as nossas personas e o tal do "glow up": uma crítica
ando pensando um pouco além sobre esse termo que anda sendo bem disseminado faz um tempo: glow up. no sentido literal 'melhorar'; glow como verbo (to glow) ou substantivo (glow) recebe o significado de brilho, luz, vislumbre, luminosidade, enfim, tudo que tenha a ver com deixar brilhoso, glamouroso, luminoso. glow up então significa transformar-se, fazer brilhar, inovar, e por aí vai. pode ter diversos significados.
o termo em si é usado pra nomear o processo de autocuidado e mudança nos níveis interno e externo. bom, pelo menos é o que deveria ser.
como maioria das coisas ultimamente, tudo que tem certo significado recebe outro, um distorcido ou diferente que é manipulado pelo público. ou todo movimento que parece bonito demais na realidade esconde intenções mais profundas e sujas por trás. o segundo caso é o que mais se aplica.
eu não digo isso à toa. a cultura do 'glow up' que é disseminado pelo tik tok, por exemplo, chega a ser ridículo de tão cheio de padronizações. está tudo bem falar sobre saúde. dormir bem, comer bem, beber bastante água, andar sempre que possível, praticar exercícios sempre que puder, etc. tudo isso é válido, é recomendável e faz sentido. mas temos alguns pontos:
nem todo mundo consegue realmente perder peso facilmente, por conta do biotipo de cada um (ou seja, se um dos "resultados finais" do glow up é emagrecer, isso só vai gerar ansiedade em grupos específicos de pessoas). se uma pessoa naturalmente é mais magra, ela terá tendência a permanecer assim, se uma pessoa é naturalmente mais gorda, ela também terá tendência a permanecer assim. cada caso é um caso. corpos são diferentes.
existem pessoas que têm problemas nas áreas em que se recomenda cuidar (sono = inúmeras pessoas com insônia, outros distúrbios de sono; alimentação = distúrbios alimentares ou outros tipos de problemas que envolvem a saúde física, e por aí vai). além do mais, a ansiedade, em seus diversos tipos, atrapalha e muito a pessoa de ter uma rotina normal, pois a mente sempre pensa mais adiante do que deveria, o que impede que a pessoa consiga se concentrar no momento presente e desempenhar tarefas da forma como queria. e é um dos transtornos que mais assolam a sociedade.
nem todo mundo tem capacidade de dividir o dia em partes exatas e focar tanto no autocuidado (seja por questões psicológicas, - depressão, por exemplo - físicas, pessoais, questões envolvendo o tempo e outras complexidades)
é sempre um "beba muita água, isso faz perder peso e manter a pele lisa", "pra fazer a bunda crescer: faça (tal exercício sei lá quantas vezes por semana e mantenha a rotina)". tudo isso envolve, de forma velada, o alcance de um corpo perfeito, uma personalidade perfeita.
padrões não só de corpo e estética, mas como de personalidade também são impostos inconsciente e conscientemente.
aquela personalidade imbatível, a vibe fodona, a postura simpática, as "good vibes" e o corpo "fitness dos sonhos". uma pessoa aparentemente perfeita. o arquétipo perfeito a ser alcançado.
algo que observo é que a cada ano, cada pessoa busca se "mudar", "adquirir" uma nova personalidade, se tornar uma pessoa diferente, sofrer uma >transformação< externa afim de alcançar uma satisfação interna.
constantemente, sofrem vários "glow ups" para impressionar as pessoas e se sentirem fodas, sentirem que estão agindo de forma surpreendente e magnífica, que todos olham e prestam atenção.
é importante ter autoconfiança, desde que ela não seja forçada. desde que ela não esteja vinculada com a forma como te enxergam no meio em que você vive. ou não seja algo que precise de certos requisitos a serem cumpridos pra ser alcançada.
autoconfiança se sente, não se força. você não vai aumentar sua autoestima se você pintar o cabelo, cuidar das suas unhas, fazer trocentos exercícios e seguir uma rotina que um ser aleatório de uma rede social fútil te recomendou a fazer. não é pegando um molde de como ser confiante que você vai ser confiante. claro que isso pode dar certo impulso, mas não será o bastante para que você se sinta bem consigo mesme. logo esse efeito passa e o que sobra é o vazio.
autoestima se alcança através de processos. é uma questão interna que, ao ser curada, te fará enxergar de forma diferente o mundo externo e logo, quem você é.
interno-externo. é disso que se trata.
as verdadeiras transformações são de dentro pra fora. não de fora pra dentro.

















