Existe algo de muito grave no apagar e acender das luzes, algo como um susto ou como o aparecimento de um farol qualquer.
Existe uma lacuna entre a luz e os sete anos. Porquê 7 eu não sei. Alguma coisa se perdeu lá no meio do guarda roupas bagunçado do quarto improvisado. Uma fuga, talvez.
Uma fuga de uma adulta desesperada e duas crianças que pareciam ter enterrado sua percepção somente para evitar o amadurecimento precoce. Somente para evitar a tragédia de não ser mais criança. Algo se escondeu na linha tênue que separa o dia da noite: por do sol, que se colocado em relógio, nem é tão tênue assim. Ainda não se sabe de onde vem a memória viva da cerveja e do cigarro, péssimos hábitos hoje erroneamente copiados. Ao menos fosse com o propósito de reencontro. Mas, não. É tendência ao risco. Só. Sabe-se de um caminho na madrugada, um caminho escuro, mas cheio de luzes tão artificiais quanto a eficácia da fuga. Sabe-se de gritos e choros e brigas e roxos e fome e medo e dor. Sabe-se de uma base de papel no lugar do concreto. Sabe-se dos efeitos até hoje sentidos dessa base. Isso tudo tem qualquer coisa de ligação com pão puro e café, com não ter lugar pra brincar que não fosse o segundo vão da casinha dividida por 6 pessoas. Também tem qualquer coisa que ver com a morte intrometida, mas não fora de hora, com o cabelo encaracolado e com a pele negra. Também tem a ver com sentar no ponto mais alto para escrever, escrever para fingir ser o outro. E de novo fugir. Também tem a ver com aeroportos e com um medo de avião que não faz sentido algum. Passeios em aeroportos. Tem muito que ver com bares e outras crianças em bares e bêbados e conversas sujas e coisas erradas. Também tem ligação com um ser maldoso que se deixou ser tocado sem notar o mal que aquilo configurava. Ou com o ser maldoso que tocou de forma errada. Tem a ver com covardia. Tem a ver com não aceitar e berrar de fora pra dentro que aquilo não está certo e se envergonhar. Tem algo de muito grave nessas memórias todas que se enfiaram num lugar muito escuro e de acesso desconhecido. Tem algo de muito grave na forma como o tempo esquece de varrer debaixo dos tapetes protuberantes. Um ruído. Um ruído que na verdade é um chamado para notar as coisas que ainda não foram curadas, mas um ruído que perde feio para o tac do interruptor no acender e apagar das horas.



















