Outro patamar
Uma mulher encontrava-se na faixa de pedestre na metade da travessia. Devia ter mais ou menos quarenta anos e apoiava-se em um andador.
O motorista do carro que aguardava começou a buzinar e a ofendê-la.
Tive ímpetos de interferir e de alguma forma defendê-la, quando observei que a moça olhava para ele e sorria. Por um instante, pensei que pudessem ser conhecidos.
Não, não o conhecia e sorria para o homem com calma e piedade. A cena me estarreceu.
Mais alguns segundos demorados e ela finalmente chegou à calçada. O condutor do carro fez questão de passar acelerando muito mais do que o necessário, reafirmando assim sua irritação absurda.
Acelerei os passos e a alcancei.
— Você está bem?
— Sim, obrigada.
Respondeu com um jeito doce e um olhar grato e despreocupado.
Adequei meus passos para que ficassem no mesmo ritmo que os dela.
Em silêncio, caminhamos lado a lado por meio quarteirão até chegar ao ponto em que eu deveria mudar meu rumo.
Certifiquei-me que ela estava bem e não precisava de nenhuma ajuda e então me despedi.
A moça agradeceu e me tranquilizou. Transbordava sabedoria e resignação. A altivez com que lidou com a situação me impressionou.
Talvez não tenha provocado nenhuma reflexão no motorista irado. Quanto a mim, muitas vezes, quando tenho vontade de devolver na mesma moeda lembro do ocorrido. Respiro e tento atingir o seu patamar.











