As representações sociais e a experiência da doença:
Representações sociais são o conjunto de explicações, crenças e ideias que nos permitem evocar um dado acontecimento, pessoa ou objeto. Essas representações são resultantes da interação social, pelo que são comuns a um determinado grupo de indivíduos. A teoria das representações coletivas de Durkeim não contemplava a individualidade contemporânea, pois os fenômenos sociais atuais são muito mais ligados ao cotidiano do indivíduo.
Foi elaborada por um sociólogo contemporâneo a teoria das representações sociais, que objetiva explicar os fenômenos do ser humano a partir de uma perspectiva coletiva, porém sem perder de vista a individualidade, estando principalmente relacionada ao estudo das simbologias sociais, tanto num nível macro como também de micro-análise, através do estudo das trocas simbólicas desenvolvidas em nossos ambientes sociais e nas nossas relações interpessoais, de como esses símbolos influenciam na construção do conhecimento compartilhado, ou seja, da cultura.
O principal limite da noção de representação social reside na generalidade do nível de análise que ela constitui, fazendo dela uma metanoção. Deve-se saber de que modo essas representações estão enraizadas na realidade social e histórica. Em relação às práticas em saúde e doença, tem havido uma nítida relação de determinação das representações sociais sobre as práticas, de tal forma que estas últimas são vistas como passíveis de serem deduzidas do sistema construído de representações.
A cisão entre representações e práticas se relaciona com outras dicotomias já conhecidas, como as entre ação e estrutura, subjetividade e objetividade, indivíduo e sociedade, corpo e mente. A doença se desloca da posição de fato para o curso da doença como experiência. As representações não são sistemas fechados que determinam as práticas, uma vez que conformam um conjunto aberto e heterogêneo, que é continuamente refeito, ampliado, deslocado e problematizado durante as interações indivíduo-indivíduo e indivíduos-meio.
A análise das relações entre o pólo representacional e vivencial do processo de adoecimento, havendo uma possível complementaridade existente entre eles, contemplando as dimensões social e individual da doença, é refletida nas permanências culturais das representações e está presente nas experiências individuais que ocorrem no processo de adoecer.
Para Durkeim, as representações coletivas, por terem característica de fato social, assim como as instituições e estruturas, são exteriores ao indivíduo e exercem coerção sobre as consciências individuais. Durkeim enfatizava a primazia do pensamento social sobre o pensamento individual. Há uma crítica à esta visão, que ressalta o questionamento do poder da coerção, considerado quase que absoluto, atribuído à sociedade sobre os indivíduos. A visão Durkeimiana elimina o pluralismo fundamental da realidade social, em particular as lutas e antagonismos de classe.
A teoria de Moscovici parte da premissa de que não há um corte dado entre universo exterior e universo do indivíduo, chamando a atenção para a inter-relação entre o sujeito e o não sujeito e entre o sujeito e o outro sujeito. É uma tentativa de tratar a influência recíproca da estrutura social e a do sujeito.
O reconhecimento do mundo como biológico e social passa por uma crítica epistemológica e política. O estudo das representações sociais passa então pela reconstrução do intersubjetivo concomitante com a trajetória da produção e reprodução de um texto socialmente construído e com determinada permanência e pertinência (texto como fixação escrita do discurso).
A lógica de formação das representações sociais exige permanência temporal, exigindo que se olhe para além dos significados atribuídos ao processo de interação social, permitindo ressignificação dos sentidos presentes em novos contextos sociais. Deve-se contemplar história pessoal, o que proporciona identidade própria através do deslocamento teórico do objeto (indivíduo), politizando-o, orientando-o através de uma visão antropológica cognitiva, que se volta, entre outros aspectos, para a investigação de como a linguagem e a cultura estruturam a percepção e o processo de adoecer ou se manter saudável.