Pensamentos de um Defunto Invisível.
Eu morrerei em breve. Sozinho em uma casa que não é minha. Nunca tendo cumprido os sonhos cuja esperança eu depositava para o meu futuro. E ainda por cima, por algo que eu não consigo nem ver ou sentir. A última coisa que farei, de fato, é escrever esse relato. Se é que o terminarei antes daquilo me alcançar, onde quer que esteja neste momento.
Então, criatura vil. Se lês meu relato após a minha morte, e se rastejas pelo teto como uma aranha doméstica, se espreitas pelas sombras como um ladrão qualquer, quero apenas descrever como eu encontrei o meu fim precoce, irônico e cruel.
Muitos começam tais relatos, que provavelmente seriam cartas de despedida para familiares onde os covardes colocam palavras de arrependimento e desejos ilusórios, com o seu nome. Não vejo utilidade em colocar aqui o meu nome, como se esta história fosse minha. Talvez ela seja parte da minha história de fato, especialmente pelo fato de que a minha história acaba aqui. E talvez, este pedaço final da minha vida faça parte desta história como um todo, mas eu sei, que este pedaço é apenas uma parte de uma narrativa maior que começou antes de mim e terminará, se terminar, após o meu oblívio. Sei também, que não sou protagonista ou herói, não me vejo Aquiles, mas também não sou narrador trágico e pessimista como Brás Cubas. Sou aquele que aceitou o destino da coadjuvação, à mera sombra de uma história, aceitei a minha invisibilidade quanto aos fatos maiores que eu. Se talvez existir um protagonista neste conto, dedico toda a minha indicação para a criatura que abrirá minhas entranhas e arrancará minha traqueia. Pois ela que se deitará sob o meu corpo frio e dilacerado, se esbanjará sobre os meus órgãos estripados e comerá a minha carne póstuma. Mas caso seja demais dar o papel principal ao meu assassino cruel, dê-o à mosca na parede que observa meu trágico fim, à dê este papel de protagonista como um observador, como um Watson, exceto que talvez, não me veja como Sherlock. Aceito a invisibilidade de braços abertos e com isso, já ficou mais que claro que a morte não é nem tentadora ou temerosa, é apenas questão do tempo de ceder à sua vontade, pois no momento que eu avançar para aquela porta, eu serei um homem morto.
Ainda sim, devo contar parte da minha história afim deste pedaço de conto fazer sentido, afinal de contas, é à partir das palavras deste homem morto e autor defunto que você entenderá o horror em que me encontro. Para isto, não preciso contar da minha invisibilidade ao mundo, não preciso contar que sou um homem pequeno que carregava consigo grandes ambições, pois somente nestes momentos e soturna reflexão percebi o quanto estas ambições são tão invisíveis quanto o meu próprio ser. Andei por ruas da vida atrás das lentes de uma câmara fotográfica, onde todos viam as minhas fotos mas nunca os olhos que viam a paisagem. Eu nunca fui um homem, fui apenas um fotógrafo e os meus sonhos morrem comigo, dilacerados nesta poça de sangue que já enxergo sem precisar vê-la de perto. E apesar de saber que em breve estarei em dor excruciante, o meu peito já dói ao sangrar sonhos e necrosar esperanças, minha determinação está toda dedicada à estas palavras e à situação em que me encontro agora, pois foi por conta da minha máquina fotográfica que eu vim parar nesta velha casa onde me encontro atualmente.
Fui pago para um serviço: fotografar esta velha casa abandonada cujo velho dono tinha morrido dentro dela, velho e esquecido. Ninguém soube o nome dele, exceto talvez, aqueles cujos documentos empoeirados decoravam a mesa, pessoas como eu, estes nomes não importavam. O velho morreu no sono, segundo disseram, vivendo sozinho, não foi encontrado mesmo depois do corpo passar dias apodrecendo, e sem família para reivindicar, o funeral se deu sem visitantes. O homem morreu como eu vivi, invisível.
Fui até a casa nesta mesma noite em que escrevo, ainda chove lá fora através destas janelas de vidro e venezianas de seda tão fina que jamais poderei chamar de minha. Gosto de fazer meus serviços no cair da tarde, pois posso caminhar pelas ruas à noite apreciando o céu noturno. Onde poucas pessoas caminham nas ruas e ocupam tal espaço. Enquanto escrevo este relato, o sol nasce. Irônico, pois o sol nasce e eu morro.
Enquanto fotografava o quarto do falecido, eu fotografei as paisagens das paredes abandonadas, do velho assoalho de madeira preservado, dos móveis sujos de poeira e esperanças mortas, dos candelabros que penduravam velas e sonhos suicidados, e é claro, da velha cama onde jazia o fim da felicidade. O último descanso do velho, o túmulo de seda e solidão no qual ele se envolvia em seu último descanso e suspiro. Naquele momento, enquanto apertava o botão da minha máquina fotográfica eu refletia: qual teria sido os últimos pensamentos daquele velho solitário e invisível ao mundo? Eu não tinha refletido antes o motivo da minha pergunta, talvez fosse curiosidade de estar em um local agourado por uma morte tão trágica e pesarosa, talvez fosse por vontade de não querer morrer dessa forma ou talvez fosse por que eu já sabia que esta seria exatamente a forma que eu iria falecer, e queria saber se os pensamentos dele seriam os mesmos que os meus. O flash da foto disparou e iluminou a cama, se juntando à iluminação das luzes próprias do quarto, eu baixei minha câmara e voltei ao meu trabalho. Minutos depois, quando eu terminei de fotografar o quarto por completo e cada detalhe necessário, eu voltei para o velho hábito de verificar cada foto e a sua qualidade, excluir as excedentes e seguir em frente para o próximo cômodo. Foi quando eu vi, a criatura vil que agora me persegue.
Debruçada sob a cama, repousada em um túmulo de seda e solidão, lá estava ela em toda a sua glória putrefata e descarnada. Tinha um semblante humanoide pois tinha braços e pernas como eu, mas não tinha sequer um pelo no corpo, e pior, sua pele parecia completamente arrancada. Era como se saído diretamente de um pesadelo. A coisa parecia coberta de espaços onde cabiam olhos mas ela não tinha nenhum. Todo o seu braço e pernas eram repletos de buracos vazios como o próprio abismo infinito do inferno. Cada pedaço daquela criatura era coberta de morte e solidão, e é claro, de desespero. Ela parecia um dos demônios escapados de Hades, um ser imundo cuja aparência se fora para sempre. A própria visão daquilo me fez vomitar e o meu estômago revirar, o choque me paralisou por minutos e eu não acreditei no que estava vendo através das lentes de minha máquina que nunca me mentiu, porém, quando eu olhava para cima, tremendo de medo, eu não via nada deitado sob a cama.
Naquele momento, questionei minha sanidade, mas sempre que voltava o meu olhar para aquela foto macabra, eu via a coisa e criei um nojo e terror sempre que via o seu semblante. Tão horrendo e pulsante que parecia que tinha um aspecto diferente sempre que eu observava, como se aquelas cavidades oculares vazias estivessem se deslocando pela sua carne deformada. Uma pessoa de consciência ou aterrorizada provavelmente teria corrido imediatamente dali, mas quem sabe isso só ocasionasse minha morte precoce, porém, eu pensei. Eu passei horas nesta casa, minutos neste quarto e nada aconteceu comigo. Talvez, deformada como estava, a coisa estivesse morta. Então eu decidi tirar outra foto para analisá-la melhor e para garantir que eu não estava completamente louco, desta vez, por outros ângulos. E sem surpresas, não importava o ângulo que eu batia as fotos, a criatura continuava ali, deitada em seu sono sepulcral. Eu não sabia se ela respirava, afinal, era uma imagem estática desprovida de movimentos, exceto talvez, por aqueles que o meu cérebro horrorizado inventava. E nem sabia se estava completamente morta, ou se eu poderia despertar o seu sono com as minhas constantes e metidas investigações fotográficas.
Foi então que, lentamente, eu decidi sair do quarto e me coloquei do lado de fora daquele cômodo onde respirei leve pela primeira vez sem perceber que haviam passado horas. Eu não me atrevia à olhar para as fotos mais uma vez, pois elas me causavam uma aversão que eu seria incapaz de descrever aqui. E sentado, encostado com as costas na porta do quarto, eu suava frio e chorava de desespero, realizando, não importava o que eu pensasse, que aquilo era real e que eu estava vivendo um verdadeiro horror. Aquela criatura, invisível aos olhos humanos, provavelmente vibrava em condições que apenas a lente fotográfica conseguia captar. Eu até poderia fazer o teste para descobrir se era sólido, mas eu não tinha a coragem para tentar encostar naquilo jamais. Os vários ângulos mostravam que aquela coisa realmente estava lá e que não fora alguma falha macabra da câmera fotográfica. Todos os sons me assustavam durante aquelas reflexões. O som do vento batendo fraco contra a janela, dos gatos miando do lado de fora e dos cachorros latindo. Foi então que eu comecei à pensar no que poderia acontecer comigo se aquilo despertasse, afinal, tinha garras que pareciam dilacerar concreto e bocarras com dentes afiados que destruiriam meu crânio em segundos, era aterrorizante, uma verdadeira fera horripilante, um diabo bizarro e deformado. Eu morreria sozinho, por que afinal, não tinha ninguém. Sem uma família que sentiria minha falta, eu jantava sozinho todas as noites. Sem amigos que notariam minha ausência, tinha apenas colegas que não sabiam o meu nome. E ainda por cima, nem sequer a empresa que tinha me contratado esperava receber qualquer notícia de mim em dias, eu estava verdadeiramente isolado da existência. Pela primeira vez na minha vida, eu me senti verdadeiramente invisível e aquilo me causou um medo descomunal e irrefreável que apenas foi cessado pelo som do assoalho rangendo levemente.
Eu sobressaltei, poderia ser a minha paranoia novamente, mas o som tinha vindo de dentro do maldito quarto. Engoli em seco, precisava saber. Abri a porta e nada vi. Segurei minha câmera tremendo e suando, lágrimas escorriam pelo meu rosto quando o flash iluminou a sala, eu esperei o golpe mas nada veio. Por que quando eu olhei para a foto que tinha batido, não havia mais nada na cama. Eu poderia ter reagido com alívio, pois teoricamente, a criatura teria ido embora ou nunca existido. Ao menos, morreria tendo um momento de paz. Mas isso não aconteceu pois a minha paranoia só pensava em uma coisa: Onde ela está agora?
E é desta situação que escrevo o meu relato. Vejo, do outro lado desta última sala, a porta que me separa da liberdade. Vejo o sol nascer mas sem esperanças de ver o dia que ele acompanha, porém, eu preciso tentar. E com ele vãs promessas que farão eu me mover novamente. Pois até mesmo os meus pés dormentes precisam de motivação.
Não quero morrer invisível ou sozinho. Não quero ter pensamentos de arrependimento. Se eu escapar por aquela porta viverei pela primeira vez e farei valer a pena. A criatura invisível não me perseguirá pois eu fugirei o mais rápido que puder, desta minha velha vida em direção à uma nova.
Se eu fugir, terminarei este relato com um último parágrafo de como esta experiência me fez viver de verdade e buscar a verdadeira visibilidade no mundo e não morrerei em frio chão ou vento soturno.
Seriam estes os pensamentos de um defunto invisível prestes à morrer? Pois muito bem, à porta.













