sempre quieta demais, sempre alerta.
aprendeu cedo que errar era grave, que pensar diferente era ameaça.
que falar na hora errada era punição.
e assim foi desaprendendo a existir em voz alta.
foi diminuindo os gestos, os sonhos, os desejos.
fez do silêncio um abrigo.
fez da rigidez um escudo.
fez da espera uma rotina.
hoje, diante de mil caminhos, o corpo não anda. a mente trava.
as escolhas escorrem entre os dedos como se fossem armadilhas disfarçadas.
tudo parece demais.
tudo parece perigoso.
tudo parece falho antes mesmo de começar.
e não porque falta capacidade.
mas porque sobrou medo.
sobrou cobrança.
sobrou uma lembrança constante de que escolher pode ser um erro, e errar pode ser o fim.
ninguém ensinou leveza.
ninguém deixou espaço para o improviso.
tudo era regra. tudo era linha reta. Tudo era resposta certa.
e agora, tudo paralisa... mas não é fraqueza, é memória de sobrevivência.
é corpo que ainda tenta obedecer vozes que já não mandam mais em nada.
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