Gosto de algumas coincidências. Acho que, quando nos vemos muito cercados de alguma informação repetida e aleatória, essa seja talvez um sinal de que a sincronicidade está conversando com o que a gente precisa parar e pensar nessa vida. E, sendo muito honesta, eu gosto até de achar que essa pode ser uma das grandes magias da vida real... coisa rara mesmo, mas que, pelo menos, me ocorre muitas vezes — o que não deixa de ser uma coisa rara.
E, nos últimos dias, um compilado de paridades dessas vem vindo me visitar, sempre com o mesmo assunto: a tal da busca pela felicidade.
O que tenho lido das pessoas, nos últimos dias, é muito sobre o quanto a maturidade delas — segundo elas — tem falado sobre uma felicidade mais simples, mais amena, mais com cara de café com bolo quentinho esperando alguém chegar. Algumas dessas confissões ainda complementavam sobre a importância de se ter tempo pra se doar dessa forma pros seus respectivos amores.
E só pra "amarrar" aqui toda a informação que colhi, o fato é que o que as pessoas estão o tempo todo querendo dizer é que o tempo e a maturidade servem justamente para que a gente chegue num determinado ponto da vida em que a gente veja felicidade nisso, nessas coisas amenas e quase sempre muito atreladas ao que a gente pode fazer para se doar pelo outro.
Não é querendo ser do contra, mas já sendo, eu venho pensando, nesses dias, sobre o quanto isso me soou um pouco triste, na verdade. É muito doido que a gente amadureça num mundo tão egoísta e tão leviano que faça a gente se cobrar todos os dias por todas as coisas que acha que ainda pode fazer para se doar pelo outro.
É triste que as pessoas não se sintam dignas mais de falar sobre a liberdade de serem quem são e de querer coisas grandes ainda, pra si mesmas, e sem saírem de cena com consciência pesada por não coroarem seu "personagem" com a coroa da empatia suprema que pensa logo no outro antes de olhar para si.
Achei isso triste por muitas razões diferentes, mas só para enfatizar aqui um contraponto entre duas delas: eu acho muito triste tanto por aquele que guarda um sentimento real de liberdade em si, mascarando todos os dias a sua vontade por trás dessa empatia social, quanto também por aquele que, de tanto se cobrar, quase não pensa mais sobre os próprios sonhos.
E não estou aqui para diminuir esses pequenos prazeres. Muito pelo contrário. Acho sim que, nos momentos mais simples e com quem a gente ama, a felicidade parece andar sempre mais perto. E, na realidade, a vida é mais ou menos parecida mesmo com isso, né? Uma corrida em busca do que a gente acredita ser felicidade. E, sim, acho que, ao longo do tempo, esse "acreditar" se parece com muita coisa diferente.
Eu entendo que a palavra liberdade tenha uma cara mais jovem, uma cara de adolescência, na verdade.
Um adolescente vivaz, que diz não temer nada, que se aventura sem medo de cair, que não teme errar e precisar começar tudo de novo, e que se enfia em furadas com a ousadia de quem sabe muito bem o que está fazendo — mesmo quando não sabe nada
Isso bota medo em gente adulta; uma gente que já quebrou a cara demais, que já se envolveu em coisas sem sentido e sem propósito, que decepcionou horrores, e que agora só chegou à conclusão de que precisa desesperadamente encontrar a tal estabilidade. E acreditar piamente que ela é quem vai te fazer feliz do alto dos seus quase trinta anos até o fim dos seus dias.
Uma coisa mais sossegada, que talvez até possa ter menos possibilidades visíveis, mas que está sempre ali, no mesmo lugar, todos os dias. Você só precisa puxar a mesma gaveta, no mesmo armário, e pronto: ela está ali, guardadinha, no mesmo lugar de sempre.
Acho que a gente vai se acostumando um pouco com essa coisa estável. E é interessante que a gente chegue a esse ápice justamente na parte adulta da vida em que, teoricamente, a gente está mais cheio das habilidades e experiências que herdamos das nossas vivências antigas.
Acho que, socialmente falando, nós, à beira dos 30, vemos o mundo chegar junto nessa fase em que a gente se convence da estabilidade como felicidade, do sossego como o suprassumo das nossas vontades mais certeiras. A gente está cansado, a essa altura do campeonato, fato. Ninguém está querendo saber mais de correr nem de pensar em sonhos complexos demais, tais como, por exemplo, olhar pra dentro de si e pensar: o que é que TE falta pra se sentir realmente e plenamente feliz? Sem bagagem social, sem o fardo dessa personalidade madura e preocupada em ser admirada por essa maturidade constante.
Sei lá, sabe? Quantos sonhos malucos a gente deixa em stand-by só porque está cansado? Quanta felicidade a gente deixa perdida, só rasurada em um papel qualquer, perdido em algum lugar, só porque, do nada, chegou a hora de ter sonhos mais engravatados, mais parecidos com os que gente grande tem?
Eu acho que penso muito sobre isso. E venho pensando cada vez mais. E venho vendo isso cada vez mais latente em todos os lados por onde passo e vejo.
Não é como se eu não visse beleza nos sonhos maduros das pessoas, não. Eu até vejo, eu só não me acho senhora da razão em dizer que a busca da felicidade é só sobre essas coisas. Nem muito menos que a maturidade seja só se contentar com isso de não se atrever mais e sempre em prol do outro.
E digo isso porque, não fosse isso, talvez a gente não escutasse tanta gente bem mais velha arrependida de ter parado de correr por essa liberdade que sempre quis ter um dia. Tanta gente que depois de atingir a famigerada estabilidade, ainda sente as pontadas de uma coragem súbita incomodando de vez em quando, como se estivessem presas em algum lugar escondido dentro delas. Tantas vontades guardadas na gaveta da mesmice para só serem pensadas de novo lá na frente, quando realmente não se há nem mais força física nem para tentar voltar a correr atrás do prejuízo.
Acho que é um acordo social que a gente marque de se deixar de lado em um determinado ponto da vida, sabe? E que a gente vá se acostumando a essa coisa de querer sempre o mais estável, o mais fixo, porque isso tem cara de gente grande.
Não que essas coisas não sejam importantes para mim, mas eu realmente tenho desejado outras coisas simples ultimamente. Coisas que até se parecem com um café quentinho pela tarde, mas que também não deixem de considerar novos riscos, erros próprios e algumas insanidades, se forem possíveis, por favor.
Tenho pensado sobre em mim ainda morar uma adolescente que não quero deixar ir embora e, sendo honesta, acho que esse seja talvez o meu maior privilégio.
Eu ainda quero a quebra de rotina. Na verdade, ainda odeio a rotina. Talvez até mais do que quando era adolescente. Eu gosto é do inesperado. Ainda quero viver paixões escondidas por detrás das frestas das portas e cometer atos impensados, disposta a sofrer as consequências mais tarde.
Quero o fim de tarde tranquilo, mas na mesma proporção ainda quero me aventurar pela noite e considerar um happy hour na mesa de um boteco quase tão eficaz para a saúde quanto dizem que é levantar às cinco da manhã para ir à academia.
Quero sim considerar grandes felicidades coletivas, mas sem nunca me esquecer de devanear sozinha.
E, novamente, sendo sincera, eu acho que não tenho uma visão de felicidade muito pronta por agora. Mas sei que, se tem uma coisa que a minha felicidade não é nem se parece, essa coisa é estável. Nem imóvel. Minha felicidade ainda corre, mesmo eu sendo sedentária.
Gosto das minhas incertezas, gosto de não saber o que estou de fato procurando. Minhas responsabilidades já me cercam o bastante; eu gosto de ainda conseguir querer o avesso delas.
Eu me sinto viva, inconstante, mutável e ainda muito, muito nova para delimitar realizações que me preencham agora. Por ora, eu ainda gosto de esbarrar nas coisas leves e livres. Nada de âncoras, nem amarras. Estou caminhando no meu passo, sem destino certo, sem checklist.
Peço desculpas à vida se estiver parecendo visceral demais, sonhadora demais, fora de órbita, tão fora de hora, mas é que eu ainda gosto dessa coisa em mim que ainda pensa em mim e não se acha, mas se encontra com frequência. Essa coisa intensa e latente. E grande e invasiva, mas que sempre ainda me convida para dançar na minha própria cabeça enquanto rubrico as coisas importantes do trabalho, mas sempre pensando no que ainda posso querer por mim.
Essa coisa tão sem nome, tão sem forma, mas que, por serem sem forma, ganham sempre a minha forma. Essa coisa colorida em tons muito vivos e muito claros, nada pastel, nada bege, nada monocromático.
Ainda gosto das coisas leves e aeradas, não dispenso um chá de hortelã, mas ainda prefiro as coisas quentes. As cores quentes. Os sonhos fervendo.
Quase tudo em mim é quente e fogo, latino-americana principalmente na minha forma de sentir. E eu gosto de sentir que a minha potência é assim:
Ainda que leve e fluida, principalmente quente e borbulhante. Um pouco ácida às vezes, mas que ainda acredita nesse doce veneno que a vida ainda pode ser.