Ésquilo
Os Persas
472 a.C.
Capítulo I: A Sombra no Trono de Ouro
O sol de Susa, que outrora parecia um servo fiel da dinastia aqueménida, nascia agora com uma palidez doentia. No interior do palácio, onde as paredes de tijolo esmaltado narravam vitórias que o tempo começava a questionar, a Rainha Atossa não dormia. A sua vigília não era feita de orações, mas de um terror mudo que se entranhava nos ossos como a humidade das terras baixas.
Atossa era a linhagem viva da Pérsia. Filha de Ciro, esposa de Dário, mãe de Xerxes. Ela era o eixo sobre o qual girava o mundo conhecido, mas, naquela madrugada, sentia-se apenas como um fragmento de cerâmica prestes a estilhaçar-se. O sonho — aquele maldito sonho que a visitava desde que o seu filho partira com o estrondo de mil exércitos para subjugar a Jónia — atingira finalmente o seu zénite de horror.
No sonho, duas mulheres de porte magnífico, uma vestida com peplos gregos e a outra com trajes persas, lutavam entre si. Xerxes, na sua arrogância divina, tentara jungir ambas ao seu carro. A persa submeteu-se, orgulhosa do seu jugo; mas a outra, a helénica, despedaçou os arreios com um movimento de ombros que fez tremer a terra. Xerxes caiu. E, ao cair, a sombra de Dário, o pai morto, olhava-o com uma piedade que feria mais do que qualquer punhal.
A rainha levantou-se, o restolhar da sua seda preciosa ecoando como um aviso pelos corredores desertos. Dirigiu-se à varanda, onde os jardins suspensos exalavam um perfume de jasmim que, naquela manhã, lhe cheirava a incenso de funeral. Lá em baixo, no pátio das audiências, os "Fiéis", os anciãos que compunham o Coro do império, já se reuniam. As suas barbas brancas e mantos pesados conferiam-lhes o aspeto de estátuas de pedra, guardiões de uma glória que dependia inteiramente de notícias que teimavam em não chegar.
— "Ó vós, que sois os ouvidos do rei na sua ausência," — murmurou Atossa para si mesma, a voz rouca pelo desuso — "porque é que o ar pesa tanto se a vitória é o nosso destino?"
Ela desceu as escadarias de mármore, cada degrau uma eternidade. Ao entrar na sala do conselho, o Coro inclinou-se num uníssono de ossos velhos e tecidos pesados. O líder dos anciãos, cujo rosto era um mapa de rugas gravadas pela poeira de mil campanhas, deu um passo à frente.
— "Senhora de Susa," — começou ele, a voz trémula mas firme — "os nossos corações são como arqueiros que retesam a corda, esperando o alvo. Desde que o jovem Xerxes partiu, levando consigo a flor da nossa juventude, a Ásia ficou deserta de homens. O ouro de Susa brilha, mas as lareiras das casas persas estão frias."
A rainha sentou-se no trono de ouro, mas não encontrou conforto. A estrutura, esculpida com figuras de leões e divindades, parecia subitamente demasiado grande para ela.
— "O meu espírito está dividido," — confessou Atossa, os olhos fixos num ponto invisível no horizonte — "o meu sonho foi um presságio de cinzas. Vi o meu filho cair, vi o orgulho da nossa estirpe ser pisado por pés descalços de camponeses de Atenas. Digam-me, anciãos: onde fica essa cidade que consome os nossos exércitos como se fossem palha? Onde fica Atenas?"
Os anciãos trocaram olhares inquietos. Sabiam que a pergunta não era geográfica, mas metafísica. Atenas era o conceito que a Pérsia não conseguia digerir: a liberdade que não conhece senhores.
— "Fica longe, no poente," — respondeu o Coro — "onde o sol se apaga. É uma terra que não tem rei, onde cada homem é o seu próprio mestre. Dizem que as suas lanças são de ferro e o seu coração é de bronze."
Atossa sentiu um arrepio. Como poderia um exército de escravos, como eram todos os súbditos perante o Grande Rei, vencer homens que lutavam por si mesmos? A dúvida era uma traição, mas a intuição era um facto. A opulência da sala, as taças de ouro, os tapetes de Sardes, tudo parecia agora frágil, uma miragem que o primeiro sopro de má notícia faria desaparecer.
O diálogo entre a rainha e os conselheiros prolongou-se, uma dança de palavras destinadas a afastar o medo. Falavam da imensidão da frota persa, das pontes sobre o Helesponto que Xerxes construíra desafiando as leis de Posídon, transformando o mar em terra firme. Tentavam convencer-se de que a natureza se curvara perante o filho de Dário.
Contudo, no fundo de cada frase, escondia-se o silêncio de Salamina. Susa estava habituada a mensageiros a cavalo que chegavam com o pó da vitória; mas o caminho real estava agora vazio. O império sustinha a respiração.
Subitamente, um grito ecoou das portas exteriores do palácio. Um som agudo, rasgado, que não era de saudação. O Coro calou-se. Atossa levantou-se do trono, a mão direita apertando o colar de lápis-lazúli até que as contas lhe ferissem a palma. Ao longe, no final da longa avenida ladeada por esfinges, apareceu uma figura solitária. Um homem que corria com a irregularidade de quem traz o corpo ferido e a alma estilhaçada.
— "Ali vem ele," — sibilou o ancião — "o mensageiro da verdade que os nossos sonhos já conheciam."
A silhueta do mensageiro aproximou-se, a sua sombra projetando-se longa sobre o chão de Susa, enquanto Atossa percebe que o seu tempo de rainha terminou e o seu tempo de mãe em luto está prestes a começar.
Capítulo II: O Sudário de Sal e Ferro
O mensageiro entrou na sala do conselho não como um homem, mas como um espectro. O pó do caminho, misturado com o sal marinho que parecia ter-se entranhado na sua própria pele, conferia-lhe uma palidez cinzenta. Ele caiu de joelhos perante Atossa, não por reverência, mas porque as suas pernas já não conseguiam sustentar o peso da desgraça que carregava nos lábios.
— "Fala, servo do silêncio!" — ordenou Atossa, a voz vibrando como uma corda de harpa prestes a romper. — "Diz-me que a terra da Grécia é agora o tapete do meu filho."
O homem ergueu o rosto. Os seus olhos tinham visto o que nenhum persa deveria ver: o ocaso dos deuses na terra.
— "Rainha... Susa é agora uma viúva," — começou ele, a voz rouca, arranhada pelos gritos de agonia que ainda ecoavam na sua mente. — "O exército pereceu. A frota, aquela floresta de mastros que cobria o mar, é agora lenha para as fogueiras dos helenos. Salamina... aquele nome será a maldição dos nossos netos."
E então, como se uma represa tivesse rebentado, as palavras fluíram numa torrente visceral. Ele descreveu a manhã da batalha. O sol nascera sobre as águas estreitas, revelando a frota persa comprimida, uma massa de madeira e ouro que mal conseguia mover-se. Xerxes, sentado no seu trono de prata no alto do monte Egaleu, observava a cena como um deus que assiste ao sacrifício de um mundo. Ele acreditava que o número era a sua força; não compreendia que, naquelas águas, o número era o seu carrasco.
— "Eles não fugiram, Rainha," — continuou o mensageiro, os braços agitando-se num delírio de memória. — "Os gregos não fugiram. Quando a aurora tocou o mar, ouvimos um grito. Não era um grito de medo, era um cântico. 'Filhos da Grécia, ide! Libertai a pátria, libertai os vossos filhos, as vossas mulheres, os templos dos deuses dos vossos pais!' Um eco terrível que fez o ferro vibrar nas nossas mãos."
O mensageiro descreveu o choque das proas. Os navios gregos, com os seus bicos de bronze, investiam como touros enfurecidos contra os flancos dos pesados barcos persas. No espaço exíguo do estreito, a ordem transformou-se em caos. Os navios da Fenícia e da Cilícia, ao tentarem manobrar, colidiam uns com os outros, quebrando os próprios remos, imobilizando-se para o abate.
A prosa torna-se aqui um quadro de horror. O mar, descreveu ele, já não era azul; era uma massa densa de escudos, corpos e destroços. Os persas, muitos dos quais nunca tinham aprendido a nadar, debatiam-se nas águas pesadas com os seus trajes bordados, enquanto os gregos, das margens e dos navios, os caçavam como quem apanha atuns numa rede, golpeando-os com pedaços de remos e fragmentos de naufrágios.
— "O massacre não teve fim até que a noite estendeu o seu manto," — disse o homem, soluçando. — "Vi generais cujos nomes faziam tremer nações serem atirados contra as rochas de Salamina. Artemísia, a rainha de Halicarnasso, fugiu por entre o sangue; outros, como Ariabignes, irmão do Rei, foram engolidos pelo abismo sem que uma oração lhes fosse concedida."
Atossa ouvia, imóvel como uma estátua de basalto. Cada nome de general caído que o mensageiro proferia era um golpe no peito da monarquia. Ela via, através das palavras dele, a imagem de Xerxes no seu trono elevado, rasgando as suas vestes reais ao ver a aniquilação da sua guarda de elite. A Hybris do filho, que ousara chicotear o Helesponto e acorrentar o mar, recebia agora a resposta do mar em forma de cadáveres inchados pela água salgada.
O relato expande-se na descrição da ilha de Psitália. O mensageiro narra como a elite da infantaria persa, a flor da nobreza de Susa, foi deixada isolada naquela pequena porção de terra, esperando massacrar os gregos que ali naufragassem. Em vez disso, viram os hoplitas atenienses desembarcar com o brilho do ódio nos olhos. Foi um extermínio silencioso e metódico. Não houve clemência. O sangue dos nobres persas encharcou a areia até que a terra não conseguisse beber mais.
— "Tudo se perdeu, Senhora. O ouro de Sardes, a força de Babilónia, a bravura da Média. Tudo jaz no fundo de um mar que nos odeia."
O Coro de anciãos, que até então permanecera em silêncio, soltou um lamento que pareceu abanar as fundações do palácio. Era um som animal, uma perda de dignidade que simbolizava a queda do próprio império. A ordem do mundo tinha sido invertida: o Oriente, o berço da luz, fora derrotado pelo Ocidente, a terra das sombras e da liberdade indómita.
Atossa, finalmente, falou. A sua voz não era de rainha, mas de uma mulher que olha para um deserto.
— "O sonho... o sonho foi apenas um pálido reflexo desta realidade de ferro. O meu filho vive?"
— "Ele vive, Rainha," — respondeu o mensageiro, baixando a cabeça — "mas a sua vida é agora o seu maior castigo. Ele caminha pelas estradas da Trácia, um rei sem exército, um deus sem altar, fugindo da sombra de um desastre que nunca o abandonará."
A Rainha ordena que se preparem os sacrifícios. Não para a vitória, mas para os mortos. Ela percebe que a Pérsia nunca mais será a mesma. O orgulho fora afogado. Enquanto Susa começa a ouvir os primeiros gritos das mulheres que descobrem que os seus maridos não regressarão, Atossa decide que só há uma força capaz de explicar tal queda: a voz do seu falecido marido, Dário, que deve ser arrancada do túmulo.
Capítulo III: O Coro das Sombras e das Sedas Rasgadas
Susa não acordou com o toque das trombetas, mas com um som que nenhum muro de mármore poderia abafar: o grito uníssono das mulheres que, nas praças e nos pátios interiores, rasgavam os seus véus de linho fino. A notícia de Salamina espalhara-se como um incêndio alimentado por um vento seco. Não era apenas uma derrota militar; era o fim de uma era de invencibilidade. O ouro das colunas, que outrora refletia a luz do triunfo, parecia agora baço, como se a glória do império tivesse sido lavada pela água salgada da Grécia.
Atossa, isolada nos seus aposentos enquanto os anciãos se lamentavam no pátio, observava a cidade da sua varanda. Susa, a "Cidade dos Lírios", estava a transformar-se na cidade das cinzas. Viu as mulheres da nobreza, habituadas ao conforto dos óleos perfumados e dos escravos que lhes abanavam leques de penas de pavão, saírem à rua com os cabelos desgrenhados, cobrindo as cabeças com poeira. A dor não escolhia castas; a flecha que matara o general em Salamina atravessava agora o coração da esposa que o esperava com o banquete pronto.
— "Onde está a flor da Pérsia?" — perguntava uma voz vinda da multidão, um clamor que subia até ao palácio. — "Onde estão os arqueiros cujas setas escureciam o sol? Onde estão os cavaleiros que faziam a terra tremer?"
O Coro dos Fiéis, aqueles anciãos que deveriam ser a rocha do Estado, cedia agora ao desespero. Eles já não falavam de leis ou de impostos; falavam de fantasmas. O líder do conselho, com a túnica manchada pelo luto, ergueu os braços para o céu, invocando a memória do que fora perdido.
— "Infelizes de nós!" — bradou ele, a voz ecoando nas abóbadas de cerâmica. — "A Ásia foi esvaziada. O jovem rei, no seu ímpeto de juventude, levou os nossos filhos para um matadouro de madeira. Ele pensou que o Helesponto era um escravo que se podia chicotear, mas o mar não se deixa prender. Agora, as nossas casas estão desertas e os leitos das jovens noivas estão frios de solidão."
A narrativa mergulha na psicologia coletiva de um povo que acreditava ser imortal. Descreve a "Agonia dos Nomes": uma sequência de breves cenas onde famílias de diferentes províncias recebem a confirmação da morte dos seus patriarcas. Um jovem oficial da Báctria, um comandante da Lídia, um príncipe da linhagem de Ciro — todos reduzidos a uma menção curta nas listas do mensageiro.
Atossa desceu novamente ao encontro do Coro. A sua presença impunha um silêncio momentâneo, mas era um silêncio grávido de acusações mudas. Ela sentia nos olhos dos anciãos a pergunta que ninguém ousava fazer em voz alta: Como permitiste que o teu filho destruísse o legado de Dário?
— "Basta de lamentos que não trazem os mortos de volta," — disse Atossa, embora a sua própria alma estivesse a sangrar. — "A desgraça caiu sobre nós como um raio num céu limpo. Os Deuses, ou talvez o destino que os gregos chamam de Ananke, decidiram que a nossa balança estava demasiado pesada de orgulho."
Ela ordenou que fossem trazidas oferendas: leite puro de uma vaca branca, mel das colinas da Pérsia, água de uma fonte sagrada e vinho de uvas não cultivadas por mãos de escravos. O seu objetivo era agora o sobrenatural. Se o mundo dos vivos estava em ruínas, ela procuraria conselho no mundo dos mortos.
O discurso explora o contraste sensorial entre a riqueza estéril de Susa e a realidade da morte. As mesas estavam postas com iguarias de todo o império, mas ninguém tinha apetite. Os músicos, cujas harpas deveriam celebrar a vitória, partiram as cordas dos instrumentos. A cidade tornara-se um imenso coro fúnebre, onde o ritmo do luto — o bater das mãos nos peitos e o arrastar dos pés na areia — substituía a música das festas.
A rainha percebeu que a estrutura do império era mais frágil do que supunha. A obediência ao Grande Rei baseava-se no medo e no sucesso; com o sucesso transformado em desastre, o que restaria? As nações subjugadas — os egípcios, os babilónios, os fenícios — poderiam ver naquela derrota a oportunidade para sacudir o jugo persa. Salamina não fora apenas uma batalha naval; fora o desmoronamento de uma mística.
— "Precisamos de Dário," — sussurrou Atossa para o Coro. — "Xerxes herdou o trono, mas não a sabedoria. Ele herdou a coroa, mas não o peso da terra. Só aquele que construiu este império pode dizer-nos como evitar que ele se desfaça em pó."
A procissão dirigiu-se para o túmulo real, sob a luz de um luar pálido que parecia pedir desculpa por iluminar tamanha tristeza. O ar estava carregado com o cheiro do incenso e o som rítmico dos lamentos das viúvas, que seguiam a rainha como sombras de um exército que já não existia. A transição é marcada pelo início do ritual de necromancia, onde a prosa se torna mais sombria e mística, preparando a entrada do espírito do Rei Morto.
Capítulo IV: A Invocação das Sombras e o Trémulo da Terra
A noite sobre o túmulo de Dário não era uma noite comum. O ar parecia ter coagulado, tornando-se uma substância espessa que dificultava a respiração dos anciãos. O local, uma construção monumental esculpida na rocha viva, erguia-se como uma sentinela de silêncio eterno, alheia ao clamor que devastava as ruas de Susa. Ali, o tempo não era medido por ampulhetas, mas pela memória de uma glória que a terra insistia em devorar.
Atossa avançou para o centro do recinto sagrado. Já não vestia a púrpura real que ostentara no trono; trazia um manto de lã negra, desprovido de adornos, e os seus pés descalços sentiam o frio cortante do mármore. Nas mãos, levava os vasos rituais — a libação que deveria abrir os ouvidos dos mortos.
— "Fiéis de Dário," — começou a rainha, a sua voz projetando-se contra a pedra como um chicote — "entonai o cântico que faz o chão tremer. Chamassem a sombra do Rei, aquele que foi o arco e o escudo da Pérsia. O meu filho falhou, o mundo desmorona-se, e eu resta-me apenas a voz do que já foi cinza."
O Coro dos anciãos iniciou então o ritual de necromancia. Não era um canto melodioso, mas uma série de sons viscerais, guturais, que pareciam vir das entranhas da terra. Batiam com os cajados no chão ritmicamente, um som surdo que imitava o bater de um coração gigante. As invocações ecoavam: "Ó Deuses infernais, Hermes e Aidoneu, libertai a sombra! Deixai que a luz do Sol toque, por um instante, a fronte daquele que nunca conheceu a derrota!"
Atossa ajoelhou-se e começou a derramar as oferendas sobre a fenda da rocha. Primeiro, o leite branco, puro e espesso, símbolo da vida que nutre; depois, o mel dourado das abelhas que florescem sobre os túmulos, para adoçar a amargura da morte; por fim, a água clara e o vinho escuro, a mistura que embriaga os sentidos das sombras.
— "Dário!" — gritou ela, e o seu grito rasgou o fumo do incenso. — "Acorda do teu sono de pedra! Olha para o que Xerxes fez ao teu império! O Helesponto foi insultado, os nossos filhos foram entregues aos peixes de Salamina, e Susa é agora um ninho de viúvas!"
Subitamente, o vento parou. O silêncio que se seguiu foi mais aterrorizador do que qualquer lamento. As tochas, que antes oscilavam, ficaram imóveis, emitindo uma luz azulada e fria. O chão sob os pés do Coro começou a vibrar, não com a força de um sismo, mas com uma pulsação rítmica. Da fenda da rocha, uma névoa cinzenta começou a emergir, densa e fria como a geada do norte.
Aos poucos, a névoa tomou forma. No topo do túmulo, surgiu uma figura que irradiava uma autoridade que a morte não conseguira apagar. Era Dário. Trajava a túnica real, a tiara reta na cabeça e as sandálias de açafrão que apenas o Grande Rei poderia usar. Mas os seus olhos... os seus olhos eram poços de uma sabedoria terrível e antiga.
— "Porque me chamais com estes gritos de dor?" — A voz de Dário não vinha da sua garganta, mas parecia ressoar dentro da mente de todos os presentes, como o eco de um trovão distante. — "Porque é que o chão da minha pátria está encharcado de lágrimas em vez de vinho? Que desgraça nova atingiu a linhagem de Ciro para que o meu repouso fosse interrompido?"
O Coro, aterrorizado, prostrou-se no chão. Aqueles homens, que tinham governado províncias e comandado exércitos, não conseguiam olhar para o espectro. O medo de um deus era suportável, mas o medo de um rei morto que eles tinham amado era absoluto.
Atossa foi a única que permaneceu de pé, embora o seu corpo tremesse como uma folha de outeiro.
— "Ó meu senhor e esposo," — murmurou ela, as lágrimas lavando o pó do seu rosto — "o mal que nos atingiu não tem nome. Xerxes, o teu filho, o nosso filho... ele tentou ser maior que o Destino. Ele levou a juventude da Ásia para o mar dos helenos. A frota desapareceu. O exército foi reduzido a nada. A glória que construíste com sangue e sabedoria foi deitada aos cães de Atenas."
A sombra de Dário permaneceu imóvel por um longo tempo. O fumo do incenso parecia curvar-se perante a sua presença.
— "Atenas..." — sibilou o rei morto. — "Eu avisei-vos. Eu conhecia o veneno daquela terra. Mas Xerxes é jovem e o seu sangue ferve com a lisonja dos tolos. Ele pensou que poderia acorrentar o mar como se fosse um escravo fenício? Ele pensou que poderia pôr jugo no Helesponto?"
Dário não sentia fúria; sentia uma tristeza infinita, a tristeza de quem vê uma árvore secular ser derrubada por um machado descuidado. Ele explicou que os deuses não perdoam a Hybris — o orgulho excessivo que faz o homem esquecer a sua natureza mortal. Ao tentar transformar o mar em terra firme (com a sua ponte de barcos), Xerxes cometera um sacrilégio contra Posídon.
— "O castigo dos Deuses é lento, mas o seu peso é insuportável," — continuou a sombra. — "A Grécia não é uma terra para ser conquistada; é uma armadilha para impérios que cresceram demais. As suas montanhas lutam por eles, a sua fome luta por eles. Mesmo que Xerxes tivesse um milhão de homens, a terra helénica recusar-se-ia a alimentá-los."
A narrativa foca-se na solenidade deste diálogo sobrenatural. Dário revela que o desastre não terminará em Salamina. Ele prevê Plateias, prevê o massacre final na terra firme, onde o que resta do exército persa será esmagado pela falange de bronze.
— "Não voltem a atacar a Grécia!" — advertiu o espectro, a sua voz tornando-se mais ténue à medida que a aurora começava a dar os primeiros sinais no horizonte. — "Mesmo que o vosso exército seja maior que o número de estrelas, a derrota será a vossa única colheita. Ensinem o jovem Rei a ser homem antes de querer ser deus."
A névoa começou a dissipar-se. A figura de Dário afundou-se novamente na rocha, deixando para trás um cheiro de terra antiga e uma sensação de vazio absoluto. Atossa ficou sozinha perante o túmulo, com o Coro ainda prostrado a seus pés. Ela viera em busca de conforto, mas encontrara apenas uma sentença de morte para a ambição persa.
A Rainha olhou para o céu que clareava. Ela sabia que o tempo das profecias terminara. Agora, restava apenas esperar pelo regresso do filho — não como um conquistador, mas como um espectro vivo que teria de enfrentar a desolação que ele próprio criara.
Capítulo V: A Sentença do Rei Morto e o Peso do Ferro
A sombra de Dário não se dissipara totalmente; a sua presença pairava no ar como o ozono antes de uma tempestade de areia. Os anciãos do Coro, outrora os homens mais poderosos da Ásia, permaneciam prostrados, as suas testas coladas ao mármore frio, temendo que um olhar direto para o espectro lhes roubasse a visão ou a sanidade. O silêncio que se seguiu à revelação da derrota em Salamina era tão denso que se podia ouvir o estalar das tochas a extinguirem-se.
— "Erguei-vos!" — a voz de Dário ressoou, não como um grito, mas como o bater de um martelo numa bigorna de bronze. — "O luto não é uma armadura e o medo não é um conselho. Olhai para mim, vós que fostes os meus companheiros de armas, e compreendei por que razão o destino nos virou as costas."
Lentamente, o líder do Coro levantou-se, as suas mãos trémulas agarrando o cajado de ébano.
— "Senhor da Luz... como pode um pai ver o filho cair sem chorar?" — perguntou o ancião, com a voz embargada. — "Xerxes é jovem, sim, mas o seu sangue é o teu. A sua ambição era a glória da Pérsia."
Dário soltou um som que poderia ser um suspiro ou o vento a passar pelas fendas da montanha.
— "A ambição sem sabedoria é um veneno que mata primeiro quem o bebe," — sentenciou o Rei Morto. — "Eu conquistei nações, atravessei desertos e subjuguei povos, mas nunca tentei governar os Deuses. Xerxes, no seu delírio de omnipotência, cometeu o crime da Hybris. Ele não se contentou em ser o Rei dos Reis na terra; ele quis ser o senhor dos elementos. Ao construir aquela ponte sobre o Helesponto, ele não uniu dois continentes; ele insultou o fluxo sagrado da água, transformando um deus-rio num escravo acorrentado por barcos e pregos."
Atossa, que permanecia a poucos passos da aparição, sentiu o peso daquelas palavras. Ela via agora o seu filho não como um herói trágico, mas como um homem que perdera a medida das coisas.
— "O castigo que nos atingiu," — continuou Dário, a sua figura tornando-se mais nítida à medida que a escuridão da noite atingia o seu ponto mais profundo — "não terminará nas águas de Salamina. O que vedes agora é apenas o prelúdio de um coro fúnebre que durará gerações. Ouvistes falar do mensageiro? Ouvistes sobre os mortos naquelas praias gregas? Pois sabei que a terra da Grécia é, em si mesma, uma aliada dos seus filhos. Ela mata pela fome o exército que é demasiado grande para alimentar; ela mata pela sede quem não respeita as suas fontes."
Dário revelou então o que o futuro imediato reservava. Ele descreveu a planície de Plateias, onde o resto da infantaria persa, liderada por Mardónio, seria massacrada pela falange de bronze. Ele via, através do véu da morte, os montes de cadáveres que serviriam de aviso aos navegantes durante séculos.
— "Não haverá túmulos para todos," — profetizou a sombra. — "O solo helénico recusar-se-á a cobrir os que vieram para o violar. Deixai que as pilhas de ossos sejam o monumento à loucura de querer subjugar o que nasceu para ser livre. Ensinai aos vossos jovens que o homem é uma medida curta e que, quando a árvore do orgulho floresce, o fruto que produz é o desastre, e a colheita é feita de lágrimas."
O Coro lamentava-se, um som rítmico de sofrimento que parecia acompanhar a batida do coração da Rainha. Atossa aproximou-se da sombra do marido, as mãos estendidas, mas estas atravessavam a névoa fria sem encontrar calor.
— "Dário, meu senhor... que faremos de Xerxes? Quando ele regressar, coberto de vergonha e com as vestes rasgadas, como poderei eu, sua mãe, olhar para o monstro que ele se tornou ou para a criança que ele ainda é?"
— "Recebe-o com piedade, mas não com lisonja," — respondeu o espectro. — "Cobre a sua nudez com mantos novos, pois a dignidade de um rei é o último baluarte contra a anarquia. Mas não lhe escondas a verdade. Deixa-o ouvir o choro das viúvas. Deixa-o sentir o silêncio das casas vazias. Só através da dor absoluta é que um rei pode recuperar a visão que o orgulho lhe roubou."
A sentença de Dário era clara: a Pérsia devia recolher-se às suas fronteiras naturais. O império chegara ao seu limite de expansão. A tentativa de forçar a vontade sobre o Ocidente resultara numa rutura no tecido da realidade. Para o Coro, estas palavras eram como sentenças de morte para as suas próprias ambições de riqueza e domínio. Eles compreendiam agora que o ouro de Susa não tinha valor se não houvesse braços para segurar a lança.
A atmosfera sobrenatural do capítulo atinge o seu auge quando Dário começa a desvanecer-se com os primeiros raios da aurora. Antes de desaparecer, ele deixa um último conselho, quase um sussurro que parecia vir debaixo da terra:
— "Vivei com alegria o pouco tempo que vos resta," — disse o Rei Morto, numa nota de estranha humanidade. — "Pois no mundo onde eu habito, a riqueza não tem serventia e o poder é apenas uma sombra de fumo. Gozai a luz do sol, pois ela é o único presente que os Deuses dão sem pedir nada em troca, exceto a vossa mortalidade."
A terra tremeu uma última vez. A fenda no túmulo fechou-se com um estalido seco, como se o próprio destino tivesse batido uma porta. Atossa ficou sozinha, rodeada pelos anciãos exaustos. O ar, antes pesado de fumo e incenso, estava agora limpo e frio. No horizonte, o céu começava a tingir-se de um rosa pálido — a cor do sangue diluído em água.
A Rainha dirigiu-se para o palácio. Ela já não caminhava com a hesitação de quem teme o futuro; caminhava com a resignação de quem já o conhece. O Coro seguia-a em silêncio, compreendendo que a era dos grandes heróis terminara. Agora, começava a era dos homens que têm de viver com as consequências dos seus erros.
Capítulo VI: O Regresso do Espectro e a Túnica de Cinzas
Susa não se preparou para um triunfo. Não houve pétalas de rosa espalhadas pelo Caminho Real, nem o som metálico das trombetas de bronze que habitualmente anunciavam a chegada do "Rei dos Reis, Senhor de Todas as Nações". Em vez disso, a capital da Pérsia estava mergulhada num silêncio expectante, um silêncio que se assemelhava ao de um animal ferido que aguarda o golpe final. As sentinelas, no topo das muralhas de tijolo esmaltado, vigiavam o horizonte com olhos cansados, até que, por fim, uma nuvem de poeira solitária começou a desenhar-se no caminho que vinha do Ocidente.
Não era o exército dos Imortais que regressava. Não era a cavalgada majestosa de milhares de carros de guerra. Era apenas um pequeno grupo de homens, exaustos e cobertos pela poeira das estradas da Trácia e da Ásia Menor. No centro desse grupo, caminhava uma figura que parecia ter envelhecido décadas num único inverno.
Xerxes entrara em Susa.
A Rainha Atossa esperava-o no pátio exterior, rodeada pelo Coro de anciãos que, após as palavras de Dário, pareciam agora mais sombras do que homens. Quando a figura do rei cruzou o portão monumental, um suspiro coletivo de horror percorreu a multidão. O homem que partira como um deus encarnado, cujas vestes eram tecidas com fios de ouro e cujos olhos brilhavam com a certeza da conquista, estava agora irreconhecível.
Xerxes trazia a túnica real rasgada — não por acidente, mas pelo gesto ritual de desespero. O seu rosto, outrora liso e altivo, estava marcado pelo sol, pelo sal e pela vergonha. Ele não montava um corcel de Nisa; caminhava a pé, as suas sandálias de ouro perdidas algures nas lamas do Estrimão ou nas águas de Salamina. Nas mãos, em vez do cetro de poder, segurava apenas uma aljava vazia — o símbolo supremo de um exército que gastara todas as suas setas contra o vento.
— "Ai de mim! Infeliz de mim!" — gritou Xerxes, a sua voz quebrando o silêncio do pátio como o estilhaçar de um vaso de argila. — "Que destino foi este que me esmagou? Como pode a terra da Pérsia ainda sustentar o meu peso, depois de eu ter entregue os seus filhos ao abismo?"
O Coro, ao ver o seu senhor em tal estado, soltou o lamento que estivera contido desde a invocação de Dário. Não era um lamento de saudação, mas um canto fúnebre. Batiam nos peitos e arrancavam fios das barbas brancas, enquanto Xerxes se atirava aos pés da mãe.
— "Mãe, olha para o que resta do teu filho!" — soluçava o rei. — "Olha para estes farrapos que outrora foram o orgulho da Ásia. Eu sou o assassino da minha própria estirpe. Eu sou o pastor que levou o rebanho para a toca do lobo e regressou sozinho, com as mãos vazias e o coração seco."
Atossa, contendo a torrente de emoções que a ameaçava, estendeu as mãos para o filho. Ela lembrava-se da advertência de Dário: piedade, mas não lisonja.
— "Levanta-te, Xerxes," — disse ela, com uma firmeza que escondia a dor. — "O que aconteceu foi a vontade dos Deuses, ou talvez a tua própria cegueira. Mas o Rei não pode ajoelhar-se perante o seu povo quando o império está a sangrar. Vem, entra no palácio, onde te esperam vestes novas e o silêncio que a tua alma exige."
Contudo, Xerxes recusava-se a mover-se. Ele estava possuído por uma espécie de delírio trágico. Começou a enumerar, um a um, os generais que tinham caído. Cada nome era como uma chicotada no ar de Susa.
— "Onde está Artâmbares? Onde está o valente Tenagon? Onde jazem os olhos de Mil Nações?" — perguntava ele ao Coro. — "Eu vi-os! Vi-os cair dos navios fenícios, batendo contra as rochas de Salamina como peixes atirados à praia. O mar estava vermelho, mãe... tão vermelho que o céu parecia ter medo de se refletir nele."
O diálogo entre o rei e o Coro transformou-se numa litania de desespero. Xerxes descrevia a fuga precipitada, a fome que dizimara os sobreviventes nas planícies da Tessália, o gelo que quebrara sob os pés dos soldados quando tentavam atravessar o rio Estrimão. Era um relato de desintegração total. O exército que deveria ter escravizado o mundo fora derrotado pelos elementos: o fogo de Atenas, a água de Salamina e o gelo da Trácia.
A narrativa foca-se aqui no contraste sensorial: o brilho frio do ouro das paredes do palácio de Susa contra a sujidade e a miséria física de Xerxes. Os anciãos, que antes temiam o rei, sentiam agora uma mistura de desprezo e compaixão. O poder absoluto revelara-se uma ilusão absoluta.
— "Vede a minha aljava!" — gritava Xerxes, agitando o objeto de couro. — "É tudo o que me resta da guerra! As setas acabaram-se, os homens acabaram-se, e eu... eu sou apenas uma sombra que caminha sob o sol."
O monólogo explora a perda de autoridade divina. Na Pérsia, o rei era o elo entre o céu e a terra; ao falhar de forma tão catastrófica, Xerxes quebrara esse elo. Susa, a cidade que vivia do tributo das nações, percebia agora que o fluxo de ouro poderia secar. O medo começava a mudar de lado: já não era o medo do castigo do rei, mas o medo de que o rei já não tivesse poder para os proteger.
Atossa, vendo que o filho estava prestes a perder os últimos restos de sanidade perante o povo, ordenou que os guardas o levassem para os aposentos privados.
— "Vem, meu filho," — murmurou ela, o tom de voz mudando finalmente para uma doçura amarga. — "Deixa que a noite esconda a tua vergonha. Amanhã, teremos de enfrentar o que resta deste império. Hoje, chora apenas como o homem que descobriu, tarde demais, que o mar não tem dono."
Xerxes é conduzido para dentro do palácio, a sua túnica rasgada arrastando-se pelo chão de mármore, enquanto o Coro, cá fora, inicia o último e mais sombrio lamento. A luz do dia desaparece, e Susa mergulha numa escuridão que parece não ter fim, simbolizando o crepúsculo da dinastia aqueménida.
Capítulo VII: O Ocaso dos Lírios e o Canto das Viúvas
Susa, a cidade que outrora se erguia como o sol no zénite da Ásia, estava agora envolta num sudário de poeira e silêncio. O regresso de Xerxes não trouxera o fim da tragédia; trouxera apenas a confirmação física de que o mundo, tal como os Persas o conheciam, tinha deixado de existir. Já não havia lugar para a negação ou para as profecias ambíguas. A realidade era um osso exposto, frio e branco, sob o céu impiedoso do planalto iraniano.
Nas praças interiores do palácio e nas ruelas labirínticas da cidade baixa, o som das harpas e das flautas fora substituído por um ritmo mais antigo e cruel: o bater das mãos contra os peitos e o rasgar sistemático de sedas preciosas. O lamento das mulheres de Susa não era um ruído passageiro; era uma maré montante que inundava os pátios, subia as escadarias de mármore e infiltrava-se nos aposentos mais secretos da rainha.
— "Ai de nós! Ai de nós!" — o Coro das viúvas entoava, as vozes entrelaçando-se num lamento polifónico que parecia vir da própria terra. — "As nossas camas são agora desertos de linho. Onde estão os jovens de barba negra que partiram com risos nos lábios? As águas de Salamina beberam o nosso futuro e as rochas da Grécia devoraram a nossa descendência."
Atossa, no alto da sua torre, observava a procissão das enlutadas. Ela via as esposas dos generais, as mães dos arqueiros e as noivas dos cavaleiros unidas numa única irmandade de dor. O ouro que adornava os seus pescoços e pulsos parecia agora um peso insuportável, uma ironia metálica perante a ausência da carne e do sangue. A rainha compreendia que, embora o seu filho Xerxes tivesse sobrevivido, a Pérsia tinha morrido naquelas praias distantes. O que restava era um corpo colossal, mas sem alma, uma estrutura de poder que o primeiro sopro de revolta poderia derrubar.
Lá em baixo, no pátio das audiências, Xerxes reapareceu. Já não trazia os farrapos da estrada, mas as vestes novas que Atossa lhe enviara. No entanto, o linho puríssimo e a púrpura de Tiro não conseguiam esconder a curvatura dos seus ombros. Ele movia-se como um autómato, um rei que perdera o seu povo antes de perder o seu trono. O Coro de anciãos, os "Fiéis" que restavam, rodeou-o uma última vez, não para pedir ordens, mas para partilhar a agonia do fim.
— "Chora, Rei dos Reis," — disse o líder do Coro, a voz agora despojada de qualquer temor reverencial. — "Chora pelos navios fenícios que são agora ninhos de peixes. Chora pela flor da Média que apodrece sem túmulo. A Ásia ajoelha-se contigo, não em submissão, mas em queda."
Xerxes ergueu as mãos para o céu, mas o céu de Susa parecia agora demasiado vasto e indiferente.
— "Eu sou o flagelo da minha própria casa!" — exclamou ele, o grito ecoando pelas paredes de tijolo vidrado onde os leões de Dário pareciam desviar o olhar com vergonha. — "Eu quis dar ao meu povo o mundo inteiro e acabei por lhes dar apenas a morte. O mar... o mar grego é um deus que não se deixa comprar com ouro."
A narrativa atinge aqui o seu clímax emocional. O diálogo entre o Rei e o Coro transforma-se numa ladainha de nomes e lugares. Mencionam a ilha de Psitália, onde a elite da guarda persa foi massacrada; mencionam o Helesponto, cujas águas riram-se das correntes de Xerxes; mencionam Atenas, a cidade de pedra que se revelou mais dura que o diamante. Cada menção é seguida por um grito de "Olo! Olo!", o brado ritual que desta vez não era de salvação, mas de expiração.
Descreve ainda a desintegração simbólica do império. O mensageiro que trouxera a notícia, sentado agora a um canto do pátio, observava como o medo da autoridade divina se evaporava. As nações subjugadas, cujos embaixadores ainda esperavam audiência, trocavam olhares cúmplices. O mito da invencibilidade aqueménida fora quebrado por um punhado de cidadãos livres. A Pérsia, que se definia pela sua capacidade de expansão, estava agora forçada à introspeção — uma introspeção feita de luto e de arrependimento.
— "O que nos resta, anciãos?" — perguntou Xerxes, a sua voz reduzida a um sussurro.
— "Resta-nos a memória," — respondeu o mais velho dos conselheiros. — "Resta-nos aprender a viver nas sombras da montanha que nós próprios tentámos escalar. A Grécia ficará com a sua liberdade e o seu mar. Nós ficaremos com o nosso deserto e com as vozes dos nossos mortos que o vento nunca deixará de trazer."
Atossa desceu finalmente ao pátio. Ela aproximou-se de Xerxes e, num gesto que unia a rainha e a mãe, colocou a mão sobre o ombro do filho. O toque não era de condenação, mas de uma aceitação trágica. Ela olhou para o horizonte, onde o sol se punha, tingindo as muralhas de Susa com uma cor que lembrava o vinho derramado ou o sangue seco.
— "O dia terminou," — disse Atossa. — "O tempo dos heróis e dos deuses que caminham entre nós passou. Agora, resta apenas o tempo dos homens que têm de reconstruir o que o orgulho destruiu. Entra, meu filho. O lamento das viúvas será a tua música de agora em diante. Aprende a ouvi-lo, pois ele é a única verdade que nos resta."
A procissão final formou-se. Xerxes, Atossa e o Coro entraram lentamente nas profundezas do palácio, enquanto as portas monumentais se fechavam com um estrondo que pareceu selar uma era. Cá fora, nas ruas de Susa, as fogueiras de luto começavam a ser acendidas. O fumo subia direito ao céu, negro e pesado, como um sinal enviado aos Deuses de que a Pérsia aceitava a sua derrota.
A obra termina com a imagem de uma Susa silenciosa sob o luar, uma cidade de lírios que agora cheirava a fumo e a sal. O "Olo! Olo!" dos atenienses, que ecoava no outro lado do mar, era aqui respondido pelo silêncio das pedras. O império continuaria, as paredes permaneceriam, mas a alma de conquista fora enterrada em Salamina. A tragédia estava completa: a luz do Oriente tinha aprendido a temer a sombra do Ocidente.














