André olhou de novo para o relógio no canto do monitor. Estava atrasado há vinte minutos para o clube de leitura, que acontecia há pelo menos uma hora de viagem. Suspirou resignado e voltou a dar sua atenção às planilhas que precisaria para amanhã, se perguntando se as horas extras compensavam os sacrifícios.
Já era sete da noite e o escritório quase vazio há pelo menos meia hora. Alguns cubículos à frente uma luz acesa indicava que havia mais alguém atormentado com um prazo estourado. Tentou se lembrar quem ficava naquele cubículo, mas não conseguiu. Eram pelo menos sessenta funcionários no andar, cada um em seu cubículo. Balançou a cabeça e voltou às planilhas.
Às sete e quarenta finalmente salvou o arquivo e desligou o computador. Iam reparar, sabia, atrapalharia sua carreira, deixou de arrumar a mesa. Apenas pegou a pasta e caminhou para a saída. Sempre reparam nos erros, sejam quais forem, pensou desanimado ao passar pelo cubículo com a luz acesa. Júlia estava lá, digitando furiosamente alguma coisa, provavelmente um relatório. Lembrou da filha pequena dela que de vez em quando aparecia no escritório e sentiu uma súbita pena.
“Se quiser, te ajudo com isso.”
“Não precisa, estou acabando.” ela respondeu sem tirar os olhos do monitor. A mesa tomada por relatórios abertos a contradizia. Ela parecia estar no meio de uma compilação de dados. Talvez ainda tivesse que estudar esta compilação e traçar uma estratégia.
“É sério Júlia. Já perdi o programa de hoje a noite. Não é problema ficar um pouco mais e te ajudar.”
Ela parou de digitar e olhou para ele. Parecia intrigada com alguma coisa. Sem dizer uma palavra bloqueou a tela do computador e se levantou.
“Eu já acabei. Podemos ir.” disse e se levantou sem pegar uma bolsa ou algo do tipo. Caminharam em silêncio até o elevador e começaram a descer rumo à garagem.
“No que você estava trabalhando?” ele perguntou perto do 20º andar.
“Nada que mereça atenção. E você?”
“Uma análise de tempo de resposta dos fornecedores.Querem otimizar as compras.”
“E onde você ia?”
“Um clube de leitura. Íamos discutir Shaw.”
“Bem, André, se você gosta de Shaw não vai se importar de me acompanhar a um lugar esta noite.” ela disse sem olhar para ele enquanto a porta do elevador se abria. “Os Homens e as Armas começa às onze e eu tenho uma entrada sobrando.”
“Muito tarde. Tenho uma apresentação às sete amanhã.”
“Eu sei. Eu também tenho, mas essa montagem é imperdível.”
“Vou pensar, qualquer coisa te ligo até as nove.” André recusou educadamente enquanto abria a porta do carro. “Até mais.”
“Até mais.”
Assim que chegou em casa jogou a pasta em um canto, perto do cabide onde pendurou o blazer. Ligou a TV no canal de notícias foi para a cozinha pegar alguma coisa para mordiscar enquanto não se decidia se pedia uma pizza ou um sanduíche. Com certeza não ia cozinhar. Uma imagem de helicóptero mostrava um prédio em chamas no centro da cidade. O reconheceu imediatamente. O locutor narrava “...há poucos minutos uma explosão destruiu completamente o trigésimo andar e as chamas ainda estão fora de controle...” seu celular tocou dentro do bolso do blazer. Meio aturdido foi pegá-lo enquanto ouvia o resto da notícia.
“Aparentemente o prédio estava vazio, exceto pelos...”
“Alô?”
“...o sistema anti incêndio não...”
“Só para ter certeza que você não tinha voltado lá por algum motivo.”
“...várias empresas foram afetadas pelo incêndio...”
“Que bom que você também não voltou.”
“...Industrial foi completamente destruído.”
“Acho que não temos mais apresentações amanhã.”
“...a possibilidade de origem criminosa...”
“Você está pensando em ir ao teatro?”
“...contratos com as forças armadas...”
“Por dez minutos eu não morri queimada, então gostaria de comemorar essa sorte.”
“...Você que ligou agora...”
“É... eu vou. Qual o endereço?”
“...estamos ao vivo...”