As políticas do lugar de fala – um contraponto
Um esclarecimento é muito importante antes de iniciar esse ensaio: quando me refiro à “política do lugar de fala”, aqui, não estou falando de protagonismo (que eu defendo com unhas e dentes) e também não estou falando do “conceito de lugar de fala”, ou seja, do entendimento de que construímos nossos discursos a partir da nossa localização em uma estrutura de opressão, com todas as implicações que isso trás.
Esse entendimento, e é muito importante que isso fique absolutamente claro, não poderia estar mais correto, e eu tenho profundo respeito pelas autoras que o desenvolvem e o defendem, assim como tenho concordância. “Política do lugar de fala” é, nesse texto, um termo usado para se referir especificamente a um uso prático e muito difundido atualmente do “conceito de lugar de fala”, uso esse que considero deturpado e esvaziado, e que considera que a localização na estrutura e tal somente ela é imperativa para determinar se um discurso é ou não legitimo, ou seja, que cria uma hierarquia na discussão de ideias na qual essa propriedade está acima de qualquer outra. Portanto, conforme você lê esse ensaio, se você discordar de um apontamento porque pensa que “isso não é o que o lugar de fala é”, eu peço que antes de qualquer coisa se pergunte se está pensando no conceito ou na politica; porque vou estar, salvo quando explicitamente dito ao contrário, falando da segunda.
É importante dizer que o foco da minha preocupação não é com os homens individuais que não podem falar por conta dessas políticas, ou, vamos dizer, com seu bem-estar, e não estou dizendo aqui que mulheres feministas estão “oprimindo” homens. Esse absolutamente não é o caso. Afinal de contas, esses homens podem deixar os micro universos onde essa politica está vigente a qualquer momento e sair pelo mundo onde serão ouvidos e legitimados o tempo todo. As minhas preocupações são três; que essa seja uma aplicação tirana do “conceito de lugar de fala” que é fundamentalmente masculinista e inerente à mesma ordem e hierarquia que buscamos destruir; que essa política esteja minando uma atmosfera questionadora e nos custando o debate de liberação das mulheres, assim como ideias e pontos de vista que poderiam ser valiosos para nós; que ela esteja provocando uma série de efeitos colaterais que estamos falhando em identificar.
Esse texto é uma verborragia de ideias e análises. Vou abrir parênteses pra me aprofundar em muitas delas e sair um pouco do tema principal, pelo que ele pode parecer um pouco confuso. Me esforcei ao máximo para manter uma ordem que faça sentido e que flua. Vou abordar aqui, respectivamente: a minha própria experiência com essa política, porque acredito que ela tenha se tornado tão comum, o que acredito que ela é, quais são suas problemáticas, quais são suas consequências e quais são as minhas proposições pessoais. Tudo aqui está aberto a discussão, e nenhuma frase pode ser entendida fora do contexto do texto ou, no mínimo, de um parágrafo.
NUM DESPERTAR FEMINISTA
Embora eu tenha defendido as políticas do lugar de fala por muito tempo, não me lembro de utilizar essa defesa como forma de encerrar discussões em que verdadeiramente me engajei, embora tenha usado disso como deboche muitas vezes. Não é que nunca tenha ouvido de homens coisas que me fariam subir nas paredes, ou que nunca tenha tido dificuldade de explicar racionalmente algo que eu soubesse de forma empírica. Isso aconteceu mais vezes do que posso contar.
Essas instâncias passaram a me despertar um ímpeto não de desautorizar o locutor mas de provar que ele estava errado. Eu conhecia a minha realidade de atravessar o mundo como mulher, num corpo de mulher, com uma história de mulher. Eu sabia que o sexismo era uma realidade evitável. Nada disso era intuição, mas sim constatações feitas a partir de experiência e o debruçar sob estudos das ciências sociais.
O anseio por retrucar um questionamento, na maior parte das vezes, falava mais alto do que o reflexo de me esquivar da questão. E se eu não soubesse respondê-lo, então isso significava que eu precisava repensar minha opinião, fosse para aperfeiçoá-la ou para descartá-la (ainda que lá atrás isso viesse com um sentimento muito amargo de orgulho ferido). Saber respondê-lo, do contrário, não significava ser capaz de satisfazer os critérios do outro e, consequentemente, convencê-lo; o mais importante, para mim, era que eu conseguisse satisfazer os meus critérios, uma dinâmica de debate que Marilyn Frye explicou em Politics of Reality e com a qual me identifico muito. O importante era que eu pudesse, no meu íntimo, sossegar sabendo que não precisaria fugir desse questionamento, qualquer que ele fosse, dentro da minha própria cabeça.
Com o tempo, reparei que uma parte importante das minhas próprias opiniões foi moldada no seio dessas discussões. Conversar com essas pessoas, que discordavam radicalmente de mim ou que tinham uma experiência no mundo radicalmente diferente da minha, me obrigou a resolver todas as eventuais pontas soltas e contradições contidas na minha visão de mundo. Esse desafio me obrigava a aperfeiçoar o conjunto das minhas ideias e torna-las mais inteligíveis.
Essa foi uma realização difícil porque, no feminismo, estava buscando, devagar e sempre, me referenciar a mulheres e construir a minha intelectualidade junto a elas. Parecia que reconhecer a importância dessas discussões era roubar ou diminuir a importância daquilo que eu vinha construindo unicamente entre as minhas. Demorei a entender que essa realização e essa busca podiam andar lado a lado. A verdade é que continuei a extrair a maior parte da sabedoria e aprendizado das minhas discussões com feministas, e virtualmente poderia ter chegado ao mesmo lugar que estou hoje se tivesse me limitado a essas discussões. Mas teria chegado depois. Dos homens, o que aproveitei foi ora sua vontade de me desprovar, ora a incapacidade natural e recíproca, mesmo do homem mais bem-intencionado, de enxergar o mundo pelas minhas lentes, o que me obrigava a articular aspectos que eu tomava como certos nas minhas discussões com outras mulheres. Em alguns casos, levei também provocações filosóficas que me foram absolutamente úteis. Tudo isso impulsionou o meu pensamento de forma significativa no seio de debates onde essa política não estava em vigor. Como eu poderia defender uma política (política, não conceito!) que ignorava a minha própria experiência? Esse foi o despertar.
UMA TENTATIVA DE EXPLICAR A DIFUSÃO DESSA POLÍTICA
Eu ainda passei muito tempo apegada às políticas de lugar de fala por motivos, no mínimo, justos. Acredito que muitas mulheres tiveram ou têm motivos parecidos, que explicam em parte sua manutenção. Como mulher, essa política era talvez a única em vigor (ainda que em vigor somente especificamente em discussões feministas em espaços de esquerda) que reconhecia a minha autoridade em um assunto. Era graças a ela que eu podia, pela primeira vez, descansar da necessidade de provar meu domínio de um tema e simplesmente falar sobre ele. Ela deslocava os agentes da opressão a um lugar de ouvinte e/ou aprendiz a qualquer custo. Ela também dava algum sentimento de revanchismo pelos quais muitas de nós compreensivelmente ansiávamos. Era a única resposta a uma ferida e um ressentimento profundo que crescia conforme crescia a minha própria consciência. Na prática, ela podia também desculpar e encobrir a minha incapacidade de traduzir a minha experiência em argumentos convincentes, como uma mãe que intervém numa briga de irmãos e, sem fazer muitas perguntas, dá razão ao filho preferido. Ainda que eu não fizesse uso dela, era bom tê-la ali, e também não me sentia no direito de, mesmo que somente no meu discurso ou imaginário, privar outras mulheres disso.
Hoje, olhando para trás, acredito que a naturalização dessa política tenha acontecido também por motivos mais obscuros e profundos. Quem debate feminismo por necessidades básicas de sobrevivência e dignidade o faz, primordialmente, buscando a discussão mais produtiva e assertiva possível. Idealmente, não o faz por vaidade, ego ou orgulho. Esses sentimentos têm solos mais férteis para se criarem em círculos, ou no âmago de indivíduos, em que o debate de feminismo é um jogo de quebra cabeças a ser resolvido pela satisfação de solucioná-lo, não porque ao fim do dia alguém pode sair daquele encontro e ser estuprada no caminho pra casa. Veja bem; não estou propondo que isso nunca aconteça naturalmente entre as mulheres, ou que a vaidade, o ego e o orgulho são estritamente masculinos, mas que faz sentido dizer que, no feminismo, um lado pode recair nessas armadilhas com muito mais segurança que o outro. Talvez esse modelo de debate, o modelo da “lacração”, possa ser explicado por isso – que ele tenha ganhado tanto espaço porque a lógica e os sentimentos mais basais na qual ela se ancora permeiem com frequência as discussões masculinas, e nós aprendemos a existir na política observando o macho conduzir suas discussões. Essa é só uma hipótese.
Pra além disso, no meu caso, e talvez no de outras mulheres, me chamou atenção como a arrogância e o autoritarismo marcantes desse uso eram incompatíveis com a forma como eu abordava minhas outras relações interpessoais que não as políticas. O ambiente político era o único em que eu reproduzia esse tipo de comportamento precisamente porque era o único ambiente em que estava em constante disputa de espaço com os homens e sentia necessidade de copiá-los para ser ouvida, ou mesmo um ambiente em que eles eram o único exemplo para as mulheres (isto é, porque mesmo quando eu usava uma mulher como referência, muitas vezes a referência dela própria eram homens).
O patriarcado é um sistema de opressão que não é marcado, diferente dos outros, pela segregação da classe opressora e da classe oprimida, mas pelo convívio intimo entre as duas, com criação de laços e de uma intimidade que facilita a subjugação da mulher. É importante para esse sistema que essa relação se dê de forma aparentemente amistosa, e isso é garantido por meio de uma definição cuidadosa e altamente específica dos papéis da mulher e do homem em todas as esferas da sociedade de forma que coexistam e se complementem, mesmo que hierarquicamente. Mas a política – não era para termos chegado lá nunca. Que nós estejamos nesse ambiente é uma derrota para esse sistema. Isso é muito conflituoso e tenso. As mulheres que vieram antes de nós garantiram nosso direito de estar aqui, mas ainda estamos nos acostumando com a ideia, nos adequando e entendendo como se portar, buscando garantir que a nós seja concedido o direito de não só estar aqui como também – imagina só! – sermos ouvidas. Nós temos feito isso, em grande parte, olhando para os homens desse ambiente e copiando-os. De uma certa forma, a implementação dessa política foi, ironicamente, a maneira que as mulheres encontraram de sobreviver aqui – aprendemos a lógica de debater masculina e fizemos dela uma regra contra o próprio homem.
Por muito tempo eu falhei em enxergar isso porque pensava que essa imitação era, na verdade, uma expressão do meu empoderamento; que conforme eu avançava nos espaços políticos e tomava essa discussão nas minhas próprias mãos, eu ia crescer pra caber no comportamento dos homens nesses espaços. Que eu ia falar alto, bater na mesa e me exaltar e que essas eram demonstrações da minha auto confiança e de como eu era uma mulher que deve ser ouvida. Isso é absolutamente estúpido. Isso também não é pra endossar o coro conservador de que uma verdadeira líder feminina é recatada e reservada, uma mulher firme mas dócil que convence os outros com charme ou outra besteira do tipo. Ambos estão profundamente errados. Uma liderança ou mesmo um coro político feminista não vai se definir pela feminilidade e também não vai se definir pela masculinidade – nós o fizemos por todo esse tempo por uma questão de sobrevivência, de conseguirmos ser ouvidas nesse espaço em que os homens falam grosso e alto. Mas as mulheres não querem sobreviver nos espaços políticos – elas querem existir. A existência feminista rejeita a feminilidade mansa e subjugada e rejeita toda a estupidez masculina da política de debate marcada pela violência e exerbação, uma eterna política do meu é maior que o seu.
Um modelo verdadeiramente revolucionário descarta esse molde por inteiro e resgata critérios muito mais fundamentais para um espaço de debate político realmente interessado na construção de uma sociedade justa, igualitária e saudável. Não vou me estender nisso agora – vou voltar nisso mais a frente.
O QUE É O QUE É
Meu ponto com tudo isso é dizer que foi necessário algum nível de frieza para mudar de lado nessa discussão. Eu o fiz porque, no meu entendimento, o feminismo tem sim um caráter de acolhimento importante no seu diálogo enquanto teoria para com seu sujeito – a sensação de lugar no mundo e legitimação que ele proporciona às mulheres que chegam ao movimento é imprescindível para a revolução feminista porque, e isso é algo especifico do patriarcado (e tem a ver com o que eu disse antes, sobre esse ser o único sistema de opressão que não é baseado na segregação das classes opressora e oprimida), as mulheres tem uma dificuldade enorme de se reconhecer como classe. Esse acolhimento naturalmente também valida e alimenta o ego dessas mulheres, e isso não é em si problemático – o que é problemático é se a função do feminismo for reduzida a isso.
Se ficamos estagnadas nessa fase de acolhimento e nunca avançamos para as partes mais dolorosas e recompensadoras da tomada de consciência feminista, ou seja, se esse acolhimento custa a liberação das mulheres, então ele é um falso acolhimento. Nas políticas do lugar de fala, no entanto, isso estava acontecendo o tempo todo.** **
No que eu acredito que consista essa política? No meu entendimento essa é, fundamentalmente, uma política de poder. Não um poder sistêmico porque, claro, só opera nesse micro-universo específico dos debates feministas em âmbitos de esquerda, mas, eu diria, um experimento com o poder, com a inversão das estruturas de poder nas políticas de discurso – não sua abolição. Ela (lembre-se: a política, não o conceito!) não busca destruir a lógica dominante que legitima ou não uma mensagem com base no locutor e qual grupo ele pertence, mas do contrário busca realocar os indivíduos nessa mesma lógica. Há alguns anos eu teria lido esse parágrafo que eu mesma escrevi agora e revirado os olhos, pensando, bom, não é a mesma coisa. E é verdade – não é. Não é possível comparar o que o patriarcado faz com as mulheres em uma escala global com o que uma militante faz com um homem numa reunião de coletivo, e se a segunda é uma reação ou uma tentativa de corrigir a desigualdade que a primeira cria, não é justo igualar os dois perpetradores. Mas a lógica por trás desses dois modus operandi é a mesma, independente disso, e ela é igualmente problemática em ambos os casos, porque determina o que pode ser dito não a partir de uma curadoria das ideias colocadas, mas dos sujeitos que falam.
O que eu vi acontecer foi a aplicação por via de regra dessa política para conservação dos espaços de discussão como ambientes em que os indivíduos objetos da opressão jamais se sentem questionadas pelos indivíduos agentes da opressão (mesmo quando esses questionamentos são justos e saudáveis). Era uma total despolitização do feminismo – o movimento estava sendo reduzido a função acolhedora que descrevi antes e perdendo sua função política para virar um clube da Luluzinha. Uma armadilha liberal. Essa preservação estava acontecendo por motivos tão fúteis quanto a vaidade de um único individuo, tão justos quanto a ferida aberta das mulheres oprimidas, mas acontecendo, muito frequentemente, em detrimento da qualidade crítica importante para a nossa liberação.
O que eu percebia era que, quando se constrangia o outro com as políticas do lugar de fala, garantia-se o monopólio da discussão. Quando um grupo monopoliza uma discussão, duas consequências são inevitáveis; primeiro, o critério crítico aplicado às conclusões resultantes só pode ser tão rígido quanto o critério crítico do mais rigoroso individuo desse grupo (que pode ou não ser o critério mais rigoroso disponível). Em segundo, essa discussão só pode ser travada a partir de um único locus no mundo, o que agrava aquilo que Chimamanda Adichie chamou de “o perigo da histórica única”. Preste bem atenção no uso das palavras: não estou dizendo que a “narrativa opressora” deve ter tanto espaço nos movimentos sociais quanto a “narrativa do oprimido”, ou que uma narrativa completa deva dar espaço de defesa para os agentes da opressão. Estou dizendo sim que certas proposições que podem ser ricas para o movimento de libertação das mulheres podem emergir de certos tipos de homens e justamente da experiência de navegar o mundo como um homem, acessando espaços exclusivamente masculinos e desfrutando de todos os privilégios que isso traz - é claro, se esse homem for um aliado.
Quando percebi isso pela primeira vez fiquei tentada a me rebater dizendo que, em debates feministas, as críticas e contribuições mais aguçadas vão sempre partir de mulheres, e que a política do lugar de fala parte dessa certeza funcionado, portanto, como uma ferramenta para silenciar o ruído numa discussão e deixar com que só as ideias importantes passem. Em outras palavras, dizer que filtrar o sujeito é filtrar o conteúdo das ideias. Mas isso simplesmente não é verdade. Não há nenhuma garantia. Se o local que o sujeito ocupa numa estrutura de opressão afeta sua visão de mundo, e isso é uma verdade absoluta, existem também várias outras propriedades individuais que tem um peso tão grande quanto ou mesmo maior ainda. Se não fosse assim, não teríamos mulheres anti-feministas e homens de esquerda que apoiam e pensam o feminismo. Mais que isso; não teríamos feministas inconscientemente liberais e homens de esquerda que por vezes fazem apontamentos cirúrgicos e revolucionários para causa. As outras propriedades individuais são importantíssimas porque, principalmente no campo teórico, são elas que guiam a forma como um indivíduo significa e articula a sua própria experiência, para não falar que um homem e uma mulher que possuem todas as propriedades individuais idênticas, a não ser pelo local de fala, provavelmente teriam acréscimos diferentes a fazer uma mesma discussão, pelo que calar um dos dois seria empobrece-la.
Na verdade, minha experiência diz que essa política faz exatamente o oposto de diminuir o ruído e deixar que só mensagens importantes passem – ela é muito frequentemente empregada como um artificio ao qual recorremos quando, confrontadas com uma crítica aguçada que não conseguimos responder, entramos em pânico. Ela desloca a incompetência do debatedor e diz, “não sou eu que não consigo explicar esse argumento, essa experiência ou rebater esse questionamento; é você que, por ser quem é, está condenado a pensar assim ou jamais conseguiria entender o que eu digo”. Ela é quase um niilismo militante fajuto. Essa reação não vem de um interesse pela liberação das mulheres, mas de um senso de vaidade mesquinho, egoísta que surge muitas vezes quando nossas opiniões são postas em xeque. Ela toma a forma da política do lugar de fala quando o outro debatedor é um homem mas nas discussões entre mulheres feministas ela vem aparecendo de outras maneiras, porque estabeleceu-se que o movimento social é um lugar em que esses sentimentos podem ser cultivados, mesmo que isso tenha sido estabelecido inconscientemente. Essa reação é compreensível, muito humana, mas não é função do feminismo acobertá-la, muito menos tornar seu acobertamento uma política estabelecida, mesmo quando ela parte de mulheres.
O DANO COLATERAL
Essa política tem uma série de efeitos colaterais, uns mais e outros menos importantes, uns mais e outros menos reversíveis.
Em primeiro lugar, essa política criou uma atmosfera de medo que desestimulou os aliados de tomarem responsabilidade na questão da libertação das mulheres, porque o receio de estar pisando fora dessa linha tinha se tornado uma preocupação muito central para essas alianças que frequentemente se sobrepunha a todo resto. O temor da resposta, do “cancelamento” que um indivíduo poderia sofrer se desrespeitasse essa política, intencionalmente ou não, estava produzindo um único tipo de aliança que, no melhor dos dias, servia como uma câmera de eco para o que dizíamos, de forma robótica e desengajada. Mas também não se engane – os aliados continuaram a selecionar aquilo que queriam ecoar e decidir onde por seu apoio, influência e dinheiro. A pior parte é que ali era o único lugar que essa preocupação verdadeiramente existia – como o Prof. Wilson Gomes apontou em um de seus escritos, essa mesma política nunca serviu para coibir a fala de masculinistas declarados, homens de direita ou do senso comum. Por ser a política de um micro universo, é preciso que você primeiro escolha adentrar esse micro universo para que ela se aplique a você. Você pode dizer que esse medo não é nada comparado com o medo que as pessoas oprimidas sofrem, e eu vou estar de acordo com você. Mas legítimo ou não, ele existe e está produzindo efeitos reais. Minha preocupação, como eu disse no início do texto, não são homens amedrontados, mas esses efeitos e suas consequências para a liberação das mulheres.
Outras pessoas talvez digam – o papel do aliado entre nós é ouvir, falar ele fala tão somente entre os seus. Mas como podemos incumbir alguém de propagar um conjunto de ideias que essa pessoa não pode estar confortável pra questionar? Essa é a morte do senso crítico e o autoritarismo mais auto-indulgente possível. Ele diz; somos moralmente superiores e mais qualificados para falar sobre esse tema do que você; a você cabe somente repetir nossas opiniões; se você nos questionar ou questionar as nossas conclusões, entenderemos que está, necessariamente, contra nós.
Nas redes sociais, especificamente, conforme essa politica se tornava mais e mais corriqueira, ela se consolidou como a politica da preguiça. O senso crítico, a construção coletiva partilhada por cada indivíduo de um entendimento bem estruturado do que era o patriarcado, ele simplesmente desapareceu. O desengajamento das mulheres cujo principal contato com o feminismo se dava online assolou o movimento - esses espaços feministas virtuais faziam as mulheres se sentirem bem, pura e simplesmente, a absolutamente nenhum custo. As mulheres permaneciam neles mas não haviam esforços conjuntos de estudar, pensar, dar continuidade ao trabalho daquelas que vieram antes de nós. Esse aparente avanço do movimento que fez com que muitas mulheres passassem a reivindicar o feminismo não se traduziu numa maior consciência política ou engajamento político das mulheres enquanto classe. Elas já tinham a razão e não precisavam de mais nada (exceto que, como toda mulher vivendo no patriarcado, elas precisavam, sim).
O efeito colateral dessa política para os próprios indivíduos do objeto da opressão também foi o pior possível. A premissa da qual essa política parte – de que o local do qual o seu discurso parte é o aspecto mais relevante para esse discurso, senão o único – tornou qualquer mulher uma faladora profissionalíssima das questões relativas a opressão. Por um lado, tudo que qualquer mulher falasse passou a ser entendido como feminismo se essa mulher assim quisesse, o que abriu espaço para as maiores armadilhas liberais que já vimos nesse movimento. Do outro lado, ficamos condenadas a falar única e exclusivamente sobre essas questões – afinal, é ali que damos nossas melhores e mais brilhantes contribuições. Sempre. A armadilha de tornar o local de fala a propriedade mais importante de um discurso é que o local do homem branco sempre foi, no imaginário coletivo, um de inteligência, sabedoria e intelectualidade – e, não curiosamente, nos ambientes de esquerda, continuam a ser eles que monopolizam o debate de todos os outros tópicos para além de sexo e raça.
Por conta desse entendimento, essa política ficou consolidada como A política de retificação dos ambientes de discussão, como se ela desse conta de corrigir todos os desequilíbrios da relação de co-existência de homens e mulheres no âmbito político. Óbvio, essa consolidação está relacionada diretamente ao que eu falei acima; nós só precisamos de retificação no debate de sexo porque esse é o único que vamos travar.
Agora, por exemplo, quando um homem age de forma desnecessariamente incisiva e agressiva com uma mulher num debate sobre a revolução cubana, se ele demonstra um paternalismo sutil e impaciente, a mulher muitas vezes sequer tem ferramentas para nomear essa violência, quanto menos um mecanismo de proteção bem estabelecido nesse meio ao qual ela pode recorrer. Ela fica a própria sorte – se conseguir articular, sozinha, seu próprio desconforto e acuamento, entender que aquilo é resultado da violência que sofreu, entender o que é aquela violência, de onde ela vem, para onde ela vai, se sentir segura o suficiente para vocalizar todos esses entendimentos e der a sorte de estar cercada de companheiras e companheiros que compreendam tudo que ela diz e decidam vocalizar seu apoio, ai então, talvez, aquela injustiça pontual será corrigida – o que também não garante que ela vá ser corrigida se isso acontecer de novo amanhã, em uma discussão sobre a revolução russa.
Nesse sentido, em específico, a política do lugar de fala, que parece, no seu uso no debate de sexo, ser uma política de garra e auto-determinação das mulheres, é na realidade uma armadilha que garante que a mulher permaneça mansa - se a política fosse um almoço de familia, o movimento feminista estaria agora se sentindo muito feliz e poderoso porque os adultos nos deixaram gerir a mesinha das crianças, com seus copinhos de plástico e a faquinhas sem serra.
DAS PROPOSIÇÕES
Requer um pouco de prepotência escrever um ensaio, mas não pretendo extrapolar isso sugerindo que tenho todas as soluções pro problema que busquei trazer. Também não me sentiria confortável de problematizar uma política como essa sem ser minimamente propositiva. Então, de forma bastante objetiva, queria sugerir alguns caminhos. Meu entendimento é que essa política costuma ser aplicada em seis instâncias diferentes - por vaidade, por ressentimento, por defesa, por falta de conhecimento para rebater um argumento, por inabilidade de articular argumentos a partir de saberes empíricos, pelo entendimento de que o protagonismo esta sendo atacado.
Para o uso que parte do ressentimento – eu penso que precisamos fortalecer os espaços de acolhimento. Não o que temos visto nos últimos anos, um acolhimento despolitizado, mas sim um acolhimento que parta do significar dessa revolta e do desenvolvimento de maneiras saudáveis de lidar com esses sentimentos. Isso pode significar instrumentalizá-lo, mas ás vezes pode significar uma auto-preservação que pede, ás vezes, um afastamento temporário das discussões mistas.
Para o uso que vem pela necessidade de defesa e blindagem das mulheres – eu penso que precisamos de politicas mais inteligentes. Precisamos fazer um esforço coletivo da esquerda (mulheres e homens) de destrinchar, dissecar, catalogar os moldes de debate masculinos e nomear tudo que há de tóxico nele, para que quando uma mulher se sinta ameaçada, ela possa identificar essa ameaça e todas as suas implicações, o que não só suaviza o impacto da violência mas facilita sua coibição, e poupa a energia política das mulheres. Essa seja talvez a proposição mais urgente e sem a qual não é possível constranger nenhuma mulher por fazer uso da politica do lugar de fala. Se tiramos a política do lugar de fala sem colocar isso no lugar, o que fica é um vácuo de proteção para as mulheres em espaços absolutamente desiguais. Eu ainda prefiro uma política hipócrita a vulnerabilizar ainda mais as mulheres.
Pela falta de conhecimento – eu penso que devemos investir o fortalecimento e a disseminação de espaços de formação, no movimento mas também pra fora dele. Isso não significa que todo grupo de feminismo precise estudar livros de 300 páginas sobre conceitos complexos e exaustivos. Isso é frutífero e deve ser estimulado sempre que for possível, mas não é sustentável, ao menos não com consistência, na realidade da maioria das mulheres. Mas significa que precisamos, principalmente as mulheres que tem o privilégio, ora no sentido mais teórico ora no mais corriqueiro da palavra, de ter tempo, acesso à educação, acesso a internet, liberdade de se organizar com outras mulheres, etc, investir parte da nossa energia política justamente na criação de materiais didáticos, sintetizados mas ainda assim críticos. O movimento feminista radical se dedica a isso há anos com a construção de zines, bibliotecas colaborativas, tradução de materiais estrangeiros e muitas outras iniciativas, mas esses esforços ainda podem ter um alcance muito maior se a esquerda como um todo se engajar.
Pela inabilidade de articular argumentos a partir de saberes empíricos – seu penso que cabem as discussões em espaços exclusivos. Isso começa, primeiro de tudo, na proteção e no fortalecimento desses espaços. Em organizações maiores, esse fortalecimento significa também um apoio financeiro. Em organizações menores, esse fortalecimento perpassa esforços coletivos também dos homens para viabilizar, facilitar e garantir que esses espaços sobrevivam - a titulo de exemplo, isso significa que em algumas organizações os homens vão ter que se responsabilizar inteiramente pelo revezamento da gestão da creche algumas vezes por semana, quando todas as mulheres estarão em reunião e o rodízio não poderá inclui-las.
Pela necessidade de protagonismo – novamente, o fortalecimento dos espaços exclusivos é fundamental, não só como já apontado acima mas, especificamente no caso do protagonismo, de maneira a reconhecer esses espaços dentro das organizações mistas como espaços importantes de deliberação. Esse reconhecimento precisa se traduzir num poder real desses espaços nas decisões dessas organizações em todos os outros níveis, não só no debate que é claramente de sexo, não só na interseccionalidade dos outros debate com o debate de sexo, mas em absolutamente todos os debates. Isso também colabora para o exercício profundo e frutífero do lugar de escuta entre os homens. Essa necessidade também é honrada por mulheres que se auto-gestionam em organizações exclusivas e por aquelas que escolhem o separatismo como estratégia.
POR FIM
Tudo é um debate em movimento, principalmente esse tema. Não existem aqui ideias totalmente fechadas, mas espero que algumas delas inaugurem certas provocações. Precisamos re-questionar a base de uma política que estamos solidificando no nosso movimento e entender com muito cuidado sua lógica e consequência. O que está em jogo é a liberação das mulheres - com isso não se brinca.










