Pedi para o tempo esperar-me e acho que o irritei com isso, pois ele começou a correr de súbito. Gritei para que ele parasse só um pouco, avisando-o que estava cansado, mas ele já estava longe demais para ouvir qualquer coisa que emitisse um som mais baixo que o tiquetaquear feito por seus pés. Seus incrivelmente rápidos pés. Tentei alcançá-lo, ignorando aqueles que diziam para mim que eu estava atrasado, enquanto um novo ruído de tique-taque surgia aos poucos, um tiquetaquear que não era do tempo normal, mas sim do meu próprio.
Antes, eu corria atrás do tempo dito como "natural" e isso era realmente muito exaustivo. Agora, ao contrário disso, comecei a seguir o ritmo do meu próprio tempo, e isso foi ficando cada vez melhor. De repente, não ouvia mais o som vindo do tempo a minha frente, mas apenas o som vindo do meu lado, que estava ficando mais alto a cada dia. Por algum motivo, sinto que isso irritou ainda mais o tempo comum.
Em algum momento desse processo, os dois sons assumiram características ensurdecedoras e eu não podia viver mais com isso. Pouco a pouco, eu os obriguei a conciliar-se. Não foi a coisa mais fácil, mas não se tratava de ser agradável no processo e sim no final. Os dois tempos se juntaram, brigaram, divergiram-se e se harmonizaram ao término de tudo. Logo após essa trégua na disputa para saber quem gerenciaria os meus ponteiros, senti o mundo leve. Não havia mais “tempo comum” e nem “meu tempo”. Havia apenas o Tempo que todos deveríamos ter, e nada mais.