A grosso modo, o termo etnografia significa “estudo dos povos”, do grego ethno (povo) e graphein (escrever), escrever o povo. Trata-se de pesquisar e registrar os costumes, as crenças e as tradições de um grupo social ou cultura. Muitos desses conhecimentos são transmitidos de geração em geração e permitem a que a identidade desses povos continue existindo e é através do estudo etnográfico que esses aspectos imateriais são, de certa forma, materializados em forma de registros. Para que isto ocorra, o trabalho dos etnógrafos exige uma observação atenta e minuciosa junto a uma participação intensa na convivência com os povos a serem estudados.
O objetivo da etnografia para o ramo das ciências sociais, em especial a antropologia, é o de catalogar essa diversidade presente nas mais diversas sociedades e transmitir esses conhecimentos para o todo, de forma ética e imparcial, que não se crie um juízo de valor por parte do pesquisador e que os povos possam entender suas diferenças sem julgamentos. Outro conceito muito importante para a antropologia é o de lugar de fala, este se confunde muito o termo “representatividade”. A questão é que todos temos o direito de ter voz ativa e falar sobre diversas pautas e assuntos, basta que tenhamos conhecimentos específicos e embasamento para argumentar, mas nem todos precisamos nos sentir representados por determinado discurso, já que representatividade vai de encontro com o que você se identifica e ao grupo em que pertence.
Segundo a escritora Djamila Ribeiro, em seu livro “ O que é lugar de fala? ”, uma travesti negra pode não se sentir representada por um homem branco cis, por exemplo, mas esse homem branco cis pode teorizar sobre a realidade das pessoas trans e travestis a partir do lugar que ele ocupa. A questão do lugar de fala pode ajudar a ampliar e aprofundar a reflexão antropológica renovando experiências com as diferenças culturais. Atualmente, a Antropologia passa por mudanças, já que o mundo globalizado pede a revisão e desconstrução de conceitos antigos que já não fazem mais sentido nos dias de hoje e por isso, vem sendo questionados.
É aí que entra a importância de um diálogo aberto, de vozes de todos os cantos ressaltando suas diferenças e discutindo em defesa de seu modo de vida, sua história, sua ancestralidade. Etnografia não se trata mais apenas de um indivíduo como pesquisador em busca de contar a história de um povo, hoje em dia é possível encontrar pessoas que realmente fazem parte e vivem nesses povoados e dar a elas voz, fazendo com que se sintam representadas.
Um esclarecimento é muito importante antes de iniciar esse ensaio: quando me refiro à “política do lugar de fala”, aqui, não estou falando de protagonismo (que eu defendo com unhas e dentes) e também não estou falando do “conceito de lugar de fala”, ou seja, do entendimento de que construímos nossos discursos a partir da nossa localização em uma estrutura de opressão, com todas as implicações que isso trás.
Esse entendimento, e é muito importante que isso fique absolutamente claro, não poderia estar mais correto, e eu tenho profundo respeito pelas autoras que o desenvolvem e o defendem, assim como tenho concordância. “Política do lugar de fala” é, nesse texto, um termo usado para se referir especificamente a um uso prático e muito difundido atualmente do “conceito de lugar de fala”, uso esse que considero deturpado e esvaziado, e que considera que a localização na estrutura e tal somente ela é imperativa para determinar se um discurso é ou não legitimo, ou seja, que cria uma hierarquia na discussão de ideias na qual essa propriedade está acima de qualquer outra. Portanto, conforme você lê esse ensaio, se você discordar de um apontamento porque pensa que “isso não é o que o lugar de fala é”, eu peço que antes de qualquer coisa se pergunte se está pensando no conceito ou na politica; porque vou estar, salvo quando explicitamente dito ao contrário, falando da segunda.
É importante dizer que o foco da minha preocupação não é com os homens individuais que não podem falar por conta dessas políticas, ou, vamos dizer, com seu bem-estar, e não estou dizendo aqui que mulheres feministas estão “oprimindo” homens. Esse absolutamente não é o caso. Afinal de contas, esses homens podem deixar os micro universos onde essa politica está vigente a qualquer momento e sair pelo mundo onde serão ouvidos e legitimados o tempo todo. As minhas preocupações são três; que essa seja uma aplicação tirana do “conceito de lugar de fala” que é fundamentalmente masculinista e inerente à mesma ordem e hierarquia que buscamos destruir; que essa política esteja minando uma atmosfera questionadora e nos custando o debate de liberação das mulheres, assim como ideias e pontos de vista que poderiam ser valiosos para nós; que ela esteja provocando uma série de efeitos colaterais que estamos falhando em identificar.
Esse texto é uma verborragia de ideias e análises. Vou abrir parênteses pra me aprofundar em muitas delas e sair um pouco do tema principal, pelo que ele pode parecer um pouco confuso. Me esforcei ao máximo para manter uma ordem que faça sentido e que flua. Vou abordar aqui, respectivamente: a minha própria experiência com essa política, porque acredito que ela tenha se tornado tão comum, o que acredito que ela é, quais são suas problemáticas, quais são suas consequências e quais são as minhas proposições pessoais. Tudo aqui está aberto a discussão, e nenhuma frase pode ser entendida fora do contexto do texto ou, no mínimo, de um parágrafo.
NUM DESPERTAR FEMINISTA
Embora eu tenha defendido as políticas do lugar de fala por muito tempo, não me lembro de utilizar essa defesa como forma de encerrar discussões em que verdadeiramente me engajei, embora tenha usado disso como deboche muitas vezes. Não é que nunca tenha ouvido de homens coisas que me fariam subir nas paredes, ou que nunca tenha tido dificuldade de explicar racionalmente algo que eu soubesse de forma empírica. Isso aconteceu mais vezes do que posso contar.
Essas instâncias passaram a me despertar um ímpeto não de desautorizar o locutor mas de provar que ele estava errado. Eu conhecia a minha realidade de atravessar o mundo como mulher, num corpo de mulher, com uma história de mulher. Eu sabia que o sexismo era uma realidade evitável. Nada disso era intuição, mas sim constatações feitas a partir de experiência e o debruçar sob estudos das ciências sociais.
O anseio por retrucar um questionamento, na maior parte das vezes, falava mais alto do que o reflexo de me esquivar da questão. E se eu não soubesse respondê-lo, então isso significava que eu precisava repensar minha opinião, fosse para aperfeiçoá-la ou para descartá-la (ainda que lá atrás isso viesse com um sentimento muito amargo de orgulho ferido). Saber respondê-lo, do contrário, não significava ser capaz de satisfazer os critérios do outro e, consequentemente, convencê-lo; o mais importante, para mim, era que eu conseguisse satisfazer os meus critérios, uma dinâmica de debate que Marilyn Frye explicou em Politics of Reality e com a qual me identifico muito. O importante era que eu pudesse, no meu íntimo, sossegar sabendo que não precisaria fugir desse questionamento, qualquer que ele fosse, dentro da minha própria cabeça.
Com o tempo, reparei que uma parte importante das minhas próprias opiniões foi moldada no seio dessas discussões. Conversar com essas pessoas, que discordavam radicalmente de mim ou que tinham uma experiência no mundo radicalmente diferente da minha, me obrigou a resolver todas as eventuais pontas soltas e contradições contidas na minha visão de mundo. Esse desafio me obrigava a aperfeiçoar o conjunto das minhas ideias e torna-las mais inteligíveis.
Essa foi uma realização difícil porque, no feminismo, estava buscando, devagar e sempre, me referenciar a mulheres e construir a minha intelectualidade junto a elas. Parecia que reconhecer a importância dessas discussões era roubar ou diminuir a importância daquilo que eu vinha construindo unicamente entre as minhas. Demorei a entender que essa realização e essa busca podiam andar lado a lado. A verdade é que continuei a extrair a maior parte da sabedoria e aprendizado das minhas discussões com feministas, e virtualmente poderia ter chegado ao mesmo lugar que estou hoje se tivesse me limitado a essas discussões. Mas teria chegado depois. Dos homens, o que aproveitei foi ora sua vontade de me desprovar, ora a incapacidade natural e recíproca, mesmo do homem mais bem-intencionado, de enxergar o mundo pelas minhas lentes, o que me obrigava a articular aspectos que eu tomava como certos nas minhas discussões com outras mulheres. Em alguns casos, levei também provocações filosóficas que me foram absolutamente úteis. Tudo isso impulsionou o meu pensamento de forma significativa no seio de debates onde essa política não estava em vigor. Como eu poderia defender uma política (política, não conceito!) que ignorava a minha própria experiência? Esse foi o despertar.
UMA TENTATIVA DE EXPLICAR A DIFUSÃO DESSA POLÍTICA
Eu ainda passei muito tempo apegada às políticas de lugar de fala por motivos, no mínimo, justos. Acredito que muitas mulheres tiveram ou têm motivos parecidos, que explicam em parte sua manutenção. Como mulher, essa política era talvez a única em vigor (ainda que em vigor somente especificamente em discussões feministas em espaços de esquerda) que reconhecia a minha autoridade em um assunto. Era graças a ela que eu podia, pela primeira vez, descansar da necessidade de provar meu domínio de um tema e simplesmente falar sobre ele. Ela deslocava os agentes da opressão a um lugar de ouvinte e/ou aprendiz a qualquer custo. Ela também dava algum sentimento de revanchismo pelos quais muitas de nós compreensivelmente ansiávamos. Era a única resposta a uma ferida e um ressentimento profundo que crescia conforme crescia a minha própria consciência. Na prática, ela podia também desculpar e encobrir a minha incapacidade de traduzir a minha experiência em argumentos convincentes, como uma mãe que intervém numa briga de irmãos e, sem fazer muitas perguntas, dá razão ao filho preferido. Ainda que eu não fizesse uso dela, era bom tê-la ali, e também não me sentia no direito de, mesmo que somente no meu discurso ou imaginário, privar outras mulheres disso.
Hoje, olhando para trás, acredito que a naturalização dessa política tenha acontecido também por motivos mais obscuros e profundos. Quem debate feminismo por necessidades básicas de sobrevivência e dignidade o faz, primordialmente, buscando a discussão mais produtiva e assertiva possível. Idealmente, não o faz por vaidade, ego ou orgulho. Esses sentimentos têm solos mais férteis para se criarem em círculos, ou no âmago de indivíduos, em que o debate de feminismo é um jogo de quebra cabeças a ser resolvido pela satisfação de solucioná-lo, não porque ao fim do dia alguém pode sair daquele encontro e ser estuprada no caminho pra casa. Veja bem; não estou propondo que isso nunca aconteça naturalmente entre as mulheres, ou que a vaidade, o ego e o orgulho são estritamente masculinos, mas que faz sentido dizer que, no feminismo, um lado pode recair nessas armadilhas com muito mais segurança que o outro. Talvez esse modelo de debate, o modelo da “lacração”, possa ser explicado por isso – que ele tenha ganhado tanto espaço porque a lógica e os sentimentos mais basais na qual ela se ancora permeiem com frequência as discussões masculinas, e nós aprendemos a existir na política observando o macho conduzir suas discussões. Essa é só uma hipótese.
Pra além disso, no meu caso, e talvez no de outras mulheres, me chamou atenção como a arrogância e o autoritarismo marcantes desse uso eram incompatíveis com a forma como eu abordava minhas outras relações interpessoais que não as políticas. O ambiente político era o único em que eu reproduzia esse tipo de comportamento precisamente porque era o único ambiente em que estava em constante disputa de espaço com os homens e sentia necessidade de copiá-los para ser ouvida, ou mesmo um ambiente em que eles eram o único exemplo para as mulheres (isto é, porque mesmo quando eu usava uma mulher como referência, muitas vezes a referência dela própria eram homens).
O patriarcado é um sistema de opressão que não é marcado, diferente dos outros, pela segregação da classe opressora e da classe oprimida, mas pelo convívio intimo entre as duas, com criação de laços e de uma intimidade que facilita a subjugação da mulher. É importante para esse sistema que essa relação se dê de forma aparentemente amistosa, e isso é garantido por meio de uma definição cuidadosa e altamente específica dos papéis da mulher e do homem em todas as esferas da sociedade de forma que coexistam e se complementem, mesmo que hierarquicamente. Mas a política – não era para termos chegado lá nunca. Que nós estejamos nesse ambiente é uma derrota para esse sistema. Isso é muito conflituoso e tenso. As mulheres que vieram antes de nós garantiram nosso direito de estar aqui, mas ainda estamos nos acostumando com a ideia, nos adequando e entendendo como se portar, buscando garantir que a nós seja concedido o direito de não só estar aqui como também – imagina só! – sermos ouvidas. Nós temos feito isso, em grande parte, olhando para os homens desse ambiente e copiando-os. De uma certa forma, a implementação dessa política foi, ironicamente, a maneira que as mulheres encontraram de sobreviver aqui – aprendemos a lógica de debater masculina e fizemos dela uma regra contra o próprio homem.
Por muito tempo eu falhei em enxergar isso porque pensava que essa imitação era, na verdade, uma expressão do meu empoderamento; que conforme eu avançava nos espaços políticos e tomava essa discussão nas minhas próprias mãos, eu ia crescer pra caber no comportamento dos homens nesses espaços. Que eu ia falar alto, bater na mesa e me exaltar e que essas eram demonstrações da minha auto confiança e de como eu era uma mulher que deve ser ouvida. Isso é absolutamente estúpido. Isso também não é pra endossar o coro conservador de que uma verdadeira líder feminina é recatada e reservada, uma mulher firme mas dócil que convence os outros com charme ou outra besteira do tipo. Ambos estão profundamente errados. Uma liderança ou mesmo um coro político feminista não vai se definir pela feminilidade e também não vai se definir pela masculinidade – nós o fizemos por todo esse tempo por uma questão de sobrevivência, de conseguirmos ser ouvidas nesse espaço em que os homens falam grosso e alto. Mas as mulheres não querem sobreviver nos espaços políticos – elas querem existir. A existência feminista rejeita a feminilidade mansa e subjugada e rejeita toda a estupidez masculina da política de debate marcada pela violência e exerbação, uma eterna política do meu é maior que o seu.
Um modelo verdadeiramente revolucionário descarta esse molde por inteiro e resgata critérios muito mais fundamentais para um espaço de debate político realmente interessado na construção de uma sociedade justa, igualitária e saudável. Não vou me estender nisso agora – vou voltar nisso mais a frente.
O QUE É O QUE É
Meu ponto com tudo isso é dizer que foi necessário algum nível de frieza para mudar de lado nessa discussão. Eu o fiz porque, no meu entendimento, o feminismo tem sim um caráter de acolhimento importante no seu diálogo enquanto teoria para com seu sujeito – a sensação de lugar no mundo e legitimação que ele proporciona às mulheres que chegam ao movimento é imprescindível para a revolução feminista porque, e isso é algo especifico do patriarcado (e tem a ver com o que eu disse antes, sobre esse ser o único sistema de opressão que não é baseado na segregação das classes opressora e oprimida), as mulheres tem uma dificuldade enorme de se reconhecer como classe. Esse acolhimento naturalmente também valida e alimenta o ego dessas mulheres, e isso não é em si problemático – o que é problemático é se a função do feminismo for reduzida a isso.
Se ficamos estagnadas nessa fase de acolhimento e nunca avançamos para as partes mais dolorosas e recompensadoras da tomada de consciência feminista, ou seja, se esse acolhimento custa a liberação das mulheres, então ele é um falso acolhimento. Nas políticas do lugar de fala, no entanto, isso estava acontecendo o tempo todo.** **
No que eu acredito que consista essa política? No meu entendimento essa é, fundamentalmente, uma política de poder. Não um poder sistêmico porque, claro, só opera nesse micro-universo específico dos debates feministas em âmbitos de esquerda, mas, eu diria, um experimento com o poder, com a inversão das estruturas de poder nas políticas de discurso – não sua abolição. Ela (lembre-se: a política, não o conceito!) não busca destruir a lógica dominante que legitima ou não uma mensagem com base no locutor e qual grupo ele pertence, mas do contrário busca realocar os indivíduos nessa mesma lógica. Há alguns anos eu teria lido esse parágrafo que eu mesma escrevi agora e revirado os olhos, pensando, bom, não é a mesma coisa. E é verdade – não é. Não é possível comparar o que o patriarcado faz com as mulheres em uma escala global com o que uma militante faz com um homem numa reunião de coletivo, e se a segunda é uma reação ou uma tentativa de corrigir a desigualdade que a primeira cria, não é justo igualar os dois perpetradores. Mas a lógica por trás desses dois modus operandi é a mesma, independente disso, e ela é igualmente problemática em ambos os casos, porque determina o que pode ser dito não a partir de uma curadoria das ideias colocadas, mas dos sujeitos que falam.
O que eu vi acontecer foi a aplicação por via de regra dessa política para conservação dos espaços de discussão como ambientes em que os indivíduos objetos da opressão jamais se sentem questionadas pelos indivíduos agentes da opressão (mesmo quando esses questionamentos são justos e saudáveis). Era uma total despolitização do feminismo – o movimento estava sendo reduzido a função acolhedora que descrevi antes e perdendo sua função política para virar um clube da Luluzinha. Uma armadilha liberal. Essa preservação estava acontecendo por motivos tão fúteis quanto a vaidade de um único individuo, tão justos quanto a ferida aberta das mulheres oprimidas, mas acontecendo, muito frequentemente, em detrimento da qualidade crítica importante para a nossa liberação.
O que eu percebia era que, quando se constrangia o outro com as políticas do lugar de fala, garantia-se o monopólio da discussão. Quando um grupo monopoliza uma discussão, duas consequências são inevitáveis; primeiro, o critério crítico aplicado às conclusões resultantes só pode ser tão rígido quanto o critério crítico do mais rigoroso individuo desse grupo (que pode ou não ser o critério mais rigoroso disponível). Em segundo, essa discussão só pode ser travada a partir de um único locus no mundo, o que agrava aquilo que Chimamanda Adichie chamou de “o perigo da histórica única”. Preste bem atenção no uso das palavras: não estou dizendo que a “narrativa opressora” deve ter tanto espaço nos movimentos sociais quanto a “narrativa do oprimido”, ou que uma narrativa completa deva dar espaço de defesa para os agentes da opressão. Estou dizendo sim que certas proposições que podem ser ricas para o movimento de libertação das mulheres podem emergir de certos tipos de homens e justamente da experiência de navegar o mundo como um homem, acessando espaços exclusivamente masculinos e desfrutando de todos os privilégios que isso traz - é claro, se esse homem for um aliado.
Quando percebi isso pela primeira vez fiquei tentada a me rebater dizendo que, em debates feministas, as críticas e contribuições mais aguçadas vão sempre partir de mulheres, e que a política do lugar de fala parte dessa certeza funcionado, portanto, como uma ferramenta para silenciar o ruído numa discussão e deixar com que só as ideias importantes passem. Em outras palavras, dizer que filtrar o sujeito é filtrar o conteúdo das ideias. Mas isso simplesmente não é verdade. Não há nenhuma garantia. Se o local que o sujeito ocupa numa estrutura de opressão afeta sua visão de mundo, e isso é uma verdade absoluta, existem também várias outras propriedades individuais que tem um peso tão grande quanto ou mesmo maior ainda. Se não fosse assim, não teríamos mulheres anti-feministas e homens de esquerda que apoiam e pensam o feminismo. Mais que isso; não teríamos feministas inconscientemente liberais e homens de esquerda que por vezes fazem apontamentos cirúrgicos e revolucionários para causa. As outras propriedades individuais são importantíssimas porque, principalmente no campo teórico, são elas que guiam a forma como um indivíduo significa e articula a sua própria experiência, para não falar que um homem e uma mulher que possuem todas as propriedades individuais idênticas, a não ser pelo local de fala, provavelmente teriam acréscimos diferentes a fazer uma mesma discussão, pelo que calar um dos dois seria empobrece-la.
Na verdade, minha experiência diz que essa política faz exatamente o oposto de diminuir o ruído e deixar que só mensagens importantes passem – ela é muito frequentemente empregada como um artificio ao qual recorremos quando, confrontadas com uma crítica aguçada que não conseguimos responder, entramos em pânico. Ela desloca a incompetência do debatedor e diz, “não sou eu que não consigo explicar esse argumento, essa experiência ou rebater esse questionamento; é você que, por ser quem é, está condenado a pensar assim ou jamais conseguiria entender o que eu digo”. Ela é quase um niilismo militante fajuto. Essa reação não vem de um interesse pela liberação das mulheres, mas de um senso de vaidade mesquinho, egoísta que surge muitas vezes quando nossas opiniões são postas em xeque. Ela toma a forma da política do lugar de fala quando o outro debatedor é um homem mas nas discussões entre mulheres feministas ela vem aparecendo de outras maneiras, porque estabeleceu-se que o movimento social é um lugar em que esses sentimentos podem ser cultivados, mesmo que isso tenha sido estabelecido inconscientemente. Essa reação é compreensível, muito humana, mas não é função do feminismo acobertá-la, muito menos tornar seu acobertamento uma política estabelecida, mesmo quando ela parte de mulheres.
O DANO COLATERAL
Essa política tem uma série de efeitos colaterais, uns mais e outros menos importantes, uns mais e outros menos reversíveis.
Em primeiro lugar, essa política criou uma atmosfera de medo que desestimulou os aliados de tomarem responsabilidade na questão da libertação das mulheres, porque o receio de estar pisando fora dessa linha tinha se tornado uma preocupação muito central para essas alianças que frequentemente se sobrepunha a todo resto. O temor da resposta, do “cancelamento” que um indivíduo poderia sofrer se desrespeitasse essa política, intencionalmente ou não, estava produzindo um único tipo de aliança que, no melhor dos dias, servia como uma câmera de eco para o que dizíamos, de forma robótica e desengajada. Mas também não se engane – os aliados continuaram a selecionar aquilo que queriam ecoar e decidir onde por seu apoio, influência e dinheiro. A pior parte é que ali era o único lugar que essa preocupação verdadeiramente existia – como o Prof. Wilson Gomes apontou em um de seus escritos, essa mesma política nunca serviu para coibir a fala de masculinistas declarados, homens de direita ou do senso comum. Por ser a política de um micro universo, é preciso que você primeiro escolha adentrar esse micro universo para que ela se aplique a você. Você pode dizer que esse medo não é nada comparado com o medo que as pessoas oprimidas sofrem, e eu vou estar de acordo com você. Mas legítimo ou não, ele existe e está produzindo efeitos reais. Minha preocupação, como eu disse no início do texto, não são homens amedrontados, mas esses efeitos e suas consequências para a liberação das mulheres.
Outras pessoas talvez digam – o papel do aliado entre nós é ouvir, falar ele fala tão somente entre os seus. Mas como podemos incumbir alguém de propagar um conjunto de ideias que essa pessoa não pode estar confortável pra questionar? Essa é a morte do senso crítico e o autoritarismo mais auto-indulgente possível. Ele diz; somos moralmente superiores e mais qualificados para falar sobre esse tema do que você; a você cabe somente repetir nossas opiniões; se você nos questionar ou questionar as nossas conclusões, entenderemos que está, necessariamente, contra nós.
Nas redes sociais, especificamente, conforme essa politica se tornava mais e mais corriqueira, ela se consolidou como a politica da preguiça. O senso crítico, a construção coletiva partilhada por cada indivíduo de um entendimento bem estruturado do que era o patriarcado, ele simplesmente desapareceu. O desengajamento das mulheres cujo principal contato com o feminismo se dava online assolou o movimento - esses espaços feministas virtuais faziam as mulheres se sentirem bem, pura e simplesmente, a absolutamente nenhum custo. As mulheres permaneciam neles mas não haviam esforços conjuntos de estudar, pensar, dar continuidade ao trabalho daquelas que vieram antes de nós. Esse aparente avanço do movimento que fez com que muitas mulheres passassem a reivindicar o feminismo não se traduziu numa maior consciência política ou engajamento político das mulheres enquanto classe. Elas já tinham a razão e não precisavam de mais nada (exceto que, como toda mulher vivendo no patriarcado, elas precisavam, sim).
O efeito colateral dessa política para os próprios indivíduos do objeto da opressão também foi o pior possível. A premissa da qual essa política parte – de que o local do qual o seu discurso parte é o aspecto mais relevante para esse discurso, senão o único – tornou qualquer mulher uma faladora profissionalíssima das questões relativas a opressão. Por um lado, tudo que qualquer mulher falasse passou a ser entendido como feminismo se essa mulher assim quisesse, o que abriu espaço para as maiores armadilhas liberais que já vimos nesse movimento. Do outro lado, ficamos condenadas a falar única e exclusivamente sobre essas questões – afinal, é ali que damos nossas melhores e mais brilhantes contribuições. Sempre. A armadilha de tornar o local de fala a propriedade mais importante de um discurso é que o local do homem branco sempre foi, no imaginário coletivo, um de inteligência, sabedoria e intelectualidade – e, não curiosamente, nos ambientes de esquerda, continuam a ser eles que monopolizam o debate de todos os outros tópicos para além de sexo e raça.
Por conta desse entendimento, essa política ficou consolidada como A política de retificação dos ambientes de discussão, como se ela desse conta de corrigir todos os desequilíbrios da relação de co-existência de homens e mulheres no âmbito político. Óbvio, essa consolidação está relacionada diretamente ao que eu falei acima; nós só precisamos de retificação no debate de sexo porque esse é o único que vamos travar.
Agora, por exemplo, quando um homem age de forma desnecessariamente incisiva e agressiva com uma mulher num debate sobre a revolução cubana, se ele demonstra um paternalismo sutil e impaciente, a mulher muitas vezes sequer tem ferramentas para nomear essa violência, quanto menos um mecanismo de proteção bem estabelecido nesse meio ao qual ela pode recorrer. Ela fica a própria sorte – se conseguir articular, sozinha, seu próprio desconforto e acuamento, entender que aquilo é resultado da violência que sofreu, entender o que é aquela violência, de onde ela vem, para onde ela vai, se sentir segura o suficiente para vocalizar todos esses entendimentos e der a sorte de estar cercada de companheiras e companheiros que compreendam tudo que ela diz e decidam vocalizar seu apoio, ai então, talvez, aquela injustiça pontual será corrigida – o que também não garante que ela vá ser corrigida se isso acontecer de novo amanhã, em uma discussão sobre a revolução russa.
Nesse sentido, em específico, a política do lugar de fala, que parece, no seu uso no debate de sexo, ser uma política de garra e auto-determinação das mulheres, é na realidade uma armadilha que garante que a mulher permaneça mansa - se a política fosse um almoço de familia, o movimento feminista estaria agora se sentindo muito feliz e poderoso porque os adultos nos deixaram gerir a mesinha das crianças, com seus copinhos de plástico e a faquinhas sem serra.
DAS PROPOSIÇÕES
Requer um pouco de prepotência escrever um ensaio, mas não pretendo extrapolar isso sugerindo que tenho todas as soluções pro problema que busquei trazer. Também não me sentiria confortável de problematizar uma política como essa sem ser minimamente propositiva. Então, de forma bastante objetiva, queria sugerir alguns caminhos. Meu entendimento é que essa política costuma ser aplicada em seis instâncias diferentes - por vaidade, por ressentimento, por defesa, por falta de conhecimento para rebater um argumento, por inabilidade de articular argumentos a partir de saberes empíricos, pelo entendimento de que o protagonismo esta sendo atacado.
Para o uso que parte do ressentimento – eu penso que precisamos fortalecer os espaços de acolhimento. Não o que temos visto nos últimos anos, um acolhimento despolitizado, mas sim um acolhimento que parta do significar dessa revolta e do desenvolvimento de maneiras saudáveis de lidar com esses sentimentos. Isso pode significar instrumentalizá-lo, mas ás vezes pode significar uma auto-preservação que pede, ás vezes, um afastamento temporário das discussões mistas.
Para o uso que vem pela necessidade de defesa e blindagem das mulheres – eu penso que precisamos de politicas mais inteligentes. Precisamos fazer um esforço coletivo da esquerda (mulheres e homens) de destrinchar, dissecar, catalogar os moldes de debate masculinos e nomear tudo que há de tóxico nele, para que quando uma mulher se sinta ameaçada, ela possa identificar essa ameaça e todas as suas implicações, o que não só suaviza o impacto da violência mas facilita sua coibição, e poupa a energia política das mulheres. Essa seja talvez a proposição mais urgente e sem a qual não é possível constranger nenhuma mulher por fazer uso da politica do lugar de fala. Se tiramos a política do lugar de fala sem colocar isso no lugar, o que fica é um vácuo de proteção para as mulheres em espaços absolutamente desiguais. Eu ainda prefiro uma política hipócrita a vulnerabilizar ainda mais as mulheres.
Pela falta de conhecimento – eu penso que devemos investir o fortalecimento e a disseminação de espaços de formação, no movimento mas também pra fora dele. Isso não significa que todo grupo de feminismo precise estudar livros de 300 páginas sobre conceitos complexos e exaustivos. Isso é frutífero e deve ser estimulado sempre que for possível, mas não é sustentável, ao menos não com consistência, na realidade da maioria das mulheres. Mas significa que precisamos, principalmente as mulheres que tem o privilégio, ora no sentido mais teórico ora no mais corriqueiro da palavra, de ter tempo, acesso à educação, acesso a internet, liberdade de se organizar com outras mulheres, etc, investir parte da nossa energia política justamente na criação de materiais didáticos, sintetizados mas ainda assim críticos. O movimento feminista radical se dedica a isso há anos com a construção de zines, bibliotecas colaborativas, tradução de materiais estrangeiros e muitas outras iniciativas, mas esses esforços ainda podem ter um alcance muito maior se a esquerda como um todo se engajar.
Pela inabilidade de articular argumentos a partir de saberes empíricos – seu penso que cabem as discussões em espaços exclusivos. Isso começa, primeiro de tudo, na proteção e no fortalecimento desses espaços. Em organizações maiores, esse fortalecimento significa também um apoio financeiro. Em organizações menores, esse fortalecimento perpassa esforços coletivos também dos homens para viabilizar, facilitar e garantir que esses espaços sobrevivam - a titulo de exemplo, isso significa que em algumas organizações os homens vão ter que se responsabilizar inteiramente pelo revezamento da gestão da creche algumas vezes por semana, quando todas as mulheres estarão em reunião e o rodízio não poderá inclui-las.
Pela necessidade de protagonismo – novamente, o fortalecimento dos espaços exclusivos é fundamental, não só como já apontado acima mas, especificamente no caso do protagonismo, de maneira a reconhecer esses espaços dentro das organizações mistas como espaços importantes de deliberação. Esse reconhecimento precisa se traduzir num poder real desses espaços nas decisões dessas organizações em todos os outros níveis, não só no debate que é claramente de sexo, não só na interseccionalidade dos outros debate com o debate de sexo, mas em absolutamente todos os debates. Isso também colabora para o exercício profundo e frutífero do lugar de escuta entre os homens. Essa necessidade também é honrada por mulheres que se auto-gestionam em organizações exclusivas e por aquelas que escolhem o separatismo como estratégia.
POR FIM
Tudo é um debate em movimento, principalmente esse tema. Não existem aqui ideias totalmente fechadas, mas espero que algumas delas inaugurem certas provocações. Precisamos re-questionar a base de uma política que estamos solidificando no nosso movimento e entender com muito cuidado sua lógica e consequência. O que está em jogo é a liberação das mulheres - com isso não se brinca.
Não é necessária inscrição prévia para participar presencialmente. O seminário também será transmitido ao vivo pelo canal do Youtube da universidade.
A proposta é combater o preconceito e contribuir com a conscientização sobre os direitos da comunidade LGBTQIA+ em diferentes painéis que abordarão temas como violência, manifestações, empregabilidade e empreendedorismo, direito e políticas públicas.
A presidente do Instituto Yduqs, Cláudia Romano, disse à Agência Brasil, que a realização de ações em prol da desconstrução de preconceitos é fundamental para se avançar no sentido de uma representatividade inclusiva da comunidade LGBTQIA+ na sociedade brasileira, e que os debates programados facilitam a promoção de um ambiente com mais equidade, inclusão e respeito.
“A gente sabe que é um caminho longo. Por isso, o Instituto Yducs investe em iniciativas para acelerar esse movimento, para que o preconceito não tenha protagonismo na nossa sociedade”, disse Cláudia Romano. O Lugar de Fala reúne vozes nacionais, estudiosos, líderes e autoridades. “A gente acredita que terá um impacto enorme e sempre é uma honra contribuir para essa agenda, em âmbito nacional”, disse.
Igualdade
A consultora de Diversidade do Yduqs, Giowana Cambrone, avaliou que o evento tem o papel fundamental de promover a conscientização, sensibilização e promoção da igualdade. “A nossa ideia é oferecer um espaço seguro e inclusivo para discussões abertas sobre as questões que envolvem pessoas LGBTQIA+ a partir de suas experiências e vivências”, disse à Agência Brasil.
Ela acredita que essa plataforma de compartilhamento de vivências e experiências pode ajudar a desconstruir estereótipos, combater preconceitos e promover a respeito, além de celebrar a diversidade.
Para Giowana Cambrone, a conscientização da sociedade passa, necessariamente, pelo diálogo aberto e claro e pela produção de informações que possam destacar a importância do respeito, da empatia e da aceitação. “Óbvio que a gente precisa vencer o desafio de driblar o preconceito e o reacionarismo presente na sociedade para que as sementes da informação possam florescer. É preciso compreender que não precisa ser uma pessoa LGBTQIA+ para lutar contra a LGBTFobia”, disse.
A consultora assegurou ser fundamental que na família, nas escolas e no meio empresarial seja construído um ambiente acolhedor. Isso passa pela aceitação da diversidade, pelo respeito às diferentes sexualidades, pelo combate ao bullying e à discriminação nos diversos espaços, e pela abertura de diálogo. “No ambiente escolar e empresarial, é muito importante conhecer as especificidades de pessoas LGBTQIA+, promover a educação para a diversidade e implementar políticas e recomendações claras sobre práticas antidiscriminatórias”, defendeu.
Giowana disse que o Brasil é um dos países que mais violentam e matam pessoas LGBTQIA+ no mundo. “A violência física é o que nós vemos, porque tem uma materialidade dessas práticas. No entanto, precisamos combater as práticas menos visíveis de violências simbólicas, verbais, que fortalecem a lógica perversa de que é permitido praticar piadas LGBTfóbicas, expor as pessoas a situações constrangedoras ou humilhantes. Para isso, é necessário educar para a diversidade e ocorrer uma mudança cultural profunda na sociedade”.
Estudo
Segundo estudo realizado pelo projeto internacional Trans Muder Monitoring, que monitora assassinatos de pessoas trans, o Brasil registrou 1.741 mortes de pessoas trans de 2008 e setembro de 2022, representando 37,5% do total de 4.639 mortes em todo o mundo. A América Latina e o Caribe respondem por 68% dos casos notificados. De acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), o Brasil lidera o ranking mundial de violência contra pessoas trans, com 131 assassinatos no ano passado.
A realização do Lugar de Fala no Mês do Orgulho LGBTQIA+ está alinhada com o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 16, da Organização das Nações Unidas (ONU), que busca promover sociedades pacíficas e inclusivas, garantindo acesso à justiça e construções institucionais responsáveis.
Reflexão
O coordenador de Diversidade Sexual da Prefeitura do Rio de Janeiro, Carlos Tufvesson, destacou, à Agência Brasil, que o Mês do Orgulho LGBTQIA+ foi pensado para ser uma reflexão sobre a cidadania LGBT no mundo inteiro. Lamentou que a comunidade LGBT seja apagada constantemente do sistema.
“Isso é uma coisa que temos que começar a repensar. Porque nós somos cidadãos iguais em direitos e deveres. Então, neste mês, temos que lembrar que somos a única minoria que ainda é expulsa de casa por sermos quem somos. Porque todas as outras minorias encontram acolhimento em casa, como os negros e as pessoas que sofrem perseguição religiosa. Nós, não!”.
Ele lembrou que esse preconceito faz com que as pessoas saiam da escola e tenham a empregabilidade prejudicada. Essa é uma realidade com a qual as pessoas LGBTs lidam constantemente, assegurou. “É importante que a gente possa falar, para que as pessoas saibam que isso está acontecendo no Brasil hoje”.
Carlos Tufvesson disse que o preconceito e a perseguição impostos aos LGBTs está fazendo aumentar o número de suicídios de jovens LGBTs que não se sentem cidadãos como os demais, com direito à saúde, à educação, por exemplo, que são direitos constitucionais.
Segundo Tufvesson, a série de eventos alusivos ao Mês do Orgulho LGBT é importante para criar na sociedade a reflexão sobre essa realidade. Tufvesson disse que o número de agressões físicas contra pessoas LGBTs aumentou, ultrapassando as agressões verbais por crimes de ódio. E questionou que país que queremos e estamos construindo? “É o país da violência, de atentarmos contra o diferente?”, indagou.
Para ele, a diversidade de opiniões é mais rica do que todo mundo que concorda entre si, porque são debatidos vários pontos de vista. “Eu estou sempre aprendendo com pessoas que pensam diferente de mim”.
“Lugar de fala é isso, é para a gente falar sobre o que está ocorrendo, abrir espaço na mídia. Isso é muito importante para que as pessoas saibam de fato o que está havendo. Ninguém precisa ser LGBT para lutar contra a LGBTfobia”, disse, fazendo coro à Giowana Cambrone. “Basta ser um cidadão. Não é preciso ser negro para lutar contra o racismo, nem é preciso ser mulher pra lutar contra o machismo”, exemplificou. “A gente precisa quebrar esses estereótipos”.
Políticas públicas
O coordenador de Diversidade Sexual do Rio de Janeiro lamentou que ainda sejam necessárias políticas públicas para apoiar a comunidade LGBT. Ele disse que coordenadoria está fazendo projeto de complementação do ensino fundamental para pessoas LGBTs que foram evadidas das escolas em função do bullying que sofreram. Hoje, essas pessoas encontram problemas para se inserirem no mercado formal de trabalho. “A sociedade desconhece essa realidade”, disse Carlos Tufvesson .
A formatura da primeira turma, com 30 pessoas, será em setembro próximo. Em 2024, a intenção é estender a complementação para o ensino médio também. “Essas pessoas merecem mais chances na vida”, disse Carlos Tufvesson.
Outro projeto da prefeitura, o Garupa, tem oito agentes trans, que fazem busca ativa de pessoas trans e também heterossexuais para cadastrar na Clínica da Família, na assistência social, em todos os projetos que o governo oferece a cidadãos que são de desconhecimento dessa comunidade.
“Eles vivem à margem desse conhecimento”, disse Carlos Tufvesson.
O nome Garupa foi dado ao projeto “porque a gente pega na mão e leva”, explicou. O coordenador de Diversidade Sexual participa do Lugar de Fala, às 15h, em mesa que debaterá Políticas Públicas para Pessoas LGBTQIA+.
Edição: Fernando Fraga
Quando que homem vai aprender que sobre MULHER o lugar de fala é da MULHER??? PQP, mano! Você poderia até perguntar, mas aí mandar a mina estudar para não falar merda sobre algo que é do corpo dela e que ela usa. #feminista #feminismo #machismoestrutural #lugardefala https://www.instagram.com/p/CTFP7o3Mw0P/?utm_medium=tumblr
Muitas respostas. E claro que NOSSOS CORPOS, NOSSAS REGRAS!
FEMINISMO é sobre MULHERES. FEMINISMO é uma LUTA DE MULHERES. Homens podem ser ALIADOS nesta luta. Mas o protagonismo é NOSSO. O lugar de fala, de ensinar e decidir é NOSSO.
E esta resposta precisa ser muito discutida.
É doloroso dar uma criança para adoção ou abortar um embrião, mas pior é crescer com uma genitora que não te ama e vai te maltratar por toda a sua vida.
E isto eu sei bem como é. Vivi um inferno por causa de uma transa que resultou em uma gravidez indesejada. Abandonada pelo genitor e maltratada e espancada fisicamente, sexualmente e psicologicamente pela genitora e seu novo macho, que ela permitia que ele fizesse o que quisesse comigo.
Os traumas que eu carrego são enormes, frutos de violências constantes por anos e anos. E ninguém merece isto. NENHUMA CRIANÇA/JOVEM MERECE ISTO.
A sociedade BANALIZOU e NORMALIZOU que HOMENS por escolha, deixem de ser PAIS. Banalizou o ABANDONO AFETIVO e ECONÔMICO. O HOMEM pode decidir não ser mais pai. E isto eu também sei bem como é, como filha, abandonada pelo genitor e como mãe, abandonada pelo ex marido com duas filhas pequenas na época, que decidiu deixar de ser pai após a separação.
Mas, se a MULHER diz que não quer a gravidez e vai abortar ou dar o bebê, ela é PUTA. Por que quando uma MULHER engravida e não quer a gravidez ela é linchada e o HOMEM que a engravidou e a abandonou não é sequer questionado?
"Na hora de abrir as pernas foi bom, né? (As vezes nem foi!) "Na hora de revirar os olhinhos, quis", MAS A MULHER NÃO FEZ ISTO SOZINHA!!! Por que querem pôr a responsabilidade toda somente para ela. E o pior é que muitas mulheres reproduzem este machismo. Estas falas muitas das vezes, vem das bocas de próprias mulheres.
VOU CONTAR UM SEGREDO, SEXO É NO MÍNIMO A DOIS E NÃO ENGRAVIDAMOS COM O NOSSO DEDO, OK!
Por que a sociedade NORMALIZA o homem não querer ser pai, mas demoniza a mulher que não quer ser mãe?
E as vezes os dois so queriam transar mesmo. Só queriam prazer, intimidade e infelizmente o contraceptivo falhou, o preservativo rasgou e a gravidez ocorreu, e eles não querem a gravidez. As pessoas não transam 100% das vezes para CONCEPÇÃO. TRANSAM PARA O PRAZER!!!!
Mas cara, se o contracetivo falhou, apoie a mulher, se ela quer abortar, compre o remédio para ela fazer o procedimento, ja que infelizmente nosso país ainda luta contra o nosso bem estar, fique com ela neste momento porque ele não é facil. Se ela decidir levar a gravidez, mas doar o bebê, a apoie. Ou no máximo pegue ele para você e cuide, como MILHARES de MULHERES fazem todos os dias. Se você quer o filho e ela aceita gestar e parir, leva a criança com você e crie. Mas isto é escolha dela e não sua. O corpo não é seu e você não faz ideia do que é gerar um ser por 9 meses. Mas, se ela não concede com a ideia do aborto ou adoção, aí querendo ou não, você deve assumir o filho que você fez. Sim, ela é quem decide, ela é quem vai gerar ou abortar, no corpo dela.
A contracepção também é obrigação sua. Se falhou, você também é responsável. Mas isto não ocorre. Os homens fogem. E então vemos mais uma mulher virando a famosa MÃE SOLO. E ainda sendo julgada por isto. E ser mãe solo não é romântico.
E o machismo é tão estrutural, que inúmeras mulheres ficam com merdas que abandonaram filhos. MULHERES não podemos aceitar em nossas vidas, homens que abandonaram os próprios filhos. O patriarcado nos ensinou a lutarmos uma contra as outras, mas o feminismo está aí para nos ensinar que necessitamos nos unir e lutar contra homem escroto. Não aceite um romance com um homem que abandonou os filhos, que não ajuda financeiramente e não está presente na vida deles, que humilha a ex, que a coloca como louca. Vá falar com ela, vá conhecer a história toda. Este homem não tem caráter e dignidade e você como MULHER não pode apoiar o MAL para a outra mulher. E você será a próxima vítima. Não pense que com você será diferente. Ele não é um príncipe. Ele é um vilão.
Mulheres, não somos OBRIGADAS a querermos filhos e nem a ficarmos com eles. Então se você engravidou e não quer, a decisão de abortar ou dar, é SUA. E está tudo bem. Você pode escolher não ser mãe. Você não é um monstro por não querer levar uma gravidez indesejada a frente. Então se abortar não é algo que passe pela sua concepção, tudo bem. Você pode escolher levar a gestação até o final, mas pode também dar o bebê que nasceu.
Não entrem na fábula da romantização da maternidade. So tenham filhos se vocês quiserem. A maternidade tem suas belezas, mas ela está 1000% de ser a fantasia que nos foi desenhada. E ser mãe sozinha é muito pior. E raramente uma MÃE SOLO consegue uma REDE DE APOIO. No final das contas, você vai estar sozinha, se desdobrando para cuidar, educar e sustentar o filho que você nem planejou ou desejou. E aí a pergunta que fica é: VOCÊ VAI CONSEGUIR DAR TODO O AMOR PARA ESTA CRIANÇA E AINDA SE AMAR? VOCÊ VAI CONSEGUIR VIVER COMO MULHER, LIDAR COM OS TRAUMAS DO ABANDONO E AJUDAR SEU FILHO A LIDAR COM OS TRAUMAS DELE POR TER SIDO ABANDONADO PELO GENITOR? VOCÊ CONSEGUIRÁ SER MÃE, OU SERÁ APENAS GENITORA. Se você for apenas genitora, por favor, não tenha ou não fique com esta criança. Ela não merece sofrer. A dê para alguém que vai ama-la. Ou aborte. Embrião não sente dor. Criança, sim.
A decisão é SUA. Somente SUA.
E usem CAMISINHAS SEMPRE. Evita IST's e FILHOS. NÃO CONFIE 100% NO ROMEU.
Quando você tem muito a dizer e com razão, sempre vai encontrar aqueles que vão querer cercear sua voz! . . . . . #censurada #sos #lugardefala #socorro #naoaguentomais #machismo #corrupçãoinstitucionalizada #corporativismo #mentiras #falsomoralismo #inveja #silenciada #silêncio #silence #lingua #língua #etiqueta (em Brazil) https://www.instagram.com/p/CN3DeM6jKG4/?igshid=w8krqwe2fo
Lugar De Falar… Qual Lugar ? Uma Breve Reflexão Sobre A Covid 19
Esse artigo foi escrito e publicado em junho de 2020,
publicado no site O Fato News em: https://ofato.news/lugar-de-falar-qual-lugar-uma-breve-reflexao-sobre-a-covid-19/
Nesses tempos que vivemos, por sinal, bastante difíceis, está em vigor a expressão “lugar de fala”, e de fato considero que tem questões que somente quem vivência tem condições de falar, falar de qual lugar?
Todos estamos vivendo uma pandemia no Brasil, mas ela não atinge a todos da mesma forma, não podemos ser inocentes e dizer que o Covid 19 atinge a periferia da mesma forma que os lugares onde as classes médias moram.
Como moradora de uma comunidade localiza em um bairro da classe média de Fortaleza, posso dizer que a Covid 19 nos atinge de forma diferente, somos todos moradores do importante bairro de Fátima, somos todos abençoados por Nossa Senhora de Fátima, mas nem todos têm o mesmo acesso à saúde, mas nem todos têm o “direito” ao isolamento social. Sim, o isolamento social, colocando como dever na verdade é um direito, um direito que nem todos têm, é que nos, os moradores da comunidade Aldaci Barbosa que se localiza dentro do imponente bairro de Fátima, não temos esse direito.
Como ficar em isolamento social quando se mora 9 pessoas em uma casa de 42m2? Como ficar em isolamento social quando seu pedido de beneficio emergencial foi negado apesar de você e seu companheiro estarem desempregados há anos? Como ficar em isolamento social quando se é mãe solo, se recebe Bolsa Família, se tem 3 filhos e seu beneficio emergencial foi negado? Esses são alguns dos relatos que recebo todos os dias, em meio a pedidos de socorro.
Esses relatos são facilmente comprovados quando vimos os dados de casos e mortes por Covid 19 em Fortaleza, esses dados deixam claro que são os mais pobres que estão morrendo, porque também são essas pessoas que trabalham nos mercantis, no transporte coletivo, nas farmácias, na limpeza dos hospitais, postos de saúde e agora com a reabertura da economia, nas lojas, na construção civil. São os mais pobres que estão morrendo e por isso que a reabertura da economia já começou mesmo com os casos ainda subindo.
Posso falar como meu “lugar de fala”, como alguém que está nesse momento sentado no seu quarto, na sua comunidade, como alguém que sabe que são ações coletivas como o Ser Ponte que estão nos ajudando a viver nas comunidades nesses meses de pandemia. Desde muito cedo fui ensinada pelos meus pais que viver em comunidade significava lutar para ter uma vida digna, para ter acesso a políticas públicas, enfim, lutar pra ter direito a ter direito.