Tia, o que é isso aí no seu nariz?
Por Camile Lanza de Paula
Recentemente coloquei um piercing no septo (aquele de “vaquinha”, pra quem não está familiarizado) e mais ou menos na mesma época comecei a procurar emprego em escolas. Fiz diversas entrevistas, e no começo, decidi esconder o piercing para não ser descartada logo de primeira. Mas logo me cansei disso e comecei a ir com ele à mostra, afinal, por que não? Foi aí que comecei a ouvir: “Ah, mas você vai ter que tirar o piercing para vir trabalhar, por que você sabe como as crianças são né? Vão perguntar.” e “Ah, você sabe como são as crianças, elas vão olhar o seu piercing e vão querer fazer também.” Eu balanço a cabeça em concordância e digo que tudo bem, mas não está tudo bem.
Sou formada em Pedagogia e uma coisa que discutíamos na faculdade até a exaustão é que a criança não é uma tábula rasa, um recipiente vazio esperando ser preenchido pelos conhecimentos da escola, é preciso considerar a vivência da criança fora da escola, os conhecimentos que ela adquire na sua comunidade, é preciso lembrar, portanto, que a criança tem uma bagagem que não pode ser dissociada dela própria e que não pode ser ignorada na escola. Diante disso, fico me perguntando, por que então, queremos que o professor seja essa tábula rasa, por que esperamos que ele se dispa de tudo que ele é, se tornando uma folha branca, neutra? Por que a sociedade espera que o professor deixe para trás tudo o que ele é, e aquilo que ele acredita ao entrar em sala de aula?
Discutíamos muito também sobre Paulo Freire e a questão de não existir educação sem intencionalidade. As escolhas de conteúdos, de método, de como construir a relação com os alunos, isso tudo passa por um filtro, que reflete uma intencionalidade, reflete que tipo de indivíduos queremos formar, que tipo de educação e de sociedade queremos construir.
Uma educação que apaga o professor e suas vivências, que exige que ele se “isente” de opinião, que pede que ele se desfaça daquilo que acredita, como se isso fosse um acessório que pode ser tirado ou escondido, tem uma intencionalidade. Esconder o piercing, ou uma tatuagem porque as crianças vão perguntar é ter medo de questionamentos, é não estar aberto a discussão. É querer formar sujeitos alheios ao mundo ao seu redor, cheios de preconceitos.
Uma educação que reconhece o professor como indivíduo, que possui uma história e que tem uma personalidade específica, que pode ser traduzida na forma como se veste, nos acessórios que usa, na cor do seu cabelo, nas tatuagens que possui (ou não), uma educação que não procurar neutralizar uma pessoa e apagar sua individualidade, tem outra intencionalidade. Uma educação que não tem medo de questionamentos, de discussão, que reconhece que as pessoas são diferentes e está disposta a desconstruir preconceitos e conversar sobre o mundo ao seu redor, tem outra intencionalidade. Quer formar outro tipo de indivíduo, que não tem medo de questionar e discutir aquilo que acontece ao seu redor, que procura enxergar além do aparente, do óbvio.
Acredito fortemente nesse tipo de educação, aberta ao diálogo, que procura conhecer mais profundamente a realidade e construir um conhecimento livre de preconceitos, que abrace os sujeitos em suas individualidades e respeite suas diferenças, afinal, acredito que é num ambiente heterogêneo, variado, que o aprendizado se dá de maneira mais significativa e forma indivíduos mais críticos e menos preconceituosos.
E você, em que tipo de educação você acredita? Que tipo de indivíduos você quer formar?