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PARASITA
[CONTÉM SPOILERS]
E para começar a semana do Oscar 2020, não podia ser com outro filme né? Na verdade é O FILME pipoquers.
Vocês querem um filme com um roteiro doido que quando você lê a sinopse já pensa “meu Deus, não tem pé nem cabeça isso daqui”, poise... É disso que “PARASITA” se trata (a princípio tá?) pois depois tudo faz sentido logo nos primeiros minutos do filme.
Bong Joon-ho diretor do filme é no mínimo “anormal” por pensar em uma história assim. Ao mesmo tempo que pensamos na insanidade do diretor, podemos aplaudi-lo de pé por toda crítica que “PARASITA” carrega dentro dos 3 atos que constroem seu universo de ascensão.
O filme é sobre a família Ki-taek que vive quase que na miséria em uma casa considerada por lá como ‘meio porão’, e que para sobreviver dobram caixas de pizzas como uma espécie de bico na própria casa. A ambição deles já é mostrada quando enquanto trabalham, assistem um vídeo de uma youtuber dobrando rapidamente e ensinando como faz para o serviço render e assim consequentemente o salário, já que é por unidade dobrada que eles ganham o pão de cada dia.
Assim como a ambição é mostrada de cara, os vacilos e falta de sorte também é deixado sobre a mesa quando na hora do recebimento o dinheiro é descontado já que o serviço foi considerado mau feito pela patroa deles. Em contra partida, temos o pontapé inicial de certa esperteza do protagonista e sua irmã fazendo um tipo de trato para reparar o que foi perdido ali, buscando uma vaga para trabalhar fora de casa com eles. A apresentação dos porquês e vantagens de tê-los como funcionários fixos e os próximos acontecimentos deixam isso mais claro ainda.
Em seguida temos a grande oportunidade da vida deles dando as caras. Um amigo próximo informa que uma família podre de rica está com uma vaga de professor particular e assim com uma força tarefa de falsificação de diplomas, certificados e afins, Ki‑woo (Choi Woo‑shik) que tem todos os dotes para cumprir com as obrigações que a vaga exige, embarca para ajudar a família com o primeiro salário e profissão digna.
O sentimento de fracasso e a esperança de sair daquela situação é constante em cada cena da família, mas ao mesmo tempo a gente se encanta com a força de vontade em fazer os planos darem certo em meio as armações perigosas e engraçadas que eles aprontam cena após cena.
Voltando a falar da casa que eles vivem, pois gente, é tanta coisa a prestar atenção dentro desse filme que você se perde nos mínimos detalhes. A janela pela qual eles observam a vida lá fora só os deprime, existe um bêbado que mija lá perto no lixo todos os dias pra piorar a situação já que essa é a paisagem do cotidiano deles. Será que o pobre só enxerga a desgraça que o rodeia? Será que isso é mais uma razão para desmotiva-los? Fica no ar a pergunta.
A busca pela rede wi-fi e o uso de celulares dentro do filme é outra ótima observação a se fazer. Já que eles realmente transmitem a sensação de serem ‘parasitas’ dependendo de restos ou do que oferecem a eles desde o começo da trama. O filme é tão atual e permeia em tantas coisas que são ignoradas por grandes títulos que o torna uma produção cada vez maior de acordo com que você vai assistindo.
Voltando ao momento atual (do qual estava falando), Ki-woo mostra ser capaz de impressionar a família rica e vê dentro daquele ambiente a possibilidade de ajudar mais ainda os seus, já que outra vaga surge a partir de uma conversa com sua patroa sobre o comportamento do filho caçula deles que é meio imperativo, artista e diferente. Assim, sua irmã também entra na rodela de fingimentos no mesmo nível que o irmão, documentos falsos, indicação falsa e por ai vai.
Assim como os filhos, os pais também conseguem os empregos que tiveram sua vaga forçadamente abertas, já que os empregados anteriores são demitidos por conta das armadilhas que os irmãos tramam para que assim seus pais possam apossar de tais oportunidades.
Sendo assim a família inteira dentro do mesmo local de trabalho, fingindo serem no máximo conhecidos, é a receita pronta da desgraça gente. Uma hora ou outra as coisas iriam vir a tona, mas o que pega, é a forma como tudo acontece.
Sabe aquele ditado: “aqui você planta, aqui você colhe?” ou talvez aquele: “tudo que faz, um dia volta pra você?” é justamente isso que acontece do 2º ato do filme pra frente. Todas as ações que a família tomou frente, começam a dar retorno, e não é o financeiro.
Em meio a situações engraçadas, dramáticas e inusitadas, um dos personagens prejudicados pela família e que inclusive nem damos tanta moral até a saída dela com seu olhar vingativo que promete trazer (e traz), a desgraça ou motivação para o último ato do longa. Estou falando de Moon-gwang (Lee Jeong-eun), a empregada que foi demitida para que a mãe de Kin pudesse ocupar uma das vagas de emprego da casa.
A reviravolta e evolução da personagem, por mais que seja imediatista e repentina no seu retorno a casa dos ex-patrões, é espetacular. Quando achávamos que o nível mais baixo enquanto classe social havia se revelado (falo aqui das condições da família Ki-taek), nos enganamos. Diretamente do porão da casa dos milionários, eis que surge um novo personagem e tudo muda nos planos das duas famílias, já que Moon é esposa dele e também tinha seus segredos dentro do mesmo teto.
Com essa avalanche de informações e mais as artimanhas que a família Ki-taek tem que aprontar para ocultar mais um segredo da família de ricos, encerramos o 2º ato do filme com gosto de quero mais, com tanta curiosidade nos olhos e vontade de ver como tudo termina. A verdade é que tudo se transforma em uma briga por território. As classes precárias brigando pela migalha “fornecida” pelos verdadeiros donos do espaço.
O desfecho do filme se dá de forma sangrenta e nem um pouco esperada, as mortes confesso que me pegou de surpresa de certa forma. Não irei detalhar como tudo termina pois já dei spoilers demais, precisava desabafar inclusive rs. Porém deixarei um questionamento aqui pra vocês, o que não tem nada a perder faria quando a única coisa que restava pra ele, o foi tirado? Pensem nisso.
As cenas finais tem lá suas penalidades por ter vários ápices, principalmente quanto ao pai de Kin, que cansado de ver tanta humilhação nas palavras e atitudes do patrão ricaço, toma a atitude esperada. Sua esposa e filhos herdaram nada mais do que traumas por tudo que visualizaram e só entenderão depois. Ki-taek (Song kang ho) dá um show de atuação do final do 2º ato adiante. Suas ações movem o filme até seu último segundo de fôlego, deixando o último suspense no ar, ou podemos dizer que um final alternativo talvez?
De fato o filme traz a tona críticas sociais pesadas como a ascensão das famílias pobres, até onde o ser humano é capaz de ir para ter seu local na sociedade? Todos os ricos são felizes? Realizados? A cena do sexo no sofá com a família Ki-taek, onde o casal de milionários revelam suas fetiches sexuais envolvendo xingamentos, vontades que eles mesmos julgam chulas e de classe suburbana. Essa é uma das máscaras da alta sociedade? Creio que toda a farsa dentro da família rica só demonstra quão o dinheiro não resolve grande parte do nosso interior. Quanto ter tudo, pode nos tornar meros NADAS!
E enquanto as famílias que vivem na precariedade? Será que de fato elas precisam ir tão longe para conseguirem seus objetivos? O filme mostra uma certa punição para quem é capaz de tudo? No final das contas isso acaba sendo uma conclusão pessoal de cada um de nós que assistimos e absorvemos as mensagens que o filme trouxe.
As cenas de humilhação mesmo que indiretas conseguem nos incomodar tanto a nível de dar um certo prazer por tudo que acontece no final das contas. Achei tão simples e um tiro certo o diretor trabalhar o “cheiro” como instrumento de preconceito às pessoas de classe baixa. Isso é usado no filme pelos ricos quando citam que o motorista, Ki-taek fede a metrô. Tais palavras ouvidas por ele, começam a transformá-lo e a mudar sua visão, propósitos e atitudes dentro do filme. Será que ele ficou com medo de se tornar aquilo no final das contas?
As cenas da enchente são na minha opinião as mais lindas do filme. “Ah Paullo você está louco? é uma tragédia e muito triste tudo aquilo”, sim galera é tudo isso e muito mais. São elas que mostram graças a cenografia e atuações fortes do elenco, o quanto a família Ki-taek sofre com a perda de tudo que tinham. É como se lá vendo tudo sendo levado e perdido pelas águas, realmente tivesse valor pra eles, e agora que eles haviam perdido completamente tudo que tinham, as coisas mudaram para todos.
A fotografia com o plano geral de cima da comunidade que eles moravam, é de tirar o fôlego, assim como as cenas deles no mesmo lugar que tentavam pegar sinal de wi-fi, era o ponto mais alto da casa onde conhecemos e onde despedimos daquele pedaço representativo dentro do roteiro.
O filme também é sobre arquitetura, tanto nas cenas que mostram a casa enorme e feita por um famoso arquiteto, quanto nas ruas e interior da casa da família Ki-taek. Cada detalhe enriquece nossos olhos. A sala da casa dos patrões tem várias cenas interessantes para serem analisadas, principalmente a do acampamento do caçula da família, onde todos ficam reféns da paisagem linda que reflete na luz do sol e entra pela sala. Ali eu senti que era a representação da “liberdade” dos personagens. Aquela vista limpa e perfeita, parecendo que foi pintada a dedo, poderia ser um dos combustíveis deles para irem até as últimas consequências.
Por fim um das coisas mais importantes do filme e que é o fechamento da “chave de ouro” pra mim. No final o que aprisionava o marido de Moon, que era o porão da casa dos milionários, acaba sendo a liberdade e refúgio do filme. Um lugar de refúgio e de evolução, mas isso é só no final que tem a possibilidade de ser refletido em nossos pensamentos. Kin tem a missão de reverter tudo que sua família fez e queria ter, mostrando que no final das contas o objetivo deles foi concluído.
O mix de gênero dentro do filme o deixa escapar entre os dedos da academia do oscar com toda certeza, já que ele permeia entre ‘drama, suspense e comédia’. PARASITA é um filme que te faz rir, roer as unhas, pensar em suas atitudes e vontades e refletir sobre o que é feito dentro do filme em suas mais de 2 horas de exibição.É impossível assisti-lo e sair ileso do proposito que Bong teve no final das contas. Acredito que o filme levará no mínimo 3 estatuetas para casa na premiação deste ano.
Ulzzang girl | cowsel
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