ALL EYES ON ME
Último capítulo, graças a Deus.
Aviso sobre conteúdo: menções a traição e relacionamento abusivo, roubo e acerto de contas (o que eu acho que foi, mesmo que numa escala bem final de temporada mesmo, super levinho), discussões e gritaria. Eu não sei se invasão de privacidade, compartilhamento de informações sem consentimento e armazenamento de conteúdo íntimo/porn* pode ser considerado um ponto aqui, mas eu vou pontuar do mesmo jeito, porque a personagem que passou por isso realmente se sente desconcertada com a situação. Então é isso aí.
E, claro, vão ter os indicadores de comportamento dentro do quadro TEA, mas as senhoras já sabem e tem consciência, em breve (muito em breve mesmo) eu vou dar atenção exclusiva a esse tópico também.
No geral, é só isso. Eu espero que vocês tenham gostado da jornada até aqui, aproveitem a leitura e não liguem pra falta de datas. Eu realmente não sei quando isso aqui vai se desenrolar pra ambos os lados, então é o de menos mesmo.
França. Hoje.
Amor não pode te machucar tanto que te faz chorar por quatro horas seguidas em meio a uma crise tão forte, que você acha que vai morrer. Amor não grita, não segura seu braço com força, não diz que você é imatura e patética e que você é uma bagunça. Amor não tem ciúmes da sua família e melhor amiga, amor não te faz o colocar em um pedestal como se ele fosse a parte mais importante de todas, mesmo quando ele não merece qualquer parte mínima que seja. Amor que te faz se sentir mal por ser quem você é, amor que te deixa ansiosa e frustrada e paranoica, amor que se torna uma obrigação e difícil de carregar, porque você acha que ninguém vai te amar e é o que você merece.
Não é amor de verdade, não é amor de qualquer jeito. Nunca foi.
Ela não acha que demorou muito pra perceber, sente que foi suficiente, na manhã que se senta na mesinha que ela divide com Margot e se prepara pra escrever uma meia carta para Arthur. E não é que ela sente que não vai conseguir fazer aquilo pessoalmente, ela só acha que ele merece uma carta e não uma conversa propriamente dita: ela já perdeu muito tempo naquela confusão, ele com certeza não acha que ela tem motivos suficientes pra terminar com ele, então por que se ocupar em fazer aquilo de uma maneira mais sensível quando ele foi tudo, menos preocupado com o bem estar dela desde o começo?
Ela também quer se sentir culpada por estar feliz escrevendo naquele papel, considerando que aquele dia é maravilhoso por si só e tendo a certeza que dali meia-hora, quando terminar de se arrumar e descer pra tomar café da manhã, sequer vai se lembrar que passou por aquilo, que um dia teve um namorado, e que sequer tem agora um ex. Ele vai voltar a ser um desconhecido, um caminho dolorido que ela percorreu em algum momento de sua vida, mas insignificante demais pra ela se importar.
A sensação de ver aquela coruja cruzando o céu é maravilhosa, se livrar do colar dele e o jogar na lixeira do quarto junto com todos os sapatos altos e vestidos justos que ela ia doar, é ainda melhor, mas nada se compara ao alívio que ela sente.
Acabou. Um ano e um dia depois, acabou.
Pelo menos ela queria pensar que sim.
— Eu não acredito que você veio até aqui fazer esse escândalo só por causa de uma carta. — Ódio, menos de um dia depois, ela só sente ódio. — Puta merda, eu terminei com você.
E porra, ela não tinha sido clara suficiente?
— Você não pode terminar comigo!
Não, mas é claro que não.
Como ele ousa invadir a escola sem permissão só pra dizer ela o que tem que fazer, quando eles nem estão mais juntos? Por que ele acha que tem o direito de parecer magoado e aterrorizado ali na frente dela, parecendo que tinha chorado o caminho inteiro e que ia ser suficiente pra fazê-la ficar? Por que ele acha que ela vai ficar, em primeiro lugar?
— Mas é claro que eu posso, eu já fiz isso, não sou mais sua namorada. — A mais jovem declara, tão cansada que sente seus ombros caírem quando percebe que ele não se mexeu um centímetro e não vai sair dali. — Arthur, por favor, não torne as coisas mais difíceis e piores do que já estão.
— E você acha que não é difícil e ruim pra mim também? Porra, eu te dei tudo! Todo o meu tempo, tudo o que você precisava sem nem mesmo precisar me pedir. Acha que outra pessoa vai fazer o mesmo por você? — Até por que, ele consegue mesmo dizer qualquer coisa que não pareça que ele foi o grande salvador de qualquer coisa? Laura já sabia antes, mas agora ela tem certeza quando ele diz aquelas coisas e tenta pegar as mãos dela, como se estivesse prestes a arrastá-la de volta ao que ele chamava de relacionamento. — Eu sou tudo o que você precisa e tudo o que você merece, a melhor escolha que você pode fazer…
— Isso não é verdade, porque sou eu quem tenho o poder de decidir isso e eu jamais, jamais escolheria você de novo. — Ela o interrompe em seu tom monótono usual, com a certeza que quando virar as costas, aquele problema não vai mais ser dela. — Nós terminamos aqui.
— Você não pode dizer quando nós terminamos. — Mas ela não se importa, anda pro lado oposto como se ele não estivesse gritando pra ela e só ela. — Não quando você também quebrou suas promessas e também mentiu pra mim.
Vamos, Laura. Ele não tem nada que possa te abalar. Ele só sabe mentir e mentir e vai usar isso contra você.
— Não quando você deixou outro comer você antes de terminar comigo!
Mas aquilo é diferente, aquilo vem de uma direção tão diferente que a faz congelar no mesmo lugar.
— Mais de uma vez, mais do que você conseguiria se defender. Gritou o nome dele e deixou ele tomar você antes de se separar de mim!
— Como você sabe? — A rapidez com que ela se vira pra ele, só não supera o quão rápido as perguntas saem pelos lábios dela. — Como sabe que eu fiquei com outra pessoa antes de terminar com você?
E o quão rápido os questionamentos são feitos em sua cabeça, também. Margaux jamais ia expor uma conversa tão íntima, e ela tinha certeza que ele não esteve no chateau em momento algum pra sequer ter sonhado com a possibilidade.
— Então é verdade? Ficou mesmo com outra pessoa? — Ele tenta, parecendo ofendido, tão dramático que chega a dar pena.
— Não é assim que funciona, você não disse isso só porque ficou desconfiado, você sabe que aconteceu e sabe quando aconteceu. Com quem foi e como foi. — Mas ela o corta quase no mesmo instante que ele solta aquilo em um tom irritantemente decepcionado. — Como você sabe?
Mas toda confiança que Arthur sentia em si mesmo gritando aquilo tudo pra todo mundo ouvir, o deixa assim que ele percebe que talvez tenha falado demais. Ele nem vê a sombra de Margaux Boneterre correndo em sua direção para desferir um soco em seu nariz, e quando acontece, Laura também continua presa no que acabou de acontecer.
Estados Unidos. Hoje.
Leto, enquanto termina de ler a carta da garota francesa e analisar a situação que acha que desencadeou aquilo tudo, também acha que ela está mais do que certa em dar um fora em Arthur e que não merece ser julgada por isso, se for levar em conta e consideração a quantidade absurda de coisas quebradas no quarto do herdeiro mais jovem, que só podem ter sido destruídas assim que ele leu aquele papel antes de Wang.
— Garota durona. — Ele comenta consigo mesmo guardando o pedaço de papel no bolso do casaco. — Eu tenho certeza que… O colar ficou com você.
Porque Arthur, além de péssimo namorado, também é péssimo ladrão, ele constata, depois de achar a caixa das joias vazia debaixo da cama dele. Foi a primeira coisa que ele viu depois de arrombar o cômodo no meio da confraternização que ocorria no andar de baixo, a qual ele só compareceu pra fazer uma varredura na residência a fim de não levantar suspeitas mesmo.
Por ele, jamais compareceria a festas da alta sociedade bruxa, mas tinha sido um sacrifício necessário, beber com aquelas pessoas duvidosas, fingir ter interesse em seus planos tortos e causas que violariam todos os direitos bruxos se eles existissem e fossem respeitados. Era cansativo se comportar como eles e fingir que ele não tinha problemas maiores e muitas opiniões sobre tudo o que eles diziam, e ficava ainda pior com casais formados ao seu redor como se fosse uma festa de dia dos namorados, acumulando três anos seguidos de comemoração e fedendo a amortentia por toda parte.
Nada no mundo o deixava mais irritado que gente feliz e de mãos dadas por aí, quando aquele era um luxo que ele nunca, jamais, poderia ter se não quisesse ser morto e ver alguém sofrer no processo também. Era tão injusto como pessoas da sua idade estavam ficando noivas e comprando casas, planejando bebês e uma vida inteira pela frente, e ele precisava se contentar com sua própria solidão e ser um mero espectador de todo o resto, porque ele não tinha permissão. Estava marcado e impedido, pela eternidade, de viver uma das coisas mais naturais e comuns do mundo. Não podia se relacionar com pessoas fora de Taiwan em sua condição de província rebelde, e quando precisasse voltar pra casa, não tinha permissão pra constituir família com ninguém.
Seus pais tinham participado ativamente do último levante no país, os direitos deles de viver e os seus de dar continuidade ao clã tinham sido ceifados a muitos anos atrás. Ele devia estar conformado e acostumado, mas não consegue.
Por isso se sente tão mal por Claudia quando cruza com ela no corredor, depois de sair furtivamente do quarto de Arthur sem que ninguém o visse, a vaga imagem dos brincos que ele projetou, agora enfeitando suas orelhas, quase passa despercebido quando ele vê o quão frustrada e perdida ela se sente ali sozinha. Ele acha Arthur um babaca, mas só por ele, Leto Wang, estar na situação que está, acha Arthur a pior pessoa de todas, pelo menos dentro daquela Mansão abarrotada de pessoas ruins também.
— Noite ruim?
— Vou descobrir quando encontrar Arthur.
E como o encontrar, Han pensa consigo mesma quando Leto abre um sorrisinho pra ela, como se pedisse desculpas por toda tristeza que ela sente, como a pessoa solícita e gentil que ele sempre foi ao redor dela.
— Sabe, eu costumo pensar que nada está ruim o suficiente que não possa piorar. — Wang começa, apertando o domínio em sua bengala quando usa a mão livre pra alcançar o pedaço de papel no bolso do casaco. — Mas eu também acredito que, às vezes, momentos ruins são mais fáceis de lidar quando nos atingem de uma só vez.
Ele entrega o papel pra ela, Arthur está virando o corredor e sorrindo muito, mesmo com o curativo no nariz, enquanto anda na direção dos dois.
— Te tornam mais forte. — Leto continua, abrindo um último sorriso pra ela antes de contornar seu corpo, prestes a sair dali. — E você sempre, sempre vai conseguir enfrentar coisas ainda piores, crente que está pronta pra todo tipo de rasteira da vida, enquanto acreditar que já passou por coisa pior.
Então ele a deixa, andando em passos ritmados e ignorando a presença do próprio Arthur no corredor, ao virar na mesma esquina e cutucar as duas pessoas que o acompanharam até ali e que trabalhavam para Wang e só ele.
— Tirem esse merdinha daqui quando essa porra acabar e levem ele pro ministério. — Ele dá as ordens necessárias, sorrindo pros convidados que passam por ele, como se fosse só outro dia. — Ele precisa aprender com quem está lidando.
Mas não importa o quanto ele tenha tentado manter as aparências pra não atrapalhar o fluxo natural da festa, o grito histérico de Claudia Han pode ser ouvido por todos os cômodos, e principalmente o salão.
— QUEM É LAURA SOHN E O QUE ELA TERMINOU COM VOCÊ?
França. Hoje.
Laura tem certeza que conseguiria ouvir uma agulha caindo naquele quarto com o quão silenciosamente ela e Margaux estão lendo, cada uma em sua cama, antes de dormir. Se as obras que Mr. Lim pediu, o jornal ou uma revista qualquer, uma não questiona a outra e não pretendem até que tenham que apagar as luzes e descansar pro próximo dia.
Ela está concentrada nessa coluna falando sobre as próximas tendências e porque ter 22 passos de skin care é tão importante, quando um som de arrastar e bater começa a se fazer presente no quarto. Mas ela espera 10, 15, 20 segundos antes de olhar para Margaux e ter certeza que ela escuta também.
— Se for um rato, eu vou desmaiar.
Não importa o quanto as pessoas pensem ser comum, é ridículo a decadência, e ela usa até a varinha pra cutucar a lata de lixo que elas identificaram como casa dos ruídos, removendo cada roupa e sapato com cautela, pedindo a todas as entidades conhecidas e desconhecidas que ela não precise acordar um dos professores pra lidar com uma família de roedores morando com as duas.
Até que elas chegam no fundo, e a única coisa que encontram se chocando contra a lata é o colar que Arthur deu pra ela. Se mexendo e agonizando como um objeto preso e vivo.
Ela só precisa olhar pra Margaux uma vez e no segundo seguinte, elas estão deixando a ala dos dormitórios com pantufas e casacos por cima dos pijamas, deixando a propriedade do chateau até o grupo de ruínas mais próximo, com Sohn arremessando a peça brilhante por cima de uma das pedras, antes de alcançar uma pedra mais pesada e pontuda que ela precisa segurar com as duas mãos.
— Seja lá o que acontecer, promete que vai correr bem rápido pra longe se precisar.
Mas ela sabe que a loira sequer a ouviu, que jamais faria algo como aquilo, ainda mais quando a envolvia, antes de arremessar o peso sobre a joia e proteger o rosto com o braço logo depois, afim de desviar de todo vidro mágico que explodiu com o impacto, só pra saber que aquele ia ser o menor de seus problemas.
Porque no ar em volta das duas, cada fragmento se projetou diante delas como uma teia de lembranças armazenadas, com imagens e sons muito típicos de cada um dos dias que elas pareciam costurar; o dia que Arthur a presenteou com o colar, cada uma das brigas dos dois, as aulas no chateau, os banhos que ela tomou, as refeições que ela fez, as reuniões de Ms. Leblanc com os alunos sempre que uma ameaça recaia sobre a escola e as coisas ficavam mais sensíveis, e cada um dos momentos que ela passou com Luc Yang.
O dia da tempestade, o dia em que eles ficaram juntos de forma tão intensa que ela só conseguia dizer o nome dele, prometendo que ele a tinha, e que ela ia terminar com Arthur. O dia que ela então terminou com Arthur, e abandonou o colar na lata de lixo.
Tudo atinge ela com tanta força que ela perde o ar, como se seu coração tivesse se quebrado junto com aquela joia e o chão também tivesse sumido debaixo de seus pés, a obrigando a cair e ficar encolhida entre as ruínas como se algo pudesse atacá-la e machucá-la ainda mais.
Com quem ela passou o último ano inteiro?







