Vivemos dias de cansaço generalizado, um cansaço que não parece ter fim nem começo, é simplesmente um cansaço do cansaço. A vida contemporânea é em si cansaço, a atualidade exaure dos seres toda energia, levando a uma fadiga interminável.
Esse cansaço segundo Byung chul-Han, que antes era causado pelo excesso de negatividade, como um vírus que tenta atacar o corpo e matá-lo, agora, é pelo excesso de positividade, que as doenças, principalmente as psicológicas são causadas. Não mais um corpo estranho tenta tomar conta, mas o próprio individuo que se expõe, e se fere, causando seu mal. Algo como uma doença autoimune. O organismo mata a si mesmo, pensando estar o curando.
-Doenças neuronais como a depressao, transtorno de deficit de atenção com sindrome de hiperatividade (Tdah), Transtorno de personalidade limitrofe (TPL) ou a Sindrome de Burnout (SB) determinam a paisagem patológica do começo do seculo XXI. Não são infecções, mas enfartos, provocados não pela negatividade de algo, imunologicamente diverso, mas pelo excesso de positividade. Han
Han dá exemplo da gordura, que não é rejeitada pelo corpo, diferentemente do vírus que é combatido, entretanto os dois causam a morte, seja pela negatividade do vírus, ou pela positividade da gordura. Han, cunhou o termo, sociedade do cansaço, para exemplificar a sociedade atual, que vive dias de superexposição a informações e de si mesmos, acarretando uma auto-cobrança excessiva por performance em todos os âmbitos, seja nos relacionamentos, na carreira profissional, nos estudos ou qualquer outra área, levando a esse enfarto causado pela superatividade, enquando a sociedade diz “yes you can”,a alteridade o limita a não poder, esse “não poder-poder”, leva aos problemas psíquicos como depressão, ansiedade e síndrome de burnout, sendo resultados de uma positividade exagerada do eu, uma overdose de si mesmo e a cobrança por performance. Fazendo com que cada ser humano se sinta fadigado mentalmente
Por outro lado, Camus tem outra abordagem para essa sociedade de cansaço, ele é causado pela falta de sentido concreto,
“os gestos de levantar, bonde, quatro horas de escritório ou de fábrica, refeição, bonde, quatro horas de trabalho, refeição, sono e segunda-feira, terça, quarta e quinta, sexta e sábado no mesmo ritmo, (...) um dia apenas o porquê desponta, e tudo começa com esse cansaço tingido de espanto.
Han acredita em um cansaço por superexposição, para Camus, os problemas são derivados de um mal-estar coletivo, de uma rotina repetitiva e que se apresenta por muitas vezes sem sentido, é a falta de um porquê, uma razão para continuar nessa rotina cansativa de repetição, aparentemente sem significado, que faz com que o cansaço surja. Como o mito de Sísifo, que fora condenado a rolar uma grande pedra de mármore com suas mãos até o cume de uma montanha, sendo que toda vez que ele estava quase alcançando o topo, a pedra caia invariavelmente dela. Este processo seria sempre repetido por toda eternidade, os seres humanos foram condenados a uma existência sem significado, isso fica mais evidente na vida contemporânea, nesse ciclo de acordar, trabalhar, dormir, que se repete diariamente até a morte. Todo o esforço é cansaço, pois foi retirado o sentido, tudo é mais do mesmo. Seja um cansaço pela superexposição ou pela mesmice de uma rotina, todo ser humano contemporâneo se encontra nesse estado de cansaço permanente.
Tanto Han quanto Camus, concordam que a vida contemporânea trouxe o cansaço estafante, misturado a cobrança e tedio, seja nessa positividade excessiva ou na falta de sentido, tudo é tedio e cobrança por desempenho.
Han chama de sociedade do desempenho a sociedade atual,
“a sociedade do século XXI não é mais a sociedade disciplinar, mas uma sociedade de desempenho. Também seus habitantes não se chamam mais “sujeitos de obediência”, mas sujeitos de desempenho e produção. São empresários de si mesmos”,
a sociedade de desempenho, faz com que os seres fiquem alertas e produtivos a todo o instante, eles são seus senhores e servos, algumas drogas como ansiolíticos e antidepressivos são usadas para manter esse estado de alerta e atenção constantes. É uma tentativa de fugir da falta de sentido e do cansaço, para manter corpo e mente alerta para ser mais exposto e realizar cada vez mais. A meta é se manter desperto e útil 24 horas por dia, para que não fique fora da constante enxurrada de novas informações e da autocobrança. Como ratos em laboratórios que são mantidos alertas na expectativa por mais alimento, a era atual prende pela promessa de uma nova atualização, um upgrade que irá melhorar a vida ou trazer algum sentido, num futuro menos fatigante do que o atual, o alvo é o descanso, que sempre vira em uma próxima atualização.
Será que há algum tipo de alivio para esse cansaço constante? Há uma esperança para o termino do cansaço, o paraíso do trabalhador - a aposentadoria, que talvez chegue a algum momento no futuro. Descansar é a meta final, entretanto acostuma-se com pequenas folgas, então, durante a semana pensa-se no final de semana; no final de semana, pensa-se nos dias da semana, no trabalho pensa-se nas férias prometidas, nunca há real descanso da mente.
Porém, quando finalmente chega, o reino na terra prometido, a recompensa de anos de trabalho, o descanso merecido, entretanto, ao invés do repouso, seu premio recebido é mais culpa. Nem mesmo descansar é permitido, pois o sujeito de desempenho, não permite ao sujeito contemplativo parar. Eles estão em conflito, pois toda forma de descanso é imbuída da ideia de perda de tempo, então parar não é uma opção ao homem de desempenho.
Por falta de repouso nossa civilização caminha para a barbárie. Em nenhuma outra época os ativos, isto é, os inquietos, valeram tanto. Assim, pertence às correções necessárias a serem tomadas quanto ao caráter da humanidade fortalecer em grande medida o elemento contemplativo. Nietzche
Nunca antes a sociedade prezou tanto pelos que fazem, os ativos, entretanto essa atividade, não levará nada mais que barbárie. A profecia de Nietzsche sugere uma solução ao mal-estar dos inquietos – a contemplação. Essa contemplação não em um sentido metafisico, mas da própria vida em si, assim como Epicuro, em um sentido material, ignorando a divindade ou o medo da morte, somente com uma vida contemplativa o ser humano poderá escapar da barbárie generalizada, que pondera sobre a própria “vida vivida”. Por outro lado, o contemplatio medieval, como apresentado por São João da Cruz, procura a mais intima conexão com o divino. Para ele, “Contemplação não é outra coisa que infusão secreta, pacífica e amorosa de Deus que, se lhe dão lugar, inflama a alma no espírito de amor”. Diferentemente de Nietzsche, São Joao, enxerga a contemplação como a conexão com o divino, onde nesse processo ele transfere algo de seu próprio ser, o amor. Os homens nesse processo se tornam parecidos com seu criador, tem forças para viver em um mundo inquieto, somente através do momento de solitude com Deus e o relacionamento com Ele, é que se pode livrar do pensamento de desempenho e atingir uma vida contemplativa verdadeira.
Seja na visão materialista de Nietzsche ou metafísica de São João da Cruz, todos enxergam que a saída para uma vida marcada pelo cansaço é única: parar, respirar, verificar qual o caminho está sendo trilhado e seguir, não deixando que uma corrida por uma cenoura ou o pote de ouro no fim do arco-íris sejam as metas, elas simplesmente não existem! Elas lançam sobre um pretenso futuro utópico as realizações. Nesse admirável mundo do futuro, os sonhos se realizarão e enfim terá fim o cansaço. Se não se muda, nada muda, é preciso a eliminação do pensamento de desempenho pelo pensamento contemplativo, não mera contemplação que esteja somente no campo das ideias, mas essa contemplação que transforma a vida contemporânea agitada e faz com que se encontre o descanso necessário em meio ao caos.
NIETZSCHE, Friedrich. Humano, demasiado humano. São Paulo: Companhia de Bolso, 2005;
HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015
CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Record, 2010