Entrou em casa e saiu. Abriu a porta e bateu. Manel Estoirado bebia compulsivamente, muito, até não mais poder. Tinha em casa um frigorífico que só num canal funcionava. O outro canal estava sempre limpo, limpo e desinfetado, até porque álcool e binho, lá, nunca faltava, nunca há. Nunca há que chegue, nem nunca sobra que falte, nunca “tá bom, é demais!” Às vezes, de tanto que bebe, não há poste à frente que enxergue. Tem dias que vai à tasca, outros vai à taberna do Samuel... nunca de lá vem só, volta sempre com a rosca e a conversar com o outro Manel. Todos na vila o conhecem, uns riem, outros gozam. Há quem o cumprimente, há quem lhe diga “olá”... há quem mude de passeio e não o trate por gente. “Estoirado”, foi-lhe dado... Dado pelos que o serviam, uns por pena outros por consideração... enchiam o copo sem nunca dizer que não. Ele ia passando, passava pelos passeios e por ele a vida... uns dias cantando, uns dias cambaleando, convivendo com a sua figura e aceitando a sua sina. Via-se ao espelho, torto. Deitava-se nos bancos, morto. Ria da tristeza, chorava do fardo pesado. Rodeado de gente, passava por todos na rua - sempre só, como a lua. Apenas acompanhado pelas estrelas, as únicas que o contemplavam. A dada altura deixou-se de saber dele, a dada altura deixou de aparecer na tasca. Foi então que repararam que o Manel Estoirado, tinha, finalmente, deixado tudo, até de beber.