[RESENHA] O Feijão e o Sonho, de Orígenes Lessa
O Feijão e o Sonho foi o primeiro e único livro de Orígenes Lessa que li. De uma linguagem simples, sem grandes rebuscamentos, busca narrar a história de um aspirante a intelectual inserido em um meio degradante, antagônico aos seus anseios intelectuais, subjetivos. Não obstante, a personagem ainda sofria com uma incapacidade em relação à vida prática que a deixava dividida: de um lado estava seu sonho – sua intelectualidade, seus estudos etc.; de outro estava o “feijão” – sustentar a família, dar conta dos filhos, fazer serviços domésticos etc. Este dilema estrutura, basicamente, toda a narrativa do romance.
Logo no início da história, Campos Lara, personagem principal, é acordado por sua esposa, Rosinha, já em hora adiantada do dia para resolver problemas familiares e afazeres domésticos – o que já demonstra, em poucas linhas de narração a falta de responsabilidade de Campos Lara e sua subserviência em relação à esposa. As demais cenas acontecem basicamente neste mesmo ambiente familiar, escolar e nas imediações da vizinhança, e sempre com este teor de desavença, impasse e desentendimento – principalmente entre Lara e sua esposa. Seus momentos de maior euforia aconteciam quando ia dar aula, pois expressava toda a sua vocação e aptidão, ou quando encontrava algum amigo que partilhasse, mesmo que superficialmente, de seus vislumbres literários.
Como visto, grosso modo, Campos Lara é narrado como um perdedor, um incapaz, inadaptado frente à vida social, familiar e prática, em que separar uma discussão entre dois filhos, dois alunos ou amigos, por exemplo, se apresentava a ele como uma incógnita intransponível. E, seus anseios subjetivos, intelectuais e sublimes eram imolados justamente por estas incapacidades pessoais e por estar inserido em um meio tacanho e mesquinho que não o compreendia, fazendo com que sucumbisse a todo esse emaranhado de desencontros. Além de não entendê-lo – e justamente por isto – as pessoas acabavam aviltando-o, chegando a dizer calúnias a seu respeito – como no episódio em que alguns conhecidos levantaram um boato de que ele falara que o padre da cidade estava “mexendo” com as crianças, ou seja, alegando que o padre era pedófilo. Esta é uma das cenas mais importantes do romance, na qual vemos uma outra face da personalidade de Campos Lara. Vemos pela primeira vez ele ir tirar satisfação com alguma pessoa, mostrando uma força pessoal, uma capacidade para se expressar e se impor que contrasta bastante com a figura que o leitor estava habituado a enxergar.
Assim, entre altos e baixos, alegrias e tristezas ele ia sendo carregado pela vida, muitas vezes de forma passiva ou, de vez em quando, com revolta. É certo que suas aspirações eram honestas e legítimas. No entanto, sua capacidade de estratégia para adequar sua vida à seus sonhos era quase nula, fazendo com que raivas, desenganos e sofrimentos fossem seus companheiros de estrada durante toda a sua vida. Seu último pico de euforia – creio eu – aconteceu, ao final do enredo, quando soube que seu filho compusera um poema. Campos Lara quase que não se aguenta de alegria. Uma explosão interna de emoções toma conta de sua lucidez. Seu filho, filho de Campos Lara, passaria para as demais gerações o gérmen literário iniciado por ele! Era um sonho realizado ali mesmo na sua frente.
Dito isto, nota-se que esta é uma obra muito importante para o aspirante a intelectual, pois muito dos entraves que aparecem no caminho do pretenso estudante sério no Brasil estão narrados ali, mostrando que grandes empecilhos são apenas fruto do pensamento do indivíduo, não tendo uma relação direta com a realidade. Desta forma, o leitor vê com clareza o quão infantis e alijáveis são as inquietações e os sofrimentos vividos pela maioria das pessoas, sendo estas intelectuais ou não.













