Apesar daquele ditado muito sábio que “a violência nunca é a resposta”, existem momentos literários onde o conflito chega a um ponto onde sim, uma certa porradaria é necessária. No entanto, escrever uma cena de luta empolgante e realista não é nada fácil e existe a chance dela tornar-se o oposto, entediando ou confundindo os leitores.
Mas, nada tema: hoje eu vou trazer algumas dicas para você escrever uma cena poderosa, seja ela uma simples troca de socos ou uma batalha épica.
Quer saber mais? Continue lendo o post:
Planeje a cena
Para que os leitores possam apreciar a sua cena de luta, você primeiro precisa entender como ela vai ocorrer, o seu contexto e, ainda mais importante, o motivo para aquilo estar acontecendo. Além disso, uma cena bem planejada te ajuda a evitar furos, inconsistências e de criar algo sem propósito.
Em relação à logística, você pode criar um rascunho ou até mesmo um mapa, dependendo da complexidade da luta ou da quantidade de personagens envolvidos. Aqui é interessante anotar todos os detalhes, mesmo que nem todos sejam mostrados na cena final — tendo em mente que o principal é que você consiga visualizar a cena na cabeça para passá-la ao papel.
Já para a parte emocional da cena, vale a pena fazer o possível para compreender a motivação dos personagens que estão nos dois lados da briga e pelo que eles estão lutando. Outro ponto para se atentar é no que diz respeito a habilidade e os possíveis recursos (armas, equipamentos de defesa), além da força física e mental dos envolvidos.
Algumas perguntas que podem te ajudar:
Qual é o motivo desse personagem entrar nessa briga?
O que ele pode ganhar ou perder com essa luta?
Essa cena vai aproximá-lo ou afastá-lo de seus objetivos?
Quais são as habilidades dele?
Como essa briga vai mostrar quem o personagem é?
Assim, você já terá um direcionamento para criar a cena.
Inspire-se, estude e aplique
Caso você tenha dificuldade em saber como começar a descrever uma luta, uma boa alternativa é buscar inspiração nos seus autores favoritos. Pense naquela cena que realmente prendeu a sua atenção e te deixou com os olhos grudados página por página: o que havia nela de tão interessante? Como ela foi descrita? Quais foram os detalhes que chamaram atenção? Ao analisar isso como leitor, você já vai ter uma ideia do quê e de como passar essa sensação no papel de escritor.
Também é válido estudar cenas de lutas de autores que você ainda não conhece para aumentar o seu leque de referências, como também pesquisar outras mídias — filmes, séries, histórias em quadrinhos, vídeos mais explicativos no Youtube… Apesar de a representação desses casos ser mais visual, ainda são fontes de inspiração e aprendizado.
A partir daí, você pode filtrar o que absorveu e aplicar na sua história, experimentando o que combinaria com o seu estilo de escrita e com o contexto da luta.
Preste atenção no ritmo
É crucial que o autor preste atenção na fluidez do texto, para que a cena de luta pareça natural e passe aquela sensação de rapidez, perigo e intensidade.
Aqui vão algumas maneiras de fazer isso:
Use frases curtas - Como eu expliquei nesse post aqui, as frases mais curtas dão uma sensação de rapidez e podem deixar o leitor até meio sem fôlego, o que é perfeito para dar aquele tom a sua cena de luta.
Misture ação com diálogo - Se possível, tente “quebrar” as descrições mais longas com outros elementos, como falas de personagens. Caso a batalha não tenha troca de palavras, você pode criar esse espaço de forma visual, com a separação de linhas e parágrafos.
Não prolongue - Independente da sua cena ser apenas uma briga ou uma batalha épica, evite estender a narrativa por mais tempo que o necessário, para evitar que a leitura fique cansativa.
No entanto, o ritmo aqui não se trata apenas da cena em si, mas do enredo como um todo. Pergunte-se: essa luta ajuda a caminhar a história para frente? Ela ajuda a resolver o conflito apresentado? Ela ajuda a demonstrar o caráter de algum personagem? Se a resposta de todas essas perguntas for um “não”, talvez valha a pena reduzir ou transferir essa cena para outro momento da sua história, em que a luta seja mais relevante.
Seja coerente
Todo nós já vimos aquela cena de luta em um filme em que a primeira coisa que pensamos é “Nossa, mas que coisa mentirosa!”. E isso é algo que é importante evitar em nossas histórias: mesmo que o enredo seja de ficção, queremos que a cena passe verdade e pareça plausível.
A solução para isso é fazer uma bela pesquisa, daquelas que preocuparia qualquer um que olhasse o seu histórico da internet. Tente aprender o básico sobre como aplicar os golpes ou sobre as armas que seu personagem pode usar; além dos ferimentos e como causa-los, para descrever tudo isso na cena.
Não facilite
É muito provável que, na sua cena, você já tenha pensando em quem deverá ganhar, tanto a briga quanto a torcida dos leitores; especialmente se estivermos falando de uma clássica luta entre o bem versus o mal. No entanto, isso não significa de forma alguma que você deve facilitar a vida do vencedor.
Coloque tensão extra na história ao fazer os leitores ficarem na dúvida se você, autor, teria coragem de fazer seu protagonista perder a luta ou até mesmo, imagine só, matá-lo!
Outro ponto positivo aqui é a oportunidade de demonstrar que seu personagem possui fraquezas e vulnerabilidades, o que ajuda a criar a simpatia que vai conquistar os leitores.
Cuidado com os detalhes
Muitas vezes, na tentativa de garantir que a cena seja o mais realista possível, autores acabam cometendo o erro de exagerar com descrições longas e cheias de detalhes técnicos, o que atrasa o ritmo da cena e pode acabar com aquela “emoção” que a luta precisa passar. Por mais que seja necessário que o leitor entenda o que está acontecendo, algumas lacunas podem ser deixadas para que ele use a própria imaginação. Na verdade, é mais provável que quem está do outro lado consiga visualizar a cena mais facilmente se ela estiver escrita de uma forma mais simples.
Você não precisa, por exemplo, especificar que o seu personagem levantou um braço em um ângulo de 78º para dar um soco ou que esperou exatamente 29 segundos para atacar novamente. Quando pensamos em uma situação dessas, geralmente assumimos que quem está brigando não vai contar os segundos ou medir o ângulo certinho para atacar, não é mesmo?
E, justamente por isso, existe a possibilidade de que uma cena com descrições super técnicas e detalhadas também desacelere a narrativa e comprometa a autenticidade da mesma, que perde aquela sensação de imersão que a história poderia proporcionar. Lembre-se: na maioria dos casos, uma luta trata-se de instinto, rapidez, ação e reação.
Use os sentidos
Apesar de uma cena de luta ter um grande apelo para o aspecto visual, uma maneira de dar riqueza para a descrição sem apelar para os detalhes técnicos — que, como vimos ali em cima, podem atrapalhar mais que ajudar — é investir nos outros sentidos.
Pense no som dos golpes ou da colisão entre espadas, o gosto do sangue na boca que acabou de levar aquele soco, o cheiro do ambiente ao redor e por último, mas longe de ser menos importante, as sensações no corpo do personagem — como a dor ao sofrer ou até mesmo dar um golpe, o suor escorrendo da testa… Todos esses elementos vão te ajudar a dar dimensão ao que está acontecendo na cena.
Pense no “depois”
Ok, a luta acabou. E agora?
Pense no impacto que essa cena vai trazer para sua história. O personagem sofrerá algum ferimento grave? Ele perderá alguém? Essa batalha mudará o relacionamento dele com alguém? Ele vai perder a luta? E se ganhar, a que custo?
Assim como no decorrer da cena, queremos que o depois da luta importe, de forma que o leitor possa ver os resultados e as consequências das ações dos personagens — mesmo que a longo prazo.
Lembrando que: essas são dicas gerais e sugestões , não regras que precisam ser seguidas. Aplique o que for útil para você.
Beijos e até mais!
---
Referências:
Novel Writing Advice: How to Write Battle Scenes - Writer’s Digest
How to Write a Convincing Fight Scene - NY Book Editors
7 Ways To Write A Damn Good Fight Scene - Standout Books
How to Write a Fight Scene: 5 Ways to Add More Punch to Your Novel - The Write Life
Uma coisa que todos nós sabemos, antes mesmo de nos tornarmos escritores, é que toda história possui um início, meio e fim — desde um livro com mais de mil páginas até um conto de cinco mil palavras. Não importa o tamanho, mas sim que a narrativa tenha um acontecimento no enredo que leve ao próximo e assim por diante, com todos interligados entre si mesmo que acontecendo em momentos separados.
Essa estrutura básica para planejar narrativas surgiu lá na Grécia Antiga com Aristóteles, que em “A Poética” dividiu às famosas tragédias gregas em três atos: prólogo, episódio e êxodo.
Um bom tempo depois — e aqui, estamos falando de mais de um milênio — um roteirista chamado Syd Field expandiu esse conceito ao criar a estrutura de três atos, que é amplamente usada em roteiros de filmes e, é claro, em livros.
E aí, quer saber mais sobre a estrutura de três atos? Continue lendo a primeira parte do post:
Os três atos
Tradicionalmente, os três atos se chamam: apresentação, confrontação e resolução. E, dentro desses três atos, existem subdivisões para te ajudar ainda mais na organização da sua história. Mas tenha em mente que a estrutura dos três atos não é nada mais, nada menos que um guia ! Você não precisa forçar para que seu enredo encaixe dentro dessas categorias. Além disso, é totalmente normal que esses pontos do enredo estejam interligados e que nem sempre fique tão fácil assim saber onde um termina e outro começa — afinal, essa separação é imaginária e serve apenas para organizar sua história.
Vamos lá?
ATO I - APRESENTAÇÃO
A apresentação, como o próprio nome diz, serve para apresentar o básico do seu enredo e demonstrar a possibilidade de conflitos e um acontecimento que impulsione a narrativa e fazer com que os leitores fiquem curiosos o bastante para continuar lendo.
Pense em coisas que vão tirar o seu protagonista da sua zona de conforto e transportá-lo para a ação principal, além de trazer reviravoltas e questões importantes para serem trabalhadas no segundo ato.
Geralmente, esse ato é organizado em:
EXPOSIÇÃO / COMEÇO
Aqui é o momento de mostrar quem é o protagonista e como é a sua rotina, quem são os outros personagens que o cercam, onde/quando a história se passa, como também já introduzir algumas regras e particularidades do universo — se sua história for uma fantasia ou ficção científica, por exemplo. Além disso, aqui você pode começar a demonstrar que o protagonista possui algum desejo de mudança ou que circunstâncias exteriores vão obrigá-lo a isso.
Por exemplo, no livro Jogos Vorazes, podemos perceber a exposição através dos olhos de Katniss Everdeen. Lá, ela fala sobre sua vida no 12º distrito de Panem e o regime autoritário imposto pela Capitol, incluindo os jogos vorazes. E a narrativa, escrita por Suzanne Collins, demonstra alguns pontos importantes sobre a protagonista, como o amor que ela tem pela irmã, sua habilidade de caça, instinto de sobrevivência e seu desgosto pelo sistema de governo que está inserida, no ponto de vista de alguém oprimido por ele.
Até aquele momento, a Katniss não tinha nenhum objetivo específico a não ser prover para sua família.
INCIDENTE INICIAL
Esse incidente é o gatilho que vai fazer o seu personagem sair da rotina — seja por vontade própria ou por circunstâncias fora de seu controle. Esse incidente inicial é super importante porque, basicamente, ele é o que faz a sua história acontecer.
Em Jogos Vorazes, esse incidente é o momento em que Primrose Everdeen é escolhida como tributo do distrito 12 e Katniss se voluntaria no seu lugar. Não só para ser comovente, mostrar a crueldade do sistema e demonstrar o caráter protetor da personagem com sua irmã (lembra que um dos pontos principais da exposição foi justamente esse?), aquela parte da história ajuda a dar o pontapé inicial para o livro e tirar a protagonista da sua zona de conforto.
A partir desse incidente inicial, a narrativa então pode se encaminhar para…
PONTO DE NÃO-RETORNO
Também chamado de ponto de virada, esse momento serve para mostrar a reação e as consequências imediatas na vida desse personagem após o incidente inicial. A partir daí, o enredo passa a tomar velocidade e ser mais focado em colocar o protagonista numa jornada, como também trazer novos objetos e desafios — o que também pode incluir plot twists (e se você quiser saber como escrever um plot twist, confira esse post aqui!)
Ainda seguindo o exemplo de Jogos Vorazes, essa parte do enredo é entrelaçada com o incidente inicial, no momento em que a Katniss se voluntaria como tributo. Após sua ação, ela percebe as consequências dos seus atos: não só ela teria que lutar em uma competição televisionada, ainda existia o risco dela ser morta, deixando sua mãe e irmã desamparadas.
Por isso, apesar de ser totalmente contra os jogos, Katniss tem um novo objetivo: sobreviver aos jogos e voltar para casa, mesmo que isso significasse que ela também precisava impressionar seus algozes e conquistar a simpatia da audiência.
Confira a segunda parte do post!
Beijos e até mais!
---
Referências:
How to Write a Novel Using The Three Act Structure - Reedsy blog
What is The Three Act Structure? No Formulas Necessary - Studio Binder
How to Write Three Act Structure - Masterclass
How To Plan Your Novel Using The Three-Act Structure - Writer’s Edit
Falando sobre a estrutura de três atos - parte III
Atenção: essa é a terceira parte do post. Confira a primeira aqui e a segunda aqui
Chegamos, enfim, na última parte do post sobre os três atos. Se você não leu as partes anteriores, corre lá para ver!
Para recapitularmos um pouco: a estrutura de três atos é um modelo criado por Syd Field para planejar e organizar uma narrativa, que fica dividida em apresentação (primeiro ato), confronto (segundo ato) e resolução. E é sobre esse que falaremos hoje, continuando a usar o livro Jogos Vorazes de exemplo.
Preparado para a terceira parte? Continue lendo o post:
ATO III - RESOLUÇÃO
O terceiro ato é a recompensa, o destino de toda a jornada mostrada nos dois primeiros atos e onde ela se completa, com o clímax da história e seu desfecho, assim como suas devidas consequências. Além disso, é nessa parte que autor demonstra de que maneira os personagens cresceram em relação ao início da história. Muito mais do que criar um final feliz ou trágico, o interessante é criar um final satisfatório, que faça sentido e que responda às perguntas deixadas pelo enredo.
Assim como nos anteriores, o terceiro ato também é dividido em três momentos para ajudar a organizar esse final. E esses são…
PRÉ-CLÍMAX
O pré-clímax, como o próprio nome diz, é a parte que constrói, que arma o circo para o clímax da história, aquela última subida ao ponto de ápice do conflito da história, onde o protagonista se prepara para o momento decisivo. Aqui também é comum que o antagonista da história ou elementos que trabalham contra o sucesso do protagonista sejam mostrados como mais poderosos, o que vai justamente trazer a necessidade dessa preparação.
Em Jogos Vorazes, a terceira parte começa quando Katniss, após perder Rue, resolve ir atrás de Peeta, graças a uma mudança nas regras do reality show que passaram a permitir que dois tributos fossem coroados vencedores. Assim, Katniss resgata seu aliado e ajuda a cuidar de sua perna ferida; além da narrativa focar mais no relacionamento deles, através dinâmica dos “amantes desafortunados” pelo público, mas passando também por uma evolução quando Katniss percebe que os sentimentos de Peeta podem ser verdadeiros.
No entanto, o estado de saúde de Peeta piora e os idealizadores dos jogos oferecem uma oportunidade de Katniss trazer um remédio para ele, mas isso tem um custo: a protagonista precisa reencontrar os tributos remanescentes.
E nesse momento, como explica ali em cima, os oponentes mostram seus pontos fortes: Foxface mostra sua furtividade, Clove mostra sua crueldade e Thresh mostra sua força bruta - mas, em uma reviravolta, ele também demonstra misericórdia e poupa a vida de Katniss, em retribuição pela forma que ela tratou a Rue. Após esse momento, Katniss também é forçada a passar por um momento de recuperação enquanto Cato, mostrado como seu maior oponente, ainda está sumido.
CLÍMAX
Enfim, o momento mais esperado chegou. O clímax é o ápice da história, onde todos os passos do protagonista chegam até ali e todos os elementos apresentados da narrativa se convergem.
Ele também pode apresentar uma luta final entre bem x mal / protagonista x antagonista, a superação final do personagem principal sobre um conflito interno, a resolução de um dilema, uma revelação… O acontecimento em si dependerá bastante da temática da sua história, então o importante aqui é entender que esse é um momento de auge da narrativa, o momento no “vai ou racha”.
Em Jogos Vorazes — como não poderia deixar de ser — o clímax acontece com a última batalha do reality show sangrento. Katniss e Peeta lutam contra uma matilha de mutantes e Cato, que é atacado pelas bestas e morre pela flecha de Katniss, em um tiro de misericórdia.
Nesse momento, surge o plot twist que faz o público relembrar quem é o verdadeiro vilão da narrativa: em um comunicado de última hora, os idealizadores dizem que a regra dos dois vencedores está suspensa, na tentativa de fazerem os “amantes desafortunados” serem obrigados a lutar por puro entretenimento.
E, em mais um plot twist, Katniss convence Peeta a tentar um pacto de suicídio ao invés de ceder às regras, forçando os idealizadores a parar os jogos e coroar — pela primeira vez na história — dois vencedores numa edição.
Esse momento da história também serve para mostrar a mudança no caráter de Katniss: se antes a protagonista pensava apenas em sua sobrevivência e provavelmente executaria Peeta sem nem hesitar, agora ela havia desafiado novamente a capitol e trapaceado o sistema.
DESFECHO
Depois de toda a emoção do clímax, o desfecho é o fôlego final do livro, em que a poeira baixa e o protagonista vê os impactos da jornada em sua vida, podendo voltar para casa com uma nova visão de mundo. Aqui, as questões principais apresentadas pelo livro precisam ser respondidas e as pontas soltas precisam ser resolvidas, mesmo que o livro tenha uma sequência.
Ainda no caso de uma continuação, também é importante demonstrar um gancho empolgante para que o leitor saiba quem vem mais por aí — o que pode vir através de uma reviravolta no enredo e/ou novos elementos que vão fazer com que o personagem tenha novos objetivos. E, justamente por isso, é necessário que tudo seja resolvido, para que o caminho esteja “limpo” para a próxima história.
No caso de Jogos Vorazes, esse momento começa após o fim da competição, quando Katniss assiste Peeta sendo cuidado pelos médicos e descobre por Haymitch que a sua ação repercutiu na Capitol. A protagonista, mais do que nunca, agora precisava interpretar o papel de garota apaixonada, para que suas ações não fossem vistas como uma rebelião.
Existe um trecho que particularmente achei ótimo para demonstrar esse novo paradigma da vida de Katniss — seu status de vencedora dos jogos, a possibilidade dela ser vista como uma rebelde e seus sentimentos conflitantes por Peeta — e dar o gancho perfeito para uma continuação, que é esse aqui:
“Há questões a serem solucionadas quando voltar para casa, na paz e quietude da floresta. Quando ninguém está observando. Não aqui como todos os olhos sobre mim. Mas não vou ter esse luxo por sabe-se lá quanto tempo.
E agora, a parte mais perigosa dos Hunger Games está para começar.”
Então é isso, mores!
Espero que vocês tenham gostado dos posts sobre a estrutura de três atos e que eles te ajudem com aquela sua história.
Beijos e até mais
REFERÊNCIAS:
How To Plan Your Novel Using The Three-Act Structure - Writer’s Edit
How to Write Three Act Structure - Masterclass
How to Write a Novel Using The Three Act Structure - Reedsy
Atenção: essa é a segunda parte do texto. Confira a primeira aqui
Na primeira parte do post sobre a estrutura de três atos, eu falei um pouquinho sobre a origem grega dessa separação da história, o modelo criado pelo roteirista Syd Field usado de base para esse post e sobre o primeiro ato — chamado de apresentação — usando como exemplo o livro Jogos Vorazes, da autora Suzanne Collins.
Prontos para a segunda parte do post? Continue lendo:
ATO II - CONFRONTAÇÃO
O segundo ato é focado no desenvolvimento do enredo apresentado no primeiro ato e ocupa a maior parte da história, aquele famoso “meio” que acaba sendo a dor de cabeça para muitos escritores. Aqui, os conflitos são crescentes até atingir um ponto de crise, a história começa a progredir e o personagem passa por transformações , além de incluir os enredos secundários e a progressão dos relacionamentos. Nesse segundo ato, também é interessante que haja um equilíbrio entre perdas e ganhos, derrotas e vitórias.
Assim como o primeiro ato, o segundo conta com algumas divisões que podem te ajudar a organizar essa quantidade ainda maior de informações. E, apesar deste segundo post continuar usando Jogos Vorazes como exemplo, não significa necessariamente que essa estrutura serve somente para histórias desse gênero: você pode adaptar para qualquer tipo de obra!
E se a sua história não se encaixar nele, também não tem problema — afinal, este é apenas um modelo de narrativa.
Sendo assim, o segundo ato pode ser dividido em:
AÇÃO CRESCENTE
Como o próprio nome diz, esse é o momento em que você começa a impulsionar o enredo, dando continuidade ao que foi mostrado durante o incidente inicial e no ponto de virada. Assim, a história continua através da busca do protagonista — que, provavelmente, já está em um terreno totalmente novo e fora da sua zona de conforto — pelo seu objetivo, mostrando as dificuldades iniciais, de que forma ele precisa se adaptar para conseguir superar esses obstáculos e quais são as ferramentas necessárias para tal. Aqui na ação crescente também é comum demonstrar o desenvolvimento das relações do seu protagonista com o restante dos personagens e dar aos leitores uma dimensão maior do conflito principal, o cerne da história.
Antes de exemplificar esse momento no livro Jogos Vorazes, eu gostaria de recapitular a última parte do primeiro ato, que eu acredito que não ficou tão bem detalhada na primeira parte do post. Me desculpe, caro escritor.
De qualquer forma, primeiro ato termina, como dito no post anterior, com a realização de que Katniss precisava impressionar seus algozes e conquistar a plateia. Em relação aos seus algozes, os próprios realizadores dos jogos, Katniss é ensinada pelo seu mentor a demonstrar suas habilidades. Em relação ao público, sua imagem é trabalhada para que ela pareça uma concorrente de peso, digna de patrocínios — e, para colocar a cereja no bolo, ela descobre que seu mentor agiu por suas costas para que Peeta Mellark confessasse sua paixão por ela em rede nacional, nas vésperas dos jogos, para vender a ideia de um romance estilo Romeu e Julieta!
A partir daí, a ação crescente se dá e a segunda parte do livro começa, como especificado pela própria Suzanne Collins na obra. Depois daquela noite de entrevistas, o temido dia dos jogos vorazes chega e Katniss é jogada na arena e precisa explorar esse novo terreno, usando as ferramentas que ela consegue pegar na cornucópia e o treinamento dos dias anteriores.
No entanto, como essa parte não é para ser moleza, a protagonista precisa lidar com os primeiros desafios dos jogos: após batalhar por suprimentos e fazer uma busca incessante por água, os realizadores dos jogos obrigam a tributo a sair de seu esconderijo incendiando parte da floresta. Para piorar, Katniss descobre que Peeta Mellark havia se juntado aos carreiristas, que fecham o cerco ao redor de uma árvore, encurralando a protagonista.
E agora? Vamos para a próxima parte!
PONTO MÉDIO
Aqui, como o nome sugere, estamos chegando na metade da história. E se na ação crescente começamos a ver as dificuldades, no ponto médio elas se escalam, chegando a um ponto intenso de crise que abala as estruturas do protagonista, forçando-o a tomar um papel mais ativo na história. Syd Field, o criador dessa estrutura de três atos, define como:
“ Uma cena importante no meio do roteiro, geralmente uma mudança na sorte ou uma revelação que muda a direção da história.”.
Além disso, no ponto médio pode existir uma drástica mudança nos relacionamentos do protagonista com outros personagens.
Em Jogos Vorazes, após a descoberta de que Peeta supostamente estava traindo sua confiança ao aliar-se com os carreiristas, Katniss é obrigada a tomar uma atitude e cogitar a possibilidade de matar outros tributos, coisa que ela estava evitando fazer antes.
Então, graças a sugestão de Rue, a tributo do distrito 11, nossa protagonista derruba um enxame de vespas assassinas em cima dos seus concorrentes, mas acaba também sendo atingida pelo veneno no processo. E, numa reviravolta, a narrativa mostra que Peeta tenta salvá-la ao mandar que ela corresse para longe — O que Katniss faz, até ter alucinações terríveis e desmaiar na arena, para o desespero do leitor.
SEGUNDO PONTO DE VIRADA
Assim como o primeiro ponto de virada presente no primeiro ato, esse segundo — que também pode ser chamado de clímax do segundo ato ou plot point II — serve para mostrar as consequências da parte anterior, o que pode também trazer uma reflexão sobre as ações e escolhas do protagonista, junto a uma tentativa de resolução. Só que, como esse ato é totalmente sobre conflitos, aqui geralmente o personagem principal também passa pelo auge de uma crise, mas mesmo assim precisa encontrar forças para continuar.
Em Jogos Vorazes, Katniss acorda de seu desmaio, descobrindo que haviam se passado dias desde seu encontro com os carreiristas e que Rue estava tomando conta dela. Um breve período de tranquilidade se estabelece na história enquanto as duas formam uma parceria e a protagonista reflete sobre os acontecimentos: além de ter cometido um assassinato, ela chega a realização de que Peeta havia salvo sua vida. Além disso, Katniss e Rue formam um plano para destruir os recursos dos carreiristas.
Logo depois, no entanto, surge o auge da crise de Katniss: apesar de seu plano ter dado certo, a pequena Rue é assassinada e Katniss canta uma canção de ninar para ela ir em paz, numa cena de cortar o coração.
A presença de Rue — e, posteriormente, sua morte — traz uma transformação em todo o paradigma da história. Katniss muda, ao perceber que ela havia sido capaz de conectar-se com uma menina que era tão jovem quanto sua irmã e que os jogos eram muito mais do que mera sobrevivência. Ela então comete um ato de rebeldia, ao colocar flores ao redor de Rue e fazer uma saudação para a câmera, em seguida recebendo um patrocínio do distrito 11 — o que mostra uma união entre dois povos reprimidos pela Capital. Na versão do filme, a narrativa mostra que aquele ato é a faísca para ao que parece ser o início de uma revolução.
Após um tempo de luto, Katniss descobre que Peeta ainda poderia estar vivo e passa a ter um novo objetivo: encontrá-lo e vencer os jogos vorazes. E assim, o livro termina sua segunda parte.
Espero que você tenha gostado dessa segunda parte do post, mas ainda não acabou: confira a terceira parte do post aqui!
Beijos e até mais
---
REFERÊNCIAS:
How to Write a Novel Using The Three Act Structure - Reedsy
How to Write Three Act Structure - Masterclass
How To Plan Your Novel Using The Three-Act Structure - Writer’s Edit
Um estudo sobre midpoint: o ponto central do roteiro - Tertulia Narrativa
Jogos Vorazes - Suzanne Collins (Livro)
O guia para narrativa em terceira pessoa - Parte I
Olá amores!
Hoje o blog será comandado pela minha amiga querida Giovanna Almeida, que vai trazer para vocês um guia imperdível para narrativa em terceira pessoa!
Confiram a primeira parte do post abaixo:
Escolher a voz narrativa que vai dar vida a nossa história pode ser um verdadeiro pesadelo para muitos escritores e, apesar de não parecer uma escolha tão crítica para alguns céticos — que pensam que o importante é que a história seja contada e não por quem ou como ela é contada — é, na realidade, uma das decisões mais importantes a serem tomadas na hora de começar um novo livro ou conto.
Quem conta a sua história é extremamente relevante, sim! E escolher com carinho a melhor narração possível pro seu livro pode fazer toda a diferença. Essa escolha, porém, vai muito além do que simplesmente decidir se a sua história tem como ponto de vista um narrador personagem (primeira pessoa) ou um narrador observador (terceira pessoa).
E como uma usuária assídua da narração em terceira pessoa, hoje eu decidi vir aqui te mostrar um leque de possibilidades dentro desse tipo de narração — e, com sorte, te ajudar a encontrar a voz perfeita para o seu novo projeto.
O narrador em terceira pessoa é o queridinho de muitos autores iniciantes e não é por menos: é uma voz extremamente versátil e amplamente utilizada por grandes nomes da literatura fantástica, como J.K. Rowling, Neil Gaiman, Stephen King e George R. R. Martin; donos de obras que influenciaram toda uma geração. Ela é perfeita tanto para livros com muitos personagens principais, quanto para livros com apenas um. E a boa notícia é que existem muitas formas de você utilizar ela!
Escolhendo o narrador em terceira pessoa
A primeira coisa que você deve se perguntar ao escrever uma história em terceira pessoa é: “O quanto o meu narrador sabe sobre os meus personagens?” — ou melhor, o quanto você quer que seus leitores saibam e o quanto você quer deixar aberto a interpretação. Essa pergunta vai ser importante para definir qual dos três principais tipos de narrador em terceira pessoa encaixa melhor no que você quer para sua história. Isso porque o narrador em terceira pessoa pode variar em níveis de onisciência, que mudam de acordo com a proximidade da voz narrativa com os personagens.
Ficou confuso? Calma que você já vai entender tudo.
O Narrador Objetivo
O narrador objetivo é um narrador que está o mais distante possível dos personagens e não tem qualquer conhecimento sobre os seus pensamentos ou emoções. Pense nele como um voyeur, bem longe, apenas observando tudo.
Esse narrador se limita em descrever os eventos da história — e o que se passa na mente das pessoas dentro dela tem que ser interpretado pelo leitor a partir de reações visíveis e falas dos personagens. Por exemplo, numa história com esse tipo de narração, um autor não escreveria “Marcos lhe deu um beijo na bochecha e Letícia sentiu o rosto queimar de vergonha”, ele escreveria algo como: “Marcos lhe deu um beijo na bochecha e o rosto de Letícia ficou vermelho como um pimentão”.
Viu a diferença?
Podemos dizer, então, que esse narrador não é onisciente, porque ele só sabe aquilo que ele observa . Aqui a regra do “mostre, não conte” é muito importante, porque se você optar por esse tipo, não terá acesso à mente dos seus personagens para dizer como eles se sentem. A linguagem corporal e as falas (e a forma como elas são entregues) são um ponto-chave. Para que o leitor tenha uma boa experiência; a escolha certa de palavras é tudo.
Esse tipo de narração é interessante se você, por algum motivo, não quer se aprofundar no psicológico dos seus personagens, dando prioridade a outros elementos da história que acha mais importantes; ou se você pretende escrever um mistério em que as intenções do protagonista e secundários precisam estar ocultas, por exemplo.
Contudo, não é o tipo de narração mais indicado para quem pretende escrever um drama, tragédia ou outras histórias em que o contato com o psicológico dos personagens é importante. Para isso nós temos os dois tipos abaixo.
O Narrador Onisciente
O narrador onisciente sabe tudo sobre a história e os personagens que a compõe. Ele pode entrar na mente de qualquer personagem a qualquer momento e caminhar livremente entre elas, expondo as sensações que estes estão experienciando e opiniões daqueles que desejar, em determinada cena ou capítulo, não estando preso a apenas um. Ele tem acesso a todos os psicológicos e a todas as informações. Usando o narrador onisciente, você tem a possibilidade de exibir as emoções e os pensamentos de diferentes personagens, sem a necessidade de uma mudança de capítulo para trocar o “ponto de vista”.
Um exemplo de livro que faz uso dessa forma de narração é Orgulho e Preconceito da Jane Austen que, apesar de possuir apenas uma personagem principal, a Elizabeth Bennet, também dá aos leitores um acesso mais profundo a outros personagens que a cercam. Outros autores que fazem isso muito bem são Neil Gaiman e Terry Pratchett em Belas Maldições (Good Omens).
O narrador onisciente permite que o escritor explore múltiplas facetas dentro da história, entretanto, é preciso tomar cuidado para não “saltar” muito rapidamente entre muitos personagens em uma mesma cena, porque isso pode causar um efeito contrário, atrapalhando o leitor e fazendo com que ele perca a intimidade com o(s) personagem(s) foco dessa cena em questão. Uma dica, para não confundir seus leitores ao usar essa forma de narração, é tentar restringir o acesso do narrador ao consciente de apenas um ou dois personagens por cena.
O Narrador Onisciente Limitado
O narrador onisciente limitado se assemelha ao narrador onisciente quando estamos falando da proximidade com a mente dos personagens, mas com uma diferença importante: nesse tipo de narração, o narrador só tem acesso ao consciente de um personagem no livro todo ou, em alguns casos, um personagem por capítulo. Esse narrador sabe somente aquilo que o personagem foco sabe e está restrito aos seus pensamentos, emoções e experiências.
Esse é o tipo de narração empregado na série de livros Harry Potter da autora J.K. Rowling, por exemplo, onde o ponto de vista de terceira pessoa permanece próximo ao Harry o tempo todo. Em Deuses Americanos (Neil Gaiman) encontramos o mesmo caso, sendo empregada uma narração em terceira pessoa próxima e restrita ao consciente do Shadow Moon, o personagem principal. Nos livros das Crônicas de Gelo e Fogo, contudo, George R. R. Martin usa esse tipo de narração mudando o ponto de vista a cada capítulo ao trocar o personagem foco; então em alguns capítulos temos uma narração com proximidade restrita ao consciente de Sansa Stark e, em outros, temos uma narração com proximidade restrita ao consciente de Tyrion Lannister, por exemplo.
O ponto de vista em terceira pessoa limitada permite ao autor proporcionar, aos seus leitores, uma experiência mais íntima com os personagens, além de limitar a perspectiva, controlando quais informações os leitores sabem, já que eles são obrigados a caminhar junto ao personagem principal do livro (ou ao principal daquele capítulo).
Esse tipo de narrador vai variar, porém, no nível de onisciência que possui. Ele pode ser um narrador que apenas conta o que esses personagens estão pensando, utilizando termos como “ele pensou/ela pensou”, mantendo ainda certa distância, ou estar tão próximo ao personagem que acaba se misturando com ele em alguns momentos. É como se o personagem se infiltrasse na narração. Um exemplo de narrador se mesclando ao personagem seria esse aqui:
“Amanda viu quando Carmélia saiu apressada pela portinhola, voou pela calçada e sumiu na esquina da rua. O que estaria aquela mocreia aprontando dessa vez?”
Quem acha que a Carmélia é uma mocreia? O narrador? Não, é a Amanda. Mas perceba aqui que não existe uso de aspas na pergunta e nenhum indicativo de uma narração externa, como “ela pensou”. É como se Amanda dissesse isso através do narrador. Isso é um exemplo de um personagem que se infiltra na narração, um narrador que se mistura no personagem de tão próximo que está dele. Chamamos isso de discurso indireto livre e é um recurso que pode ser usado também no narrador onisciente que não é limitado.
O uso desse discurso proporciona ao leitor uma experiência similar ao da narrativa em primeira pessoa, mas ainda mantendo um ponto de vista em terceira — e é o máximo da proximidade a um personagem que um narrador em terceira pessoa pode alcançar, dando quase a intimidade de um livro narrado em primeira, dependendo da frequência em que você escolhe usar esse discurso.
Pronto! Agora que você já conhece os três principais tipos de narrador observador, nós saímos do básico e eu vou te mostrar algumas formas interessantes de brincar com esses tipos de narração... na Parte II desse guia.
Mas, por hoje, para finalizar o nosso 101: nunca esquecer que na hora de escolher um narrador, é necessário você pensar se, para sua história, é interessante ou não que o leitor tenha acesso à mente dos personagens. E se sim, de quais personagens. Isso é importante, não só para ditar a proximidade do leitor com as pessoas dentro do seu mundo fictício, como para influenciar diretamente a percepção dele sobre a sua história. Essa é a escolha que vale um milhão.
Espero muito que vocês tenham gostado dessa parte, mas segura que eu já volto.
Beijinhos e até mais.
Ciao!
Confira o post com a segunda parte do guia aqui
---
Sobre a autora:
Olá! Meu nome é Giovanna.
Eu tenho 21 anos, sou uma biomédica em formação e uma escritora apaixonada por mistérios, plot twists, alívios cômicos e aliterações.
Nas horas vagas, eu trabalho nos meus livros, crio histórias na minha cabeça que nunca são passadas pro papel, faço desenhos dificilmente aceitáveis e escrevo artigos por aí.
Meu perfil no wattpad: G-iovanna
----
Referências:
What Is Third Person Point of View in Writing? How to Write in Third Person Narrative Voice With Examples - Masterclass
The Ultimate Point of View Guide: Third Person Omniscient vs. Third Person Limited vs. First Person - The Write Practice
Narração em 3ª pessoas: vantagens e desvantagens - Ficçomos
The 7 Narrator Types: and You Thought There Were Only Two!
O guia para narrativa em terceira pessoa - Parte II
Atenção: Essa é a segunda parte do post, também escrito pela autora Giovanna Almeida. Confira a primeira parte aqui !
---
Olá, escritor!
Nas palavras dos filósofos contemporâneos Backstreet Boys: “Eu tô de volta!” (em livre tradução). E, agora, com a parte II do nosso guia para narrativa em terceira pessoa.
Se você ainda não leu a parte I e caiu de paraquedas nesse aqui, eu recomendo dar uma olhadinha no primeiro post, porque lá está explicado com detalhes os três tipos de narrador observador, quanto ao nível de onisciência.
Nesse aqui, nós vamos falar menos sobre a proximidade do narrador com o personagem e mais sobre como você pode se divertir e ser criativo ao utilizar uma voz em terceira pessoa.
Então, vamos começar?
Quando falamos em narrador observador, a maioria de nós já possui uma pré-concepção do que isso significa: um narrador destacado e afastado da história, sem personalidade, comprometido única e exclusivamente a contar aos leitores sobre os personagens e o que acontece com eles. Mas, apesar de ser essa a voz narrativa mais comum e típica dos livros com os quais temos contato, ela não é a única opção e não precisa ser sempre assim.
A voz narrativa de sua escolha pode, sim, ser simples e objetiva. Contudo, ela também pode funcionar como uma maneira de adicionar originalidade e certa excentricidade à sua história, ser um meio de gerar humor e até mesmo uma ferramenta para criação de plot twists!
Abaixo, nós vamos ver alguns tipos de narrador observador quanto ao estilo de narração. Quanto à proximidade, porém, eles podem cair em qualquer uma das três categorias de narrador que vimos no primeiro post — tudo depende da sua imaginação!
O Observador Imparcial
O Observador Imparcial, também conhecido como observador destacado, é o estilo de narração mais clássico nas obras literárias que tem a terceira pessoa como voz narrativa de escolha. É aquele caso citado acima, o narrador a qual todos nós conhecemos e uma voz extremamente familiar a qualquer leitor, mas que não podia deixar de ser citada e está longe de não ser importante.
Esse tipo de narrador se limita a contar a história e nunca insere qualquer tipo de opinião ou utiliza qualquer palavra que possa chamar atenção para si. Em essência, ele nem mesmo existe. As palavras e os personagens estão ali, mas quem está por trás deles não é importante. O autor é invisível.
É claro que existe uma voz narrativa, mas isso não é detectável porque ela desaparece completamente no texto, como se a história se contasse por ela mesma. Não é apenas o fato do narrador não emitir opinião, ele não tem nem mesmo qualquer indício de personalidade (o narrador, não a narrativa — é definitivamente importante que a sua narrativa tenha sua personalidade, seu estilo e sua assinatura como autor).
Bons exemplos de histórias que utilizam esse tipo de narração são Deuses Americanos (Neil Gaiman), 1984 (George Orwell), a série As Crônicas de Gelo e Fogo (George R. R. Martin) e diversos livros de Stephen King.
Muitos autores optam por essa voz, pois ela é extremamente confiável — já que, se em essência o narrador não existe, ele não está sujeito a erros ou tem sua moral comprometida. Sendo assim, tudo ocorreu exatamente como e quando é contado, sem tirar nem pôr.
É um estilo de narração prático e não é à toa que tenha tamanha popularidade de uso: ele proporciona experiências imersivas, sem tirar o foco dos personagens, dos acontecimentos e do mundo fictício.
O Comentarista
Sem dúvida um dos narradores mais divertidos, o Comentarista, embora fisicamente nunca entre na história, adiciona livremente comentários pontuais (e geralmente cômicos) durante todo decorrer do livro.
Ao contrário do que foi dito sobre o observador imparcial, ele definitivamente existe e é completamente detectável pelo leitor. Ele possui personalidade e pode ter até certo atrevimento ou insolência em relação aos personagens e toda a história – dependendo, é claro, da personalidade que você escolha dar à ele.
Ao utilizar esse tipo de narrador, é necessário que seja perceptível na sua escolha de palavras que existe uma entidade ali e isso não se trata apenas de deixar escapar um “eu” ou “mim” no meio da narração. O importante aqui é colocar também na forma como ele fala e como ele escolhe contar a história, traços que sejam indicativos de determinado caráter e individualidade, pois isso dará coesão e consistência ao seu narrador.
Essa voz narrativa é extremamente interessante, já que permite um comentário sem a necessidade de usar um personagem existente. Também é, comumente, uma ferramenta muito útil para adicionar certa comicidade ao texto, embora não precise ser usado sempre dessa forma: ele pode, por exemplo, acabar sendo um narrador não confiável se, através de críticas, ficar claro que ele não gosta de determinado personagem - e isso não precisa necessariamente conter humor.
Como no exemplo que foi dado, esse tipo de narrador, com frequência (embora não obrigatoriamente), acaba se misturando com outros tipos de narrador que falaremos mais abaixo, já que além de comentar acerca dos acontecimentos e pessoas dentro do mundo fictício, ele também pode falar diretamente com o leitor e/ou se mostrar uma fonte não confiável de informação.
Um exemplo de livro que usa essa voz narrativa é Um Conto de Natal (A Christmas Carol), de Charles Dickens.
O Narrador não confiável
O narrador não confiável é aquele cuja credibilidade é comprometida ou questionada. Seja por ser deliberadamente enganoso ou involuntariamente mal orientado, ele força o leitor a questioná-lo como um contador de histórias.
Esse tipo de narrador é extremamente comum em livros narrados em primeira pessoa (Lolita, de Vladimir Nabokov, é um grande exemplo) e, na realidade, é discutível que qualquer narrativa em primeira pessoa é uma narrativa não confiável — afinal, pessoas estão sujeitas a erros, desejos e julgamentos que estão fora do controle delas mesmas. Contudo, ainda que seja uma característica intrínseca do narrador personagem, sabia que é possível utilizá-lo em terceira pessoa também?
Apesar do nosso narrador observador não-confiável nunca fisicamente entrar na história, existem dicas e informações (algumas diretas e outras nas entrelinhas) que você pode adicionar na narração de forma a indicar que esse narrador, de alguma forma, não é totalmente digno da confiança do leitor.
Algumas vezes, a falta de confiabilidade do narrador pode ser feita evidente já no início da história: esse narrador pode, por exemplo, falando diretamente com o leitor, admitir ter algum distúrbio psicológico (que o faria ser mentalmente distante da realidade), dizer que está com a memória comprometida pela idade ou, até mesmo, informar que a história aconteceu há tempo demais e que pode não se lembrar completamente dos fatos. Ou, já no início também, ele pode fazer uma afirmação no texto tão completamente delirante que seja o suficiente para o leitor pensar duas vezes antes de levar o que ele diz a ferro e fogo — nesse caso, pode ser pego como exemplo algo conspirativo, como a rainha da Inglaterra fazer parte de uma organização secreta de reptilianos (há!).
Outra opção seria a construção de algo sutil, nas entrelinhas; que o leitor perceba com o tempo, como comentários que deixem a entender que esse narrador não goste de um personagem em particular. Em alguns casos, até, essa falta de credibilidade pode ser revelada apenas no final — como, por exemplo, se esse narrador, na verdade, for um personagem escondido da história (falaremos mais abaixo do “Personagem Secreto”).
As possibilidades dentro desse tipo de narrador são diversas: ele pode ser alguém com tendência a exagerar, ser louco, ser alguém com habilidades de narração impactadas pela idade (muito jovem ou muito velho) ou, é claro, ser um grande mentiroso. Pode ser tão enganoso ao ponto do leitor questionar quase tudo o que diz ou ter a veracidade questionada em relação a apenas algumas coisas pontuais.
A regra aqui é deixar a criatividade fluir. Essa é uma voz narrativa muito intrigante, já que força os leitores a reconsiderar seu ponto de vista e toda a sua experiência lendo a história.
Aquele que conversa com o leitor
Na maior parte dos livros o autor — ou mais especificamente, o narrador — está contando a história para um “alguém” ambíguo. Os fatos sem dúvida estão sendo narrados, mas sem nunca ficar claro para quem. Direcionar a palavra diretamente ao leitor, utilizando termos como “você” ou “quem está lendo” é o que chamamos de “quebrar a quarta parede” e esse tipo de voz narrativa realiza exatamente isso.
Eu, enquanto escrevo esse texto, algumas vezes quebro a quarta barreira quando falo diretamente com você, leitor do blog The Writer’s Room e não com um interlocutor indefinido (se é que existente). E eu garanto que para você, isso se torna uma espécie de “cutucão”, te lembrando de que você está lendo um texto escrito por um alguém.
Essa é exatamente a sensação que um narrador que direciona a palavra diretamente aos leitores proporciona: um lembrete amigável de que ele está ouvindo a uma entidade, determinada ou não. Feito corretamente, o uso dessa voz narrativa pode fazer com que o leitor sinta-se ouvindo uma história sendo contada por um bom amigo; utilizando de forma errada, pode prejudicar a imersão do leitor na narrativa ou até irritá-lo, pois ele estará sempre sendo lembrado de que está, de fato, lendo uma história fictícia.
Alguns livros que optam por utilizar esse tipo de narrador escolhem uma abordagem mais evidente e notória, onde o narrador é forte, frequente e extremamente entrelaçado na narrativa; desde o início deixando claro que ele está falando com você. Como, por exemplo, o livro “The Name of This Book Is Secret” de Pseudonymous Bosch:
“Bom.
Agora eu sei que posso confiar em você.
Você é curioso. Você é corajoso. E você não tem medo de levar uma vida de crime.
Mas vamos deixar uma coisa bem clara: se, apesar da minha advertência, você insiste em ler este livro, não pode me responsabilizar pelas consequências.”
Nesse trecho, podemos ver o início da história onde o narrador avisa diretamente o leitor sobre o que começou a ler. E, durante toda a narrativa, são feitas diversas interrupções onde são adicionados comentários, mas sempre de uma forma interessante o suficiente para não ser uma fonte de incômodo ao leitor
(OBS.: o narrador desse livro é também, sem dúvida, do tipo Comentarista — você provavelmente já reparou como esses dois tipos estão normalmente entrelaçados).
Muitas interrupções no texto, onde são feitos comentários sem propósito ou desinteressantes podem dar ao leitor a impressão de estar recebendo uma tour de um livro ao invés de estar lendo um.
Outra abordagem possível para um narrador que fala diretamente com o leitor (e talvez até mais comum) é a realização de parênteses pontuais e menos frequentes. Ao contrário do exemplo acima, onde o leitor mal tem tempo de esquecer da existência de um narrador por ele ser muito presente, nesse caso as interrupções são espaçadas e podem pegar o leitor de surpresa, pois o dá mais tempo para imergir na história de novo.
Nesse caso, você pode dirigir-se ao leitor já na primeira página ou não. Um exemplo de livro que faz um bom uso dessa técnica é Belas Maldições, de Neil Gaiman e Terry Pratchett. Na hora de escrever um livro com um narrador que derruba a quarta parede, mais até do que a dosagem, é importante o discernimento para decidir o que é (ou não) interessante comentar. Se você vai interromper o leitor, faça ser intrigante, engraçado ou irreverente: faça valer a pena.
Narradores Observadores… Mas não exatamente
Tudo bem, os dois narradores abaixo não podem ser considerados exatamente terceira pessoa, visto que estão de certa forma inseridos na narrativa, mas podemos pensar neles como vozes narrativas perdidas em um limbo entre o narrador personagem e o observador. Isso porque, em alguns casos, eles até mesmo podem parecer uma terceira pessoa comum até o final do livro, onde a verdade é revelada.
O Entrevistador
O objetivo do narrador Entrevistador é ser o porta-voz da narrativa de terceiros. Ele é um ouvinte, através do qual o leitor acompanha os eventos narrados por algum personagem da história. Nesse tipo de narração encontramos uma pessoa, o nosso narrador sem importância, que está sendo o interlocutor numa conversa (uma “entrevista”) com algum ou alguns personagens principais da história que estão lhe contando eventos que já aconteceram. Ele também pode narrar para os leitores, com as suas palavras, detalhes de um evento passado que foi anteriormente contado para ele por alguém (no caso, algum personagem).
Ou seja, nesse tipo de narrador, sempre estamos lidando com eventos passados que não envolvem o narrador em primeira pessoa (o Entrevistador), estejam esses eventos saindo da boca de algum personagem num discurso direto ou sejam eles detalhes coletados pelo Entrevistador e sendo contados por ele. Pense, por exemplo, numa psicóloga (a narradora, interlocutora) ouvindo um paciente (o personagem) lhe contar sobre alguma crise ansiosa que teve no dia anterior. Saberemos dessa história através da psicóloga, que é nosso narrador em primeira pessoa que está ouvindo, mas quase tudo o que nos está sendo contado está saindo da boca da paciente em questão, a psicóloga é apenas uma receptora da mensagem.
Nesse tipo de história, o leitor é completamente imerso na fala dos personagens principais (os locutores) ou completamente imerso na narração do Entrevistador dos eventos passados que lhe foram contados, até que algum comentário pontual do Entrevistador, por fala ou pensamento, o traga de volta para o presente. Um exemplo de livro que faz uso desse tipo de narrador é A Viagem do Peregrino da Alvorada, de C.S. Lewis:
“Trouxe-lhes, ao mesmo tempo, um aroma e um som musical. Edmundo e Eustáquio nunca mais quiseram tocar no assunto.
Lúcia apenas podia articular: ‘Era de cortar o coração.’
‘Por quê?’ perguntei eu ‘Era assim tão triste?’
‘Triste nada!’ disse Lúcia”.
Embora não seja estritamente observador, visto que tem contato direto com ao menos um personagem do livro, ele é, por via de regra, inteiramente irrelevante dentro dos acontecimentos da narrativa em si.
O Personagem Secreto
E por fim, mas definitivamente não menos importante, pois foi o tipo que me inspirou a escrever esse guia inteiro em primeiro lugar, nós temos o Personagem Secreto.
O Personagem Secreto é o tipo de narrador mais interessante para quem está procurando uma nova forma de surpreender os leitores, visto que esse narrador apenas finge ser removido da história (ou ao menos tem sua presença omitida). Esse tipo de voz narrativa começa agindo como um narrador observador “comum” , mas eventualmente a sua identidade será revelada na história, seja por meio de algum personagem que mencione seu nome (e, nesse caso, o nome do narrador já teria sido dito por ele mesmo em algum momento), seja através de algum personagem que por ventura o confronte ou ainda uma revelação que parta dele mesmo nos últimos capítulos (diretamente ou dando a entender).
Para esconder a sua identidade, caso esteja muito envolvido nos eventos da história para não citar a si próprio (sendo ele o vilão, por exemplo, ou uma garota quieta na cafeteria da escola que o protagonista sempre conversa), ele pode até se referir a si mesmo na terceira pessoa até o final, narrando suas ações como as de um terceiro.
É um narrador que abre espaço para deixar a sua imaginação fluir, pois ele pode ser qualquer pessoa: um herói, um vilão, um personagem que parecia não ter a menor importância ou até um personagem que nunca tinha sido citado anteriormente. As alternativas são infinitas.
Contudo, é preciso tomar cuidado em relação ao nível de onisciência que este narrador em questão demonstra ter, pois tendo em vista que ele era um personagem secreto, é preciso existir uma explicação sobre como ele tinha acesso aos pensamentos dos outros personagens, se for o caso de um narrador escrito com alta proximidade a eles. Se ele era um personagem secreto narrando os pensamentos de outros, como ele possuía esse acesso? Ele estava inventando tudo? Estava simplesmente assumindo o que eles pensavam? Ele é um telepata? Ele é um deus?
Mas, a partir do momento que esses detalhes são decididos, optar por esse narrador é uma ótima maneira de dar uma "rasteira" (no melhor sentido) nos seus leitores. Pois além do delicioso plot twist que é descobrir que um simples narrador era na verdade um personagem da história, como consequência da revelação de ser um personagem secreto, ele pode automaticamente se tornar não confiável e fazer o leitor desconfiar que o seu narrador ocultou ou deturpou informações vitais (principalmente se ele for o vilão).
Um grande exemplo desse tipo de narrador está nas páginas da famosa (e longa) série de 13 livros infanto-juvenis, Desventuras em Série. Lemony Snicket é o nome do dono da voz narrativa que dá a vida a essa história e é, sem dúvida, um dos narradores mais peculiares e originais com o qual você vai se deparar em um livro. Ele é o pseudônimo pelo qual o autor, Daniel Handler, assina todos os volumes da série e logo no início da história Lemony se apresenta, deixando claro que é ele quem está contando aquilo tudo — ele conta para os leitores, inclusive, até mesmo um pouco de si mesmo antes do primeiro capítulo começar.
O escritor narra a história dos três irmãos Baudelaire de uma forma extremamente única, divertida e nada imparcial, falando diretamente com o leitor e adicionando seus próprios comentários, notas e opiniões acerca dos eventos trágicos que constituem a trajetória azarada dos nossos heróis — o que faz dele um narrador também do tipo “Comentarista” e “Aquele que fala com o leitor”. Mas apesar de parecer que ele é simplesmente um escritor que se dedicou a relatar a vida dessas crianças, Lemony está também envolvido nos eventos da história!
Isso pode ser visto no seguinte trecho abaixo do livro O Fim, onde Violet e Klaus discutem sobre uma carta que encontraram:
“‘Lemony?’ Violet repetiu. ‘Eles teriam me chamado de Lemony? De onde eles tiraram essa ideia?’
‘De alguém que morreu, presumivelmente’, disse Klaus.”
Existem muitas possibilidades dentro da narrativa em terceira pessoa e essas são apenas algumas delas. Não tenha medo de deixar a sua imaginação correr: você pode misturar e fazer o seu narrador ser mais de um tipo ao mesmo tempo, pois como vimos, muitos desses conversam entre si com frequência na literatura. Não existe nenhuma regra quando se trata de trabalhos criativos e descobrir novas formas de contar histórias é o que torna a arte de escrever tão fascinante.
Essas são somente dicas e você tem a total liberdade de criar algo diferente no seu livro ou até mesmo manipular um certo estilo aqui citado, para que encaixe mais adequadamente para o que você quer na sua história. Muitas vezes, um narrador fora do comum é exatamente o tom diferencial que o seu livro precisa.
Bom, por hoje é só. Espero que esse guia tenha sido útil para vocês e que tenham gostado da minha passagem por aqui.
Ciao!
---
Sobre a autora:
Olá! Meu nome é Giovanna.
Eu tenho 21 anos, sou uma biomédica em formação e uma escritora apaixonada por mistérios, plot twists, alívios cômicos e aliterações.
Nas horas vagas, eu trabalho nos meus livros, crio histórias na minha cabeça que nunca são passadas pro papel, faço desenhos dificilmente aceitáveis e escrevo artigos por aí.
Meu perfil no wattpad: G-iovanna
---
Referências:
Are You Talking to Me? Addressing the Reader - Janice Hardy’s Fiction University
What Is an Unreliable Narrator? 4 Ways to Create an Unreliable Narrator in Writing - Masterclass
The 7 Narrator Types: and You Thought There Were Only Two! - Be Kind, Rewrite
Se você pudesse viajar no tempo, iria ao passado ou para o futuro? E se você pudesse encontrar a si próprio aos dez anos de idade, o que você diria?
Você provavelmente já se deparou com essas perguntas e passou um bom tempo pensando em respostas para elas, não é mesmo?
A viagem no tempo é um tema que intriga há gerações e já foi objeto para estudos e pesquisas, conspirações, séries, filmes e, é claro, livros. Todo esse fascínio pela possibilidade de que alguém — ou algo — poderia visitar e reformular a história, seja no passado ou no futuro, tem o potencial de explodir a cabeça de qualquer um e transformar-se em um livro fantástico.
E você, já pensou em escrever uma história com viagem no tempo? Ficou curioso pelo tema? Confira o post a seguir:
Sobre a viagem no tempo na literatura
A história da viagem do tempo na literatura é bem antiga: uma das primeiras obras com essa temática é datada no ano de 1887! Ou seja, muito antes de cientistas fazerem estudos sobre multiversos e viagens no tempo, escritores já imaginavam como isso seria — e continuam imaginando até hoje.
E a vantagem da viagem do tempo na literatura é que, ao contrário do que você pode pensar, ela não precisa ser usada apenas na ficção científica . Obras como “A mulher do Viajante no Tempo”, de Audrey Niffenegger e “Outlander” de Diana Gabaldon, por exemplo, utilizam esse elemento para construir o romance, além de criar conflitos. Já em “Harry Potter o Prisioneiro de Azkaban”, a viagem no tempo não é causada por máquinas e descobertas científicas — mas sim por pura mágica.
Tipos de viagem no tempo
A questão sobre a viagem no tempo é que não se trata apenas da jornada em si: são as consequências, tanto na vida dos personagens quanto do universo como um todo. Em certos casos, até as escolhas mais simples podem causar grandes impactos na história. Já em outros, a própria viagem no tempo já faz parte da linha do tempo original e é necessária para o desenrolar dos acontecimentos.
Ficou confuso com as possibilidades? Confira três tipos básicos de viagem no tempo:
Linha de tempo fixa - Nesse tipo de jornada, a viagem no tempo só pode ser feita dentro de um determinado limite, onde futuro ou passado já são fixos. Sendo assim, as escolhas do personagem não alteram a história e tornam-se parte dela.
Pontos fixos - Já nesse modelo, as ações dos personagens podem gerar impactos menores e existem momentos ou situações que não podem ser alterados, como desastres naturais e mortes; não importando as tentativas do personagem de mudar o curso da história.
Multiverso - Dentro desse modelo, ao contrário dos anteriores, as possibilidades são infinitas: os personagens têm total autonomia para interferir em acontecimentos, que geram consequências e impactos em uma nova linha do tempo, substituindo a anterior.
Agora que você conhece um pouquinho mais do tema, vamos para as dicas?
Defina para quando seu personagem vai
Essas é a primeira e uma das mais importantes questões para o desenvolvimento da viagem no tempo da sua história. Isso porque um dos principais elementos da história é o mostrar que o personagem está em outra época, numa sociedade diferente em diversos aspectos e como ele reage a isso.
Em Outlander, por exemplo, Claire Randall passa por vários problemas por ser uma mulher presa na Escócia de 1743, uma época muito mais machista comparada ao seu presente; além das dificuldades de ser uma médica que tenta exercer seu ofício, sem os mesmos recursos que teria em sua época.
Defina como seu personagem vai viajar
Esse é outro ponto super importante na história, porque ele ajuda a estabelecer outro elemento básico, que é como (e se) seu personagem vai voltar para seu próprio tempo, além da quantidade de viagens que poderá fazer.
O seu personagem terá uma máquina no tempo, um dispositivo ou viajará por acaso? Ele precisaria esconder esse objeto? Ele poderia ir e voltar quantas vezes quisesse ou seria apenas uma viagem de ida e volta?
Todas essas perguntas vão te ajudar a desenhar a sua história
Pesquise bastante
Como mencionado ali em cima, o seu personagem, ao viajar no tempo, vai parar em uma sociedade diferente. Então para isso você, como escritor, precisa entender ou criar essa realidade através da pesquisa.
Se o seu personagem viajar para o passado, você precisa saber como o mundo funcionava naquela época, até em detalhes que você normalmente não pensaria. E no caso de uma viagem para o futuro, você também precisa pesquisar o que há hoje em dia e como isso poderá ser daqui para frente, para criar uma base — até mesmo se tudo for imaginado.
Aqui vão algumas perguntas que podem te ajudar:
Como as pessoas se vestem na época escolhida?
Como as pessoas falam e quão diferente seria, comparado ao que o personagem está acostumado?
Como são os hábitos e costumes?
A sociedade é mais ou menos avançada em termos de cultura e direitos humanos? O seu personagem poderia sofrer algum preconceito?
A tecnologia é mais ou menos avançada do que no presente?
Quanto mais você souber, melhor. Então, cai dentro na pesquisa!
Seja consistente: cuidado com furos!
Como a viagem no tempo é algo fantasioso e que normalmente já causa uma certa “bagunça” no enredo, é importante que você preste muita atenção para que sua história não fique totalmente sem sentido e sem lógica.
Uma boa alternativa para isso é estabelecer regras dentro do universo da obra e da viagem no tempo, como nos tipos mostrados lá em cima. Além disso, definir quais seriam as consequências se essas regras fossem quebradas — o que, de quebra, é uma ótima oportunidade de criar conflitos para o enredo.
Espero que essas dicas ajudem!
Beijos e até a próxima
---
Referências:
How to Write a Time Travel Story – 10 Things to Consider & 5 Examples
Se tem uma coisa que todo mundo adora, seja em filmes, livros ou séries, é aquela boa reviravolta; capaz de fazer qualquer um cair para trás.
Conhecido como plot twist, esse é um recurso muito utilizado por escritores para, sobretudo, entreter leitores/espectadores e provocar uma surpresa dentro da narrativa.
Quer aprender a criar um plot twist surpreendente? Continue lendo o post:
O que é o plot twist?
Antes de passar para as dicas para criar o plot twist, que tal nos aprofundarmos um pouquinho no seu significado ?
Vamos começar por duas definições:
“ Plot twist é uma técnica de escrita que introduz uma mudança na direção ou nas expectativas dentro do enredo de um roteiro. Geralmente, essas mudanças acontecem para mudar o final de um filme e re-contextualizar toda a experiência. Em outros casos, pode acontecer no meio ou até mesmo no início para subverter a expectativa da audiência”
(Fonte: No Film School)
“Plot Twists são mudanças em um livro, conto, filme ou série de TV que subvertem expectativas. (…) Quando executadas apropriadamente, essas “distrações” surpreendem genuinamente a audiência e, assim, aumenta o seu engajamento.”
(Fonte: Masterclass)
Só por aí, já dá pra perceber a importância do plot twist e em como saber usá-lo em suas histórias, não é mesmo?
E o que faz um plot twist ser bom? Aqui vão algumas características:
Ele precisa ser surpreendente
Ele precisa causar um impacto na história e nos personagens
Ele precisa fazer sentido e ser coerente com a história
Ele precisa ser memorável
Tipos e exemplos de plot twist
Podemos dividir o plot twist em duas categorias: o acontecimento e a revelação.
O acontecimento
Esse tipo é introduzido através de um evento que muda o rumo da história e causa impactos nos personagens, gerando consequências posteriores. Uma das maneiras de causar esse plot twist é através da morte de personagens.
Um exemplo perfeito é a execução de Ned Stark, no primeiro livro de “As Crônicas de Gelo e Fogo”. Seu assassinato alterou toda a dinâmica dentro do universo da história e, de quebra, mudou toda a nossa percepção de quem eram os personagens principais; além de dar um recado claro: nenhum personagem está seguro nas mãos do autor. E esse é um dos motivos pelo qual a saga possui tantos fãs apaixonados.
A revelação
Esse tipo de plot twist, diferente do anterior, geralmente exige que algumas “pistas” sejam deixadas ao longo da narrativa até o momento em que a revelação seja feita. E, além de mudar a dinâmica da história a partir daí, essa nova informação vai fazer com que os leitores enxerguem tudo o que foi lido até então com um novo olhar; dando a impressão de que todas as “peças” do enredo se encaixam.
Um exemplo, em Harry Potter, é o momento em que o bruxo descobre que Voldemort havia dividido sua alma em diferentes partes (as chamadas horcruxes) em “O Enigma do Príncipe”. Quando esse fato é revelado, ele desencadeia uma série de acontecimentos que movem a saga; além de explicar certos acontecimentos anteriores — como a verdadeira natureza do diário de Tom Riddle, por exemplo.
Observação: apesar de serem dois tipos diferentes, nada impede que os dois sejam usados juntos!
Dicas para criar o plot twist
Agora que já estamos totalmente entendidos sobre esse recurso, vamos para as dicas?
Use foreshadowing
O foreshadowing é um recurso usado por autores para deixar “pistas” no enredo e construir a narrativa. No caso do plot twist, especialmente se for o de revelação, ele ajuda a dar sentido para a reviravolta e fazer com o que os leitores pensem “Ah, então é por isso que…” ao lembrar de determinados detalhes.
É importante, acima de tudo, que essas pistas sejam sutis — afinal, você não quer que os leitores descubram o que está acontecendo antes da hora.
Dê pistas falsas, mas não faça promessas vazias
Nem sempre as pistas precisam levar diretamente para o plot twist : você pode, por exemplo, fazer parecer que o enredo vai para uma direção, apenas para surpreender os leitores. A distração é uma alternativa para mantê-los interessados, mas sem revelar o enredo.
No entanto, tome cuidado ao brincar com as expectativas alheias: ninguém gosta de promessas vazias. Não faça parecer que existe um grande evento prestes a se desenrolar na sua história apenas para revelar que não há nada ali.
Assim como nas pistas verdadeiras, aqui também vale a pena escrever de forma sutil.
Não se esqueça do “depois”
Além de causar a surpresa, o intuito é fazer com que os leitores se perguntem o que acontecerá em seguida. Por isso, é importante que você determine o impacto que a reviravolta causará no seu enredo e demonstre esses efeitos para os leitores. Tenha em mente que o plot twist é muito mais do que uma forma de “chocar” leitores — ele precisa acrescentar algo à história.
Seja coerente
Apesar do plot twist ser um elemento inesperado, ele ainda deve fazer o mínimo de sentido com o contexto da história. No caso da execução de Ned Stark, por exemplo, o personagem estava em uma posição de desvantagem e conflito em relação aos seus inimigos, o que tornou o acontecimento plausível.
Teste o plot twist em alguém
É importante que você tenha uma visão “de fora” para saber se o plot twist de fato funciona: ou seja, se ele realmente surpreende. Para isso, você pode pedir a ajuda de algum amigo,beta reader ou até mesmo fazer uma leitura crítica (você pode, inclusive, me contratar para isso !)
Cuidado com exageros e não force a barra
É importante lembrar que nem todas as histórias precisam de um plot twist para serem interessantes. Não tente forçar uma reviravolta, se isso não combina com a sua obra.
E, assim como praticamente qualquer recurso, o mais indicado aqui é a moderação; para não correr o risco de tornar a narrativa cansativa. O excesso de plot twists também prejudica o elemento surpresa, já que ele só pode existir se a pessoa do outro lado estiver minimamente confortável com a história. Se o leitor já esperar o inesperado, o enredo se tornará previsível (por mais estranho que isso pareça).
Espero que as dicas sejam úteis
Beijos e até a próxima!
---
Referências:
How to Write and Recognize a Plot Twist (w/ Examples)
5 Tips for Writing a Killer Plot Twist: Types, Examples, and Techniques
Writing Guide: How To Write An Effective Plot Twist