Dos três grandes teóricos da comunicação aqui em análise, McLuhan seria provavelmente o único que não teria problemas em confrontar as suas teses com a internet tal como nós a conhecemos hoje em dia. Muito pelo contrário! E com razão, uma vez que muito do que foi a evolução tecnológica da internet desde a criação da world wide web é uma decorrência das tecnologias que McLuhan já conhecia no seu tempo e que ele identificou com precisão (a importância dada ao telégrafo - muitas vezes esquecido - é um bom exemplo). Mas o que McLuhan não conseguiu prever - e por isso também não foi capaz de integrar nas suas teses - foram as manifestações sociais da tecnologia. Na verdade, para McLuhan, essa foi sempre uma questão menos relevante face ao carácter impositivo que a técnica dos media tinha na sua construção teórica. E daí derivou talvez a falha mais importante do seu pensamento, que foi não ter identificado a
arquitectura em rede que a comunicação na internet adoptou e que é ela própria resultado de várias contingências não, como explica Manuel Castells (Castells, 2001, pp.34-41). Em boa parte, as tecnologias de informação e comunicação evoluíram conforme Marshal McLuhan previra. Mas é a sua apropriação social que explica o seu desenvolvimento actual.
Pelo contrário, os outros dois pensadores aqui analisados - Habermas e Baudrillard - construíram antes de mais edifícios sociológicos, até bastante desligados das técnicas ou tecnologias de comunicação em concreto, mas muito habilitados a explicarem o funcionamento global da sociedade e o papel central que nesse funcionamento - em ambos os casos - tem o processo de comunicação.
Obviamente existe um elemento alienatório das massas que nos sugere alguma semelhança entre as formas como Habermas e Baudrillard viam o problema. Habermas achava que os media, ao deixarem-se “ocupar” por interesses particulares, não conseguiam instituir uma verdadeira esfera pública e encenavam um debate de ideias que não era verdadeiro; e Baudrillard achava que, pela sua própria ideologia, os media encenavam uma hiper-realidade que ocultava a própria realidade. Mas, não só chegavam lá de forma muito diferente, como - mais importante - seguiam em frente por caminhos ainda mais diversos. Para o pensador alemão, nas sociedades modernas a esfera pública regulada pelos media falhava o cumprimento da sua missão; para o pensador francês, ao contrário, a hiper-realidade, mais do que um falhanço, era a evolução lógica do sistema de comunicação (e significação) na sociedade. Aliás, o próprio Baudrillard afirma que não vê esta passividade e alienação como como algo que o deva tornar pessimista, mas antes “ irónico e antagonístico” (Baudrillard, 1998, p.208), ou seja, sublinhando o carácter dialéctico da sua abordagem, que é afinal a razão que o leva a não fechar totalmente a porta à possibilidade de uma “ subversão do código dos media, de um discurso alternativo e de uma reciprocidade radical da troca simbólica” (Habermas, 1998, p.208). Essa fresta aberta na porta não se consegue encontrar em Habermas. Embora por escolha própria, pois, como vimos, alguns dos seus seguidores acham que as novas tecnologias de informação e comunicação trazidas pelo computador e a internet, com a apropriação e incorporação social que estão a ter, têm condições de revitalizar a esfera pública ideal de Habermas e com isso projectar as suas teses no
futuro.
Por outro lado, tanto para Baudrillard como para McLuhan os media atingem na era contemporânea uma época de clímax. Mas enquanto McLuhan vê esse clímax como a consumação da utopia da “aldeia global”, Baudrillard vê-o como um mundo desolado de comunicação irreal (Nunes, 1995, p.5). Aliás, o filósofo francês vê esse facto como a base para criação de um mundo fragmentado de experiências individuais que, afinal, não está assim tão longe da fragmentação da internet que leva Habermas a descartar o seu putativo papel na revitalização da “esfera pública”.
Em suma, se em McLuhan temos um optimista alimentado pelo determinismo tecnológico, em Habermas e Baudrillard temos provavelmente dois pessimistas de origem marxista, que sentem mais dificuldade em encaixar nas suas teses a internet e os novos modelos de comunicação da sociedade em rede ou fazem-no
estabelecendo uma continuidade não relevante com o passado. Uma coisa é certa: qualquer destes pensadores deixou raízes profundas na análise da sociedade e dos media dentro dela que servirão certamente de base a muitos investigadores no futuro - sejam eles mais optimistas ou mais pessimistas - para continuarem a estudar o fenómeno que eles procuraram explicar.
José Carlos Moreno (2013: 72-74) A internet em McLuhan, Baudrillard e Habermas | Observatorio (OBS*) Observatorio (OBS*) Journal, vol.7 - no3 (2013), 059-077---/--- 1646-5954/ERC123483/2013 059