Explodi em mil pedaços; os estilhaços foram para todos os lados, acertando portas, pessoas e o chão. Comecei a tremer. Sei que meu corpo, em desespero, estava se preparando para rachar a casca dissimulada de "está tudo bem!" Os farelos foram se espalhando pelo ar até cair sutilmente no chão. E, aos berros, gritos que até então estavam contidos, fui explodindo. A voz foi aumentando em frações de segundos, o que antes seria apenas desprezo. Foi terra para todos os lados; embaixo dos meus pés, um buraco fundo e com foligem.
A energia mecânica utilizada foi o cotidiano. Fui amontoando diariamente os problemas simulados, inventados por outrem, que me cabia embarcar neste processo. Tudo foi aceito por amor aos meus ideais, e esse foi o contragosto: me transformar em um catalisador. E, na falha, quando despressurizaram, o descanso deu uma brecha; tudo o que estava contido decidiu, de forma brutal, sair sem avisar, não mostrou sinais de fumaça. E quando aquele objeto do meu maior desprezo se materializou, vomitando seus dejetos, não segurei o "está tudo bem!"
Em um choro contido, mantive a minha dignidade; não iria dar o sabor de demonstrar mais um sentimento para aquele algoz.
Me estremeço ao saber o que posso ser, os destroços em que posso me fazer. Fico exausto, fadigado, estático, mas, mesmo assim, teria dito mais, explodido mais.