Você me pediu uma carta em forma de despedida. Algo para você ler as vezes, algo que te fizesse lembrar que apesar de todos os erros e acertos coexistimos ao mesmo tempo na mesma galáxia e no mesmo espaço tempo, que chegamos a existir e conciliamos nossas vidas. Algo para te lembrar que apesar de tudo o que aconteceu, de tudo que possa ter me magoado e te magoado nossas Almas foram ligadas de forma definitiva pelo resto de nossas vidas.
Eu não sei direito como começar isso ou quais palavras usar você sabe nunca fui boa com despedidas porque despedidas acarretam o fim e finais me assustam, principalmente a ideia de um final definitivo para nós.
Você foi, antes mesmo de ser meu namorado, meu amigo, companheiro e cuidou de mim como ninguém nunca havia feito. Você me apoiou e esteve lá quando mais precisei e você pode ter errado, mas nenhum erro apaga isso.
Desde o momento em que você foi embora eu quis desesperadamente te ligar e te contar o estrago que tua ausência me causou. Eu quis te puxar para perto tantas vezes. Quis pedir para esquecer aquelas palavras feias e ofensas que disparamos um contra o outro que doeram muito mais do que mil tiros doeriam e retomar de onde paramos. Quis correr até sua casa numa noite de chuva como hoje e declarar para quem quisesse ouvir que só não te perdoava porque nunca tinha te condenado. Te dizer que você nunca precisou do meu perdão.
Perdi as contas de quantas vezes te vi em alguém que não era você e esperei desesperadamente que fosse, nem que eu tivesse que correr de medo quando nossos olhares se cruzassem pois não aguentaria te olhar e perceber que jamais iria ser você. Perdi também as contas de em quantas noites de bebedeira eu pensei em te ligar para falar que a cerveja é levemente amarga, mas eu bebo e gosto da sensação de leveza que ela traz. Quis te contar que quando minha fala fica rápida e vou me consumindo pela embriaguez é você que me vem a mente. São as palavras pronunciadas pela sua língua e a sonoridade da sua voz grave e rouca que me fazem sentir aquecida, me atravessam e me acertam em cheio.
Agora escrevendo lembrei da festa do Edu, de estar braba com você, você gritando para eu sair da chuva e eu batendo o pé que não, "não saio da chuva nem que você venha me buscar" e você foi, como num clichê um pouco mais bruto, me jogou nos ombros e me levou pra debaixo do telhado da garagem e me abraçou, sua pele quente me causou arrepio que percorreu todo o meu corpo e se findou quando ouvi sua voz no meu ouvido dizendo que eu estava linda, admito hoje que toda aquela produção era sim para você, para te ver e esperar causar alguma reação, o que eu não esperava é que quem iria tremer os joelhos na primeira troca de olhares era eu, não lembro o motivo da nossa briga, mas lembro a exata sensação do seu toque quando sem jeito pediu desculpas. Nós nunca pedíamos desculpas, lembra? Nós deixávamos passar e fingíamos que nada tinha acontecido e quando víamos estávamos rindo da situação, tão naturalmente que parecíamos não precisar pedir desculpas.
E só eu sei o quanto foi difícil explicar para minha família inteira o porque de não estarmos juntos sem te tornar o vilão da história, -sem falar dela, da traição e do bebê- pelo simples fato de eu não suportar a ideia de ver alguém te odiando, você não merece ódio algum independente do que te falem, consegue enxergar isso?
E hoje escrevendo sua despedida me encontro desolada ao perceber que tenho sim milhões de coisas para te dizer como agradecer pelo amor, pela calma e pela companhia, gritar pelas lágrimas que você me fez derrubar, declarar os danos causados e querer exigir de volta todo o tempo e sanidade mental que você me custou mas nada vem a mente além do vazio que você deixou. Me sinto sem mágoas, mas também sem amor, percebo que, desde sua partida todas as bocas e toques que encostaram em mim não passaram de distração. É como na musica que escutamos no seu carro as quatro da manhã voltando da praia -e que você jurou que lembrava de mim toda vez que escutava, mesmo eu duvidando e fazendo piada-, "depois de você, os outros são os outros e só".
Queria te dizer que eu lembro de todos os momentos em que fui tua, em que me vi entregue a nós, em que estive em suas mãos. Lembro como seu abraço me trouxe conforto, das noites acordados e daquelas que dormimos e seu sono inquieto me acordou, lembro de te ouvir sussurrar meu nome enquanto dormia e me fazer sorrir boba por isso, lembro de como você me abraçava nas crises de ansiedade e me fazia esquecer delas, dos dias de saudade e da ansiedade ao contar as horas que faltavam para te ver, lembro de quando sua irmã nos pegou na piscina aQuElA vez, lembro de cheiro do seu perfume, do cheiro do seu suor, do seu corpo junto ao meu e do seu toque. Lembro dos nossos beijos demorados e de como podia ver seu sorriso mesmo de olhos fechados. Lembro de acordar com seu riso pelas piadas já conhecidas de Friends e rir junto antes mesmo de abrir meus olhos. Lembro da sua reação ao ler minha saga favorita desesperado se perguntando se o Jace realmente tinha morrido. Lembro de recitar Caio Fernando para você e você responder a altura com Bukowski na ponta da língua. Lembro das brigas pelas camisetas que eu insistia em usar e levar para casa. Lembro de quando me dei conta que era sua e que dentro de mim havia mais você do que qualquer outra coisa. Dentro de mim havia amor. Havia você. Hoje, lembro de tudo e lamento por não ter dito metade de todas essas coisas para você. Me pergunto se eu tivesse dito seria diferente? Se você não ficaria com ela e eu seria capaz de te manter aqui por mais um tempo, o suficiente para dizer a outra metade e declarar aquilo que você ouviu por trás da porta, que não acredito em amor da vida, mas se isso existisse, você facilmente seria o meu, porque nunca imaginei um futuro longínquo com alguém como imaginei com você
E apesar de tudo o que foi declarado aqui, da forma mais confusa desse mundo mas também da mais sincera que meu coração, em ferida já não tão aberta e quase cicatrizada, conseguiu expressar, hoje eu te amo, sinto sua falta, te perdoo por qualquer erro e espero que me perdoe pelos meus também, mas não te quero de volta. Te quero perto, mas não tão perto. Quero sair, me encontrar e espero que você também se encontre, quero que seja feliz, quero que meu coração possa bater normalmente ao estar perto de ti, sem esse fardo de nós com que bate hoje, quero me libertar, lembrar teu cheiro e teu gosto sabendo que existem milhões de cheiros e gostos para serem descobertos, que você foi meu poema favorito, eu te li por muito tempo mas agora precisamos mudar os gêneros e fazer moradia em novas rimas, estrofes e palavras.
Eu nunca amei ninguém do modo como eu te amei, Du, mas hoje preciso me amar mais que isso.