Já se passaram dois dias e não terminei minha "lição de casa", mal consegui responder as perguntas: "o que eu estou fazendo aqui?" E "se eu estou feliz aqui?", como eu vou saber o que eu quero fazer? Eu não sei nem se vou sair daqui ... Eu não sei nem se eu quero sair daqui... é difícil admitir, mas eu gosto de ficar aqui, mesmo com o Daniel de babá, mesmo com os medicamentos, mesmo sabendo o que isso significa, eu me sinto muito mais leve dentro dessas paredes do que me sentia no meu apartamento, eu não sei se isso é só pela comodidade, se é o meu medo de encarar o mundo lá fora falando ou se realmente eu não vejo mais lugar pra mim no mundo lá fora. O que eu faria da minha vida se eu saísse daqui? O que tem lá fora para mim agora? Não fiquei muito mais tempo nesse dilema. Não chegaria muito longe pensando sozinho, eu não sabia como estavam as coisas lá fora, o que me levou a outro dilema: como estavam as coisas na minha casa? Eu não sabia nada sobre o que se passava por lá, eu não sabia como estavam meus pais, meu irmão, meus primos, já fazia tempo desde a última vez que alguém veio me ver, não havia me dado conta mas foi a primeira vez que eu fiz uma proeza e não ligaram pra minha família, bom eu acho que não ligaram, ou isso ou minha família desistiu oficialmente de mim, eu não sabia o que pensar sobre isso, quando o Daniel entrou no quarto me impedindo de continuar meus devaneios que provavelmente oscilariam entre autocritica e auto piedade.
“Como está o seu humor hoje?”
Foi engraçado ouvir isso, a única pessoa que me perguntava isso era o meu irmão, quando precisava de dinheiro. Achei a pergunta meio estranha vindo do Daniel, era a primeira vez que ele me perguntava algo do tipo, e pra ele o meu humor não importava muito, ele seria animado e falante não importa o quão emburrada minha cara estivesse, ele já sabia o meu humor depois de cinco minutos comigo não precisava perguntar e duvido que ele fosse me pedir dinheiro, mas achei que seria uma brincadeira válida .
"Depende, quanto você precisa?"
Ele ergueu as sobrancelhas, não entendeu minha resposta obviamente, era como eu respondia meu irmão, mas eu me sentia mais confortável respondendo dessa forma, era sarcástico, era uma piada, era familiar, era o que eu precisava.
"Como assim "quanto eu preciso"?"
" Meu irmão..."
"Seu irmão?"
"Ele me fazia a mesma pergunta quando precisava de dinheiro..."
"Ah isso faz muito sentido agora..."
Ele sorriu, deu uma risada leve e negou com a cabeça, antes de prosseguir
"Seu irmão está aqui, me pediu pra te perguntar isso antes de te avisar..."
Não pude evitar de sorrir, foi como se universo quisesse jogar na minha cara que eu tinha que parar de ser dramático.
"Pergunte pra ele quanto ele precisa"
Daniel saiu rindo, acho que foi falar com ele, fiquei imaginando o que seria, meu irmão nunca veio sozinho, por um momento eu temi que algo tivesse acontecido, mas logo desisti desse pensamento, se fosse algo ruim ele teria entrado direto e falando pelos cotovelos desesperado, como quando nosso pai foi internado para remover uma pedra do rim, ou quando a nossa mãe quebrou o braço, lembro bem que enquanto ele tagarelava desesperado, meu pai ou minha mãe tentavam sutilmente fazer ele calar a boca, com medo da minha reação, era até engraçado, eu gostava de como meu irmão se irritava com os meus pais depois, ele não gostava de ter que agir diferente ou me tratar diferente, para ele não importava o que eu tivesse feito, eu era o irmão dele e pra ele acabou, acho que por isso ele não gostava de vir com os meus pais.
Daniel voltou rindo acompanhado do meu irmão, a cena me pareceu muito surreal. Eu me levantei e passei as mãos nos cabelos numa tentativa de parecer menos com um maluco, mas não acho que tenha dado certo.
"Então, eu preciso de cinco mil reais..."
"CINCO MIL!? O QUE VOCÊ FEZ? COLOCOU FOGO NA CASA?
"Não mas acabei de ganhar cinco reais do seu enfermeiro!"
Meu irmão ria muito, e o Daniel olhava pra mim fingindo indignação, fiquei sem entender.
"Preciso de mais informações..."
"Apostei com o seu enfermeiro que fazia você começar a gritar em menos de cinco segundos..."
Daniel me olhou com uma cara engraçada
"Que decepção Wil... não achei que fosse cair nessa..."
"Em minha defesa, ele já fez isso antes, e ele estava falando sério!"
Apontei para o meu irmão que agora ria muito da cara de espanto do Daniel.
"É Daniel, não se deixe levar por esse rostinho bonito, esse moleque é um pesadelo!"
Nisso meu irmão se fez de ofendido e as provocações de seguiram por mais alguns minutos.
"Bom, vamos parar com isso, deixa eu apresentar vocês direito, Daniel esse é meu irmão mais novo Arthur, Arthur esse é o Daniel estagiário do meu psiquiatra, e está responsável por mim, ele não é enfermeiro, mas eu também achei que fosse quando conheci"
"Estagiário do seu psiquiatra? Achei que ele não pegasse estagiários..."
"Ele só pegou porquê eu concordei..."
Não devia ter dito isso, meu irmão com certeza faria algum comentário desnecessário, ele sabia que eu jamais concordaria com isso, não com facilidade, e como eu imaginava lá veio. Ele olhou para o Daniel de cima a baixo, depois olhou para mim, depois para ele, e ficou nisso até sorrir maliciosamente.
"Nossa Wil, está certo que o cara é gato e tals, mas você já foi bem mais sutil que isso..."
Pronto o estrago estava feito, eu fiquei vermelho, roxo, azul, verde, eu era um arco-íris de vergonha, meu deus meu irmão perdia todas as oportunidades de ficar quieto possíveis, eu queria estrangulá-lo com o lençol nesse exato momento, eu queria ser um avestruz para enfiar minha cabeça dentro da terra, eu nem sabia mais o que eu queria, tinha coisas que ninguém precisava saber, e minha orientação sexual estava no topo dessa lista, olha sou pansexual, apesar do meu irmão não saber a diferença dessa para as outras palavras que formam a sigla LGBT, não que ele se importe, minha família no geral nunca ligou desde que minhas nota fossem perfeitas, eu ganhasse os primeiros prêmios e enfim vida acadêmica e profissional impecáveis, não importava com quem eu estivesse dormindo, a pessoa só não podia usar drogas ou ser alcoólatra, de resto se eles se importavam fingiam não ver, não que eu saísse com muitas pessoas, a última vez que sai com alguém faz tanto tempo que eu devo ser virgem de novo, sou assumido, nunca tive problema em relação isso, mas eu realmente não queria que o cara que fica vinte e quatro horas comigo, descobrisse dessa forma, e provavelmente não entendendo nada. Eu respirei fundo umas dez vezes, percebi que Daniel estava se segurando pra não rir muito da minha cara, acho que traumatizei ele da última vez que ele riu.
" Primeiro ... - Eu estava travado, não conseguia articular uma frase descente – Primeiro você me respeita que eu sou mais velho, segundo quem ficou secando o menino foi você... talvez eu deva alertar sua namorada...
Arthur levantou as mãos como quem se rende
"Tá bem, tá bem, não está mais aqui quem falou, meu deu cadê seu senso de humor, eu vim aqui te ver todo feliz..."
Esse é meu irmão, chatinho, inconveniente, dramático, enfim tem como não amar essa pessoa?
"Mas sobre os cinco mil reais, eu estava falando sério..."
Apontei para as cadeiras perto da janela, Arthur entendeu o recado e foi se sentar. Daniel parou e ficou me olhando meio sem graça.
"Quer que eu deixe vocês a sós?"
"Não, senta ai, se eu estrangula-lo vou precisar de cumplice para sumir com o corpo..."
Daniel me olhou analisando o quanto eu estava brincando e o quanto eu estava falando sério.
"Ignore ele Dani, ele me ama, só nunca vai admitir isso!"
"Dani? Já viraram melhores amigos?"
"Claro, e se você for legal te convido para nossa festa do pijama!"
Eu não aguentei e comecei a rir, ele tinha razão, eu o amava. Depois de todos devidamente acomodado Arthur começou a falar.
"Então como você amavelmente se lembrou, eu tenho uma namorada, já fazem cinco anos que a gente namora..."
"E você precisa de cinco mil reais para?"
"Para terminar de pagar isso... e para o jantar..."
Ele tirou do bolso uma caixinha de veludo com um anel de noivado dentro, não pude deixar de sorrir, meu irmão vai se casar, meu irmãozinho, o garotinho que eu levava no parque na garupa da minha bicicleta, o garoto que tomou coca-cola com vinagre num jogo de verdade ou desafio e me fez ficar acordado a noite toda no pronto socorro, o garotinho que vinha dormir na minha cama quando assistia filmes de terror que eu disse para ele não assistir, que pegava minhas roupas sem permissão, que bateu meu carro no portão de casa, o irmão que me encontrou jogado no chão do apartamento na minha primeira proeza e salvou minha vida... Eu não sabia o que dizer, ele parecia tão feliz, não me lembrava da última vez que eu o vi sorrir desse jeito, eu fiquei tão feliz, comecei a chorar, não deu pra evitar...
"Cadê meu talão de cheques, Daniel pega o meu talão de cheques..."
"Onde está o seu talão?"
"Eu não sei você que bagunça tudo aqui!"
"Você quis dizer que eu arrumo toda a bagunça por aqui, né?!"
"Minha bagunça é organizada!"
Nisso eu já estava jogando tudo que estava no armário no chão, o Daniel esfregava o rosto frustrado olhando a zona que eu estava fazendo, meu irmão olhava meio rindo meio chorando a cena que se desenrolava, o mais engraçado foi que na minha euforia de jogar as coisas pra fora, achei meu talão, na verdade joguei ele na cabeça do Daniel... Ele pegou o talão, e ficou me encarando, ele claramente queria me fazer comer aquilo, ele respirou fundo umas três vezes, entregou o talão para o Arthur que logicamente perdeu a oportunidade de ficar quieto...
"Olha cara, pense pelo lado com, depois do Wil, qualquer paciente que você tiver que cuidar vai ser fichinha..."
Eu fiquei indignado, ele e o Daniel estavam rindo da minha cara, enquanto eu estava me matando para resolver um problema dele!
"Arthur... Corre! SÓ CORRE"
Eu não sei exatamente o que eu pretendia fazer, acho que só queria correr atrás dele, sei que acabamos correndo envolta do Daniel, que me segurou depois de umas três ou quatro voltas, no fim eu desabei no chão, meu irmão desabou no chão, e nós riamos mais que tudo, Daniel sentou entre a gente e ria bobamente da situação, tomei folego para me sentar também, Arthur permaneceu deitado, mas o ataque de riso deu uma trégua.
" Certo, me dá o talão, vou assinar algumas folhas , gaste o que precisar... Não acredito que você vai se casar!”
“ Se tá ligado que ela tem que dizer que sim primeiro, né?”
“Ela vai dizer que sim, eu estou assinado vários cheques pra garantir que isso, aconteça pode pagar uma viajem para Paris e pedir de baixo da Torre , quero ver ela ter coragem de dizer não!”
“Nossa Wil como você é romântico, seria lindo , se não fosse controlador e possessivo...”
Eu ri do comentário de Daniel, não queria dizer que ela tinha que dizer sim só porque eu gastei um monte dinheiro, mas meu irmão é um boboca apaixonado, que faz tudo pra ela, e Aurora e eu éramos amigos, do tipo que se planeja viagens, que se liga de madrugada pra contar um sonho louco, que entra no quarto sem bater e pega sua jaqueta favorita emprestada sem pedir, infelizmente não do tipo que se dá Alstroemerias, mas do tipo que você apresenta pro deu irmão e cruza os dedos pra dar certo... e do tipo que se tem piadas internas, e uma das minhas favoritas era que: não se recusa pedidos de casamento em Paris, lembro quando a Aurora ficou indignada com uma reportagem em que uma moça havia recusado o pedido perfeito em Paris, ela ficou uma semana falando nisso , aí fiz um pacto com ela que nos nunca recusaríamos um pedido em Paris, lógico que Arthur não sabe disso, mas isso não quer dizer que Eu não possa dar a ideia pra ele...
“Wil não precisa pagar uma viajem para Paris...”
“Precisa Sim, vai por mim, faça isso , por mim, o meu irmão não pode pedir minha única amiga em casamento de qualquer jeito, você vai para Paris, vai fazer um piquenique no Palácio de Versalhes, vai andar de barco no Rio Sena, e vai pedir ela em casamento em baixo .... Não melhor no topo da Torre, isso será perfeito! “
Daniel me olhava como se estivesse pensando seriamente em triplicar as doses dos meus remédios.
"Wil você sabe que seu irmão vai pedir a namorada dele em casamento e não você?"
"Daniel, primeiro eu tenho sérias dúvidas se alguém algum dia estaria tão bêbado ao ponto de me pedir em casamento, e segundo a namorada dele é o mais próximo que eu já tive de um melhor amigo... então é importante!"
Meu irmão me olhou atravessado, acho que ele só não me xingou porque eu estava assinando um talão inteiro de cheques.
"Você sabe que pra ela você é o melhor amigo dela, não sabe?"
"Eu sei..., mas não posso ser, melhores amigos mostram seu melhor e seu pior uns para os outros, e eu simplesmente não consigo deixar que ela veja o meu pior..."
"Ela está triste por não ver você"
"Não quero que ela me veja nesse estado, não queria que você me visse nesse estado!"
"Mas nós queremos ver você... foi a Aurora..."
Eu já imaginei o que ele queria dizer com isso, mas mesmo assim eu perguntei
"Foi a Aurora o que?"
"Que atendeu a ligação do hospital, tive que arrancar as chaves do carro da mão dela para ela não vir aqui correndo..."
"Contou para..."
"Não, não falei para os nossos pais, você não fica nem um pouco feliz quando eles vêm aqui por causa disso..."
"Fez bem, olha dessa vez eu juro, não foi consciente, eu tive um apagão, não sei o que aconteceu"
"Wil para. Eu não vim te julgar, talvez eu julgue a capacitação dos profissionais desse hospital, já que eles deviam prevenir esse tipo de coisa, mas fique sabendo que eu já estava me programando pra vir aqui falar do pedido, eu só adiei a visita pois você tinha que se recuperar, ninguém sabe que eu vim, aliás se eles perguntarem eu estava numa reunião"
"Primeiro obrigado por vir aqui, segundo não é culpa do hospital, terceiro ninguém vai perguntar para mim onde você estava, não faz sentido, pelo menos não agora..."
Meu irmão me olhou e sorriu, suspirou e finalmente fez a pergunta de um milhão.
"Se ela disser sim, você seria meu padrinho?"
"Se ela disser sim, eu banco até a dama das flores..."
Todos rimos, ele me abraçou e começou a chorar, droga não era para ele chorar, eu não sei lidar com gente chorando, eu olhei para o Daniel meio desesperado, ele riu da minha cara... eu vou jogar tudo pra fora do armário de novo só pra ele ter que arrumar, no meu momento de raiva do Daniel e de desespero eu acabei falando.
"Quando vocês voltarem, se ela disser sim, ela pode vir me ver..."
Meu irmão me olhou surpreso, pelo menos parou de chorar
"Sério?"
"Sério, se ela aceitar vai ser oficialmente minha irmã, e a Zoraide não deixa eu recusar visita de familiares..."
Ele riu bastante, depois rimos mais um pouco, ele pegou o talão de cheques que eu acabei assinando inteiro e se despediu, depois que ele foi embora, eu ainda estava anestesiado, meu irmão vai se casar, eu tenho que aguentar, não posso de jeito nenhum perder isso.













