Assisti a esse filme na semana passada e precisei de um tempinho para digerir. É o primeiro filme de Lúcia Murat, um docudrama formado por depoimentos de oito mulheres presas e torturadas durante a ditadura, intercalado por um monólogo fictício de uma ex-prisioneira política, interpretada por Irene Ravache. Se não estou enganada, foi a primeira vez que se mostrou a perspectiva de mulheres sobre a tortura e violência sexual sofridas na prisão. Lançado em 1989, o filme se apóia na memória das ex-guerrilheiras nem tanto para denunciar os crimes cometidos dentro dos quartéis mas para tentar descobrir como, após tantos horrores, elas conseguiram seguir com a vida sem perder a sanidade -- um dilema vivido pela própria diretora, que passou três anos no DOI-CODI, e que parece se utilizar da personagem de Irene Ravache como um alter ego para expressar sentimentos e pensamentos íntimos. Um ponto importante levantado nos depoimentos, que me soou como o prolongamento de um sofrimento imensurável, foi a reação das pessoas e o posicionamento da esquerda em relação a essas mulheres. Constrangimentos incômodos, silenciamentos, censura e até acusações de serem ressentidas. As que sucumbiram e passaram informações aos torturadores, em vez de acolhidas, foram expulsas. Uma delas, inclusive, conta ter sido considerada como terrorista por grupos de esquerda que não aderiram à luta armada. Todas acreditam que a esquerda falhou e não se empenhou o suficiente em cobrar punição. Com um tema pesado, Lúcia Murat teve a sensibilidade de não explorar a dor, apelando para narrativas explícitas das técnicas de tortura, e se ocupou mais em dar ênfase às maneiras como aquelas mulheres tentam superar as sequelas da tortura. Os depoimentos são todos de partir o coração, e eu não tenho palavras para descrevê-los sem que soem como uma experiência distante e impessoal, mas o que mais me chamou a atenção foi a fala em comum das que estavam gestantes à época: para todas, a gravidez foi encarada como uma forma de resistência e de continuação da vida. Uma maneira de continuar existindo, mesmo se acabassem morrendo. O filme está no YouTube e eu recomendo a todos. #luciamurat #prosafilmsbywomen https://www.instagram.com/renatac.arruda/p/BwhmQuzAO7R/?utm_source=ig_tumblr_share&igshid=lc5u17zg9761











