The loser has to fall: Lilac Callaway
Avisos: o cenário pode e vai mudar no futuro, já que esse núcleo familiar é compartilhado.
Nota de conteúdo sensível: menções a discussões e personagem passando por um período melancólico e enfrentando assédio midiatico.
Não tem muita coisa que possa ser feita quando Lilac já está fazendo beicinho e ameaçando chorar muito, e ruidosamente por muito tempo, quando seus pais tentam lhe explicar que seu parceiro de patinação é perfeito porque eles têm a mesma altura, mas mais jovem, o que quer dizer que ela vai ter que ser paciente no futuro.
Algo que lhe faltava aos montes. Principalmente quando ela tem dez anos de idade e muitos sonhos pra alcançar antes dos 30. Segundo ela mesma.
— Eu vou ter que esperar ele, mamãe. Isso não é justo! — Dizia jogando os braços pro alto, em descontentamento, enquanto o par mais velho olhava pra ela com carinho. — Como é que eu vou conseguir ir pras olimpíadas com alguém mais novo e desajeitado? Todas as minhas amigas já tem parceiros da mesma sala na escola, e eu…
Não tinha nada. O que na idade dela, já queria dizer tanto quanto não conseguir ter a última Barbie lançada pela Mattel, mas só porque desde pequena, Lilac já sabia exatamente o que queria e onde queria chegar desde a primeira vez que pisou em uma pista de gelo na vida, lá em Nova York nos Estados Unidos, e seus pais se recusaram a deixar ela competir por aquele país horroroso e que ia fazer de tudo pra tirar a vontade genuína dela em patinar por diversão.
Ela ainda não sabia, em meio a birra e as lágrimas naquela noite, que no dia seguinte, ia adorar a companhia de Alexei Rozanov e como ele era tão competitivo quanto ela em praticamente tudo. E ela também ainda não sabia, mas pros dois, idade ia ser mesmo só um número.
Pelo menos por um tempo.
Ela sempre gostou mais de pensar nas coreografias do que como eles iam executar as partes técnicas, então passar horas visualizando os trajes deles pra saber qual era mais confortável e qual ia deixar os juízes mais impressionados, só pra ter certeza que as maquiagens dos dois também iam ser um escândalo e ninguém ia ter coragem de olhar pra longe deles quando estivessem deslizando no ringue com a música perfeita e uma química que só os dois tinham. Enquanto Alexei se preocupasse com o resto e garantisse que estava tão engajado quanto ela, era suficiente, pra compensar todas as mini brigas e discussões muito saudáveis que eles tinham dia sim e outro também, pra não perder o costume, mas principalmente pra lembrar ambos que era mais divertido quando eles se ameaçavam de morte.
— Não sinto mais meus braços por causa do frio. — Dizia com seu beicinho de assinatura enquanto eles esperavam o treinador, abraçando o próprio corpo menor no processo, antes de deslizar direto pros braços abertos dele e apoiar o rosto no ombro de Rozanov. — Obrigada.
Conhecer pessoas sempre foi difícil, fazer amigos comuns e fora daquele esporte também, perder coisas simples como bailes de formatura e festas com bebidas e ilícitos sempre foi um acordo naquele contrato, mas momentos calmos e genuinamente normais como aquele compensaram muita coisa. Se não quase tudo.
Aos vinte e poucos anos e de cara pra segunda olimpíada de inverno dos dois, Lilac ainda acreditava que gostar muito de sentir o perfume dele e de como os braços de Alexei a seguravam perto e quente era algo mesmo normal. Ela nunca pensava muito sobre como também gostava da risada dele, de seu sorrisinho provocador de canto ou como ele sempre lhe dava segurança para além daquela sensação engraçada no estômago quando segurava sua mão ou jogava seu casaco por cima de seus ombros em aparições públicas.
Se ela não se conhecesse, diria que estava apaixonada, mas ela se conhecia… Bem. Bem suficiente pra saber que é, talvez ela realmente estivesse. Mas eles tinham outras prioridades.
A dela, por exemplo, depois que eles voltaram vitoriosos daquela temporada, era contar pra ele que se eles permanecessem juntos e fiéis um pro outro nós próximos quatro anos, era anunciar pro mundo todo que ela ia se aposentar independente dos resultados nos festivais de técnica e mundiais que estivesse pela frente. Estava pronta pra visitar os avós por um tempo, destrancar a faculdade, começar a parte teórica pra se tornar coreógrafa o quanto antes e talvez até comprar uma casa maior e mais afastada de Seul e da área urbana.
Talvez ela até contasse que queria que ele fosse com ela, pra conseguirem adotar os três gatos que ele queria e o cachorro que ela tanto sonhava, como amigos, claro, já que não tinha a menor chance de seus sentimentos serem correspondidos.
Mas isso tudo, só até vê-lo quebrado e machucado e triste, fazendo o melhor que ela poderia pra fazê-lo se sentir acolhido e consolado naquela amizade dos dois, e tudo ir pro caralho mesmo assim.
— E você acha que eu me importo com a competição quando você se sente assim? — o acusava de volta, apontando um dedo em sua direção com toda raiva do mundo a consumindo por dentro. — Eu quero ajudar você, mas tudo que você faz é me afastar e esperar que eu adivinhe quão perto eu posso chegar pra tentar te ajudar!
Ela nunca cobrou uma resposta rápida, entendeu todas as vezes que ele não quis atender uma ligação sua ou a deixou por fora do processo dele tendo que adotar o próprio irmão e quis acreditar, com todas as forças, que ele ia voltar pra eles terem uma conversa pessoalmente. Só pra descobrir que ele não só não voltaria, como foi fácil substituir ela a tempo de não perder o timing pra se inscrever nas competições necessárias pra levá-lo pro Japão dali alguns anos.
Sem a bandeira coreana. Sem ela.
— A nova parceira dele é tão bonita, precisa ver ela patinando… — Desabafava com sua cunhada, Florence, enquanto se desmanchava em lágrimas no colo da mesma durante o chuseok da família e longe dos olhares dos irmãos e dos pais. — Ela é mais bonita, mais jovem e tão, tão querida por lá que senti inveja e quis que ela fosse atropelada por um ônibus. Ele me trocou porque não achava mesmo que eu fosse dar conta de passar por tudo isso uma terceira vez, e só aproveitou a oportunidade pra me descartar de uma vez sem precisar dizer com todas as letras, que ele também não acha que eu sirvo mais pra isso. — Como a maior parte da mídia coreana, quando ela demonstrou interesse em continuar, já que ia ser todo aquele processo longo de novo. — Ele me tirou da vida dele, me demitiu como melhor amiga e colega de trabalho, e agora partiu o meu coração. E pelo que?
Ela já não queria mais saber, nem se ele lhe pedisse desculpas de joelhos. O deixou no lido, sim, antes de o excluir de todas as suas redes sociais e arquivar absolutamente todas as fotos que eles tinham juntos e anunciar que ela ia competir, também, e com outro parceiro.
Mas se arrependimento matasse, ela ia estar agora estirada no chão das ruas de Gangnam depois da entrevista de coletiva de imprensa mais invasiva e suja que já tinha passado na vida. Depois de ir pro mundial e ganhar três vagas pra esse país ridículo conseguir competir no Japão, nos últimos três anos inteiros, como eles tinham coragem de tratá-la daquele jeito?
Ela sabia que vinte e oito anos era muita coisa, mas não esperava ser interrompida a cada poucos segundos em suas respostas sobre técnica e carreira pra falar sobre filhos, se ela já tinha escolhido nomes, se seu pai concordava com sua vontade de continuar trabalhando fora, e se sua mãe não se envergonhava por ela nem mesmo estar noiva naquela fase de sua vida e existência medíocre de medalhista olímpica.
Se ela soubesse que ia ser tão difícil e complicado, ia ter se trancado em uma caverna três anos atrás, e ainda lhe pouparia de ter que lidar com aquele poste sem personalidade nenhuma que era seu parceiro de ringue, que teve coragem de recriar uma das fotos dela com Alexei, jogando o casaco por cima dos seus ombros e na frente dos fotógrafos antes deles virarem uma esquina.
Fotógrafos esses que venderam o momento como algo fofo e romântico e promissor, e não viram ela jogando a peça de roupa na lama suja antes de socar as costelas daquele coreano inconveniente.
Inferno de vida.








