As noites vão escorrendo por entre os meus dedos. Me entreguei, depois do quinto dia, me iniciei. Cumpro o ritual. Sabe sonhar sem ter que fechar os olhos? Eu sim. A loucura nem é tão ruim assim vista de dentro, sabe, é até interessante, você iria entender se também pudesse sonhar de pé, quase poder controlar os sonhos, sonhar quem quiser. O que vai ser difícil é me livrar dela depois. Está muito escuro aqui dentro, baby, já não sei o que é dia e o que é noite. Deixei de contar depois da sétima noite. Perdi a noção do tempo. Meu pijama está dobrado e minha cama, pela primeira vez na vida, arrumada. O segundo passo após a iniciação é a antropopatia, saber personificar os sentimentos, a loucura. Botei, sentados nessa cadeira aí, tanta gente, de lá de fora e daqui de dentro, antes de poder estar preparado para quando chegasse a sua vez. Quando pus a loucura pela primeira vez, ela tinha qualquer coisa que me lembrava meu rosto, da última vez pude ver bem, era toda eu, só que mais sóbria que agora. Eu já não posso reconhecer o meu rosto – e ele também já mudou bastante –, distinguir o real do devaneio. Tive a impressão te ter-lhe ouvido bater ontem à porta, mas não sei bem definir em que plano isso aconteceu, de qualquer modo estava preso, no ritual. Eu poderia ter ido lhe ver, comprado flores, mas não é tão simples assim, nós dois sabemos, você odeia flores e adora jogar, fazer isso seria lhe entregar a vitória com fitas. Você sempre foi melhor do que eu nesse jogo, mas parece que dessa vez eu me superei, não acha? Tanto tempo sem dormir... Tratei comigo antes de qualquer coisa, e agora chegou a sua vez, meu bem. Em que plano, em que presença de espírito eu poderia ter o meu triunfo? O meu subconsciente já me deixou ciente dos meus pontos fracos e fortes, já te idealizei com toda a proficiência de gênio em seu lucubro. Agora chegou a sua hora, conta teus medos e fragilidades, preciso saber de tudo. Vai, fala.