei para trás e para as portas dos quartos vazios. O relógio era nosso único som por poucos segundos.
Nem sequer percebi que Brandon ainda falava.
— Cara, eu ando sem grana, você sabe. — dizia ele. — Você não tem um celular, certo? Com crédito, aliás.
Voltei a estreitar as sobrancelhas com a pontada de curiosidade. A chupeta de Jackson estava bem no chão a minha frente, e era como se Brooke não fosse ligar para isso, ela com certeza não teria deixado e sim posto numa panela com água fervente por uma noite.
Pensei em me sentar e esperar por ela.
Brandon foi inteligente dessa vez, um segundo antes que eu me abaixasse para o estofado.
— Mano, roubaram sua TV. — disse ele, incrédulo.
Era aquela coisa estranha. Um dos bons motivos para se ter trancas em sua porta é que não se pode confiar nos seus vizinhos morando no gueto. Muito menos nesse prédio. E eu me levantei tão rápido que quase bati o pé na quina do sofá ao correr para a porta, puxando a maçaneta para analisar todas aquelas trancas.
— Merda.
Havia um rosto bem a minha frente, no corredor. O filho da puta ainda chegou a sorrir para mim.
— E aí, Bizzle. — cumprimentou, erguendo a mão para fazermos um toque que não aconteceu. — E então... soube que estava vendendo coca por aqui. Você é o cara delas, mano.
Não liguei para seu elogio. Eu sabia que vendia boas coisas, mas não era a hora certa para isso.
— Veio roubar o que aqui? — perguntei, talvez ameaçador quando dei passos a frente, o fazendo recuar.
— Roubar? — repetiu, rindo breve. — Claro que não, irmão, por que eu faria isso?
— Quem te contou? Foram vocês?
— Olhe, mano, eu juro que só vim verificar. — se defendeu. — Foi o Marllon quem me contou, mas...
— Sabe da Brooke?
— Sua mulher? — ele esqueceu-se da dura por um minuto. — Ah, é mesmo, cara. Tá casado com a gostosona? Porra, realmente?
Bufei, balançando a cabeça ao me virar.
— Some daqui, Josh. — mandei, batendo aquela porta atrás de mim, sem me preocupar em perguntar o porquê daquele cara ter voltado para essa vida.
Até porque, minhas mãos começaram a suar.
— Preciso de uma arma, Brandon. — disse, mantendo o possível de calma em meu subconsciente para não pensar no pior.
Daniel.
Foi inevitável não pensar no que ele faria por vingança, e no corpo daquelas duas pessoas jogadas sem vida no chão. Eu soltei a respiração por longos segundos, passando os dedos entre os fios de cabelo.
Estava pedindo algo a Deus agora, mesmo que não merecesse.
— Para que precisa de uma arma? — perguntou Brandon. — E, aí, Brooke vendeu a TV ou...
— Você ainda não percebeu que porra tá acontecendo aqui? — exigi, finalmente. — Sua irmã sumiu, meu filho sumiu e você tá preocupado com a merda da televisão?
— O que?
— Qual é o seu problema?
— Você disse que estava tudo bem, mano. — rebateu franzindo as sobrancelhas. — Se Brooke estiver...
— Pare de me acusar por tudo e ajude. — cuspi, e me movi pelo apartamento, tentando me lembrar de algo útil. — Arrume a porra de uma arma, por exemplo.
— Merda. — ele bufou. — O que vai fazer?
— Eu não sei.
— Aquele filho da puta era problema meu, ela não deveria ter se metido. — resmungou. — Eu sabia, eu sabia que Brooke acabaria na merda por sua...
— Você não vai parar com isso, caralho? — me virei. — Eu juro que vou arrumar uma arma lá fora e atirar na sua língua se não fechar essa boca!
— Ah, é? Vai mesmo me ameaçar, Bizzle? Cai dentro. — desafiou ácido, fazendo gestos.
— Acha mesmo que não faço?
— Qual é, sabemos que quem perde aqui é você.
— Eu vou...
— Ou, ou, ou, o que tá pegando aqui? — era Lil Twist, ele havia abandonado seu carro de infinitas mãos lá embaixo. — Eu fico longe por um minuto e vocês agem como dois maricas casados.
— Preciso que deem uma olhada no sul. — pedi. — Sabem aonde Daniel mora.
— O que aconteceu?
— Acho que pegaram a Brooke. — eu pareci sufocado, desviando o olhar. — E se tiverem... — engoli em seco, apertando os olhos. — Merda, precisamos revolver isso, agora.
— Por mais desprezível que você tenha se tornado, ainda tem amigos por aqui. — disse Brandon, seco. — Posso falar com os caras.
— Vou mandar Khalil dar um basta naquela vadia para vir aqui. — Twist avisou.
Não queria meter Xavier nisso, seria uma boa ajuda. Mas ele tinha sua própria família para cuidar agora, Atifa já teria o dado uma dura pela noite passada. Brandon trocou um olhar significativo comigo e seguiu para fora, esperando que eu fizesse o mesmo.
Na verdade, eu tinha medo de sair e lidar com a verdade, por isso demorei um pouco a fazer.
O que os impediria de matar uma garota só porque eu gostava dela? Uma criança em troco de um familiar perdido tão injustamente quanto?
Eu seguiria Brandon para fora se caso não tivesse escutado aquele breve eco da sirene lá embaixo. Não estavam afobados para chegar aqui, haviam estacionado somente. E subiriam para fazer uma revisão.
Porra.
Tudo foi para os ares em uma semana. O tempo de paz estava se tornando cada vez mais curto.
{...}
Point Of View Brooke Patterson
Meus olhos se abriram muito devagar, como se tivessem toda a preguiça do mundo. E a primeira coisa que senti, foi uma terrível enxaqueca.
Ergui metade do corpo sobre aquele colchão, o lençol que me cobria escorregou para baixo e então, meus ouvidos captaram o som das cortinas sendo afastadas. A claridade me cegou, como se já não bastasse todo o resto que meu corpo estava sentindo.
Pus uma mão em frente aos olhos um segundo depois de ter tido um vislumbre de um cara em frente às janelas.
Eu não tinha apenas sido salva em casa e levada para aquele lugar.
— Hora de acordar, boneca. — eu conhecia muito bem aquela voz. — Preciso saber o que aconteceu com você.
Minha visão não estava mais turva quando seu peso se fez presente à beira do colchão. Andrew inclinou-se para frente e entrelaçou as mãos, sem nunca parar de me encarar.
Eu demorei a falar.
— O que tô fazendo aqui? — murmurei muito rouca e lenta pelo sono.
Ele estreitou os olhos confusos, para logo depois soltar uma risada.
— Você não se lembra? — pediu.
Movi minha cabeça devagar, negando. A dor voltou. E tocando o lado da cabeça, pude sentir um pequeno curativo próximo à testa.
— Você estava com Daniel. — contou.
E eu nem sequer o esperei continuar, minha cabeça chegou rodar com o mar de lembranças repentinas e a primeira coisa que quis saber, arregalando os olhos, foi sobre minha cria.
— Cadê Jackson? — perguntei. — Onde ele...
— Poderia dar uma olhada atrás de você? — apontou.
E eu virei o pescoço muito rápido, quase sentindo dor por isso. Mas meu coração sossegou e meus músculos relaxaram por ver o bebê enrolado em lençóis quentes como eu, em um sono profundo e calmo. Sem nenhum tipo de arranhão.
Eu sorri aliviada, levando a mão de frente da boca para seu rosto, alisando com muito cuidado. Como se pudesse quebrá-lo.
— Você esteve lá em casa? — perguntei.
— Nós estávamos na festa, Brooke.
Sim.
Eu me lembrava. De toda a merda.
A casa estava cheia. As pessoas olharam para mim assim que Daniel me empurrou para dentro e um comentário vindo de uma mulher de meia idade ao canto me fez lembrar das minhas roupas. Ela disse algo sobre puta nova.
Não tive tempo de por uma calça ou um casaco, a boxer e a camiseta me expunham demais. Eu consegui passar os olhos por algumas cabeças na sala, os caras que mantiveram a atenção em mim me fizeram desviar.
Mas pude ver, Kyle e Blake por ali.
Queria meu filho. Eu não consegui perguntar por ele assim que descemos do carro. Minha visão estava embaçada e minha voz mal saía. Mas eu rezei para que ele estivesse vivo. Enquanto os caras que vieram discutiam entre si, sobre mim.
E ainda sim, me prenderam naquele quarto. Ignorando meus gritos e socos na porta. Parecia tão absurdo que até mesmo Deus estivesse me deixando tão aflita sobre o paradeiro do meu bebê, e o que estariam fazendo com ele.
Eu enlouqueci por minutos, chorando feito uma desesperada, levando as mãos à cabeça enquanto deixava meu corpo escorregar para o chão. Soluçando e sussurrando pedidos de ajuda para aquele cara, mesmo que ele não fosse me ouvir.
Eu senti o sangue ao lado da cabeça, era pouco, mas o suficiente para me preocupar. E tentar pensar no que havia acontecido. Talvez tivessem me apagado. E eu nunca descobriria o porque de não terem me matado de uma vez.
Eu precisava de alguém que fosse garantir minha vida. Tinha que existir uma chance. Eu repensei tudo e duvidei do que deveria escolher adiante e de todas as minhas antigas escolhas, quando ouvi aquela voz através das paredes. Como sussurros chamando meu nome.
Eu quis sorrir por saber que ele viria me salvar. Mas não era ele.
— Brooke? — sua mão, provavelmente, teria testado todas as maçanetas daquele pequeno corredor.
Eu me ergui rapidamente, espalmando as mãos na madeira ao tentar falar de forma mais coerente.
— Me tire daqui. — pedi. — Por favor.
— Calma, eu vou te ajudar. — disse ele. — Preciso que saia de frente da porta. — instruiu.
Demorei um pouco, respirando.
— Andrew? — eu não o esperei responder. — Tire meu filho daqui, eu sei me virar.
— Eles o pegaram? — um baixo palavrão soou. — Eu vou tirar vocês dois daqui, tudo bem?
— Você não pode atirar, vão te ouvir. E vão nos matar.
— Qual é, Brooke, eles não são terroristas. — zombou. — Estamos numa festa, e estão todos chapados.
— Ele é só a droga de uma criança! — rebati. — Não pode se cuidar sozinho, sabem que merda vão fazer se...
— Saia da frente da porta, Brooke. — repetiu.
Eu pensei em contrariá-lo outra vez, mas ouvi o clique do gatilho. E isso me fez recuar. O tiro teria pegado em mim se caso ele tivesse o efetuado, mas apenas ouvi chutes, e empurrões. Nada o suficiente para ultrapassar as caixas de som lá embaixo. Meu coração começou a bater mais rápido, o sangue bombeando pelas minhas veias causando a adrenalina.
Andrew olhou para mim quando finalmente empurrou a porta.
— Tá tudo bem? — pediu.
Nunca fiquei tão aliviada por vê-lo.
— Na verdade não. — eu pareci perdida por um breve tempo, fitando meus lados. — Preciso achar...
Ele me parou quando passei por seu corpo.
— O que tá pegando? — perguntou, muito mais próximo agora. — O que fizeram com você?
— É uma história muito longa, pode me soltar? — ele só desviou o olhar quando passos se aproximaram no corredor.
Fiquei nervosa outra vez.
— Vista isso. — disse Andrew, tirando seu casaco grande e azul para me entregar.
Era quente e me cobria até as coxas.
— Obrigada. — murmurei.
Nós voltamos a olhar para lá, eu estava esperando o pior e quando o rosto de Dogg se tornou visível, meus ombros relaxaram.
— E aí? — pediu ele, erguendo as sobrancelhas. — Temos que sair, DJ avisou que isso vai babar em menos de vinte minutos.
Eu poderia responder, mas uma maçaneta rodou logo atrás de mim. Das duas portas, a mais longe se abriu, e um cara se pôs para fora, estreitando as sobrancelhas ao nos encontrar.
— Mas que merda, mano. — resmungou, sacando sua arma de trás.
Eu arfei, dando um passo atrás, olhos arregalados por bater no corpo de Andrew e não saber ao certo para onde ir, pois, era muita coisa para processar.
— Daniel está enrolando, eu não quero sujar minhas mãos com sangue de criança, você sabe, cara... — a frase vinha das escadas, estavam subindo. — Aliás, ele quem vai aproveitar aquela vadia, eu poderia fazer isso primeiro naquele quarto enquanto o filho da puta está lá embaixo curtin...
O tiro veio detrás de nós. E os caras pararam de falar assim que ouviram o disparo.
Eu mal tive tempo de respirar, pois, fui empurrada para aquele quarto de novo.
E mais tiros foram efetuados ali. A música lá embaixo foi interrompida, os caras que subiam obviamente iriam repensar, e descer para chamar seus amigos. Eu não tive tempo de perguntar o que Andrew estava fazendo aqui, já que não se misturava com vermelhos. Talvez estivessem diminuindo essa droga de briga.
Eu só saí no fim do alvoroço, procurando pelos dois caras no corredor. E por sorte, estavam vivos. Eu corri para o fim dele, empurrando Dogg da minha frente, apenas para murchar ao não ver nenhuma criança naquele quarto com mais dois caras, mortos em suas cadeiras.
Eles embalavam drogas ali, a sujeira estava por toda parte.
Andrew tentou tocar meu braço, mas eu me desvencilhei, choramingando enquanto seguia para os degraus.
— Ei, ei, ei, Brooke? — ele me parou. — Não pode descer, quer ser baleada?
— Tenho que encontrar meu...
— Ele não está aqui. — soou óbvio. — Tem certeza de que o trouxeram? Você não parece bem.
— Eu não estou louca. — me defendi, chegando para trás.
Ah, droga, meus olhos estavam marejados.
Nós tivemos um segundo e meio de silencio aqui em cima, murmurinhos lá embaixo e, atrasando o fim das nossas vidas, o som de pneus parando abruptamente por perto. Sirenes da polícia. Vozes dizendo que a farra havia acabado. Eu gelei.
Antes que pudesse subir os olhos para Andrew e dizer alguma coisa, ele agarrou meu pulso, puxando-me para descer os degraus.
— Porra, cara, eu disse que era para termos ido antes. — resmungava Dogg.
Eu parei, ao me lembrar.
— Espera. — pedi. — Falta uma porta.
— Brooke...
— Deixa essa vadia aí, irmão, nós não podemos nos foder por ela. — cuspiu Dogg.
E não era surpresa que ele nunca foi com a minha cara.
— Podem ir. — me afastei, voltando a subir a escada, quase tropeçando.
Praticamente me joguei para aquela última porta, puxando a maçaneta, balançando-a para ver que estava trancada. E enquanto as pessoas fugiam lá embaixo, algumas subiam para cá, escondendo-se nos outros dois quartos puros para pularem a janela para o telhado. Eu tinha acabado de passar uma mão pelo cabelo, exasperada, quando duas garotas gritaram pelos corpos encontrados ali.
Ignorando-os mesmo assim para fugir.
E eu vi Andrew vindo para cá, sozinho. Ele não me deixou e eu deveria o agradecer muito por isso.
— Você me deve uma. — disse ele, quando parou ao meu lado, tirando sua arma para fora outra vez.
O baque do tiro não fazia diferença agora. Talvez atraísse os tiras, mas eu não liguei para mais nada, apenas entrei para o quarto, varrendo os olhos em volta, pedindo a Deus para que dessa vez...
Para que dessa vez eu o encontrasse. E eu fui atendida.
Meu peito afundou, as lágrimas se acumularam sem aviso prévio quando corri para lá, para o canto perto de caixas de papelão. Eu ouvia o grunhido do meu bebê, e eu senti a água descer por minhas bochechas assim que me ajoelhei e o vi vermelho de tanto chorar, amordaçado dentro daquele cubículo.
Que tipo de pessoa faria isso?
Havia um lenço vermelho em volta do seu rosto, em sua boca, impedindo o som alto de choro que viria. Eu o tirei o mais rápido que pude. E livrei suas mãozinhas, elas não mereciam aquela merda, ele não merecia aquela merda e eu era a pior mãe do mundo por ter deixado acontecer.
Não me lembrava de vê-lo tão vermelho desde o hospital. E meus soluços se misturaram com os seus quando o apertei em meus braços, escondendo meu rosto entre seu pescoço para beijá-lo. E beijar suas bochechas, e secar suas lágrimas.
Deus me perdoe.
— Me desculpa. — pedi, muito baixinho. — Por favor, eu amo você. — chiei. — Vai ficar tudo bem.
Era uma dor muito pior que qualquer outra. Era por parte do meu corpo também. Eu gostaria que sumíssemos para um lugar muito melhor agora. E era estranho não saber quem gostaria, realmente, de levar comigo também.
Não. Eu não podia estar renegando Justin de modo algum. Isso seria... louco demais. Ele não tinha culpa, certo?
Talvez...
— Brooke, temos que sair daqui se não quiser entrar em cana. — a voz de Andrew me trouxe de volta.
E eu procurei por machucados ou qualquer outra coisa em Jackson antes de me erguer com ele no meu colo. Sua cabeça estava em meu ombro, era muito melhor perceber que sua calma voltava aos poucos, e isso foi à única coisa que me orgulhou de mim mesma. Eu balancei Jack até que ele se acalmasse mais. Talvez tenha durado um minuto, pois, não podíamos demorar.
— Está tudo bem com ele? — perguntou Andrew, quando estávamos no corredor.
— Sim... eu acho. — tentei vê-lo parando de soluçar.
— Onde está seu... — ele pausou, pigarreando. — Hm, namorado.
— Essa não é uma boa hora para isso, Andrew. — resmunguei. — Como vamos passar pela polícia?
— Eu só fiquei curioso. — insistiu. — Ele deveria estar atrás de você como o branquelo paranoico que é.
Eu ignorei a alfinetada.
— Tem alguma ideia?
— Eu cuido disso, você sai enquanto eu os distraio. Não irão atirar em uma criança. Talvez.
A sua última palavra me estremeceu.
Nós descemos as escadas devagar, Andrew estava na minha frente, sua arma pendia ao lado do corpo pronta para qualquer coisa e eu gostaria de por Jackson de volta em minha barriga agora, talvez fosse mais seguro. Os policiais gritavam, rendendo o pessoal da festa.
Pelo menos, aqueles que não conseguiram escapar.
E seria absurdo demais se saíssemos ilesos.
— Largue a arma e ponha as mãos na cabeça! — ordenou um deles, para Andrew.
E este o obedeceu apenas na parte de erguer os braços, pois, o calibre ainda estava em sua posse.
Eu não dei ouvidos a ninguém, e não daria, tiraria com dentes a pele de qualquer filho da puta que ousasse tirar Jackson de perto de mim agora. Meus olhos varreram a sala para notar os rostos das pessoas ajoelhadas no piso. Como verdadeiros criminosos. Talvez a maioria fosse, mas, alguns apenas curtiam.
Meu maxilar endureceu assim que avistei a cara daquele desgraçado. E de seus dois amigos fiéis, todos eles tinham as mãos atrás da nuca.
Daniel estreitou os olhos para mim
— Leve essa vagabunda em cana também, nada mais justo. — disse ele, estava bêbado e a voz muito mais grogue.
Era puro suor, seu cabelo ondulado e médio grudava em partes do rosto. Eu quis cuspir fogo nele, e quando percebi já estava dando um passo furioso para lá, sendo parada por Andrew.
— Sabe o que irei fazer com a merda das suas bolas se tocar no meu filho de novo? — cuspi. — Tenha certeza de que não vai ser nada que você goste!
— Venha aqui e me mostre. — zombou.
Andrew chegou a olhar para mim.
— Eu mandei largar a arma! — repetiu o policial.
Jackson choramingou, apertando-me. Qual é, amor, seu pai disse para não sermos maricas por aqui.
Eu estava digerindo o gosto amargo da vingança, pensando rápido quando segurei Jack com apenas um braço, andando até Andrew para arrancar a arma de suas mãos.
E mirando para soltar o dedo no gatilho, para cada um dos outros dois insignificantes, ouvindo gritos ecoar. Um novo choro assustado e infantil. A polícia me ameaçou.
— Largue a arma agora ou vou atirar! — gritou, agora apontando-me o revólver.
Eles não sabiam a verdade. Ninguém ligava para porra nenhuma. E eu deixei toda a emoção ruim me cobrir quando aproveitei a brecha de ter uma criança nos braços e suas relutâncias, para continuar.
Daniel chegou a recuar, arregalando os olhos, xingando-me em espanhol quando guardei três tiros perfeitos para a região das suas bolas, o sangue se espalhava fácil pela roupa enquanto ouvia seu grito. Mas eu também acabei com eles quando soltei o dedo para seu peito.
Cuspindo em seu corpo sangrento em seguida, com todo meu ódio. E eu poderia desferir o resto das balas.
Mas aquilo pegou no teto, pois, Andrew me impediu.
E mais gatilhos sendo destravados soaram da entrada. Dogg estava de volta, e aquele outro amigo também. Nenhum deles ia com a minha cara, mas estavam me ajudando.
— Se atirarem, acabamos com vocês também. Que grande ironia, não é, meu chapa? — zombou.
Eu larguei o revólver. Aquilo fez um baque para o chão quando ofeguei, mudando minha atenção para meu filho novamente, acariciando suas costas enquanto chiava.
— Por favor, vamos embora daqui. — pedi, muito baixa, para Andrew.
Ele assentiu, tocando a base das minhas costas para me incentivar a ir à frente. Os policiais, por sorte, eram apenas dois. E eles não estavam nada satisfeitos por serem rendidos por traficantes. Aliás, um deles me encarou seriamente, o suficiente para me intimidar, enquanto saíamos.
Tive certeza que Deus era bom demais, pois, ele me deu mais uma chance aquela noite.
Pisquei, voltando para a claridade daquele quarto. Para o rosto de Andrew sentado à beira da cama.
— Você é louco? — sussurrei.
Ele pareceu confuso, assim como seu meio sorriso.
— O que?
— O que estava fazendo lá? — quis saber.
— Achei que fosse receber mais um agradecimento essa manhã. — disse ele. — Sabe, você repetiu isso por toda a noite.
— Me embebedou?
— Wou, vá com calma aí. — riu, erguendo as mãos. — Tudo foi por sua vontade.
Olhei para baixo, para meu filho novamente. E tocando suas costas para acariciar, apertei meus olhos, suspirando longamente.
— Obrigada, Andrew. — disse, finalmente.
Ele assentiu, com um pequeno sorriso sincero.
— Se sente melhor?
— Yeah... eu acho. — respirei fundo. — Desculpe por isso também, acho que ando com uns problemas de memória também.
Tentei sorrir e soar divertida. Aquilo pareceu funcionar, pois, ele riu para mim.
— Se isso te alivia, nós não transamos. Infelizmente.
— Oh... — balancei a cabeça. — Bom.
Um breve momento desconcertante nos cercou.
— Não se arrependa por isso, fez bem em querer esquecer aquelas coisas. — disse ele. — Aliás, ninguém iria te machucar aqui comigo.
Foi quase uma indireta diretamente.
— Obrigada.
— Posso me acostumar com isso. — apontou, se levantando. — Não quer comer alguma coisa? Pode me contar melhor essa história, se quiser, por que... eu ainda não faço ideia do que tá acontecendo.
Eu tinha que voltar para casa. Tinha que avisar a Justin que estava bem, se caso ele tivesse dado falta de mim. Bufei, perdida.
— Olhe...
— Espero você lá fora. — Andrew apontou sobre o ombro, saindo em seguida, sem me dar mais escolhas.
{...}
Sua nova casa ainda estava naquele bairro, mas era muito mais espaçosa e viva que a outra. O gramado logo atrás era bonito, uma mesa cheia de cartas estava por ali, e a outra cheia de comida, onde estávamos sentados. Enquanto trocávamos palavras, eu tentei não deixar meus olhos desobedientes encarem demais o que não deviam.
Estava sóbria o suficiente para notar a regata deixando as tatuagens amostra pelo corpo daquele cara, e seus braços fortes e sua... corrente reluzindo sobre o peito. Além de que, seu sorriso era muito bonito e sempre se mostrava para mim. Acho que tenho um fraco por essas coisas.
— Então você anda com sangues agora? — eu não o encarava, meus olhos estavam presos em Jackson sorrindo para Dogg no outro lado do quintal, enquanto ouvia alguma coisa.
Eles se davam bem, ao invés de nós dois. A única coisa inapropriada por ali era a arma presa no cós da bermuda daquele cara. Jackson estava sentado na mesa, atrapalhando ao jogo sem ser repreendido por isso. Soube que ele acordou primeiro que eu, mas que voltou a dormir depois de sugar pouco da atenção dos caras pela casa.
Provavelmente seriam umas três da tarde agora.
— Yeah. — respondeu Andrew. — Nunca tive problemas com eles.
— Realmente? — o fitei.
— Nem todos os sangues são como seu namorado, Brooke. — aquela palavra sempre soava amarga de sua boca.
Relaxei na cadeira, desviando o olhar mais uma vez.
— Ele surtaria se soubesse que estou aqui. — murmurei.
— O que só prova o quanto o otário é inseguro, uh? — zombou.
— And... — rolei os olhos.
— Não faça isso, garota. — ele tirou seu celular do bolso após uma mensagem. — Eu poderia te beijar. — foi quase inaudível, pois, sua voz soou como um grunhido.
Respirei fundo.
— Você não pegou sua arma. — lembrei vaga, mudando o assunto.
— Peguei sim. — deixou seu aparelho sobre a mesa após responder. — Na verdade, Dogg pegou. Mas... pode me dizer desde quando aprendeu a fazer aquilo?
Fiz uma careta.
— Longa história.
— Tenho todo o tempo do mundo.
— Não estou a fim de ver você resmungando a cada vez que eu disser o nome de Justin. — ergui as sobrancelhas, óbvia.
Ele demorou um pouco.
— Certo. — pigarreou. — Foi fácil matar o David?
— Talvez.
— Você disse que sim.
— Aí. — chamei sua atenção. — Eu não me tornei uma alcoólica, você sabe, sobre ontem a noite, eu... devo ter dito coisas.
— Yeah, você disse.
— Eu disse que... tipo de coisa? — franzi a testa, com medo por mim mesma.
— Teria mesmo escolhido ficar comigo ao invés dele?
Ah, droga.
Eu quase podia ver um outro filme para sua pergunta. Um onde nós estaríamos nesse quintal, sem consequências da noite passada. E Jackson seria seu filho, e eu receberia mais flores que xingamentos. Saberia o lado mais doce do amor.
Cara...
— Posso usar seu celular? — perguntei de repente, o deixando confuso por meio segundo antes de assentir e me empurrar o aparelho.
Eu não fiquei ali para que Andrew ouvisse tudo. Me levantei e me afastei para dentro da casa, digitando os números o mais rápido que pude. Esperava que ele atendesse, esperava que estivesse bem e não aberto mão de tudo e procurado a polícia. Aliás, eu quase me sentia na obrigação de informar que ainda o amava mais que qualquer coisa... exceto uma metade de pessoa, talvez.
Uma porção de "merda" em sussurro saia da minha boca enquanto escutava os bipes pelo celular, andando de um lado para outro naquela cozinha. Acho que Andrew havia sido legal em espantar sua gente por hoje, nem mesmo garotas curiosas e metidas a namoradas estavam entrando aqui para me questionar.
Da última vez em que pisei aqui e trouxe Jackson comigo, eu quase entrei numa briga sem querer. Tudo porque uma vadia achava que tinha algum direito de me expulsar. A antiga casa de Lucy agora era como aqui, bandidos, garotas, jogos, armas e drogas. Eu tinha passado a me acostumar ainda mais.
— Alô, aqui é o policial Logan, quem está falando? — meu coração perdeu as batidas por um momento.
— Policial? — repeti.
— Sim, pode me dizer seu nome? — insistiu. — Nós revistamos o apartamento, recebemos uma ligação na noite passada dizendo que...
— Prenderam alguém? — o interrompi, apertando o celular.
— Senhora, eu vou ter que pedir...
— Eu sou a dona do apartamento. — respirei. — Vocês prenderam alguém? — repeti, e foi quase como se implorasse.
— Você pode vir aqui? Queremos trocar umas palavras.
Eu desliguei.
Quase não consegui digitar outra vez, trêmula demais, sentindo meu peito subir e descer com mais dificuldade. E quando pus o celular na orelha novamente, prendi a respiração por ter sido atendida tão rápido.
— Lucy? — disparei. — Lucy, por favor, me ajude.
— Brooke? — eu a imaginei estreitando os olhos confusos, e pensando primeiramente em seu neto. — O que aconteceu?
— Preciso... — eu olhei para trás, estava sozinha. — Preciso que passe lá em casa, está cheio de policiais e... e eu não posso...
— O que tá acontecendo, Brooke? E Jackson? Está tudo bem?
— Ele está bem. — eu puxei o ar profundamente antes de soltá-lo. — Preciso que procure saber sobre Justin e...
— Onde você está? — ela exigiu. — Ele estava aqui ainda agora, estamos loucos atrás de você.
Sabe quando seu corpo está queimando por causa de um tempo quente como o inferno e então, finalmente, você pula numa piscina refrescante?
Eu senti.
— Ele estava aí? — sussurrei. — E... e aonde foi?
— Eu não sei, ele disse que... — Lucy bufou. — Porque não me contaram nada? E aonde você se meteu?
— Eu estou bem. — relaxei os ombros. — E Jack também, não se preocupe.
— Tem certeza? Vocês tem muita coisa para me contar.
— Sim, eu só... achei que tivessem o pegado. — murmurei. — Desculpe, eu vou voltar logo.
— Vocês brigaram?
— Não. — fechei os olhos. — É, sim, mas... não foi nada. Eu só quis sair um pouco de lá. — menti. — Mas estamos bem, okay?
Um suspiro aliviado soou pela linha.
— Tudo bem. — disse ela. — Por favor, não demore.
Eu apoiei as mãos na mesa e apertei os olhos no fim da ligação, respirando fundo para me acalmar. Havia me livrado de uma preocupação. E agora, Justin poderia estar dentro de uma viatura. Talvez sorte demais fosse impossível de se ter.
— Porque não liga para ele? — eu quase pulei, mas apenas arfei e olhei sobre o ombro, para Andrew parado no batente da porta.
— Estava ouvindo? — repreendi, não tão dura quanto deveria.
Ele deu de ombros, cinicamente.
— Não vai responder? — pediu, andando para cá agora, para que eu o entregasse o aparelho.
Me virei outra vez, apoiando as mãos na mesa como antes.
— Justin não tem celular. — resmunguei.
Nunca achei que ficaria irritada por aquilo.
— Disse a eles onde estava? — Andrew estava aqui, ele era quieto e esperto demais para não me deixar desconfortável quando tocasse meus ombros, massageando. — Disse que estava tudo bem, certo?
— Não se preocupe com isso. — ri baixo. — Não mandaram o FBI atrás de você.
— Aquele filho da puta com certeza mandaria. — resmungou.
Eu me endireitei, ficando ereta, e quando me virei, não o mostrei uma expressão muito feliz. Pois, aquilo era uma rixa completamente ridícula, e, eu não iria abrir mão de tudo no último minuto.
Eu tive todo esse tempo e não o fiz.
Andrew parou a minha frente, e não se importou com o que eu fosse achar quando me encurralou na mesa, atento a cada mínimo traço do meu rosto. Sua mão subiu, para tocar minha bochecha, e quando seu polegar traçou um caminho para contornar minha boca, me lembrei de outro alguém.
Eu respire fundo.
— Andrew? — virei o rosto, abaixando sua mão. — O que tá fazendo?
— Eu tentei por um ano. — disse ele, de repente, tão fissurado em mim quanto antes. — E você não abaixou a guarda, Brooke.
Ele riu baixinho, voltando a acariciar meu rosto.
— Tentou...? — incentivei.
— Você sabe o que. — ele mordeu o lábio levemente, tendo lembranças. — Mas eu estive por um fio, não é?
Fiquei calada quando suas roupas finalmente encostaram-se a mim, eu mal respirava agora. Não querendo ser mal educada, depois de tudo. Mas, ainda era um erro.
— Talvez. — sussurrei, encontrando seus olhos acima.
Merda, merda, merda.
O que estou fazendo?
— O que você tem, garota? — perguntou, em um sussurro, descendo a atenção para baixo do meu nariz.
E eu não escapei, eu não o afastei e não senti sequer uma repulsa quando me beijou. Eu cheguei a fechar os olhos também, ouvindo o pequeno estalo de lábios, e não acreditei que meu rosto havia se inclinado para frente quando ele pareceu recuar centímetros para saber minha decisão. Andrew viu um sinal verde para segurar meu rosto com as duas mãos, voltando para me beijar e sugar meus lábios. Fazendo a mesa atrás de nós balançar quando me encostou ali.
E me fazendo tocar seu peito quando sua língua fez um passeio atrás da minha. Minhas unhas se arrastaram por entre sua corrente, poderia tocar suas tatuagens também e poderia descer mais para incentivá-lo a tirar sua própria blusa. Gostaria de ver seu corpo sem nada como há uns meses atrás.
Eu menti para Justin.
Eu menti e porque isso parecia tão mais errado quanto ele fazendo o mesmo comigo?
Talvez porque a vilã do ano fosse eu.
— And? — respirei, empurrando-o devagar. — Pare, por favor. — pedi, esgueirando-me para sair da sua cerca.
— Qual é o problema? — quis saber. — Fiz alguma coisa?
— Não. — eu gaguejei. — Quer dizer, sim. Isso... é uma loucura, não vou... — as palavras pareciam mais difíceis que no jardim de infância, o que me fez dar-lhe as costas depois de desistir de apontar o dedo.
— Ei, ei, Brooke? — segurou meu braço. — Qual é, pare de fugir.
— Argh, pare com isso! — mandei, dando um solavanco para me soltar. — Você não é ele, pare de agir como tal.
— O que? — Andrew enrugou as sobrancelhas. — Não estou agindo como ele.
— Está dizendo as mesmas coisas que...
— Eu não preciso agir como ele para saber que quer isso tanto quanto eu, Brooke! — repreendeu. Balançando a cabeça ao parar de me encarar. — Merda. — sussurrou, saindo dali.
E eu quase fui atrás, mas desisti. E me virando para o quintal novamente, pude ver Dogg com Jackson em um braço, me encarando com um ar questionador. Seu amigo provavelmente teria saído de perto de mim por terem presenciado nossa... coisa.
Acho que sou merecedora de um tiro.
{...}
As rodas do carro pararam naquela rua pouco movimentada, onde Andrew havia aceitado me trazer depois que eu consegui trocar palavras com Khalil por um celular.
Não tocamos naquele assunto outra vez, mas eu me aproximei muito devagar, pelas suas costas enquanto ele procurava por algo em suas gavetas. Eu cheguei a tocar seus ombros e beijar sua bochecha, querendo conseguir uma garantia de ajuda maior.
E bem, ele acabou sendo reconhecido por aqueles policiais no meio da rua, enquanto vínhamos para cá. Meu medo era por Jackson, ele estava no carro com a gente. Mas, quando o tira pegou seu walkie-talkie, nós metemos o pé sobre o asfalto.
E eu pulei entre os bancos para ficar ao lado do meu bebê naquela correria, até que parássemos aqui, esperando Khalil antes que luzinhas azuis e vermelhas decidissem nos encontrar. Era ruim saber que eu fui reconhecida por aqueles desgraçados também.
— Você deveria ter deixado os caras virem. — comentei, quando Andrew encostou sua nuca ao banco, suspirando pesadamente.
— Eu não achei que aqueles mesmos filhos da puta estariam rondando a área, Brooke. — ele abriu os olhos, me encarando pelo retrovisor. — Sabe que deve tomar cuidado agora, não sabe?
Respirei fundo, mudando o olhar para fora, deixando que Jackson ficasse de pé sobre meu colo e tocasse meu colar. Ele quis arranca-lo.
Não bastava que seu pai fosse um foragido?
Eu apenas me defendi!
— Chegaram. — murmurou Andrew, de repente.
Eu vi através do vidro, o carro branco e desgastado se aproximando. Khalil foi o primeiro a sair assim que estacionou, eu já estava pegando Jackson para mim, atenta, mas ninguém mais que Twist e Brandon desceram depois.
— Aonde Justin está? — eu disparei, me aproximando deles com o bebê no colo.
Khalil estreitou as sobrancelhas para além de mim. Meu irmão parou a minha frente, analisando-me.
— Você tá bem? — quis saber. — Porra, Brooke, nunca mais me assuste desse jeito. Ainda posso te por de castigo, pirralha.
Ele pegou seu sobrinho, mesmo depois de falar comigo como se tivesse cinco anos de idade.
— Ele não quis vir. — respondeu Twist, amargo, olhando para o mesmo lugar que o primo.
Eu olhei também. E Andrew estava de braços cruzados, em frente ao capo.
— Porque? — voltei a perguntar.
— Porque você acha, Brooke? — rebateu Twist. — Ele está puto por saber que você foi passar um tempo ao lado daquele filho da puta.
Eu engoli a saliva, desviando o olhar brevemente.
— Não fui passar um tempo com ele.
— Como é? — pediu Khalil. — Foi minha própria mãe quem nos contou que havia saído, e olhe só com quem.
— Não disse a ela que estava com Andrew.
— Temos olhos a mais, garota. — apontou dos seus para os meus.
Mike. E Blake.
— Que traíras. — murmurei. — Vocês não sabem a verdade.
— Qual? A que você trepou com...
— Daniel me sequestrou! — apontei para qualquer ponto, exasperada. — E ao meu filho também! Vocês não imaginam a merda que aconteceu e não fiquem do lado daquele idiota que ao menos sabe o que eu...
— Daniel? — Brandon voltou para cá. — Então foi ele? Eu vou matar esse...
— Sabe que o corpo foi encontrado, mano. — interrompeu Khalil. — Não temos muito o que fazer.
— Eu o matei. — disse por fim.
— O que? — Twist pareceu desacreditado. — Tá de brincadeira?
— Não, eu não...
— Ela não está, eu sou a prova. — Andrew se pronunciou. — Aliás, foi com a minha arma.
— Alguém te chamou aqui, negão? Não se meta. — cuspiu Lil Twist.
— Qual foi, não estou afim de brigar com vocês.
— Virou alguém da paz, otário?
— Vocês podem parar de agir como crianças? — interrompi, cheia.
Khalil tirou seu celular que tocava, do bolso. E ele olhou para mim assim que leu o visor.
— Acho que vai querer cuidar disso. — disse, jogando o aparelho para mim.
Justin.
Eu engoli em seco antes de atender. Levando a orelha e demorando segundos demais para dizer alguma coisa, fazendo-o abrir a boca primeiro. Não era comigo que esperava falar.
— Já acharam ela? — murmurou ele.
Sua voz parecia tão cabisbaixa e rouca, ele não dizia nada por um bom tempo, provavelmente.
— Ei, J, sou eu. — mordi o lábio.
Justin demorou. Eu o imaginei se sentando ereto se caso estivesse em um sofá. Ou então parando de andar inquieto pelo cômodo.
Sua respiração profunda pode ser ouvida através da linha.
— Aonde você tá? — perguntou, ainda muito baixo.
— Estou com os garotos, e está tudo bem. — me adiantei. — E sobre meu sumiço, quero que saiba que...
— Não quero saber nada sobre isso, Brooke. — me interrompeu, seco. — Jackson está bem?
Eu murchei bem devagarinho.
— Ele está. — murmurei para baixo.
— Ótimo.
— Ei, Justin, espera. — suspirei. — Precisamos conversar, eu não estava com Andrew a toa. Quando você saiu, eu...
— Se quiser conversar estarei no South. O galpão. — me interrompeu outra vez, tão fechado que chegava a me travar nas informações. — Você sabe como chegar.
— Eu não...
Ele desligou. Ele desligou e eu fiquei parada como uma idiota por um minuto inteiro.
Me virei para os meninos.
— Levem Jack para a casa de Lucy, por favor.
— Aonde vai, Brooke? — exigiu Brandon, quando me aproximei de Andrew e seu carro.
— Vou falar com Justin, volto logo. — avisei, não pedindo por uma carona ao certo quando me sentei no carona.
Mas aquele cara não me negou.
{...}
O galpão não era um lugar cheio de drogas e armas escondidas. Talvez. Mas eu conhecia aquele lugar pelas festas frequentes a noite, os grupos de Freestyle que se reuniam por ali. Nunca me arrisquei a ir sozinha, para não ser abusada pelos babacas drogados do canto.
Mas agora estávamos em meados da tarde, não havia uma festa e muito menos pessoas por ali. Pelo menos, não por onde passei com Andrew. Ele insistiu em me seguir para dentro do prédio aparentemente abandonado.
Nós estávamos na porta quando o som de novos pneus pareceram ter rolado por perto.
— Acha mesmo que é uma boa ideia ter vindo? — nossos passos quase faziam eco por ali. — Não estou a fim de separar vocês dois.
— E eu muito menos de escutar a conversa de vocês. — resmungou. — Relaxa, mal vão me notar.
— Realmente?
— Não rolarei em socos com aquela pomba branca a menos que conte que transamos, Brooke. Pretende fazer isso? Pois, por mim, sem problemas.
Eu o fulminei com o olhar, bufando ao voltar a olhar para frente. Não me arrependia do que fizemos, eu não pude me conter no dia. Mas, eu não queria tocar numa ferida que Justin e eu deixamos sarar.
— Se não calar essa boca eu mesma vou te...
— Ei, parados aí, polícia! — a ordem ecoou pelas paredes velhas, fazendo-me arregalar os olhos para trás ao arfar.
— Merda. — resmungou Andrew, puxando meu braço. — Como chegaram aqui?
Eu havia imaginado e guardado aquele momento para Justin, mas agora, era a esse cara que dava a mão enquanto fugíamos. Eu não fazia ideia de para onde estávamos indo, depois de subir aquela escadaria.
E eu deveria ter pensado na hipótese de aquela viatura nunca ter nos perdido de vista. E sim querer nos seguir para o melhor lugar longe de olhos, para nos matar, como faziam com pessoas que não gostavam daqui. Esse era um dos motivos por odiarem a polícia.
Eu estava ofegando como se tivesse corrido uma maratona, e isso era tudo culpa dos degraus. Tive que pedir um tempo quando chegamos lá em cima. Naquela sala enorme e empoeirada, com latões cheios de avisos em alguns cantos.
Copos e outros restos de lixo estavam jogados pelo chão. Se estendiam por boa parte do local, e eu não tive muito tempo para recuperar o fôlego e sentir o cheiro dos resíduos.
O primeiro baque de tirou ecoou por perto. Agora sim estávamos na etapa "fodidos".
— Vamos, Brooke. — mandou Andrew, puxando-me outra vez.
Eu o segui, o mais rápida que pude. E merda, eu só queria saber aonde Justin havia se metido. Talvez ele tivesse armado para mim. Seria capaz?
Eu quase tropecei quando passamos por aquela porta com a maçaneta arrebentada. Era como a outra sala, mas nós tivemos mais tempo nessa. Os gritos para que parássemos e os tiros em nossa direção haviam ficado para trás.
Por pouco tempo.
Mais sirenes puderam ser ouvidas, chegando lá fora. E eu me perguntei quantas viaturas teriam acionado para acabar com a nossa vida julgada miserável.
Talvez estivessem atrás do cara loiro também. Porra, que ótimo.
— Brooke? — Andrew me parou, nos deixando frente a frente. — Vá, eu distraio eles.
— O que? — sussurrei. — Ficou louco? Vão acabar matando você.
— Não dá tempo, eles vão atirar em nós três se continuarmos. — me aproximou. — Por favor, tá legal? Eu sei me virar.
— And...
— Se demorar mais um pouco, nenhum de nós vai sair vivo daqui. — ele me incentivou a ir. — Prometa que se não encontrar aquele otário vai fugir sozinha, okay?
— Okay. — suspirei. — Mas...
— Brooke. — me cortou. — Você tem uma criança esperando por você lá fora, sabe disso, ele precisa que saia viva daqui.
Eu engoli em seco, assentindo quando o puxei para um abraço apertado.
— Obrigada. — sussurrei.
— Eu amo você, lembre-se disso. — beijou minha testa. — Agora vá.
Eu assenti outra vez, absorta ao o que ouvi. E eu o vi dar passos para trás, antes de se virar para ir.
Então, o chamei.
— Andrew, espera! — corri até lá, me demorando a decidir se dizia ou não, a boca estava aberta em silêncio. — Eu também amo você. Lembre-se disso.
Eu sorri, e enquanto via sua expressão confusa, diminui a distância e toquei seu rosto para juntar nossos lábios. Um selinho que durou por longos segundos, e uma retribuição que levou a línguas se acariciando por uma provável última vez. Pois, eu pretendia acabar com esse triângulo amoroso e cliché.
Merda, eu era uma louca.
E Deus não queria isso daqui em meu destino.
— Ei! — o grito nos fez parar.
E aqueles malditos tiros... fizeram com que Andrew agarrasse ainda mais forte minha cintura, arregalando os olhos quando muitos deles acertaram suas costas. E eu pareci sentir sua dor.
— Não! — segurei suas roupas quando ele não reagiu. — Não, por favor...
— Parada aí! — ordenou um dos policiais, se aproximando a passos rápidos.
Eu tive lágrimas, e elas mal tiveram tempo de descer. Meu braço foi puxado para trás, meu corpo também e eu me vi em um corredor escuro com um corpo maior a minha frente, desafiando os policiais com sua arma.
Justin deu dois tiros, apenas isso, e eu não sabia se havia pego em alguém. Ele não me deu a chance de ver, estava me levando mais uma vez, naquele lugar estreito e nós tínhamos dado apenas cinco passos quando um dos tiras pronunciou um aviso para que saíssem dali.
Havia uma porta no fim do corredor, parecia velha e enferrujada. Mas Justin deu chutes e empurrões o suficiente para ela se abrir. E para nossa má sorte o chão a frente estava completamente destruído, dividindo os cômodos. Abaixo de nós, um terreno sujo, repleto de sacolas de lixo jogadas por vizinhos.
Uma explosão enorme do latão inflamável veio lá detrás.
Meus olhos embaçados por lágrimas captaram a cor laranja do fogo que se alastrava rápido por todo perímetro do prédio, queimando tudo que estivesse em seu caminho. Seríamos os próximos. Eu ofeguei, virando meu rosto para Justin no segundo em que ele agarrou minha mão.
Murmurando um "pule".
E me levando junto quando o fez.
"Estas quatro paredes solitárias mudaram a maneira que eu sinto A maneira que eu sinto, estou parado E nada mais importa agora, você não está aqui Então onde você está? Eu estive chamando você Estou sentindo sua falta
Onde mais eu posso ir? Onde mais eu posso ir? Perseguindo você, perseguindo você Memórias viram pó, por favor não nos enterre Estou com você, estou com você
Correndo, correndo, correndo, correndo Correndo, correndo, correndo Não estou mais correndo de mim mesmo Juntos vamos conseguir tudo Eu não estou correndo, correndo, correndo, correndo Correndo, correndo, correndo Não estou mais correndo de mim mesmo Vamos enfrentar todos
Se eu perder a mim mesmo, eu perco tudo..." - Runnin' (Lose It All)
21 Questions
31. 21 Questions
EUA, NY, Brooklyn – The Bronx – 2017, 17h59 PM
Point Of View Justin Bieber
Quatro meses depois...
A adrenalina de toda a fuga até aqui ainda me atingia. Cada veia com sangue corrente, levando as batidas fortes para meu coração. Podia sentir os vestígios de suor seco grudado em minha pele, não me dava o melhor cheiro, eu estava sujo, minhas roupas eram as piores.
Aquela regata de branca estava completamente encardida pela poeira. Meus braços continham arranhões, e o lado da calça surrada que eu usava tinha um belo rasgo, o tecido sujo do sangue de quando cortei a perna naquela maldita cerca.
O barulho das sirenes ecoando em meu ouvido ainda se repetia na minha cabeça, cada uma delas, alta e furiosa enquanto nos perseguiam pelas ruas secas e perdidas no mapa. Talvez eu ainda parecesse um pouco perturbado, olhando para trás a todo segundo, como se alguém fosse surgir para me levar.
Eu preferia que me matassem.
Lembro-me de Raymond, eu não estaria aqui fora se não fosse por ele. E era uma pena que nós tivermos que nos separar numa área daquela interestadual, quando paramos para abastecer o furgão roubado, num posto de gasolina qualquer. Ele disse que entraria em contato, mas que voltaria para suas terras, primeiro. E que seria melhor para nos manter “a salvo”.
Acho que meu coração não estava tão acelerado apenas pelo que passei até aqui.
Duas batidas na porta serviram como um incentivo para todas as emoções que estive tentando amenizar por todo o caminho. Como se elas não tivessem extrapolado no momento em que cruzei a porta do edifício.
Minhas mãos suavam, talvez estivessem um pouco trêmulas.
Não demorou muito para que alguém se aproximasse da porta, o que me fez agradecer mentalmente para que não fosse obrigado a entrar de modo abrupto. Eu engoli em seco quando o som da maçaneta chegou aos meus ouvidos, meus olhos estavam fixos naquela mesma área.
Meu corpo parado e tenso.
Tentei relaxar os ombros, mexendo-os. Tentei formar uma expressão não tão ansiosa. Passei a mão entre o cabelo grande demais, tentando ajeita-lo também e esperei que minhas roupas, como toda minha aparência, não estivesse tão repugnante.
Eu parecia ter me esquecido de como agir. E quando a barreira se abriu a minha frente, voltei a petrificar.
Não era ela.
— O que você...
A boca da garota se abriu, deixando a frase no ar.
Eu pareci desanimado diante de Kelly.
— Brooke tá aí? — não quis soar tão relutante, mas minha voz saiu como um murmúrio muito baixo.
Como se eu tivesse ficado muito tempo sem água.
Kelly balançou a cabeça, afirmando em silêncio, ainda estupefata demais quando me deu espaço para passar.
Havia outra garota naquela sala nostálgica. Tudo parecia como antes, talvez um pouco mais feminino. E meus olhos pararam sobre as duas pessoas no sofá.
O pequeno J parecia esperto, estudando peças coloridas de um brinquedo na sua frente sobre aquele sofá, com a amiga da sua mãe ao lado como uma babá.
Eu não sabia se deveria me aproximar agora.
Michelle arregalou os olhos ao me reconhecer, e ela chegou a abrir a boca para questionar se caso eu não tivesse pedido silêncio com um dedo em frente aos lábios.
Voltei os olhos para o bebê, ele me viu, mas desviou para as coisas coloridas como se eu fosse um mero estranho insignificante.
Talvez fosse.
E isso fazia uma sensação dolorosa descer pelo meu peito.
— Ei, meninas, vocês acham que... ah, meu Deus.
Brooke parou de falar de repente, cortando meu segundo de alívio por ouvi-la, travando os pés onde estava. E então o copo que estava em suas mãos se espalhou em cacos pelo chão.
Toda a sala se encontrou em um silencio mutuo. Eu não cortei o contato visual por nenhum segundo, com medo de perdê-lo outra vez. Ela abriu a boca duas vezes, o som só saiu com sucesso na terceira tentativa.
E ela parecia tão desacreditada quanto eu.
— Ah, meu Deus, Justin... — sussurrou; um sorriso querendo reluzir no seu rosto.
Brooke pulou por sobre os cacos, esquecendo-se deles e de todo o resto para correr para mim.
Eu senti seu abraço bruto e verdadeiro quando pulou em meu colo, envolvendo meu pescoço com seus braços e minha cintura com suas pernas. E produzi uma risada, segurando-a antes que o ar me vacilasse por ficar tão feliz por tê-la por perto outra vez.
Eu inspirei seu perfume, senti sua pele na minha novamente e não havia nada melhor que pudesse imaginar.
— Você voltou. — sussurrou. — Diga que não estou sonhando, por favor. — ela ofegou, apertando-me ainda mais, liberando um baixo soluço.
Eu quase senti que poderia cair quando tive certeza de que havia gotas escorrendo por suas bochechas. Brooke também parecia confusa sobre seus atos, ela encostou nossas testas, sua respiração quente surrando minha boca.
— Eu espero que não. — sussurrei de volta, sorrindo, perdido na porra das emoções.
E então Brooke me beijou, apertando meu rosto para si como se quisesse o máximo. E eu devolvi, como um louco desesperado. Minha língua buscando o caminho conhecido para dentro da sua boca, sentindo seu gosto mais uma vez.
Mais uma maldita vez, e era fodidamente indescritível.
— Porra, eu senti tanto a sua falta, garota. — confessei quando decidimos respirar.
— Eu também. — ela riu, mal podia acreditar no seu sorriso a minha frente. — Deus, eu te amo tanto, tanto...
Fechei os olhos quando me abraçou novamente, recebendo o mesmo gesto. E eu poderia segurá-la por quanto tempo fosse necessário para matar a saudade se meu corpo não estivesse tão fodido.
Nós só diminuímos o aperto depois de longos segundos. Brooke desceu devagar, pondo os pés no chão e eu mal a deixei respirar quando peguei seu rosto em minhas mãos outra vez, pressionando nossos lábios pelo tempo que achei necessário.
Ela segurava minhas mãos, seus olhos brilharam para mim quando os encontrei e um novo sorriso reluziu quando deixou escapar uma lufada de ar. Eu umedeci os lábios enquanto balançava minha cabeça como se não acreditasse.
Parecíamos idiotas, hipnotizados.
— Ei, hm, Brooke? — fomos interrompidos pela garota que não morava aqui. — Ele não quer comer.
E então, nós voltamos à realidade, lembrando-se das outras pessoas ali. A garota a minha frente secou as bochechas rapidamente, assentindo em silencio, e andou para lá, até a criança. E ela recebeu o gesto dos seus braços, quando ele quis vir para seu colo.
Eu engoli em seco mais uma vez, parado em meu lugar. Porque, eu mal sabia o que fazer agora.
Se deveria ir até lá.
E receber o olhar astuto e intrigado de Jackson.
— Quer que fiquemos com ele no quarto? — sugeriu Kelly. — Vocês podem conversar a sós.
Brooke abriu os lábios para responder, mas eu me intrometi.
— Eu posso usar o banheiro? — pedi, e era estranho esperar por uma afirmação, mas era o certo a se fazer.
Eu saí dali quando ela assentiu, me sentindo ainda pior pela confusão irradiando de todos os olhares em volta.
Complicado.
Minhas mãos apertavam a beira da pia do banheiro, enquanto eu apertava os olhos depois do banho, pensando em como sairia daqui e contaria a Brooke que eu não poderia ficar. Isso se caso ela quisesse minha companhia. Gostava de acreditar que sim, para não pensar em suicídio ao sair pela porta.
E eu não tinha mais porra nenhuma.
Só ela...
Deus, eu nunca achei que estaria a ponto de me ajoelhar.
Eu não queria morrer, eu não queria passar todo o resto da minha vida dentro de uma cela. E no momento, havia duas pessoas das quais eu queria ficar por perto, talvez a situação fosse mais amena se eu ainda estivesse sozinho. E daí, todos os flashes com Brooke sobrevoavam minha cabeça.
Olhei para meu reflexo no espelho embaçado a frente, minha pele vermelha pela temperatura da água, um arranhão quase imperceptível na minha bochecha esquerda. Eu tinha meu cabelo comprido outra vez, não a ponto de passar das minhas orelhas, mas poderia ver os fios caindo sobre a testa.
E, porra, eu estava parecendo um gordo fodido.
Talvez tivesse exagerando.
Ainda poderia chamar aquilo de massa muscular, não era para tanto, não havia nada mais que marcas na minha barriga quando me sentasse. Eu poderia aproveitar tudo para parecer mais forte, se caso não fosse pego antes. Ou baleado.
Meus dedos sentiram o muito mais visível rastro de barba pelo meu queixo, rala e uniforme. Poderia gostar dela. Mas não consegui, ao certo. Usaria as coisas de Brooke por aqui se caso não tivesse ouvido as batidas na porta.
— Justin? — chamou.
Eu me ergui atento.
— Estou aqui. — respondi.
— Está tudo bem? — ela estava bem próxima da madeira.
Eu quis ir até lá para abrir a porta e puxá-la para dentro, para baixo da ducha comigo, mais uma vez.
— Está. — suspirei. — Eu já tô saindo. — murmurei.
Não tive uma resposta, mas seus passos se distanciaram daqui.
Um choro ecoava pelo apartamento, angustiante e estridente. Eu segui o som enquanto secava minhas mãos naquela camisa suja que já deveria ter ido parar no lixo se caso eu não precisasse voltar para a rua daqui a pouco.
O som vinha do quarto muito bem reconhecido por mim. As coisas não eram as mesmas, e aquela cama me parecia maior. Eu parei a soleira da porta, vendo a garota de costas chiando para Jackson e seu choro sôfrego.
Ela dizia coisas e me pareceu boa nisso.
— Tá tudo bem, vai passar, ok? — sussurrava, balançando-o. — Não quer a mamadeira? Não vai doer.
Eu não sabia ao certo o que se passava, mas tinha noção de que ele não sabia respondê-la com plena coerência. Os soluços haviam diminuído quando Brooke o ofereceu a garrafinha cheia.
E então eu me intrometi quando vi o garoto virar o rosto, choramingando.
— O que ele tem? — perguntei, arriscando um passo para lá.
Ela me achou, finalmente, e eu não recebi apenas sua atenção. Jackson engoliu o choro, o bico fechado enquanto me analisava. As outras duas garotas não estavam por aqui mais, deveriam ter metido o pé, com medo da minha presença atraindo tiras.
Isso só me deixava apressado para ir. Não que eu quisesse.
— É apenas uma dor de dente. — respondeu Brooke. — Continuam nascendo. E é por isso que ele não quer comer nada.
Ela se sentou a beira da cama com ele em seu colo, suas tentativas de tornar a mamadeira atrativa foram em vão.
Assenti devagar, mesmo que não tivesse sua atenção no momento. Devia esperar por isso.
— Não há nenhum remédio? — perguntei.
— Não vou dar antibióticos a ele, é muito novinho, Justin. — riu óbvia.
E então me senti idiota.
— Claro. — murmurei, balançando a cabeça.
— Você ainda não me contou o que tá fazendo aqui. — tocou no assunto, finalmente.
Seu olhar permaneceu em mim mesmo quando Jackson quis ficar sobre a cama, querendo engatinhar para longe. Os dedos dela o prendiam pela camisa.
Eu observei seu rosto e as marcas de expressão. Algumas ressaltadas por causa de uma noite mal dormida. Brooke merecia algo muito bom do qual eu não poderia dar agora.
— Você parece cansada. — comentei, sentando-me a beira do colchão também, ao seu lado.
Ela encolheu os ombros, com um leve sorriso indiferente.
— Eu estou, um pouco. — disse. — Nada que não possa aguentar.
— Você está bem? — continuei. — As coisas... como estão?
Brooke desviou o olhar, mordendo o lábio.
— Um pouco ruins.
— Ruins? — repeti.
— Acredito que sua história seja mais importante.
Eu gostaria de repreendê-la.
— Ruins quanto, Brooke? — forcei.
— O quanto você acha que seja ruim? — encolheu os ombros, óbvia. — Há um monte... de coisa.
— Os caras não estão...
— Como chegou aqui? — me interrompeu. — Você está horrível, Justin. — reparou, para minha sorte. — E sua perna... o que aconteceu?
Demorei um pouco, desviando o olhar enquanto me decidia. Nesse meio tempo, Jack fez algum barulho atrás de nós. Ele ainda era segurado, e estava irritado por isso, iria começar uma birra logo. Eu encontrei o olhar de Brooke depois, ela me observava, talvez esperando alguma coisa.
Perguntas sobre ele. Ou a vontade de pegá-lo.
Eu preferi deixar minhas mãos perdidas entrelaçadas a frente do corpo.
Jackson me lembrava Carter. E este me lembrava "Ter uma vidinha fútil ao lado dela". Parecia o momento certo.
Respirei fundo.
— Ele precisa escutar? — perguntei um tanto baixo, fazendo um breve aceno.
Ela olhou para lá.
— Não posso deixa-lo sozinho. Não vai sossegar, e a não ser que você queira lidar com um choro enquanto conversamos... — soou óbvia outra vez. — As garotas foram embora.
— Certo. — virei para frente.
— Pode me falar. — dessa vez, Brooke me pareceu relutante. — Você... fugiu?
Eu me lembrei de todo o processo, as cenas vieram como touros brutos me atropelando mentalmente. Isso me lembrava das metáforas de Raymond. Eu esperava que ele estivesse bem. Brooke teria tantas perguntas para mim quanto eu tinha para ela.
Todas as questões eram sobre nós agora.
Pois, eu contei toda a história, e de como eu quase me fodi no caminho. O quanto foi torturante o tempo dentro daquela porra de prisão, e o quanto eu queria sair para matar aquela vadia que armou para nós. E o quanto quis matar Raymond por ele ter confiado nela, aquele velho estúpido com um coração reascendendo depois de tanto tempo abandonado. Ele era fraco para certas coisas.
Como eu.
O julgamento, as palavras do juiz, e as irrelevantes do meu advogado, tudo aquilo me trazia um gosto amargo. Eu tive que ficar quieto, isso não era para mim, mas estive em desvantagem. E no fim da audiência, eu estava sendo levado para um presidio distante da verdadeira civilização, quase como num maldito deserto. O mais longe possível de Brooke. Meu peito parecia se rasgar só por lembrar, e eu tinha vontade de abraça-la agora outra vez, apenas para me iludir achando que nunca mais se afastaria.
Quando nós conseguimos roubar o furgão, e ficamos a meados de escapar, eu pareci mais ansioso que uma criança esperando seu presente de natal idiota. Mas devia me lembrar das viaturas atrás de nós, as trocas de tiros que tivemos. Dois dos amigos feitos dentro do presidio, mortos a nossa frente. Foi um puta egoísmo atravessar todos aqueles quilômetros apenas com um dos caras, eu não sabia dos outros, também não liguei para nenhum deles.
E então nós nos separamos no posto de gasolina, depois de despistar aqueles filhos da puta. Foi o último ponto para que eu decidisse se queria vir atrás de Brooke ou sumir do mapa por mais tempo, talvez para sempre, para não arriscá-la.
Mas eu ainda era o mesmo ignorante, e olhe onde estava depois de dúzia de caronas pela estrada.
— Então vocês... arrumaram cúmplices, criaram uma rebelião, renderam polícias e roubaram suas identificações para escapar? — ela quis garantir. — Bem, ual, isso é...
— Impressionante? — zombei.
— Impressionante. — repetiu. — Parece um roteiro de filme.
Brooke ainda conseguia amenizar a situação com uma pequena risada descontraída. Eu sorri de canto.
— Yeah. — afirmei. — Nós tivemos que repassar por meses.
— E Raymond? — pediu. — Para onde ele foi?
— Ele preferiu não atrair mais problemas para cá. — dei de ombros. — Disse que iria voltar para o Texas e recuperar suas coisas.
Ela ficou em silêncio, digerindo as palavras. E foi o que tive medo. Ainda estava esperando pelo momento em que Brooke fosse se ligar. Se levantar e me dizer que eu estava atraindo problemas maiores.
Encontrei seu olhar receoso um minuto depois, ela abriu os lábios, demorando a falar.
— Eles vão acabar batendo aqui. — disse. — O que vai fazer?
Eu respirei fundo, inclinando-me para frente. Brooke tocou minha perna, afagando-a quando apertei os olhos diante dos punhos à frente do rosto.
— Eu não sei. — minha voz soou abafada.
Pude ouvi-la puxar o ar para falar, mas sua atenção mudou de mim para o garoto imperativo novamente. Brooke o trouxe para perto de nós, pôs em seu colo, ignorando sua frase em uma língua que obviamente eu não entenderia.
Fitei os dois de esguelha, ainda não tinha me movido.
— Não é por mim, você sabe que...
— Eu entendo, Brooke. — voltei para trás, interrompendo-a. E observei os olhos infantis agora em mim. — Não vou ficar.
— O que? — houve um breve silencio. — Vai ir embora?
— Eu... — minha boca se demorou aberta quando balancei a cabeça. — Talvez. Eu não sei, mas não posso ficar.
— Achei que...
— Eu só não aguentaria passar todo aquele tempo lá dentro. — suas sobrancelhas se uniram para mim em um pedido. — Eu acabaria me matando, posso me virar aqui fora.
— Mas, e quanto a nós? — exigiu. — O que eu... o que eu faço? — sussurrou.
Era como um soco no rosto, muito doloroso. Eu nem sequer sabia o que dizer para conforta-la, e a ideia de ir embora outra vez me parecia absurda. Ao mesmo tempo necessária.
— Faça o que estava fazendo antes. — murmurei.
Eu olhei de volta para Jackson e seus olhos curiosos, com toda a paz e inocência do mundo. Sua pele clara parecia mais macia que qualquer coisa, os vestígios das últimas lágrimas ainda estavam ali. E então, eu me arrisquei.
Esticando minha mão devagar para tocar seu rosto, meu polegar limpando o caminho ainda um tanto úmido do choro. E eu quis acariciar sua cabeça, e me aproximar mais, como num pedido de desculpas.
Mas ele recuou para sua mãe, desconfiado, ameaçando algum pedido contra mim.
Afastei minha mão tão rápido quanto engoli em seco, desviando o olhar para longe.
— Eu só precisava ver vocês. — voltei a falar, com um ar sôfrego no nosso meio. — E te tocar mais uma vez... merda, Brooke, eu só queria poder acabar com isso. Deveria ter te escutado.
Meus braços se apoiaram nas pernas e minhas mãos esconderam meu rosto novamente enquanto eu bufava com raiva. Brooke se aproximou de mim, bem devagar, tocando meu ombro, deixando um beijo ali.
Me perguntei se havia alguma chance de sermos perdoados por todo o mal que causamos. Pelo menos... pela criança, ela não merecia.
Acho que era hora de ir.
— Você não precisa ir. — sussurrou Brooke abaixo da minha orelha. — Pode passar a noite aqui.
Como se tudo aquilo fosse facilitar para mim.
— Não posso, B.
— Pode sim. Eles não vão te encontrar justo hoje. — ela beijou meu ombro mais uma vez. — Por favor.
E eu me derreti como um maldito pedaço de gelo embaixo do sol.
Assentindo relutantemente três segundos depois.
{...}
Eu olhei pela janela do quarto antes de resolver relaxar internamente. Estava tudo silencioso, apenas alguns carros trafegavam e uma sirene da policia soava ao longe, não me deixando em paz. Me forcei a acreditar que não fosse para mim, não haveria como, nenhum deles havia me visto sequer atravessar a ponte do Brooklyn.
Mas eu tinha um maldito histórico. Dentro de uma semana, esse lugar não me serviria mais como um esconderijo.
Brooke só chegou ao quarto minutos depois, acredito que passou mais de meia hora no outro, tentando por Jackson para dormir. Ela bocejou, vindo para perto da cama onde eu estava sentado. E mostrou um leve sorriso para mim.
— Ele dormiu? — perguntei.
— Yeah, finalmente. — encolheu os ombros, e então eu a vi puxar a blusa sobre a cabeça.
Ficando apenas com um sutiã enquanto ia até a cômoda buscar por uma camiseta mais leve. Engoli em seco, desviando o olhar quando ela desabotoou a única peça, tirando-a também. Quase poderia xingá-la agora.
— Ele brincou por toda a manhã. — Brooke parecia orgulhosa quando me informou, ainda de costas, pondo sua roupa.
— Você deveria dormir um pouco. — sugeri, notando seus olhos cansados quando se virou para mim.
— É o que vou tentar. — respondeu, vindo para cima do colchão. — Mas eu queria ficar com você.
Eu sorri de canto, balançando a cabeça. E então me arrastei para cima, puxando seu braço para que se deitasse ao meu lado. Pareceu bom demais estar ali com ela, e eu fiquei com medo de fechar os olhos para dormir e acordar naquele cubículo com paredes cinza e gastas da cadeia. Como em mais um dos sonhos que tive por todo o ano.
Acariciei seu rosto, tirando um espiral do cabelo castanho, encarando seus olhos.
— Nunca achei que fosse querer passar toda a merda da noite te ouvindo falar. — murmurei, rindo pelo nariz.
— O que quer dizer? — estreitou as sobrancelhas confusas.
Respirei fundo, e olhei para onde minha mão deslizava, sobre sua cintura.
— Nós perdemos tudo agora, uh? — lembrei, esperando uma resposta para tudo aquilo.
A voz de Brooke soou baixa e indiferente.
— Ainda tenho você. — tocou meu peito, redesenhou minhas tatuagens com seus dedos. — E nós temos o Jack.
Eu gostaria de ver o lado bom da coisa na maioria do tempo, como ela tinha facilidade em fazer. Pecados me definiam, não havia porque acreditar em remição.
— Tirando o fato que ele não gosta de mim, você tem razão. — murmurei; meu olhar fixo e perdido em outro ponto.
— Não diga isso. — pediu quase em um sussurro incrédulo. — Ele só não... te conhece muito bem.
— Errado. — eu tentei rir quando fitei o teto. — Ele mal sabe quem eu sou.
— Não é nossa culpa. — defendeu, soando abafada quando se aconchegou.
— Você errou de novo, B. — murmurei.
Toda a porra da culpa era nossa. E eu a engravidei. E eu fui ambicioso o suficiente para estragar minha família antes mesmo de começa-la.
Brooke se apoiou no antebraço, me fitando de cima.
— Ainda pode mudar isso, você sabe que sim.
— Não, eu não posso. — interrompi óbvio, forçando outra breve risada. — Eu sou um foragido, Brooke.
Ela demorou a responder, estava refletindo.
— Não vai nem tentar? — insistiu. — Justin, ele é seu filho também. — balançou a cabeça e, suspirando pesadamente, voltou para o colchão, olhando para a mesma direção acima de nossas cabeças. — Droga.
— Ei? — virei meu pescoço. — Eu sinto muito.
— Não quero... — desviou. — Esqueça.
— Brooke, eu não disse que não quero. Porra, não complique. — bufei.
— Tudo bem.
Eu empurrei a inconformação para o fundo, evitando chama-la de louca e exigir que porra estivesse achando que tinha acontecido.
Se achava que eu tinha sido redimido e estivesse aqui numa boa.
— Você sabe que eu mudaria isso se pudesse. — resmunguei, de qualquer jeito.
— Mas não pode, eu entendo. — jogou, contrariada.
Empurrei de novo.
— Me responda uma coisa. — comecei. — Sobre a situação aqui, você disse que estavam ruins.
— São as contas, ok? — confessou. — Há muitas, e o dinheiro não compensa. Eu estou naquela droga de emprego na lanchonete, e... tenho sorte por Brandon estar me ajudando.
Eu digeri a situação, e depois de um longo minuto, me virei preguiçosamente. Esperando que ela me encarasse. Mas Brooke levou uma mão ao rosto, limpando a região abaixo dos olhos quando decidiu não me encarar.
Estreitei as sobrancelhas. Ela tinha lágrimas licenciosas rolando, com todo seu orgulho querendo ser levado.
— B... — inclinei-me, beijando seu ombro. — Não quero que chore, por favor. Não faça isso mais difícil.
— Eu estou bem. — insistiu.
E eu trouxe seu rosto para mim, querendo apagar o sentimento ruim e tornar o pouco tempo aqui agradável através daquele beijo. Pressionando nossos lábios por um longo tempo, sugando-o, ficando quente por dentro ao me lembrar demais do quanto era bom passar daquilo.
Respirei contra sua boca, apertando meus olhos.
Poderia enchê-la de perguntas.
Se me amaria mesmo que eu passasse todos aqueles anos dentro da prisão.
Se estaria lá para mim.
Se ficaria comigo mesmo quando eu começasse de baixo outra vez.
Se eu tivesse que matar mais alguém e me machucar por isso, se iria me odiar ou me fazer curativos.
— Eu vou fazer o possível, tudo bem? Só me de... um tempo. — pedi.
Brooke soltou o ar, as sobrancelhas unidas em angústia.
— Não sei o que fazer mais sobre isso, J. — disse. — É insuportável.
— Tente aproveitar, ainda estou aqui. — eu me ajeitei sobre seu corpo, tocando suas curvas. — Estamos aqui, e ninguém além daquelas garotas sabe... — toquei seu rosto. — Temos uma cama e todo um tempo para nós dois.
Ela não me contrariou quando me abaixei para beijar sua boca, e descer para seu maxilar, seguindo a linha do seu pescoço. Seu cheiro era como uma droga entorpecente, eu cheguei a me controlar para não acabar ali quando suas mãos acariciaram meu abdômen, tocando a barra da minha calça.
— Vamos acabar acordando...
Chiei.
— Não, não vamos. — neguei. — Eu só quero te sentir outra vez... — meus beijos seguiram para seu colo, o decote da sua blusa antes que subisse outra vez e tocasse sua orelha. — E fazer amor com você, Brooke.
— Deus... — sussurrou ela, absorta talvez.
Eu estava também.
Esqueceríamos de todo o resto, teríamos um bom momento de paz.
Mas então, batidas fortes soaram da porta da frente, nos assustando. Me deixando paralisado diante dos olhos arregalados de Brooke.
Eu mal pude decifrar a voz quando pulei da cama, ajeitando minha calça enquanto ia à frente. Não tinha uma arma sequer aqui comigo. Meu peito estava livre para balas se fosse o caso. Meu coração descompassado. E assim que cheguei à sala, meus olhos se estreitaram.
Destrancando, puxei a porta para trás, por um pouco não sendo atropelado por Brandon quando este passou para dentro do apartamento, ofegante e abrupto.
— Brooke? — chamou ele, falho.
Acho que nem sequer me reconheceu.
Sua irmã estava chegando à sala em seguida, ficando estupefata com a cena e todo o sangue que escapava da camisa de Brandon, abaixo de sua mão. Eu também pareci perdido, e notei o momento em que ele deixou Brooke para olhar para mim.
— Justin? — perguntou. — Que porra você tá fazendo aqui, mano?
— Acho que você tá sangrando um pouco. — apontei, erguendo as sobrancelhas antes de decidir fechar a porta e trancá-la outra vez.
— Droga. — se lembrou. — Você pode me ajudar com isso, Brooke?
— Mas o que aconteceu com você? — exigiu ela.
— Foi só uma facada, eu estou bem. — cambaleou para o sofá, caindo no estofado. — Merda, você tem quite de primeiros socorros aí?
— Quem fez isso? — Brooke exigiu outra vez.
— Daniel. — resmungou ele, fazendo uma careta depois, pelo ferimento.
Eu conhecia aquele nome, não era muito difícil diferenciar do outro. E meus músculos ficaram tensos ao me lembrar.
— Irmão do Davis? — perguntei.
De todas as questões, era aquela que não deveria ter me esquecido de perguntar a Brooke.
— Achei que ele estivesse preso. — murmurou ela, baixa.
Com medo.
Eu estava por fora de muita coisa.
— Ele fez o mesmo que Justin. Fugiu, querendo vingança por aquele filho da puta. — Brandon soou óbvio. — E agora é você quem está na mira dele, Brooke.
“(...) Você me deixa louco mina
Eu preciso te ver e senti-la perto de mim
Eu darei tudo que você precisa
Eu gosto do seu sorriso e eu não quero ver você chorar
Tem algumas perguntas que tenho que fazer
E espero que você venha com as respostas mina (...)
Garota... é fácil me amar agora
Você me amaria se eu não tivesse dinheiro nem fama?
Se eu caísse amanhã você ainda me amaria?(...)
Se eu fosse preso e sentenciado a 25 anos de prisão,
Eu poderia contar com você pra estar lá e me apoiar mentalmente?
Se eu voltasse a andar de Boggy ao invés de Mercedez Benz você desapareceria como alguns amigos meus?
Se eu fosse ferido e estivesse machucado você estaria do meu lado?
Se eu tivesse que matar você estaria comigo?
Eu sairia por aí, mataria um negão e sairia de carro
Estou perguntando pra saber como você se sente por dentro (...)
E na cama, se usasse a minha língua, você gostaria?
Se eu lhe escrevesse una carta de amor, você escreveria de volta?
Agora podemos tomar um drinque, só para bater o sono
E nós podemos fazer o que você gosta, eu sei o que você gosta (...)
Você acredita quando eu digo que você é a única que eu amo?
Você está chateado por eu estar lhe fazendo 21 perguntas?
Você é minha alma gêmea? Se for, você é uma bênção
Você acredita em mim o suficiente para me contar os seus sonhos?(...)
Se eu estiver triste, você dirá coisas pra me fazer sorrir?
Eu trato você como você gostaria de ser tratada, ou me ensine como
Se eu estivesse com outra garota e alguém visse?
E quando você me perguntasse eu dissesse que não era eu
Você acreditaria em mim? Ou me deixaria?
Quão fundo é o nosso laço se aquilo foi suficiente pra você ir embora?
E lembre-se garota nós cometemos erros, para concertá-los eu farei o que for preciso
Eu te amo como um garoto gordo ama torta
Você conhece meu estilo, eu digo qualquer coisa para lhe fazer sorrir (...)
Você faria amor comigo dentro do meu Bentley?
Você faria amor comigo dentro de um ônibus?
Eu quero te fazer 21 perguntas, e elas são todas sobre nós...” — 21 Questions
Flatline
30. Flatline
EUA, California, LA — Beverly Hills — 2015, 10h55 AM
Point Of View Brooke Patterson
Eu suspirei pesadamente, eles haviam me dado um tempo de privacidade com o bebê. O pequeno formato enrolado em roupas quentes estava no meu colo, produzindo baixos grunhidos.
Olhei para cima brevemente, a enfermeira estava de costas, mexendo em algumas coisas. Eu tinha dispensado sua ajuda de um modo gentil, sobre amamentação. Porém, tinha perguntado sobre milhões de outras coisas.
Tudo bem, não podia ser tão estranho.
Eu afastei a roupa, sussurrando algo incentivador para que Jack achasse o lugar certo. E sorri satisfeita quando ele o fez, quase ansioso. Sim, era estanho.
Bonito de qualquer jeito.
Poderia dizer a ele que trazê-lo ao mundo foi uma tarefa bem dolorosa, e que seu pai tinha me surpreendido por ficar. Mas era cedo demais para encher seus pequenos ouvidos com coisas complicadas sobre sua família.
Meus olhos estavam pesados, eu dormiria logo depois de terminar isso daqui. Não esperaria para ver algum parente. E Justin havia sumido por mais de vinte minutos, me deixando curiosa demais.
Por outro lado, eu acho que nunca estive mais feliz. Eu queria vê-lo e pedir para que sentasse ao meu lado enquanto preenchíamos o questionário sobre nome e todo o resto. E queria ainda mais que Justin tentasse segurar o bebê. Ele precisaria de um primeiro contato, eu tentaria providenciar isso para o primeiro dia.
Alisei o rosto de Jack. A pele não estava tão vermelha quanto antes, ele era tão pálido quanto o pai. Seus olhos abertos e vibrantes, ainda acinzentados, pareciam espertos para o pouco tempo em que conheceram o novo cenário a sua volta. E quando rocei os dedos por seu cabelo fino e escuro, ele finalmente encontrou os meus olhos, parando por tempo demais ali.
Eu sorri outra vez.
Ele era tão perfeito que mal podia acreditar que nós mesmos tínhamos feito.
Queria a outra pontinha do triângulo bem aqui.
Mas eu esperei por muito tempo...
E ele não apareceu.
***
Foi como flashes em pequenos momentos ruins da vida...
Havia um grande problema do qual eles não queriam me contar. Aliás, eu estava tentando entender o porquê de não voltarmos para casa no dia seguinte para que eu pudesse por Jackson em seu berço decorado com tanto carinho por dias. E mostrar seus brinquedos, cobri-lo com sua manta e me sentir uma mãe coruja.
Oh, e furar o olho do seu pai com uma chupeta.
— Aonde aquele desgraçado se meteu? — exigi em sussurro, por estar ninando uma criança nos braços depois de finalmente fazê-la parar de chorar.
Tínhamos saído do hospital até que rápido demais. Meu irmão, Lucy, minhas amigas e os outros dois caras pareciam inquietos e aquilo estava me irritando. Toda a felicidade que me enchi por um dia e meio estava mudando para algo nublado, eu podia sentir. As garotas estavam apressadas para irem embora, me pediram perdão por algo que nem mesmo entendi.
Kelly babou pelo bebê até o meio do caminho. Eu sabia que tinha alguma coisa de errado quando vim parar no Compton. Eu não conhecia essas pessoas completamente, não fazia ideia de quem era Hakeem e como Justin o conheceu. De algum jeito eles souberam primeiro que eu.
Os médicos também.
Lucy estava chorando quando conseguiu interagir com o neto, minutos antes de dizer que precisava buscar suas coisas. Brandon a levou, disse que estava tudo bem eu ficar aqui.
Kelly e Michelle saíram com Twist e Khalil para o aeroporto atrás de passagens, e eu entrei para esse apartamento onde uma mulher grávida de exatos sete meses não se importou em me dar um espaço. Eu tentei parecer calma, nada desesperada. Não sabia o que fazer, estava tremula e mal podia andar longas distancias.
E ninguém queria me explicar que droga nós estávamos fazendo no gueto, com desconhecidos.
— Hakeem não contou? — perguntou Alisha.
Havia um bebê em seu colo, ele não parecia ter mais que um ano de idade.
Eu subi os olhos um tanto assustados de volta para ela.
— Ninguém falou. — respondi. — Isso tem haver com a... polícia? — pedi.
Ela respirou fundo, e então apontou para a cama.
— Acho melhor se sentar. — quase a repreendi. — Pode deixar o bebê ali, ele ainda não sabe rolar para o chão. — brincou.
Eu suspirei, assentindo, e fazendo o que me pediu.
Sempre atenta a todos os lados.
Eles me pareciam boas pessoas.
— Seu irmão disse que vai voltar o mais rápido possível. — informou. — Acho que sua... hm, mãe? Bem, ela não queria pegar o voo.
— Por... — eu me ergui ainda mais confusa. — E Justin?
Brandon havia me deixado em frente ao conjunto de miniapartamentos como uma criança estúpida que não precisasse de informações. Eu mal podia acreditar onde estava um dia depois de ter tido um parto. As únicas coisas que tinham comigo era uma bolsa de bebê e uma nova roupa da qual peguei emprestada.
Consegui raciocinar.
Estavam todos fugindo.
Eu estava sendo escondida.
— O que houve com... — soluços baixos vieram da esquerda, e tive que virar o rosto para ver Jackson se contorcendo em um choro por ter acordado.
Tive que pegá-lo de volta.
Novos passos entraram aqui, depois de abrirem a porta. O cara negro e bonito tinha tatuagens espalhadas até seu pescoço, e ele parecia o único que concordava com sua mulher em permanecer calmo nessa situação.
— E aí. — cumprimentou. — Está tudo bem por aqui, certo?
— Cadê aquele idiota? — exigi, enrugando o cenho.
Hakeem trocou um olhar com sua esposa, ou namorada, tanto faz. Ela era mãe de seus dois filhos, pois um ainda estava para vir.
— Vou preparar algo para você, não é bom manter todo esse estresse. — disse Alisha, afastando-se para a cozinha.
— Ei, baby, você pode...
— Onde ele está? — repeti, interrompendo Hakeem e seu pedido. — Porque não voltou para o hospital? E porque não fomos para...
— A polícia o levou. — disse por fim, encolhendo os ombros em maneira derrotada.
E eu empalideci.
Como se já não estivesse impossibilitada demais. Minhas sobrancelhas foram se suavizando enquanto engolia a informação, ficando estática, sentindo o frio bater em minha barriga.
Eu acho que fiquei tremula demais, e isso me fez observar o bebê em seu quase sono doce outra vez. Eu quase o pedi perdão antes da hora, mesmo que ainda estivesse perdida ao voltar a olhar para as duas pessoas a minha frente.
— Eu recebi uma ligação. Achei que poderia dar uma mão trazendo você para cá, e Raymond concordou. Ele está tentando ajudar seu cara agora.
— Conhece o Ray... — eu parei, lembrando-me da distribuição de drogas. — Merda.
Dei alguns passos, balançando Jackson enquanto tentava pensar. Enquanto tentava me manter sã para ele.
Alisha olhou para cá brevemente, em silencio.
— Sei que deve estar nervosa. — continuou Hakeem. — Mas vai ficar tudo bem, está segura aqui.
— E quanto a ele? — soltei a respiração. — Vai ganhar uma pena? Quem o denunciou?
— Alguma vadia traidora. — ele balançou a cabeça. — Bizzle me deve duas, gata, lembre ele disso na próxima.
E eu não sabia quando seria a próxima.
Eu não tinha nada.
Nada além de um pequeno ser do qual deveria dar toda minha atenção.
Pois, até mesmo meu pai chegou a parar atrás das grades.
Era como se eu fosse uma telespectadora culpada, assistindo em frente à TV enquanto todos meus cumplices eram levados. E não havia nada mais que eu quisesse fazer agora ao invés de estar recuperada o suficiente para ir atrás daquela puta traidora, eu sabia que Jean não amava Raymond de modo algum. E sabia que ele tinha enrolado tempo demais para acabar com ela.
Tive pena.
Raymond era uma boa pessoa, talvez tivesse se apegado. O amor sempre fode com as pessoas. Eu teria que voltar para casa, mal podia por os pés na delegacia antes que a poeira abaixasse, do contrario seria presa como mais uma assassina e ladra. Chalard tinha uma grande influencia.
Ele chegou a TV, aos jornais, como um milionário dono de grandes imóveis comerciais. Aquele filho da puta nem sequer foi acusado como nada mais que um suspeito por envolvimento com coisas fora da lei.
Tinham exposto todos os crimes. Raymond, sem querer, não ajudou dessa vez.
Ele tinha muitos fatores para piorar a situação. E Justin pagou por eles também, eu o vi admitir em frente à juris, advogados e testemunhas que tinha sido culpado pela morte do cara. E quanto às fichas sujas criminais, elas estreitaram a saída dos dois, Justin tinha uma. Raymond havia juntado quase sete delas. Todas carregavam informações sobre homicídio. Assaltos.
Brandon andou me contando, ele chegou ir até lá. Eu mal conseguia dormir. E ter que agir como uma mãe estava tirando toda minha energia. Olhar para o bebê fazia meu estomago afundar, sua vida mal havia começado e já tinha sido destruída por nós. As chances de que eu fosse tirada de perto dele também eram grandes. Eu não suportaria.
E agora seu pai estava preso.
Pensar nos anos me causava um tipo de depressão. Tentei não chorar como uma fracassada, mas acontecia quando estava sozinha. Tive que escolher um lado. O responsável parecia o mais certo.
Era tempo demais.
Era uma tortura da qual tive que resistir.
— Você já deveria estar dormindo, não acha? — sussurrei deitada bem ao lado do pequeno corpo de bruços com olhos transparecendo nem um pingo de sono.
Diferente de mim.
Mudar para o Brooklyn de volta não garantiu toda a paz. Não mesmo. Havia as antigas contas, as novas, a pouca grana. E eu não sabia nem como agradecer tendo os caras tirando parte das suas economias para me ajudar. Mesmo que viessem do lado sujo. Era o que tinha para comprar ao menos o leite.
Tive que esquecer o que montei para o bebê em LA e me conformar com o que consegui aqui. Além de lidar com fofocas por aí.
“Vagabunda.”
Nunca pareceu tão ruim quanto agora. Eu estava conhecendo o lado da vida que minha mãe levou. Estava quase tendo que me juntar aos traficantes da rua novamente, para conseguir coisas. Não dependeria de Lucy, e odiava ter que depender de caridade também.
Brandon me entregou o apartamento, ele morava com Khalil e Twist na antiga casa dos Sharieff agora. Também vinha aqui frequentemente saber de mim, e paparicar o sobrinho como se fosse o próximo Bizzle marrento. Era engraçado, fazia parte das poucas coisas que me faziam rir ao dia.
Quando não me lembrava dele demais e voltava a morrer por dentro.
Jackson sorriu para mim, achando graça de alguma coisa que não sabia, mas que me fez retribuir o gesto. As maçãs do seu rosto, seus olhos... eram nostálgicas. E eu quase vacilei.
Segurei uma das suas mãozinhas fechadas em punho, brincando com seus dedos.
— O dia não saiu como eu esperava. — disse a ele. — Você sabe que a mamãe queria te dar um presente legal, não sabe? — não era como se eu realmente recebesse sua atenção, no momento ele se preocupava em treinar seus movimentos, levantando a cabeça.
Iria sair do lugar e engatinhar sobre o colchão se caso eu não o tivesse segurado.
— Ei... — ri, puxando-o para mim. — É hora de dormir, okay?
Ignorei seu balbucio, eu não o entendia de qualquer jeito.
Era angustiante saber que não poderia fazer nada para ele, pois, a situação financeira estava uma droga. E meu emprego era uma droga. Ainda poderia me aliviar por faltar alguns meses, e a única coisa que conseguiria comprar seriam às passagens, e eu ainda tinha um pé atrás com isso. Mas Lucy me convenceu sobre questões de paternidade.
— Brooke? — olhei para a porta ao escutar a voz do meu irmão. — Eu estou indo, tudo bem?
— Ah, sim. — concordei. — Só... esse pedaço de gente que não consegue dormir.
— Ei, garotão. — Brandon se aproximou daqui com um sorriso. — Deixe sua mãe dormir, vai precisar dela amanhã. — ele me encarou. — Quer que eu cuide disso?
Eu demorei, mas assenti devagar.
— Obrigada. — peguei Jackson para meu colo. — Você pode me chamar se caso ele começar a chorar e...
— Relaxa, Brooke, sou bom com crianças imperativas. — estreitei as sobrancelhas, confusa. — Se não se lembra, sou seu irmão mais velho.
Rolei os olhos.
— Ok, ok, obrigada de novo. — o entreguei. — Não o encha sobre sua rotina, Brandon.
— Pode deixar. — sorriu. — Aí, quer saber quantas gatinhas seu tio pegou hoje? Você precisa começar a aprender com o melhor, cara.
Ri pelo nariz, antes que eles saíssem para o outro quarto, o infantil, decorado da melhor forma possível com brinquedos e outras coisas das quais pude comprar. Na verdade, esse apartamento nunca me pareceu mais bonito.
Cheio de lembranças. Até mesmo as ruins me pareciam boas. Queria ouvir sua voz.
Queria... muita coisa.
***
California, Presidio of EUA — 2016, 14h30 PM
Point Of View Justin Bieber
Um ano depois...
Eu estava esperando o momento certo em que a porta fosse aberta para familiares ao invés de mais policiais que fossem ficar na nossa cola, de olho em cada movimento e palavras que fossemos trocar com as visitas.
Meu coração estava um tanto acelerado.
Minhas mãos geladas.
Tive que me inclinar para frente naquela cadeira, cobrindo meu rosto enquanto inspirava profundamente, tentando expulsar a tensão através do ar.
Nós vestíamos os uniformes chamativos do presidio, disseram que ao menos podíamos nos trocar numa forma de tentar parecer apresentável. Não se ouvia muitas vozes em voltas, todos estavam tão ansiosos, nervosos, preocupando-se com sua própria imagem, como eu.
Todos os malditos pais e parceiros, como eu.
Podia imaginar o processo demorado lá fora, e era horrível só de pensar que estariam revistando uma criança, um bebê dependente de fraudas, para garantir que não estivesse trazendo drogas escondidas para mim. E que sua primeira lembrança do lugar onde me reconheceria fossem muros cinza, telas altas com fios de alta tensão e placas de avisos.
Até mesmo, provavelmente, colocariam um cachorro enorme por perto para que o cheirasse.
E sua mãe ao lado deveria estar me odiando. Sentindo repulsa por tudo aquilo enquanto assistia. Culpando-me mais do que eu me sentia. Talvez ela nem estivesse por aqui, teria o poupado dessa humilhação, seguindo com uma festa de aniversario descente lá fora ao invés de uma visita tosca dentro de uma cadeia.
Meus olhos subiram quando captei o som da maçaneta. Uma nova policial havia entrado, ela tinha as chaves.
Um número de três crianças negras em tamanho crescente passou por ali, seus olhos seguindo os cantos da sala grande e sem cor. Aquilo me fez se lembrar do quarto colorido demais que Brooke se empenhou tanto em criar para a chegada do bebê. Ela nem sequer conseguiu apresenta-lo, deveriam estar vivendo na mesma porcaria precária em que nós dois crescemos.
Outras crianças entraram com suas mães, todas elas relutantes em se aproximar. Eu me remexi inquieto na cadeira, respirando fundo, impaciente. Todas aquelas mulheres pareciam desleixadas demais, não impressionariam seus maridos a não ser que estivessem tão loucos para vê-la. Eu queria me orgulhar, eu lutei para isso.
Não conseguia ser menos estúpido nem mesmo por trás dessa janela.
Eu, provavelmente, seria o único com um lugar vazio a frente.
No entanto, mais uma família entrou. E logo atrás daquele trio atingido pela vergonha do lugar, eu pude ver a minha garota.
Maravilhosa como, porra, ela esteve em toda sua vida.
Seus olhos me encontraram, me fazendo mandar a pose relaxada sobre a cadeira para longe. Meu filho estava em seu colo, e ele não parecia o mesmo do hospital.
Os sapatos dela foram os únicos que fizeram um baque sobre piso, e eu sei que aquele policial branco e fodido parado na portaria, com um óculos na cara, olhou para sua bunda enquanto ela andava até aqui naquele jeans.
Eu engoli em seco, umedecendo os lábios, entrelaçando as mãos sobre o apoio para esconder um possível suor que se formava nelas.
Brooke estava se sentando do outro lado, através do vidro, e eu não sabia se estava tão aliviado por vê-la ou estático por analisar toda sua imagem. Ela nunca me deixaria em paz completamente, e eu teria sonhos pervertidos naquele colchão fino à noite. Ficaria ainda mais nervoso para sair daqui.
E agora, também estava analisando atentamente a criança no seu colo.
Eu tinha certeza de que ele parecia mais comigo quando estava chorando, deixando sua pele irritada naquele dia. Agora, ela estava dois tons mais dourada. Como a de um latino. O cabelo criava poucas ondas, todas elas pareciam ter clareado ao longo de todo o ano. Mas eu pude ver os meus próprios olhos ao observar seu rosto, assim como sua boca. E ainda sim, havia vestígios de Brooke ali.
Eu balancei a cabeça bem devagar, rindo pelo nariz, talvez desacreditado. Eu tinha feito uma coisa bonita pra caralho, e tive que erguer o olhar para sua mãe, sorrindo levemente em orgulho. Ou felicidade.
Brooke tinha suas sobrancelhas visivelmente unidas em uma expressão angustiada, talvez. Ela forçou um leve sorriso para baixo, tocando a mão do bebê antes de pegar o telefone para que eu ouvisse sua voz.
— Diga oi para o papai, Jack. — pediu, olhando para o garoto como se ele realmente soubesse pronunciar palavras concretas.
E a única coisa que recebi foi seu olhar fixo, como se me estudasse. Eu parecia vacilante, sem saber o que dizer, um sorriso tentou se formar em meu rosto outra vez, mas eu ainda estava perdido.
Não sabia ao certo o que passar, no fundo sentia vontade de pedir perdão por não ter estado lá para as primeiras coisas, e por não poder estar por um bom tempo à frente. Mas, não era minha culpa, não foi minha escolha largar minha mulher sozinha com um filho recém-nascido, para vir parar atrás das grades por causa de dinheiro.
Achei que finalmente estaríamos estabilizados, numa casa que preste, com condições financeiras aprováveis. Pensei em manter minha família pela primeira vez.
— Me desculpe, Brooke... — sussurrei para o telefone que também segurava, franzindo minhas sobrancelhas em um pedido.
E ela desviou, como se não suportasse. Respirando fundo antes de falar.
— Eu sinto sua falta. — confessou.
Dando-me um golpe com uma faca bem amolada.
— Também sinto a sua. — respondi, soltando a respiração. — Isso é uma merda de tortura, B.
— Quero que volte para casa. — ela continuou. — Quero que fique comigo, Justin, eu não... não queria ter que fazer isso sozinha. — jurei que tinha algo mais brilhante em seus olhos agora.
Ela não poderia chorar na minha frente, eu a proibiria, porque, doeria muito mais em mim.
E eu não poderia fazer nada a não ser tocar a vidraça, sentindo raiva e dor por não poder ultrapassar, apenas tendo a forma da sua mão através da barreira. Engoli em seco.
— Eu faria qualquer coisa para te abraçar agora, garota. — respirei fundo, formando um punho ao fechar meus dedos. — Eu estou ficando louco aqui, Brooke.
Desci o olhar, para Jackson novamente. Ele estava enorme, realmente.
Que merda eu tinha feito por causa do meu egoísmo?
— Eu amo você. — Brooke me garantiu. — Não se esqueça, tudo bem?
Eu gostaria de pedir para que ela parasse, não estava facilitando. Mas metade de mim estava feliz por ouvir, pedindo por mais. Poderia quebrar aquela porra de vidro, eu continuaria aqui de qualquer jeito.
Mas não precisaria dar de presente ao meu filho a cena de policiais batendo em seu pai como se fosse um animal.
Mantendo meus lábios abertos, busquei pelas palavras certas. Devia fazer, preferia morrer a desistir de tal coisa. Brooke tirou os olhos de mim, apertando a criança que nesse momento parecia inquieta. Eu engoli em seco outra vez, quando ela sussurrou algo doce em seu ouvido para que ele relaxasse.
Uma lágrima teimosa desceu por sua bochecha.
— Brooke? — minha voz soou vacilante através do telefone. — Você confia em mim?
Ela secou o rastro, e me encarou. Seus orbes me fitaram atentamente antes que assentisse.
— Eu amo você. — sussurrei. — E eu vou concertar tudo isso. Eu prometo.
Outra maldita vez.
“Ultimamente você tem estado ocupada, me pergunto se você sente falta de mim Por que você foi contra mim? Eu só quero saber Porque você age de modo tão diferente? Fale comigo, eu vou te ouvir Todo o amor que eu estou dando Não aja como se você não soubesse Eu estava lá fora na estrada A vida estava fora de controle Ela tornou-se uma vítima de minha agenda lotada E eu sei que não é justo Isso não quer dizer que eu não me importo Essa é dedicada à garota lá fora Garota, você sempre me surpreende no momento ruim Quando eu sei que você provavelmente vai achar que é uma mentira Eu sei que eu te disse da última vez, era a última vez Como você pode puxar a tomada e me deixar morto? Morto Como você pode puxar a tomada e me deixar morto? Porque quando eu tocar em você, você não precisa nem responder Como você pode puxar a tomada e me deixar morto?...” — Flatline
Start Over
29. Start Over
EUA, California, LA — Beverly Hills — 2015, 10h35 AM
Point Of View Brooke Patterson
Os tons diferentes de azul estavam por toda parte, coisas infantis e dóceis. A decoradora tinha caprichado, e eu agradecia por isso, pois, nada foi barato. No entanto, tínhamos tanto dinheiro que eu poderia queimá-los na lareira da sala. Justin não fez sequer uma reclamação sobre todo o quarto de bebê, e eu gostava de passar o tempo aqui, olhando para todas as coisas.
Era tão bonitinho. Eu me encontrava ansiosa demais.
Emotiva demais, e isso era uma droga.
Mal podia acreditar que em poucos dias, teríamos alguém para nos tirar o sono com choros... e fraldas. Alguém pequeno e frágil demais. Eu ainda não conseguia imaginar Justin lidando com isso, seria engraçado. E apavorante, por um lado, pois, sua personalidade sempre me assusta. Não queria nenhum dos males que passei para meu próprio filho.
Dentro do berço tinha um pequeno boneco de pelúcia, me parecia um pouco horrendo. Mas Justin insistiu para levar, ele dizia que era a coisa mais máscula dentro de todo esse lugar angelical e felpudo. Eu, obviamente, tiraria isso de perto do bebê para que ele não chorasse.
Sorri. Eu gostava do fato daquele cara estar se esforçando e realmente opinando em coisas.
Como no dia em que escolhemos o nome.
“— Sério? — perguntei, erguendo uma das sobrancelhas.
Justin encolheu os ombros, certo de si.
— Sério, Brooke, por que não? — quis saber. — Bem, eu gosto.
— Quer por o nome daquele desgraçado no seu próprio filho? — eu me ajeitei na cadeira, o sol nada agressivo batia sobre nossa pele perto da piscina.
— Não vou por Carter. — resmungou Justin. — Qual o problema com isso? Eu não estou me referindo a aquele filho da puta, gosto do nome.
— Há tantos outros! — insisti.
— Oh, ei, Jack. — encolheu os ombros mais uma vez. — Me parece bom.
— Porque não, Jamal, uh? — mordi o lábio, sugestiva. — Eu gosto deste.
— Não. — respondeu indiferente, fechando os olhos para o céu enquanto se recostava. — Jackson.
Quis perguntar qual era a fixação dele por aquele nome.
— Por acaso você é algum fã de MJ? — reclamei, me recostando a minha cadeira também. — Não dá para conversar com você.
— Eu não ouço Michael Jackson, Brooke. — resmungou. — Pare de ser tão egoísta.
— Está mesmo dizendo isso para mim?
— Tudo bem, como quiser. — disse por fim. — Eu não vou me meter, aliás, eu não sei como fazer toda essa merda, decida-se sozinha.
E então ele se levantou para ir.
Eu demorei dois segundos, porém senti toda a culpa nesse pouco tempo. Talvez eu não esteja dando o devido espaço.
— Justin? — chamei. Ele parou a um metro e meio de distancia, se virando devagar. — Jackson é legal, okay? E eu não disse que você não sabe fazer nada.
Ele umedeceu os lábios, estreitando os olhos curiosos.
— Tá zombando de mim? — perguntou.
— Você fez um bebê muito bem, isso é uma grande contribuição. — pisquei, e então voltei para trás. — Pare de ser tão dramático e aproveite o resto do dia.
Eu sei que ele me xingou bem baixinho antes de voltar para cá.
— Eu não estava fazendo nenhum drama, sei que iria colocar. — resmungou ao meu lado novamente.
— Claro. — sorri, rindo depois.”
Para piorar meu estado, estava esperando algumas pessoas chegarem. Eu reveria meus parentes depois de oito longos meses. Acho que nunca fiquei tão ansiosa para abraçar Brandon e dizer que senti saudades. Me perguntava como eles me veriam, estava olhando para o grande espelho no meu quarto, analisando meu próprio corpo, com apenas duas peças e um robe.
Deus, eu quero voltar ao normal!
— Acha que estou muito gorda? — perguntei; as mãos na cintura esperando por uma resposta.
Justin, na verdade, estava um pouco longe. Mentalmente falando. Ele não me encarava diretamente, eu pude notar seus olhos seguindo detalhes dos quais poderiam me deixar desconfortável.
— O que? — pediu, depois de acordar do seu transe.
— Não me ouviu? — arqueei uma sobrancelha, curiosa.
— Não... foi mal. — balançou a cabeça. — O que você disse?
Eu ri pelo nariz, e o achei aéreo demais.
— O que você tem? — voltei a perguntar, e então o dei as costas para me ver no grande espelho. — Mais coisas das quais tem que resolver lá fora? — zombei.
Eu não percebi ao certo, quando Justin já estava chegando aqui. Devagar como um predador. Pude ver seu reflexo atrás de mim e aquilo me enviou lembranças antigas. Quando ele tocou meus ombros, uma pequena camada de arrepios me atingiu.
— Há coisas das quais tenho que resolver bem aqui. — seu corpo estava muito próximo, e todo o calor era bom.
Ele empurrou o robe para baixo dos meus ombros, e aquilo chegou a meus pés.
Seus lábios tocaram minha pele descoberta e minha concentração vacilou.
— Que coisas? — sussurrei, virando meu rosto.
Justin tinha respirado fundo, murmurando algo quase inaudível perto do volume do meu cabelo, como se estivesse num tipo de tortura. E então, ele desceu as mãos por meus braços, escorregou para meus quadris, sentindo a curva da minha bunda, esbarrando na barra da calcinha.
Tocou tudo acima depois, todas as minhas antigas e novas curvas.
Me senti tão confortável de repente que poderia agradecer.
As alças do meu sutiã escorregaram também, e suas mãos passaram por baixo de meus braços até chegar aos meus seios, os rodeando para tocar a pele desnuda. Eu acabei curvando a cabeça levemente para trás, encontrando seu ombro. Justin sussurrou um palavrão.
— Eu quero te foder de todas as formas possíveis, Brooke, você não faz ideia do quanto. — seus dentes puxaram minha orelha. — É a única coisa que consigo pensar quando fecho meus olhos e, porra, garota, eu tenho certeza de que vou acabar explodindo se não fizer.
Era como se fosse o começo. Eu não me movi, esperando que sua voz ditasse as regras. Ou que guiassem minhas próprias mãos. E Justin agarrou meus quadris, pressionando-se contra minha bunda mais uma vez. Seus dedos ágeis se esgueiraram para frente, para baixo, para o vale entre minhas pernas, e me acariciaram sobre o tecido da calcinha.
Um gemido baixo escapou dentre meus lábios.
Ele sorriu com minha reação, bem na curva do meu ombro, e de repente uma lufada de ar escapou da sua boca junto de um baixo som gutural quando procurei seu corpo atrás e o toquei por cima da calça, sentindo sua ereção.
— Justin? — um grunhido confirmando meu chamado demorou a vir. — Já se masturbou pensando em mim?
Ele se retesou, pareceu estático de repente.
— O que?
— Já se masturbou pensando em mim? — repeti mais devagar.
— Que tipo de pergunta é essa?
— Sim ou não?
— Claro que não. — negou rápido, tirando as mãos de mim. — Eu sempre te tenho quando quero, não preciso disso.
Eu ergui uma sobrancelha para seu reflexo no espelho, para que ele repensasse no que havia dito. Aliás, o sexo por aqui tinha se tornado algo escasso nos últimos meses. E eu o ouvi no banheiro da última vez, a porta estava trancada e o chuveiro ligado.
Tínhamos discutido atoa nesse dia.
Eu cheguei a sorrir de maneira convencida ao ouvir meu nome fluir bem baixinho, como um gemido rouco, através da porta.
Abaixei-me para pegar o robe de volta. Era uma merda sentir dores nas costas, não queria parecer uma velha, eu queria essa criança do lado de fora o mais rápido possível. Gerar uma vida era um processo bem complicado.
Justin me parou quando passei o roupão pelos braços.
— Sério? — pediu.
Seus olhos estavam me implorando ocultamente.
— Esqueça. — resmunguei.
Ele não me deixou ir.
— Eu fiz merda? — perguntou, afrouxando seus dedos na minha pele até soltar.
— Não. — cruzei os braços, porém, minha voz soou mais fina.
— Qual é, Brooke. — estalou a língua. — Isso não é uma pergunta que se faça a um cara.
— Porque não? — desafiei. — Quebra o orgulho de vocês, não é mesmo?
— O que me diria se te perguntasse se já se masturbou pensando em mim?
Bem, eu não contava com aquela.
— Ah... — encolhi os ombros, olhando para longe por um breve segundo. — Não, eu nunca fiz.
— Você mentiu. — ele ergueu as sobrancelhas grossas, sorrindo de canto. — Viu?
— Claro que não. — o imitei. — Eu nunca enfiei meus dedos na minha boceta só por pensar em você.
— Porra, isso seria excitante. — pensou alto. — Me diga, foi bom?
— Me diga, foi bom? — repeti, fazendo com que ele vacilasse.
— Não fuja. — repreendeu.
— Não fuja.
— Mas que porra... — Justin foi interrompido pelo grito lá de baixo, ecoando por entre as inúmeras paredes dessa casa.
— Vocês tem visita! — era Jean.
Eu o mandei um olhar significante antes de me virar para ir buscar roupas descentes.
— Tudo bem, porra. — suas mãos bateram ao lado do corpo quando ele confessou. — Eu já bati a porra de uma punheta pensando em você. Satisfeita?
Um sorriso preguiçoso surgiu no meu rosto quando o encarei sobre o ombro.
— Uma? — provoquei.
Justin se perdeu na própria resposta.
Um insulto muito baixo para mim foi proferido antes que ele me desse às costas e saísse para ir atender quem é que fosse. Alimentar o ego às vezes era bom, eu sabia muito bem agora.
[...]
— Porra, isso daqui sim é uma casa de verdade. — dizia Khalil, olhando em volta.
— Eu ainda acho que vocês deveriam ter chegado amanhã. — Justin resmungava; os braços cruzados, nem mesmo se importando em se gabar sobre o triunfo ganho.
— Brandon! — eu sorri, atraindo a atenção do meu irmão assim que terminei de descer as escadas.
Lucy estava bem atrás de mim. Nós tínhamos nos falado direto no quarto, e ela estava tão feliz que achei que me sufocaria.
Meu irmão sorriu de volta, e até mesmo apressou os passos até aqui.
— Cara, eu senti sua falta. — disse ele, abraçando-me apertado. — E, nossa, você está enorme.
— Eu realmente não precisava disso. — murmurei.
Brandon coçou a nuca.
— É mesmo você? — perguntou, e riu em seguida. — Acho que vai chegar um dia em que nem sequer vou te reconhecer.
— Não diga...
— Você é mesmo um filho da puta, não é mesmo? — arregalei os olhos pelo insulto repentino direcionado a Justin. — Eu espero que ele puxe o meu lado da família, eu mesmo te raspo se esse moleque sair apagado.
— Sério, mano?
— Ei, sosseguem... — ri baixo, cruzando os braços.
— E aí, Brooke, saudades? — Lil Twist sorriu.
Ele parecia bem amigável.
— É... talvez. — respondi rindo. — Eu não achei que chegariam essa noite. — comentei.
— Bem, não chegaríamos. — disse Khalil. — Mas ela fez o possível. — apontou para a própria mãe.
— Não reclame. — disse Lucy. — Deveríamos ter chegado mais cedo se caso nossas bagagens não tivessem desaparecido. E eu detesto aviões.
— Cara, vocês tem a porra de uma piscina imensa. — disse Twist, esfregando as mãos. — Eu preciso trazer minhas garotas aqui.
— O que? — questionei.
— Aliás, quem é a gata que acabou de sair? — pediu Khalil. — Nós nem tivemos tempo de se apresentar.
— Jean? — Justin riu baixo. — Coisa do Raymond.
— Vamos dar uma olhada nisso daqui, talvez eu fique de uma vez. — incentivou Twist, e então, eles estavam saindo dali.
Justin fitou Brandon, e encolheu os ombros, seguindo os amigos. Pude ouvir meu irmão com suas gracinhas enquanto seguiam para o outro cômodo.
— Não sabe das garotas? — pedi, virando-me para Lucy. — Achei que elas viessem também.
— Oh, sim. — lembrou. — Elas viram, querida, acho que pararam para comprar alguma coisa para você, foi o que ouvi.
— Certo. — sorri.
— Xavier está muito ocupado com os preparativos com Atifa, acho que não vem. — ela suspirou. — Bem, eu também trouxe presentes. — disse, indo para o meio da sala. — Tenho certeza de que vai gostar.
— E o que é? — pedi curiosa, mordendo o lábio enquanto me aproximava.
— Eu estava tão animada para isso. — continuou. — E olhe só para você, está tão linda, isso é maravilhoso, Brooke.
Eu não interrompi seu momento de orgulho em palavras.
Eu sorri, estava tão feliz por ter todos aqui.
E acho que mais alguém também estava.
Aquela noite foi uma droga, eu não consegui pregar meus olhos, pois, aquele bebê estava me agredindo com socos e chutes. Eu cheguei a ficar com medo, acordando no meio da noite, e Justin não deu muita importância, ele estava sonolento demais para isso. Poderia chamar Lucy, mas o alvoroço parou depois de poucos minutos.
E então eu consegui descansar para ter a mesma aporrinhação no dia seguinte.
— Seu homem é um perfeito porre, garota. — dizia Michelle, sentada no sofá branco da sala naquela manhã. — Ele quase não quis abrir a porta para nós duas ontem à noite, acredita nisso?
— Eu achei que vocês chegariam mais cedo. — bocejei.
Nós tínhamos nos cumprimentado assim que acordei. Elas expulsaram Justin do quarto, e ele estava as xingando quando chegamos à cozinha para o café da manhã. A casa estava cheia de vida, palavrões e negros sempre excluindo Justin de alguma coisa por pelo menos dez minutos até que ele provasse que fazia parte daquela família tanto quanto os outros.
Raymond não tinha dado as caras ainda, meu peito se apertava por isso. Ele estava esperando que eu contasse, deveria estar atrás de seus chapeis. Eu não entendi bem quando me contou que precisava de novos.
Eu, provavelmente, não teria a atenção de Justin hoje. Estávamos divididos em grupos, com toda certeza os caras estariam fumando maconha e jogando conversa fora naquela área da varanda aberta com uma vista para os montes. Risadas, tosses e o som de uma música ecoou bem de longe, minutos depois que me sentei ao sofá, devagar, suspirando a todo o momento.
Me sentia pesada e meus pés doíam.
— Nós nem chegamos tão tarde assim. — alegou Kelly. — Fomos escolher um presente para o nosso fofinho, não podíamos esquecer.
Eu sorri fechado, meu rosto sonolento.
— Bem, obrigada. — murmurei.
— E como você está? — pediu Kelly.
Eu pensei, e respirei fundo. Ajeitei-me no sofá, sentada de lado para que meu braço se apoiasse no encosto.
Olhei para baixo rapidamente.
— Ótima. — respondi.
Lucy soltou uma risadinha descrente ao meu lado.
— É logico que não está tudo as mil maravilhas. — disse. — Pode nos contar, Brooke, eu sei como é.
— É... — dei de ombros.
— O que significa? — pediu Michelle.
— Significa que eu quero esse bebê fora de mim o mais rápido possível. — reclamei.
— Paciência, tudo em seu tempo. — Lucy amenizou.
— Brooke, eu ainda quero ver o quarto. — Kelly quase pulou. — É tão lindo quanto estou pensando?
— Sim. — sorri de canto.
Seu rosto se virou para Michelle, e então elas começaram a falar sobre como demoraram a escolher uma lembrança. E que os amigos do meu... bem, elas usaram a palavra “maridinho” como se fossemos casados – eram perfeitos babacas por não terem esperado por elas.
Eu gostaria de aproveitar mais o tempo ao lado das garotas, imaginei tantas coisas, mas agora não conseguia nem mesmo prestar atenção na conversa.
Suspirei pesadamente, me ajeitando no sofá outra vez. Minhas costas doíam. Meu cabelo solto e cheio de cachos estava me dando muito calor de repente, e a camisola da qual eu usava me ajudou quanto a isso.
Justin poderia chegar e me repreender pelo comprimento, e por meus peitos estarem tão amostra naquele decote. Eu não me importava.
— Não tem o que se preocupar quando você conquista seu homem, uh? — Lucy deu um sorriso terno. — Justin não tem mais para onde fugir, conheço meu garoto.
— Bem, ele ainda iria nos deixar do lado de fora. — reclamou Michelle.
Eu senti. Foi quase irrelevante, mas aconteceu.
— Tá tudo bem? — perguntou Lucy, depois que grunhi.
— Está. — tentei sorrir. — Eu vou pegar um copo de... wou. — arregalei os olhos, antes de poder me levantar, pondo a mão sobre a barriga. — Nossa.
Um riso fraco escapou da minha boca, tentando manter tudo calmo.
Não estava. Meu coração estava se acelerando.
— O que foi? — Lucy pediu.
— Não é nada, estou bem. — me apoiei para me erguer, mas ela me ajudou mesmo assim. — Foi só uma... droga! — eu arfei, enrugando as sobrancelhas pela pontada. — Mas que... merda! — outra vez.
— Devem ser contrações, Brooke, é melhor irmos para o...
— Lucy? — sussurrei, apertando sua mão enquanto olhava para baixo. — Minha bolsa.
— O que? — as meninas se levantaram. — Oh, merda, o que a gente faz?
— Chamem os meninos, rápido! — Lucy mandou. — Respira, querida, tá tudo bem.
— Claro, eu sei. — não acreditei na minha própria voz.
Eu acho que estava apavorada.
***
Point Of View Justin Bieber
— Você é um verdadeiro porre, mano. — tossi depois de falar expirando a fumaça. — Bem pior que sua irmã.
— Olhe como fala comigo, irmão. — apontou do outro sofá naquela varanda. — Seu filho pode ser órfão antes mesmo de nascer.
— Qual é a porra do problema dele? — ergui as sobrancelhas para Khalil.
Twist foi quem respondeu.
— Isso é falta de buceta, Chantel não está dando conta do recado. — ele deixou seu cigarro sobre o cinzeiro.
— Vá se foder, amostra grátis. — Brandon se defendeu.
— Qual é? Vai pular para o lado pessoal?
Eu fiquei quieto enquanto eles tinham uma discussão estúpida, refletindo sobre qualquer coisa. Especialmente sobre o irmão da minha garota ter tanta repulsa por mim agora. Como se já não bastasse à própria Brooke.
Eu não sei o que dizer sobre isso, esperava que passasse depois da época da gravidez.
Ela, realmente, estava diferente. E me perguntei se seríamos assim daqui em diante.
Me parecia tedioso.
— Justin! — virei o olhar para a amiga da minha mulher invadindo nosso espaço como se fosse da família. — Largue essa merda e vá pegar a droga do carro! — mandou.
Enruguei as sobrancelhas, analisando bem suas palavras.
— Como é? — desafiei. — Quem pensa que é, neguinha?
— Olha lá, a gatinha cheia de marra. — Twist cantou com um sorriso malicioso.
— Merda, cara, é a Brooke! — gritou a outra, também chegando aqui. — O bebê, seu idiota, ela vai ter o bebê!
Eu acho que minha pressão teve uma leve queda.
— O que? — estreitei os olhos.
— Porra. — Brandon foi o primeiro a sair dali a passos rápidos em busca da irmã.
— O carro! — repetiu Kelly.
Eu balancei a cabeça, me levantando ao largar o resto do cigarro para o chão.
— Certo, o carro. — murmurei, engolindo em seco enquanto me virava. — As chaves, eu não sei onde...
— Justin!
— O que é, porra? — eu acho que tinha me descontrolado.
— Vamos descer, mano, precisa de alguma coisa? — perguntou Khalil.
— Preciso da porra do carro! — rosnei, quase arrancando os cabelos ao passar a mão entre os fios. — Na cozinha, tá na cozinha. Twist!
— Eu pego. — respondeu ele, saindo dali com o outro.
Eu não sei por que ainda não tinha me movido.
— Você vai ficar parado aí? — exigiu Michelle.
Fechei minha boca, meu maxilar tenso enquanto a empurrava para passar.
— Precisa se acalmar, Brooke é quem vai ter o bebê e ela parece muito mais...
— Cale a boca! — soei ríspido assim que chegamos às escadas.
Um acúmulo de vozes estava ali embaixo, eu peguei as chaves com Twist assim que ele passou por mim, e então corri para a sala, onde Lucy incentivava Brooke a caminhar sempre respirando rápido. Brandon se ofereceu para pegá-la no colo.
Minha cabeça doía. Eu era a pior pessoa para coordenar essa merda. Nunca achei que diria isso, mas queria que ela estivesse no controle agora.
— Está tudo bem? — pedi depois de destravar a porta de um dos carros que tinha por ali, a qual aquela chave pertencia.
Tivemos sorte por ser a Ranger.
— Acha que está? — Brooke proferiu entredentes, antes que seu irmão a pusesse para o banco de trás.
Assenti para o vento.
— Eu... eu vou... — suspirei.
— Se acalme, meu filho, está tudo bem. — dizia Lucy, tocando minhas costas. — Você não pode dirigir. — lembrou o óbvio.
— Eu faço. — disse Brandon, pegando as chaves de mim.
Eu assenti outra vez, perdido demais para rebater.
— Eu vou com ela. — se ofereceu Kelly.
— Peguem outra merda de carro, não há mais espaço para desespero nesse. — resmunguei por fim, pulando para o banco carona assim que Brandon ligou a ignição.
E foi uma pequena viagem muito turbulenta.
— Tudo bem, porra, eu já entendi! — gritei para o cara tendo minhas mãos suadas enquanto segurava o celular. — Ele perguntou qual o intervalo das contrações.
Virei para olhar para Lucy, ela estava ali acariciando as costas e ombros de Brooke enquanto grunhidos dolorosos escapavam da sua boca. Aquilo mergulhava no fundo do meu próprio peito, e era como se eu também estivesse sentindo.
— Uns dez minutos. — respondeu Lucy.
Brooke gemeu sofregamente outra vez, curvando-se para os braços da minha mãe.
— Certo. — voltei a encarar a pista por onde Brandon corria. — Uns dez minutos. — repeti e então larguei o aparelho. — Mano, vá mais rápido!
— Que merda você acha que estou fazendo? — ele rebateu.
— Respire, querida, respire. — sussurrava Lucy.
— Justin... — Brooke choramingou. — Por favor...
— Relaxa, B, tá tudo bem. — eu me virei enquanto ela agarrava o encosto do banco, a cabeça baixa, as pernas levemente separadas. — Porra, Brandon!
— Se acalme você também, caralho! — me repreendeu.
— Estamos chegando, B, você pode aguentar, não é? — toquei seu rosto, e encontrei seus olhos pidões.
— Eu não sei. — sussurrou. — Estou tentando... droga... — voltou a choramingar, apertando as unhas no banco.
Eu tinha quase certeza de que apagaria.
Os pneus do carro fizeram um som alto quando paramos abruptamente na frente do hospital. Brandon tratou de abrir a porta, eu estava pegando Brooke no colo quando um cara fardado de azul chegou à portaria.
Tudo parecia estar indo bem até que eu tentasse falar com Brooke mais uma vez, quando a coloquei sobre uma cadeira com rodas. A garota soou assustadora com mais aquele rosnado cheio de dor, apertando minha mão com tanta força que poderia quebrá-la.
E eu não sei por que me colocaram para dentro daquela sala. Eu era o pai, não um enfermeiro.
Havia um quadro na parede com carinhas de diferentes expressões. Foi para lá que o médico apontou quando Brooke já estava deitada na maca, urrando e respirando a cada segundo.
Era Lucy quem deveria estar aqui.
— De 0 a 10, quanto está sua dor? — pediu ele, calmo demais para nós dois.
— Sete... — Brooke suspirou, e eu a encarei. — Não, oito. Talvez nove.
— Tudo bem, precisamos checar a dilatação.
Eu, literalmente, fiquei estático ao ver aquele cara subir a roupa que estava na minha mulher, para olhar entre as pernas dela. E, droga, eu também estiquei o pescoço para tentar ver, pois, aquilo me parecia uma tortura. De todo o tipo.
Me colocaram aqui por castigo ou algo assim?
— Justin? — Brooke ofegou, apertando minha mão outra vez. — Não me deixe, tudo bem?
Eu travei um pouco antes de responder.
— Não. — assenti, mostrando um fraco sorriso. — Eu tô aqui.
— Você está com dez centímetros. — informou o médico. — Podemos continuar, okay?
— Okay. — sussurrou Brooke.
Eu não soltei um pio, esperando pela próxima etapa.
E então veio o pior.
— Você está indo bem, Brooke. — o cara estava sentado em frente à maca, vendo tudo que não deveria. — Muito bem... agora. Força. — pediu.
Tive pena do ferro onde Brooke apoiava as mãos a frente, ela usou toda sua força, e o rosnado que saiu da sua boca era arrepiante junto da sua expressão. Eu engoli em seco, os batimentos dentro do meu peito estavam acelerados.
E quis me bater para agir como devia.
— Isso, de novo. — incentivava o médico. — Vamos, força.
— Brooke? — eu acariciei seu cabelo, sua testa tinha milhares de gotas de suor. — Respira, só mais um pouco, tudo bem?
Acho que uma resposta saiu dos seus lábios, mas ela estava urrando mais uma vez em seguida, pondo toda sua força. Eu fiquei atento a cada detalhe, não sabendo bem o que fazer além de acariciar suas costas.
E de repente ela parou, chorava, como se tivesse desistido.
— Eu não consigo... — sussurrou. — Me desculpa.
Merda, merda, merda.
O médico trocou um olhar comigo. Eu estava quase gritando aos quatro ventos para que minha mãe aparecesse.
— Você precisa empurrar, Brooke, está indo muito bem, muito bem. Mas ainda precisamos continuar. — disse ele. — Vamos lá, está pronta?
Eu me afastei um pouco para poder ver o que acontecia.
— Ok. — a observei quando respirou fundo, suspirando longamente em seguida.
— Preciso que faça força agora. — após o pedido do médico, outro urro alto ecoou por entre essas paredes. — Isso, vamos, continue.
Ela deu um pequeno intervalo.
— Merda, eu estou vendo a cabeça. — não sabia se a expressão no meu rosto era incrédula ou feliz.
— Está? — Brooke ofegou e tentou sorrir. — Que... ótimo... — sua voz vacilou quando ela empurrou outra vez.
Além do bebê, tinha sangue.
Muito sangue e muita abertura.
Meu estômago estava embrulhado, e cheguei a pegar meio caminho para a porta, respirando pesadamente.
— Justin. — um rosnado me parou. — Se sair daqui, eu juro que mato você. E eu não estou brincando. — o olhar fuzilante de Brooke me petrificou.
Assenti. Pela primeira vez não me importei em duvidar das suas palavras.
Houve mais dois pedidos de força, e urros ecoando.
Quando parei por perto outra vez, relutante, tudo ficou em silêncio.
E então veio o choro.
— Pronto, pronto, acabou. — amenizou o cara, sorrindo. — Olhe só, meus parabéns, é um garotão.
Meus braços não se moveram, eu nem sabia se eu estava vivo, na verdade.
Não consegui piscar.
Brooke estava suada e cansada, deitada sobre a cama, sorrindo em meio a isso para o bebê sujo que enrolaram a um pano. Uma das enfermeiras sorriu quando se aproximou com ele, para entregar nos braços da garota que parecia até mesmo ter se esquecido da minha presença.
Ela se derreteu, completamente.
— Oi... — disse bem baixinho, de um modo doce. — Ei, Jack... — chiou. — Tá tudo bem.
Não tinha dúvidas de que fosse meu. Com toda certeza, puxou o meu lado da família. Seu rosto pequeno até mesmo estava vermelho por estar chorando, e eu ainda não podia acreditar... que fui eu mesmo quem fiz.
Brooke me encarou.
— Ele não é lindo? — perguntou, voltando a olhar para lá. — Parece tanto com você.
Umedeci os lábios secos, dando mais um passo a frente enquanto assentia, dando uma breve risada pelo nariz.
— Seu irmão vai querer me raspar por você ter tido um filho branco. — murmurei, tocando seu braço.
Meu dedo desceu pelo contorno até chegar ao tecido que enrolava o bebê, e então, toquei sua bochecha tão levemente que parecia impossível sentir. Eu me peguei tão preso quanto Brooke a aquele pequeno pedaço frágil de pessoa.
— Jackson Bieber. — pronunciou ela, como se sentisse orgulho. — É perfeito. — mordeu o lábio, olhando para mim.
Eu devolvi o sorriso, e me curvei para poder conseguir um beijo.
Tinha sido a merda do dia mais assustador da minha vida. E ainda sim, era bom.
— Eu amo você. — Brooke sussurrou diante do meu rosto.
E eu beijei sua testa.
— Eu te amo mais, garota. — não sei bem se ela prestou atenção, o garoto ali já estava roubando metade do privilégio.
A porta do quarto se abriu, achei que fosse um dos nossos parentes, porém, o cara trabalhava no hospital. E ele não tinha a melhor das expressões.
— Desculpe interromper. — disse. — O senhor pode me acompanhar?
Murmurei um “Já volto” para Brooke, ignorando seu olhar confuso antes de sair.
Pude conhecer a voz de Lil Twist assim que cheguei à sala de espera. Ele estava arrumando alguma confusão, além de Brandon. E eu realmente fiquei perdido quando um trio de caras fardados da polícia estava parado bem ali, esperando por mim.
Engoli em seco, nervoso pela milésima vez no mesmo dia.
— Queriam falar comigo? — perguntei, estreitando os olhos curiosos.
— Justin Bieber? — pediu um deles. — Você está preso por roubo e assassinato.
Fitei minha mãe parada a um metro de distancia, ela tinha um olhar desesperado, sem dizer qualquer coisa.
— Vocês não tem nenhuma porra melhor para fazer? — Twist desafiou outra vez.
— Estamos no meio de algo importante aqui. — disse Brandon.
— Tem certeza do que estão falando? — perguntei, falsificando uma inocência. — Eu não vou perder a merda do meu tempo com isso. — cuspi.
— Temos provas suficientes para afirmar que você tenha participado da morte de Chalard Mercier. — insistiram.
— Quem mandou vocês aqui?
Eu não tive uma resposta. Dois dos caras estavam se aproximando em seguida, agarrando meus pulsos para me algemar. Meus irmãos não puderam fazer muita coisa, pois, iriam acabar na cadeia também. Curiosos olhavam em volta, fazendo cochichos.
Eu tentei não pensar em mim, e no fato de poder pegar anos de prisão.
Eu tinha acabado de ver a porra do meu filho nascer e ao menos tinha pegado ele no colo.
— Fiquem aqui. — mandei, quando me empurraram para andar por eu estar relutando. — Fiquem com a Brooke.
— Justin... — começou Lucy.
— Tá tudo bem. — a acalmei. — Cuida dela, por favor. — pedi, um segundo antes que não pudesse mais ver seu rosto, sendo levado dali.
Precisava de Raymond agora.
E me perguntava onde estava a paz que ele prometeu. Eu tinha falhado outra vez.
“Isso não parece, que eu estou sempre lá quando importa. Mas ausente na maioria das outras vezes, um terrível padrão. A recompensa que eu vejo no trabalho, me fez um viciado. Tem mais gente que quer isso do que gente que tem. Eu não entendo, eu odiaria pensar que eu enganei elas. Elas caíram como vitimas no meu sistema, eu acho que eu sei muito bem como pegar elas. E eu sou sempre o arrependimento dela, eu sou sempre o arrependimento dela. E eu sempre faco pior com quem quer que seja a próxima. Isso tem altos e baixos, só altos e baixos. Ela esta chorando agora, mas ela vai rir de novo. Porque nos estamos em ascensão e ela esta aqui conosco. Essa porcaria cara, sempre acaba acontecendo. Ela ama isso, ela olha pra mim como se tivesse se perguntando: Quem faz isso?. E nos de mãos dadas enquanto eu rezo que ela não e do tipo de guardar rancor. E sou errado...” — Mr. Wrong
Hold On, We're Going Home
28. Hold On, We're Going Home
EUA, Califórnia, LA – Santa Monica – 2015, 17h38 PM
Point Of View Brooke Patterson
Justin diminuiu a velocidade do carro quando pedi. Estávamos longe o suficiente de Beverly Hills agora para não precisar se preocupar com testemunhas, polícia ou qualquer pessoa que ousasse se meter no nosso caminho.
Eu abri a porta para descer naquela estrada, o vento gelado da praia quase chegava aqui, não tinham muitos carros passando. O sol estava dando uma amenizada, e eu podia ver o imenso céu azul daqui, naquela vista longe do alto onde nós estávamos. O todo da imensa roda gigante daquele parque também era visível.
Encostei-me ao capô do Porshe, suspirando por um longo período, tentando colocar para fora a sensação ruim.
Estava enjoada.
Justin chegou ao meu lado.
Ele não disse sequer uma palavra, mas continuou ali, os braços cruzados a frente do corpo como se apenas estivesse tomando conta de mim, esperando por um deslize ou uma frase mentirosa onde eu diria que estava bem.
Eu tinha um pai.
Deus, eu tinha um pai.
Quer dizer, pelo menos agora eu o conhecia e sabia da sua existência, realmente. E era louco pensar que Raymond, aquele cara que chegou às nossas vidas como um desconhecido, carregava meu sangue. Minha vida era um prato de papel sujo voando por uma sala, rápido demais, sem nos dar a chance de pegá-lo para tentar limpar.
— Você sabia o tempo todo? — perguntei em um timbre baixo, esperando sua voz chegar até meus ouvidos.
Porém, Justin não me respondeu. Ele apenas balançou a cabeça devagar, em gesto negativo.
Assenti.
— Brandon sabe? — pedi.
— Não...
— Porque ele não disse? — expirei o ar, por fim. — Isso não é... uma coisa que se possa esconder. Assim. — virei meus olhos para Justin, ele ainda estava inexpressivo.
E encolhendo os ombros, de forma quase imperceptível, desviou o olhar para outro canto longe de mim. Eu não podia acreditar que ele ainda estivesse com raiva por causa de um motivo indiscutível. Eu quis um pouco de compreensão, mas não iria pedir.
Fitei a terra do acostamento, cruzando meus braços abaixo dos seios, um tanto inconformada.
E isso escapou.
— Será que você pode ser menos infantil quanto a isso? — eu sabia que ele tinha escutado, mas a única coisa que recebi foram suas sobrancelhas arqueadas em subestimação. — Diga alguma coisa! Droga, Justin.
Bufei, dando um passo para longe, voltando em seguida e indo outra vez, como se estivesse sem rumo. Minhas mãos estavam tremulas pela descoberta, e eu não sabia se isso poderia ser tão ruim para mim. Para o bebê. Eu só não podia deixar alguma emoção ruim me abater.
Eu não podia. Eu queria o bem para a criança.
Queria que o filho da puta do seu pai largasse o orgulho ferido para me apoiar.
E então parei.
Quis sumir por uns dez segundos.
— Está bem? — Justin abriu os lábios para falar.
Ele era duro demais, e eu não me referia a outra coisa.
— Estou. — murmurei; meus braços me abraçando involuntariamente diante da brisa gelada.
Passou-se dez segundos.
O garoto loiro pediu por uma aproximação, fazendo um movimento com a mão. Ele tinha até mesmo relaxado os ombros. Mas me parecia obrigado, e isso me fez estreitar as sobrancelhas.
Soltando uma lufada de ar como uma breve risada incrédula.
Balancei minha cabeça, dando-lhe as costas.
— Brooke? — chamou, aparentando confusão. — Aonde vai?
Bufei.
Meus passos duros sempre direcionados a frente, sobre aquele acostamento, eu sabia que chegaria a orla se não ficasse cansada demais e decidisse parar. Meu tênis preto ficaria empoeirado por causa da areia, e eu estava começando a sentir calor com o resto das roupas escuras.
Percebi que ainda vestia minhas luvas, das quais arranquei como se estivesse com raiva delas.
— Pretende andar até aonde? Você sabe, podemos entrar no carro e dar uma passada no parque, ainda hoje.
Ele era inacreditável, o vento viu minha expressão repreendedora. Não abri minha boca para dizer um insulto sequer, eu nem sabia para onde estava indo, realmente, mas quis correr quando os passos de Justin ficaram mais próximos as minhas costas. Achei ter escutado uma respiração profunda, demonstrando impaciência.
— Me solte. — mandei entredentes.
As pedrinhas no solo seco abaixo dos meus pés fizeram um barulho quando me afastei.
— Qual é, Brooke. — estalou a língua. — Não vou te seguir até a porra do fim da rua, volte para aquela merda de carro e vamos embora.
— Eu só queria que você parasse com isso! — reclamei. — Eu salvei a sua vida e a não ser que você queira se jogar daqui para reverter à situação, não há nada que possa fazer para mudar, Justin! Porque não pode aceitar?
Ele rolou os olhos.
— Sério, Brooke? — me encarou entediado. — Podemos esquecer isso?
— Você nem sequer me disse nada sobre...
— O pai perdido é seu! — rebateu. — Eu não vou me meter nisso, se quiser saber de algo pergunte a Raymond quando chegar.
Minha boca estava entreaberta.
Talvez, mesmo que eu procurasse por mil anos, não encontraria um cara tão estúpido como ele. Que eu pudesse conseguir amar.
— Sério? — soei incrédula pela falta de consideração.
Justin bufou impaciente.
— Caralho, mano, eu estou cheio de respingos de sangue na roupa e nós nem deveríamos estar no meio dessa estrada, você vai voltar para a porra do carro ou quer que eu te carregue até lá?
Enruguei o cenho, querendo muito respondê-lo. Não sei ao certo porque fiquei tão travada.
Ele agarrou meu braço, levando-me consigo.
— Eu sei andar sozinha. — dei um solavanco para me soltar.
Justin ainda me fitava quando me recompus, numa tentativa de parecer superior, movendo a cabeça levemente para que o cabelo fosse para trás do ombro, antes de liberar a respiração e começar a andar.
Ele produziu uma risada pelo nariz.
— Fiz alguma piada? — resmunguei, o encarando.
— Não, B. — sorriu, negando enquanto mordia o lábio inferior.
E fiquei confusa por ele mudar seu temperamento tão rápido. Porém, Justin só estava fazendo o que sabia de melhor; provocar. Ele não disse mais nada quando grunhi indo na frente, os olhos ainda me seguindo lá detrás.
Eu estava confusa demais em um só dia.
[...]
Teria que refazer as unhas. O esmalte estava descascado em todas elas, praticamente, por eu estar sentada a beira da cama preferindo dar atenção a isso que qualquer outra coisa. Um travesseiro sobre minhas pernas, meu cabelo preso ao alto causando uma sensação muito mais fresca depois do banho.
Isso não era o bastante para que eu relaxasse e espantasse o frio na barriga.
Justin saiu do banheiro em sua Calvin Klein branca. O marcava tão perfeitamente, todo o volume embaixo. Seus olhos passaram por mim brevemente, encontrando minha localização antes que ele fosse para fora do quarto.
Eu suspirei, abaixando o olhar para minhas mãos novamente. Não estava conseguindo pensar em sexo também.
Justin já tinha ido e voltado. Mastigava um pedaço do sanduíche que tinha na mão, era bem grande, com fatias de alface visíveis na borda e várias outras coisas das quais não consegui identificar. Ele se aproximava daqui, e uma lasca do pão caiu sobre o tapete.
Ergui as sobrancelhas.
Ele parou de andar e mastigar para notar sua bagunça, e então rolando os olhos para mim, se abaixou para pegar. Jogou em algum outro canto do qual eu não poderia enxergar.
— Sua higiene me impressiona. — murmurei quase repreensiva.
— Tenho certeza de que meu pau está limpo. — a cama se afundou por perto de mim quando ele se jogou ao meu lado. — Quer verificar?
Ignorei sua pergunta e me arrastei para cima. Justin tinha um dos braços dobrados atrás da cabeça, e ele começou a mastigar bem devagar, desconfiado, quando me aproximei. Roubei seu sanduíche, me aproveitando do sabor. Não me importava com o que tinha ali, parecia saboroso de qualquer jeito.
— Aí, qual é, porra? — reclamou com a boca cheia. — Me devolva isso.
— Faça outro.
— Como é que é? — se sentou; seu cabelo precisando de um aparo, bagunçado no topo. — Não me lembro de você ter levado um tiro na perna para que não possa se levantar e fazer um.
Franzi a testa, ainda terminava de engolir quando ele arrancou o resto do pão das minhas mãos.
— Não pode fazer um para mim? — sugeri, cruzando as mãos sobre o colo.
Me pareci como uma doce garota.
Justin ergueu as sobrancelhas, e riu pelo nariz como se achasse tudo aquilo um absurdo. Nem sequer me respondeu, ele continuou mastigando e pedi mentalmente para que se engasgasse.
Lembro-me da última vez em que ele fez o “sacrifício” de sair no meio da noite por conta de um desejo meu. Eu teria que tirar sua raiva para conseguir esse milagre outra vez.
— Vou dar uma volta, Raymond vai vir aqui falar com você. — informou de repente, levantando-se da cama.
Arregalei meus olhos.
— O que? — pedi. — Não, ele não...
— Eu não vou ficar escutando suas lamentações depois, Brooke, acabe logo com isso. — estalou a língua.
— Justin? — o chamei, esperando ansiosa demais por seu olhar. — Fique aqui. Por favor.
Ele enrugou a testa, pensando.
— Por quê?
— Eu... — eu não sabia. — Não vou conseguir.
— É só o Raymond. — fez pouco caso, caminhando para perto da cômoda para buscar mais roupas para vestir.
Apertei meus dentes, travando minha inconformação. Se Justin queria tanto morrer, talvez eu devesse jogá-lo da sacada desse hotel.
— Você pode agir como um namorado compreensível dessa vez? Achei que estivesse progredindo. — a última frase soou quase que para mim mesma.
E eu nem acreditava que tinha mesmo dito aquilo.
Meu olhar estava em minhas mãos outra vez. Eu respirei fundo e busquei pelo travesseiro, grunhindo baixinho ao cair sobre a cama, escondendo meu rosto nele.
Eu queria meu irmão aqui, nesse exato momento. Ao menos tínhamos conversado e resolvido os problemas. Eu sentia saudades.
— Brooke? — não movi um centímetro sequer.
— O que é? — murmurei abafada.
— Ele está tão nervoso quanto você. — disse Justin, próximo da cama. — E acredito que queira resolver isso, de algum jeito. Então pare de agir como uma menininha medrosa.
Ergui metade do corpo para encará-lo.
— Se não for me ajudar caia fora daqui de uma vez.
— Achei que fosse independente, mostrou muito bem que sabe se cuidar sozinha. — suas palavras saíram tão repreensivas quanto as minhas. — Agora pare com essa merda.
Eu não podia acreditar.
Me levantei.
— Não me trate como se eu fosse à droga da sua filha! — apontei. — Está insatisfeito com o que fiz? Ótimo, já disse que pode reverter a situação se suicidando.
— Como quiser, Brooke. — meu nome saiu tão desprezível de sua boca que fez meu peito doer, como uma sensação repentina.
Justin deu um passo atrás, me deixando em seguida, e eu não deveria ter ligado para isso.
— Não me dê às costas. — agarrei seu braço e era como se tivéssemos invertido os papéis. — Vai mesmo me dizer o que fazer quando está agindo como um babaca?
Justin puxou o braço, e se virou para mim, o maxilar muito tencionado.
— Vou, algum problema contra isso? — desafiou, e tentei não me mover para trás quando sua aproximação se tornou intimidadora.
Havia dúzias de palavras das quais quis dizer, mas não mudaria nada. Só pioraria.
— Você é um imbecil! — o empurrei, fazendo com que cambaleasse um passo atrás. — E eu odeio você! — rosnei.
Justin estava se mandando dali logo depois.
E eu só cheguei à sala quando me certifiquei de que ele já tinha chegado ao corredor.
Encolhi minhas pernas sobre o sofá. Estava tarde agora, esperei que Raymond não se demorasse tanto aqui, eu precisava dormir para descansar e aliviar meus pensamentos. Mesmo que ainda tivéssemos que conversar sobre o ocorrido, nós três. E Jean.
Quando as batidas na porta soaram, meu corpo se enrijeceu. E demorei um minuto para me levantar e ir até lá.
Raymond sorriu para mim, mais fraco que de costume. Eu dei espaço para que ele passasse.
Meu estomago estava se revirando, minhas mãos geladas. Queria que Justin estivesse aqui, queria muito.
Voltei a me encolher sobre o sofá, evitando sempre o olhar de Raymond diretamente. Ele não parecia tão nervoso quanto Justin me fez achar que estaria. Entrelaçou as mãos à frente do corpo, respirando fundo.
— Você está bem, Brooke? — perguntou.
Era mais estranho ainda ele se parecer como um desconhecido para mim agora.
— Sim. — respondi.
— Eu acho que as coisas não foram ditas como deveriam, certo? — riu baixinho. — Foram jogadas como um peão de cima de um touro.
Enruguei a testa levemente, querendo questioná-lo. Bem, o Raymond de sempre ainda estava ali.
— Como a conheceu? — pedi, arriscando um breve olhar para lá.
Apertei meus braços em volta dos joelhos.
— Ah... sobre isso. — ele se ergueu para trás. — Justin não deixou que eu explicasse antes, ele é um pouco impulsivo, não é?
— O que quer dizer? — dessa vez encontrei seus olhos.
Não eram como os meus; não havia nada mais que um negro profundo ali. Não encontrei semelhanças a Brandon, e não sei bem se tinha a mim também. Sempre fui muito parecida com minha mãe.
— Eu não tenho certeza, Brooke. — respondeu ele. — Não posso confirmar nada antes de fazermos um teste de DNA.
Eu suspirei livremente, talvez mais aliviada.
Ou não.
— Ela nunca te contou? — voltei a perguntar.
Raymond balançou a cabeça.
— Quando eu cheguei a NY... seu irmão já era nascido. — meu estômago afundou. — Eu encontrei Selma numa festa, ela me contou sobre Brandon, mas eu nunca cheguei a vê-lo. Bem, não até conhecer todos vocês.
— Então eu não... — acho que o ar se tornou rarefeito. — Deus...
— Não se adiante, menina, eu disse que não tenho certeza. Não quero que fique nervosa, pode não ser bom.
— Eu matei pessoas hoje, não há nada pior que isso. — soei um pouco ríspida, e Raymond assentiu devagar.
— Me desculpe. — disse ele, pigarreando. — Eu queria te pedir uma coisa.
— Que tipo de coisa?
— Você tem alguma foto dela? — perguntou. — Não sabemos nem se estamos falando da mesma pessoa, pode ser tudo um mal entendido.
— Eu... — demorei um segundo. — Tenho sim.
— Poderia me mostrar?
Eu assenti, devagar, e tive a mesma lentidão para me levantar dali.
Eu tinha uma caixinha amadeirada, com uma estampa arrasada onde guardava coisas pequenas das quais não queria perder. Tinha algumas fotos minhas com minha mãe; uma delas era um tanto antiga demais. Selma estava sozinha, vestindo uma calça justa e colorida demais com um grande blusão. Seu cabelo armado dos anos 80 sempre me faria rir. Foi tirada bem no Central Park.
Raymond pareceu mergulhar num balde de lembranças.
— Eu me lembro disso. — disse sorrindo, balançando a cabeça como se não acreditasse. — Sempre quis comentar sobre sua semelhança com ela. Mas não queria parecer um louco. — o cara riu, quando analisou a foto que entreguei. — Isso é espantoso.
Eu esperei que aquilo significasse uma coisa boa.
— Bastante. — sussurrei.
— Nós saímos por alguns meses, sua mãe... marcou muito minha vida, Brooke. — dizia; concentrado na fotografia em suas mãos. — Eu a amei muito, ela era uma mulher maravilhosa. — foi quase um sussurro, e então, ele passou o polegar sobre ela, deixando um sorriso aparecer no canto da boca.
Eu esperei um pouco até que voltasse a falar, não quis atrapalhar sua nostalgia. Um formigamento estava me atingido outra vez, se ele estava me contando à história, significava que a mulher da foto era a verdadeira.
O que eu diria a Brandon?
— Porque foi embora? — perguntei cuidadosa.
Raymond acordou de seu momento, e ele se lembrou do que segurava, me entregando em seguida.
— Oh... eu estava tendo alguns problemas, achei que tivesse escapado deles, mas tinha muita gente querendo me matar. — respondeu, suspirando depois. — Preferi ir embora, voltar para o Texas, não queria arriscá-la. Cortei qualquer tipo de laço, e então... — ele parou; um olhar significativo sendo lançando a mim.
Fitei o chão brevemente.
— Certo, entendi.
— Quero que saiba que não vou me arrepender caso isso dê positivo, Brooke. — continuou. — Eu nunca pensei que teria filhos, mas... — um sorriso confortável estampou seu rosto. — É o melhor presente que sua mãe poderia ter deixado para mim.
Minhas bochechas esquentaram e eu desviei o olhar. Raymond tocou meu ombro, o afagando antes de se levantar.
— Justin não está por aqui? — perguntou. — Ele...
— Saiu. — respondi. — Não sei para onde foi, não me contou.
— Vocês estão bem?
— É, acho que sim. — encolhi os ombros.
— Bem, eu vou parar de tomar seu tempo. — eu me pronunciei.
— Podemos fazer isso amanhã. — sugeri. — Tenho que ir a uma consulta de qualquer jeito.
— Ah, claro. — sorriu um pouco confuso, talvez. — Como quiser, então... até mais. — acenou, balançando a cabeça antes de se virar.
Eu ainda estava sobre o sofá quando Raymond tocou a maçaneta da porta.
— Ray, espera. — me levantei, e andei até lá. — Fique com isso. — o entreguei a foto antiga.
Seus olhos se demoraram nela.
— Eu... não posso, Brooke. Isso é...
— Por favor, quero que fique. — insisti, empurrando de volta, e sorrindo de modo amigável. — Acho que pertence a você, de qualquer jeito.
Ele demorou um pouco, mas mostrou um sorriso fechado e sincero, assentindo antes de se aproximar e me dar um abraço, do qual fiquei surpresa.
— Obrigado. — disse, antes de ir.
***
Eu respirei fundo, deitada sobre aquela cama. A doutora havia acabado de espalhar um tipo de gel sobre minha barriga, e eu sabia que minhas mãos estavam geladas e trêmulas pela ansiedade que me cobriu.
Ou talvez eu estivesse com medo de fazer isso sozinha também.
— Então... nós podemos começar, certo? — perguntou a médica loira, se aproximando outra vez com um aparelhinho nas mãos. — Tem certeza que não prefere esperar o papai chegar? Isso é um momento bem importante.
— Ele... não vem. — contei. — O transito, ele não vai conseguir chegar a tempo, podemos prosseguir.
— Oh, tudo bem. — concordou. — Vamos lá.
Eu relaxei sobre o colchão, esse quarto era grande e particular. Estava usando o dinheiro para o melhor atendimento possível. Mas não era o suficiente para preencher a sensação ruim no meu peito agora.
Justin nem sequer estava no quarto essa manhã.
E eu achei que ele ligaria. Achei que estaria aqui comigo.
Meus olhos estavam vidrados na tela do monitor, mostrando algo embaçado que estivesse dentro de mim. Meu coração estava acelerado, e eu mordi o lábio, esperando pelo momento em que fosse vê-lo.
Estava bem ali.
Pude analisar seu pequeno corpo. Estava de costas para nós, e a médica chegou a brincar, dizendo que alguém estava fazendo charme. Houve um movimento, o aparelho deslizava sobre minha pele, e então, pude ver seu rostinho.
Seu nariz, sua boca, seus olhinhos fechados. Não estava formado completamente, mas toda aquela coisa em 3D nos dava a melhor visão possível. Suas mãos eram tão pequenas, seus bracinhos e pernas.
Eu soltei o ar, em meio a um sorriso que apareceu.
Acho que nunca fiquei tão feliz comigo mesma.
Virei meu rosto, encontrando Raymond ali, me acompanhando. Ele estava sorrindo também, me incentivando, e era um ótimo momento para chamá-lo de pai. Já que era a pura verdade.
— Isso é incrível... — sussurrei sem conseguir controlar a umidade a beira dos olhos.
O bebê estava se mexendo, estava bem, e crescendo com toda saúde dessa vez.
Uma coisa que nós dois fizemos.
Era surreal. Era a coisa mais linda que eu já tinha visto na vida.
***
Point Of View Justin Bieber
O sonho que eu estava tendo me parecia bom.
Ótimo na verdade.
Eu tinha certeza que estava roncando, de bruços naquela cama confortável da suíte. E então, como um atentado terrorista surpresa, um objeto foi jogado em cima de mim. O susto foi grande o suficiente para me fazer pular, tonto ao olhar pelo quarto, enxergando as coisas um tanto embaçadas.
Brooke estava ali, eu tinha certeza disso, pois eu ouvia a voz dela.
Me xingando de várias maneiras possíveis.
— Mas que porra... — senti outro impacto enquanto passava a mão pelo rosto. Dessa vez doeu, era um sapato. — Caralho, ficou louca? — exigi, escorregando para fora do colchão para me levantar.
— Eu não acredito que faltou, Justin, como pode, seu... — ela parou, afobada, me dando as costas, nervosa. — Argh! Por quê? — gritou, voltando para cá.
— Do que você tá falando? — eu ainda tinha os olhos estreitos pelo sono.
— Vai fingir que não sabe? Realmente? — sua voz ficava mais alta à medida que ela se aproximava, e eu me preparei para isso. — A que horas voltou para casa?
— Você estava dormindo. — murmurei.
— Oh, é mesmo? — rebateu. — Pois, não me lembro de te ver aqui essa manhã.
— Eu saí cedo para resolver umas coisas, Brooke. — estalei a língua, querendo ignorá-la ao me afastar. — Não me encha com isso.
— Seu filho da puta desgraçado. — rosnou; um segundo antes de me arremessar o outro pé de seu par de saltos.
— Brooke! — repreendi, enrugando as sobrancelhas. — Pare com isso, porra, qual é o seu problema?
— O meu problema? — ela estava um pouco ofegante agora, suas emoções vacilando diante de mim. — Você disse que iria. — sussurrou.
Eu vi seus olhos brilharem com o acúmulo de lágrimas.
Meu peito se apertou sem minha permissão.
— Eu não... — parei. Acho que estava errado.
Merda.
Ela desviou o olhar, comprimiu os lábios e passou por mim.
Segurei seu braço.
— Não. — pediu, afastando-se.
— Brooke, qual é.
— Você nunca vai mudar. — murmurou embargada.
— B, eu não quis... — bufei. — Merda, eu me esqueci, me desculpa.
— É a coisa mais... incrível que você pode imaginar. — secou as lágrimas. — E eu queria que visse, mas você só provou o quanto está forçando essa imagem ridícula. Você não se importa.
— É claro que me importo. — me defendi.
— Você sempre vai preferir a droga do seu orgulho! — me cortou ríspida. — Sempre, Justin.
E fungou, se virando em direção ao banheiro.
— Brooke, me perdoa. — eu estava indo atrás dela, eu sempre iria. — Por favor.
— Me deixe em paz. — forçou.
— Brooke... — eu a puxei para mim, e eu senti todas suas roupas por perto ao abraça-la. — Ei, ei... por favor, B. — pedi, na curva do seu pescoço.
— Eu odeio... — soluçou, baixo demais. — Eu odeio você, por tudo isso.
— Eu sei. — a apertei, respirando fundo. — Você é boa demais para mim, Brooke.
***
Nós tínhamos uma nova casa agora. Aquela mansão que antes pertencia a Chalard. Jean não se importou de ficarmos todos no grande lugar. Éramos quatro ao todo, e ainda sobrava espaço o suficiente para abrigar todos os meus amigos do Brooklyn.
Brooke e eu passamos a noite num lugar onde tinha uma bela vista para os montes ao longe, e um céu bonito estava acima, com muitas estrelas. Me lembro de ter comprado o melhor vinho para abrir com ela, e de receber o seu olhar confuso quando encontrou toda aquela arrumação sobre um tapete de camurça vermelho no quarto.
Eu não sabia ser um tipo romântico. Mas não era ignorante o bastante para não saber que garotas se derretiam com um jantar bem planejado.
Soube que ela havia me perdoado no momento em que pus um morango em sua boca. Depois de um beijo, e mais alguns pedidos da minha parte para que ela tentasse esquecer o pior.
Lembro-me também de termos ido ao hospital num dia. Eu acho que tinha ficado ansioso quando Brooke decidiu me contar e me mostrar às fotos. Aquele projeto de pessoa tinha mesmo saído do meu saco?
Era uma mini cópia minha, e eu podia imaginar quantos corações ele iria arruinar.
E por causa dele, tive péssimas noites.
A garota me acordou várias vezes, e eu sinceramente pensei em abrir um restaurante para que tivéssemos todo o tipo de comida que ela decidisse comer do nada.
E depois vieram os movimentos.
Nós não fazíamos sexo há um tempo, e porra, eu iria enjoar da minha mão.
Talvez Brooke devesse ter cortado meu pescoço quando me irritei por pouca coisa. Eu nem sequer dei atenção quando ela disse que sentiu o bebê mexer. Eu não conseguia imaginar aquilo, e eu acho que tinha um fetiche por grávidas agora, porque, mesmo com tudo aquilo... a garota me deixava louco.
Eu a roubei do próprio pai; queria sua atenção. Dividir a mesma casa talvez fosse dureza, mas eu sempre recorria a Raymond para uma conversa. Acho que aquele filho da puta estava tendo planos com Jean.
Um filme um tanto antigo passava na TV, eu mesmo tinha o escolhido; trazia o gueto musical do qual eu gostava.
Brooke estava sobre a cama, confortável sobre os travesseiros. Não vestia muita coisa, uma camisola curta demais. Tive que balançar a cabeça depois de vestir minha camiseta.
Eu pulei para a cama, e deitei a cabeça sobre sua barriga, devagar, mantendo meus olhos na televisão. Brooke estava tocando meu cabelo em seguida. Eu parecia um menino gostando das carícias, quase fechando meus olhos por isso.
E então aconteceu.
Um pequeno chute bem abaixo da minha nuca.
Foi quase imperceptível, mas ainda sim, eu me ergui para encontrar o olhar paralisado de Brooke. Ela entreabriu os lábios, sem saber ao certo o que dizer quando tocou a própria barriga. Eu segui seus movimentos, esperando por outro empurrão aparecendo ali.
Ela sorriu.
— Você sentiu? — sussurrou entusiasmada.
— Ele... — gesticulei, parando por um momento. — Ele... isso é... quer dizer, ual.
— Sinta. — pediu, puxando uma das minhas mãos para por abaixo da sua.
Meus olhos estavam atentos no local, e eu acho que estava assustado por aquilo. Também estava animado, de alguma maneira confusa, era como uma porra de ansiedade.
Até minha respiração estava devagar, como se estivesse tentando não fazer algo abrupto.
— Wou, mano. — arregalei os olhos, assim que algo se empurrou contra minha mão. Sorri, inevitavelmente. — Porra, você viu isso, Brooke? — me ajeitei, esperando por mais. — Caralho.
— É claro que vi. — ela riu para mim, talvez surpresa por meu estado. — É... incrível, não acha? — pediu, voltando o olhar para lá.
E então fiquei a encarando em silêncio.
Eu não precisava de mais nada. Tinha chegado ao auge da minha vida.
Me aproximei, apoiando uma das mãos no colchão ao me inclinar e tocar seu rosto para fazê-la olhar para mim. E então encostei nossos lábios, por um tempo demorado, do qual poderia me fazer continuar.
— Lembra-se de quando eu te disse que não queria me arrepender? — ri baixo, e desviei o olhar por um momento. — Estávamos em frente ao West.
— Lembro. — assentiu, sorrindo. — E...?
— E você cuidou disso, Brooke. — confessei.
— Isso é um agradecimento? — ergueu as sobrancelhas desenhadas. — Bem, de nada.
— Você pode fazer melhor. — sussurrei, e dessa vez, beijei seu pescoço. — Hm?
— Talvez...
Eu sorri.
— Obrigado.
E então nós fizemos aquilo de novo.
“Eu tenho meus olhos em você Você é tudo que eu vejo Eu quero seu amor quente e emoção Para sempre Eu não consigo te esquecer Você deixou sua marca em mim Eu quero o seu amor e emoção Para sempre Porque você é uma menina boa e você sabe disso Você age de modo diferente em torno de mim Porque você é uma menina boa e você sabe disso Eu sei exatamente o que você poderia ser Apenas espere, estamos indo para casa Apenas espere, estamos indo para casa É difícil fazer essas coisas sozinho Apenas espere, estamos indo para casa...” – Hold On, We're Going Home