louça suja
eu poderia escrever um poema sobre como meu término com fernando ainda me afeta mesmo após anos ou sobre como o menino que eu conheci no tinder semana passada usa meias legais ou até mesmo sobre as vezes em que eu jurei que não sairia com ninguém de novo, mas eu vou falar sobre liberdade
talvez você pense nisso como um desabafo, mas é como eu quero que você entenda, justamente porque é tem sido uma semana pesada e meu pulmão já tem pedido arrego graças às sete cartelas fumadas ao longo da mesma. uma por dia, às vezes uma em uma hora. cada tragada variava de acordo com meu nível de estresse - igual o meu humor
parte da seca que havia ocorrido no rio javés se instalou em mim, mas com o título de “cansaço”, porque eu queria chorar, eu juro que queria, e até conseguia, mas o cansaço cessava cada gota que poderia vir a escorrer em minha face porque o esforço para elas caírem, embora não fosse muito, doía
ontem a noite eu briguei com meu pai e há dois dias a pia está cheia de coisa: panelas, copos, pratos, vasilhas e talheres. todos implorando por uma mísera gota de detergente e dignidade. o fogão está com leite que derramaram porque colocaram para ferver e esqueceram de observar. o piso está inundado por óleo e a casa, você pode notar, está repleta de marcas de sapatos, pés e areia porque, para os homens da casa, a limpeza e a organização é algo difícil a se fazer
você ainda deve estar se perguntando o que o título tem a ver com o texto e o que liberdade tem a ver com isso tudo. certo? eu irei contar
desde os cinco eu fui criada por e com homens. eu, meu pai e meu irmão mais novo. desde os cinco eu esqueci o que era infância para tentar ser a mãe que a minha mãe não foi para mim e meu irmão, para que ele pudesse viver a infância dele como uma criança de verdade mas eu esqueci que eu era criança também e eu me esqueci que desde cedo eu aprendi que todas as fases da nossa vida são importantes, a infância principalmente, pois graças a ela adquirimos nosso senso de mundo, por assim dizer
isso me faz falta nos dias de hoje. eu não sei quem eu sou, o que eu sou e o que eu sei fazer, muito menos o que eu quero fazer
fui criada com base em situações machistas a ponto de aceitar, perturbadamente que, por eu ser mulher, é a minha função de obrigação deixar a casa limpa, a pia sem nenhuma louça, a roupa dobrada e a comida feita já tive ataques de pânico por ter passado um final de semana fora, tendo deixado a casa organizada e, ao voltar, a observar extremamente caótica eu me ajoelhei no chão, chorei por horas, horas, me agredi e me mutilei com mordidas até tudo passar e quando passou, para organizar cada centímetro da casa, eu fiquei três noites acordadas, sem pausa, arrumando o que pudesse arrumar
ontem eu briguei com meu pai e a pia está há dois dias cheia de louça suja, mas hoje isso não está me afetando. eu tô aprendendo a ter local de fala e aprendendo que eu ser mulher nunca significou ser capacho ou dona do lar
e eu sei que minha liberdade para a vida vai partir daí, pois ela sempre dependeu de mim e eu finalmente dei um pontapé












