I used to be a real go-getter, I used to think it'd all get better: MeiMei Choi
Mei podia dizer com segurança que desencaixotar e organizar estava quase se tornando uma terapia pra ela agora.
Depois do longo e barulhento estresse pra decidir onde eles iam morar, que tipo de casa eles estavam procurando e do bolso de quem aquele dinheiro todo ia sair, não tinha nada que a deixasse mais feliz e tranquila do que passar horas preenchendo todos aqueles cômodos e dando alguma vida pra eles. O fato de que era a primeira vez que ela fazia aquilo porque queria e porque via aquele lugar como um lar de verdade, e que era a primeira vez que fazia aquilo com alguém que ela amava e entendia a importância e necessidade daquilo, só tornava o processo mais cuidadoso.
Ela queria que fosse perfeito, ela acreditava que eles mereciam algo perfeito, e no que dependesse só dela, as coisas seriam mesmo as melhores agora, mas é só quando ela precisa desencaixotar as próprias coisas que percebe que pra ser mesmo perfeito, depende mesmo só dela.
Hanbin já sabia do armário sumidouro e como era mais fácil acessar um caminho pra casa dela em caso de emergência, também sabia dos artefatos e joias que ela precisava guardar consigo onde quer que fosse e definitivamente sabia sobre todas as tranqueiras de vidente e misticismo que ela acumulava uma vida inteira, mas não era tudo. Ele não sabia da caixa preta que tinha morado debaixo da cama dela no ano letivo anterior, como se fosse uma relíquia esquecida do último emprego que ela teve e não fazia questão alguma de falar sobre pra quem quer que fosse.
Mas ele não era mais qualquer um, e ela não podia manter aquela coisa medonha dentro da casa deles, não importava o tamanho do ódio e rancor que ela sentia por todas as vezes que tinha sido torturada com aquela porcaria e pelas pessoas que tinham feito aquilo com ela. Não tinha espaço pra essa versão sua naquela vida, naquele casamento, e estava finalmente disposta a mandar ela ir embora.
— Han, você pode vir aqui um minuto?
E mesmo que a necessidade de ter ele na sala de estar com ela e o quão séria aquela conversa ia ser, ela tenta manter um tom gentil e calmo, deixando o objeto na mesinha de centro entre os dois, esperando pacientemente ele se sentar no chão perto dela antes de avisar.
— Não toca na caixa, é amaldiçoada. Foi feita pra proporcionar a pior dor do mundo e testar lealdade, mas principalmente pra criar resistência.
Ela tinha feito planos sólidos de conversar sobre aquele assunto na manhã seguinte do confronto na praia, de ter dito pra ele que não iam se casar antes dela falar, mas então ele se machucou, o governo resolveu se meter no desfecho de tudo e ainda premiar todos eles como heróis nacionais. O casamento veio, a lua de mel também, então a visita a fazenda e a decisão que eles iam iniciar um novo ciclo bem longe daquele pesadelo. Mei sentia que se esperasse mais, aquele bicho papão só ia ficar mais forte no subconsciente dela, e não fazia mais parte dela esconder coisas de ninguém, principalmente a pessoa que ela prometeu amar e respeitar no altar.
Ela devia isso a si mesma e principalmente a ele.
— Eu não sabia que o mundo bruxo era tão grande e segregado antes de sair de casa… Nós passamos muito tempo escondidos naquela cidade por medo, já tinha passado da hora de retomar as experiências que tinham tirado de nós, eu incentivei as pessoas e dei esperança pra elas, precisava manter minha palavra e ser a primeira saindo de lá… e eu achei que não ia ter nada demais pra me preocupar, até o Ministério me recrutar e me fazer acreditar que eu precisava mais deles do que eles de mim. — Ela começa o que tem certeza que vai ser um monólogo, mantendo a postura imperturbável de quase sempre, não tirando os olhos dele. — O treinamento foi tão difícil… Metade do tempo eles tomavam o cuidado pra você não ter muitas marcas no corpo, e que todas elas ficassem na sua alma, porque iam precisar de você inteiro e sem defeitos pra todo tipo de missão que eles precisassem. Então, torturas eram okay, mas só se mexesse só com a sua cabeça e não te deixasse dormir por dias. Porque o que eles gostavam, era de colocar os mais fortes pra disciplinar os mais fracos, porque eles achavam que era bom… ser marcado e ter a falsa ideia de que se um dia nós fôssemos bons o suficiente, íamos poder revidar numa pessoa menor e mais fraca quando chegasse nossa vez.
— No começo eu apanhava todos os dias dos meninos mais velhos, e quando tive a oportunidade de ensinar alguém do mesmo jeito, não conseguia me importar com o fato de que eu também já tinha passado por aquilo, eu só conseguia pensar no quanto tinha ficado machucada e no quanto queria transferir aquilo pra outra pessoa. — Mei faz uma pausa antes de continuar ao se voltar pras mãos dobradas em cima do colo. Ela odiava, simplesmente odiava se sentir daquele jeito e ter que expor aquelas coisas pra ele, mas não podia parar agora que já tinha começado. — E se no fim você tivesse muita sorte e acabasse sendo promovido, as coisas não mudavam, e você não ligava porque todos os anos treinando serviram pra programar você pra não sentir, nunca ceder, não se permitir e trabalhar duro pra ter honra e ser reconhecido por isso. Sempre que eu questionava, em todas as vezes que tentei deixar aquele lugar… Eles só diziam que tinham esperado muito tempo por mim, que só eles sabiam o que era melhor e que eu precisava ser mais grata porque eles tinham me ajudado a encontrar o meu propósito.
Não sei se metade das pessoas que eu ajudei a colocar na cadeia, são culpadas de verdade. Eu não sei quantas vezes eles usaram minhas previsões pra prejudicar alguém ou um cenário inteiro sem que eu soubesse. Dos dezoito aos vinte e cinco o meu corpo não era mais meu e se precisassem dele pra chegar em alguém, eu precisava seduzir quem quer que fosse e aceitar ser tocada até o fim. Todos os meus colegas morreram e tudo o que eu ganhei como acalento foi honra. Eu não hesitava e nunca recuava e isso me deixou maluca.
Eu não sabia mais quem eu era, no que eu acreditava ou se tinha alguma coisa que eu pudesse fazer. Estava envergonhada demais pra voltar pra casa, não conseguia falar sobre isso com a Harumi depois de ter exposto tudo pra ela e quanto mais eu tentava sair daquela situação, mais me sentia vazia e derrotada. Então, teve a profecia e eu fiquei apavorada e achei que ia ser o momento perfeito pra desistir… Até achar o anúncio de Mahoutokoro e descobrir que Minami Iwo Jima era uma das ilhas que eu vi… Antes de sair de casa, antes de ser atraída, e pra onde eu queria ir desde o começo porque sabia que era lá onde eu precisava estar.
— Eu só não achava mais que fosse real. Não achava que merecia qualquer tipo de redenção depois das coisas horríveis que eu fiz e que se tratava da vida de outra pessoa, e você já sabe como essa história termina. — A parte em que eles tinham ficado e ela não conseguiu convencer ele de ajudar ela a tornar o processo menos doloroso, e todos os eventos que vieram depois e levaram os dois até onde eles estavam, agora marido e mulher. — Eu sei que você acha que é o único que sente que precisa me proteger, mas eu quero que saiba que eu estava protegendo você também. Eu não estava pronta, e não queria machucar você. Eu sei que não sou uma pessoa boa e que não posso pedir pra você ficar, mas eu precisava que você soubesse. Eu prometi que não ia mais me esconder de você.
E todas as palavras dela são as mais sinceras, saídas direto do coração, mesmo que até aquele momento, nenhuma lágrima tenha sido derramada e ela não parecesse nenhum pouco abalada com a situação ou o fato de ter exposto tudo aquilo pra ele. Era mais sobre como ela era agora e como se comportava diante de tudo aquilo e as partes que ela tinha perdido no meio do caminho.
— Han… Você vai me perdoar por não ter falado sobre isso com você antes?















