A relação do negro com os meios de comunicação na era digital.
O Brasil é o país que possui a segunda maior população negra do mundo, perdendo apenas para Nigéria. Os negros equivalem a 54% dos brasileiros, mas mesmo assim o país ainda sofre com o racismo. Entrar em uma loja, dirigir o próprio carro, andar na orla, esquecer os documentos, expressar sua religião, usar um penteado diferente são atitudes cotidianas, mas para a população negra pode ser motivo de olhares desconfiados e abordagens impróprias.
Pelo menos uma vez na vida algum negro passou por situações constrangedoras por causa de sua cor. Se um homem branco está dirigindo um carro importado não existem questionamentos sobre a procedência do carro, mas em uma mesma situação, um homem negro pode ser confundido com um empregado ou com um ladrão. Essas situações nos mostram como o Brasil tem enraizado um preconceito por pessoas de cor. Mesmo sendo considerado um país miscigenado, é possível perceber que o racismo ainda se encontra presente todos os dias, seja de forma velada ou explícita, mas muitos dos casos não são denunciados por medo ou vergonha, criando um clima de impunidade.
O Racismo e a Injúria Racial são considerados crimes no Brasil, e muitos acreditam que eles possuem o mesmo significado, mas para o código penal eles têm conceitos diferentes. O racismo é caracterizado pela conduta discriminatória à integralidade de uma raça, ou seja, atinge um número maior de pessoas como, por exemplo, impedir a utilização de elevadores ou escadas sociais em residências privadas baseado na cor da pele, restringir a entrada de pessoas em estabelecimentos comerciais devido à raça, entre outras situações. A definição de racismo como crime foi estabelecida através da constituição federal de 1988, que em seu Art. 5 inc. XLII deixa claro que “a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei”.
Já a Injúria Racial é direcionada a uma pessoa específica, onde se comete o crime ofendendo a honra de alguém, a depreciando com elementos referentes à sua raça, cor, religião ou nacionalidade. Muitos dos crimes de racismo hoje em dia estão sendo minimizados para injúria racial, o que acaba beneficiando quem comete este tipo de crime.
Como forma de combater este tipo de prática, em 2010 foi promulgado o Estatuto da Igualdade Racial. Nele se estabelece um conjunto de normas e princípios jurídicos para coibir a discriminação racial e garantir os direitos individuais e coletivos da população negra. Foi a partir do Estatuto que nasceu o Sistema Nacional de promoção à igualdade racial, que visa organizar e articular políticas e serviços do poder público federal para acabar com as desigualdades étnicas do Brasil.
O estatuto é constituído de 65 artigos e aborda pautas como saúde, educação, cultura, lazer, moradia e trabalho. Foi através dele que o Brasil garantiu que 20% das vagas de ensino superior sejam reservadas para negros, através da Lei afirmativa de cotas.
Outro ponto relevante do Estatuto é que ele determina que a herança cultural africana e a participação dos negros na história do Brasil devem estar presentes na produção veiculada nos órgãos de comunicação. Assim, os negros começaram a ganhar espaço na mídia, principalmente no jornalismo.
A representatividade negra no campo do jornalismo é pequena se comparada com a quantidade de habitantes negros do país. Mas aos poucos o jornalismo negro vem ganhando espaço e representatividade na mídia. Nomes como Maju Coutinho, Gloria Maria, Zileide Silva e Heraldo Pereira são as caras que colocam o jornalismo negro em destaque a nível nacional.
Em Alagoas, o jornalismo “negro” possui visibilidade em órgãos públicos, mídia impressa e no rádio. Alguns nomes que se destacam são: Helciane Angélica – uma das líderes da Comissão dos Jornalistas pela igualdade Racial (COJIRA) e, durante dez anos, editora da coluna Axé no impresso Tribuna Independente –, Valdice Gomes – presidente do Sindicato dos Jornalistas de Alagoas – e Géssika Costa – jornalista na rádio educativa. Esses são nomes que estão sempre engajados em difundir a cultura negra na mídia, denunciar as desigualdades e situações de preconceito, além de promover a igualdade racial através de seus trabalhos.
Valdice Gomes, além de presidir o sindicato dos jornalistas, também é uma das lideranças do Conselho Estadual de Promoção à Igualdade Racial (CONEPIR) em Alagoas. Que realiza eventos a fim de debater meios para promover uma sociedade mais justa e igualitária não só para a população negra, mas para povos de todas as etnias. Como exemplo de um desses eventos, em setembro de 2017 foi realizada em Maceió a Conferência Intermunicipal de Promoção da Igualdade Racial, que teve como objetivo debater políticas públicas que promovessem uma sociedade mais justa e igualitária. Helciane Angélica, junto com Valdice, era das lideranças do COJIRA-AL, que busca promover a igualdade racial através do jornalismo.
Maria Júlia Coutinho em sua estreia no Jornal Nacional (Fonte: Reprodução)
O ano de 2019 foi importante para a representatividade e identificação do negro na mídia. Em fevereiro, após quase 50 anos no ar, o Jornal Nacional teve sua primeira jornalista negra a assumir a bancada do noticiário. A escolhida foi a jornalista Maju Coutinho, que era conhecida como a “garota do tempo” no mesmo telejornal. Ela se juntou a Heraldo Pereira e aos demais jornalistas que se revezam para apresentar o jornal aos fins de semana. Em setembro, Maju assumiu a bancada do Jornal Hoje, após Sandra Annenberg se juntar a Glória Maria no comando do Globo Repórter.
Porém tanta representatividade passa a incomodar alguns, que mesmo com tantas Leis para coibir o racismo não inibe os ataques racistas que alguns profissionais sofrem durante o exercício da profissão. A própria Maju Coutinho foi alvo destes ataques em uma das suas fotos da fanpage do JN, no Facebook.
Fonte: Arquivo Online da Revista Veja
Fonte: Globo/ Imagem do vídeo postado na página do JN no facebook
Tais comentários geraram uma rede de comoção, onde foi criada a campanha #SomosTodosMaju, explicitando a indignação com este tipo de atitude e declarando apoio à jornalista. Foi aberto um inquérito para investigar os responsáveis pelos comentários e alguns computadores foram apreendidos.
Após assumir a bancada do Jornal Hoje, Maju sofreu ataques da mídia por causa de alguns erros durante a apresentação do jornal. As manchetes expõem os erros da jornalista e sugere que Globo estude retirar o seu posto como apresentadora oficial do telejornal.
Em resposta às manchetes, a Globo se pronunciou afirmando que “é falsa a informação de que houve a reunião mencionada no comentário de Daniel Castro. Não houve reunião, Maju Coutinho tem brilhado na apresentação do Jornal Hoje, superando todas as melhores expectativas. O Jornal Hoje, com Maju, e em horário diferente (começa e termina mais tarde), teve crescimento de audiência considerando a faixa horária”. Além disso, também rebateu as críticas feitas pelo jornalista Daniel Castro exaltando as qualidades da jornalista “Maju Coutinho não é apenas uma profissional querida, simpática, humilde e alegre, como a define o jornalista. Ela é antes uma jornalista brilhante, talentosa, absolutamente preparada, que chegou ao Jornal Hoje exclusivamente por seus méritos profissionais”.
Com a abertura de espaço e o avanço da internet não só jornalistas são alvos de ataques preconceituosos, mas celebridades negras também passam por este tipo de constrangimento. A atriz Taís Araújo é uma delas. Durante toda a sua carreira ela vem sofrendo com o preconceito e, em 2015, após postar uma foto em sua rede social, vários comentários racistas surgiram com relação ao seu cabelo e a sua cor. Em resposta, ela realizou uma publicação informando que iria tomar as medidas legais e que não iria “baixar a cabeça” para este tipo de situação.
Já em 2017, após sua participação no programa Mais Você, da Rede Globo de Televisão, ela sofreu uma série de ataques preconceituosos devido a sua recusa a experimentar um prato, através de comentários como: “se estivesse com fome comeria até merda, gentinha hipócrita, leva um nhoque de abóbora para África e pergunta se eles querem? (sic)”.
Ainda em 2017, após apresentar uma palestra no evento TEDx São Paulo sobre o tema “Como criar crianças doces em um país ácido”, Taís relatou a dificuldade de se criar um filho negro em um país racista, onde, dependendo da sua cor e do modo como se veste, você pode ser confundido com um infrator mesmo sendo menor de idade. Em uma rede social, os internautas começaram a emitir comentários criticando a atriz e intitulando sua postura de vitimista.
Outro caso que ganhou grandes proporções foi o da filha do ator Bruno Gagliasso com a atriz Giovanna Ewbank. A pequena Titi sofreu ataques preconceituosos através de um vídeo publicado por Day McCarthy, uma socialite que vive no Canadá. No vídeo, a blogueira realiza vários comentários de cunho racista. Os pais tomaram as devidas providências e prestaram queixa na Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática (DRCI), no Rio de Janeiro. Esse episódio não foi o primeiro caso de racismo contra a filha do casal. Em 2016, um menor de idade postou o seguinte comentário: "Você e seu marido até que combina, mas a criança que vocês adotaram não combinou muito, porque ela é pretinha e lugar de preto é na África (sic)" em uma das redes sociais do casal.
Outro caso recente de ataques racistas foi o que aconteceu com o ex-bbb Rodrigo França. Também através das redes sociais, internautas o chamaram de macaco, enquanto o mesmo ainda estava confinado. Dentro da casa, durante toda a edição do programa de 2019, uma das participantes fez vários comentários racistas com relação a Rodrigo. Foi aberto um inquérito onde está sendo investigado o caso. Após sair do confinamento Rodrigo depôs contra a participante na delegacia responsável pelo caso.
Casos como esses evidenciam que é necessário que as vítimas denunciem, pois é a sensação de impunidade que faz com que o preconceito racial se perpetue. É importante educar e conscientizar a população, mas punir quem faz este tipo de ato também é importante para acabar com este tipo de prática.
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