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Religare
Aprendi o conceito de intolerância religiosa aos quinze anos.
Antes disso já tinha ouvido essa expressão, mas nunca passara por nada com intensidade suficiente para realmente compreender seu significado. Fui batizada na igreja católica, ainda que meus pais já não seguissem essa religião na época em que nasci. Minha avó paterna, muito católica, sempre cobrava que eu lhe pedisse a bênção, mesmo que eu não entendesse direito o que era aquilo. Lembro de uma coleguinha me perguntar, na segunda série, se eu era católica ou evangélica. Eu não soube responder, porque não era nem um nem outro; quando disse isso a essa colega, lembro da expressão de surpresa no rosto dela. Provavelmente nunca nem ouvira falar que existem centenas e centenas de religiões no planeta. Também me lembro de ir a uma missa de páscoa com a escola, na quinta série, e ficar confusa quando a professora disse para todos se levantarem para receber a comunhão. Eu não tinha a mínima ideia do que estava acontecendo, mas alguém me puxou de volta para o banco e apenas assisti metade da turma entrar em fila na frente do padre.
Essas experiências, porém, não me ofendiam de maneira nenhuma; eu compreendia que eram coisas que eu não cultuava, mas que eram muito importantes para outras pessoas. Achava intrigante como era diferente, mas ficava por isso mesmo. Não acontecera nenhum tipo de agressão: apenas o contato puramente respeitoso.
Em 2013, porém, a Jornada Mundial da Juventude aconteceu no Brasil. Me animei com o evento. Fiquei encantada com a quantidade de pessoas de tantos povos diferentes vindo para o meu país com um interesse em comum, todos pensando na paz. Todos estavam falando disso, nos jornais, nos pontos de ônibus, na TV e principalmente nos templos religiosos. O lugar que eu frequentava na época mencionou o evento e sua importância para a paz entre os povos.
Alguns colegas de escola contaram, animados, que era possível participar como guia e abrir a própria casa para hospedar um ou dois jovens que estivessem participando do evento. Declarei imediatamente, muito empolgada, que pediria aos meus pais para participarmos. Foi quando ouvi de um desses colegas, pela primeira vez, a seguinte frase:
-Mas você não pode… Você não é cristã.
Fiquei totalmente desconcertada. Como assim eu não era cristã? Eu passava meus sábados reunida com um grupo jovem e um evangelizador. Discutíamos sobre parábolas bíblicas e boa parte do novo testamento. Falávamos sobre Jesus, sobre a caridade, o amor ao próximo. Como eu podia não ser cristã? Eu não tinha na época a confiança que tenho hoje, por isso me calei e não continuei a conversa.
Passaram-se um ou dois anos. Eu realizava trabalhos voluntários em uma instituição internacional, cristã e ecumênica, e nunca me sentira excluída de forma alguma por “não ser cristã”. Na verdade o aspecto religioso pouco aparecia: o importante era a caridade. Até que chegou o dia de uma reunião cuja pauta era justamente a parte mais religiosa dessa instituição, que estava muito ligada historicamente com a sua fundação. Ouvi muito atenta e silenciosa o desenrolar da palestra, porque eu sabia que não deveria opinar sobre detalhes de uma religião que não era minha. Eis então que o palestrante responsável diz:
-As religiões cristãs são justamente aquelas que creem na Santíssima Trindade. Pai, Filho e Espírito Santo como um só. Ou seja: Catolicismo e Protestantismo, com todas as suas ramificações.
Senti repentinamente uma vontade de chorar. Levantei a mão sem nem pensar no que estava fazendo. O professor assentiu para que eu falasse.
-Com licença… Desculpa, mas a minha religião é cristã também. Eu sou espírita.
Eu vi no rosto dele, infelizmente, um rápido risinho ironico. É provável que ele jamais tenha notado que reagiu dessa forma, mas eu vi e gravei na memória. O professor palestrante suspirou e disse a frase que me doía tanto de ouvir:
-Não, você não é cristã. Espíritas acreditam na reencarnação, cristãos creem na ressurreição de Cristo. Me desculpe.
Eu automaticamente respondi, com o coração batendo acelerado como nunca:
-Achei que cristão fosse todo aquele que seguisse as palavras de Jesus.
Se eu fosse um pouco mais rebelde na época, ainda falaria sobre todas as leituras que fazíamos do Novo Testamento, das parábolas e das histórias bíblicas. Falaria do livro de Kardec, o evangelho segundo o espiritismo, que serve justamente para explicar sobre a Bíblia. Falaria de todos os voluntariados que fiz na vida porque sei como é importante praticar a caridade. Falaria de como minha família tem o hábito de se reunir para fazer preces em casa. Mas não falei nada disso. Na verdade não sei qual foi o fim desse episódio. O que sei foi que acabei eventualmente me desligando dessa instituição.
Mais alguns anos se passaram. Aprendi muito com o kardecismo e continuarei sempre aprendendo, mas hoje me encontro em outra religião. Devo dizer que essa também não é considerada cristã pela maioria das pessoas. Na verdade, é vista com muito mais preconceito que o próprio kardecismo; tem gente que diz que adoramos o demônio, o que é irônico, porque nem mesmo acreditamos na existência dele. Falamos tanto do Mestre Jesus e de seus ensinamentos que não há espaço para falar mal de ninguém, muito menos fazer o mal.
Não importa o que pensem, hoje sou mais feliz (e mais cristã) do que nunca.
Talita Emrich
Não entre em competição com os demais, a terra que nos nutre dá-nos o necessário. Ajude o próximo a perceber as suas próprias virtudes e qualidades, a brilhar. #reflexao #religare #religiao #budismo #cristianismo #taoismo #yoga #yogisofinstagram #gratidao #yamas #nyamas #namaste🙏
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