Camélia Branca - simbolo do abolicionismo brasileiro
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Criada no Rio de Janeiro por José do Patrocínio e André Rebouças, a Confederação Abolicionista reunia cerca de trinta clubes e associações antiescravistas, surgidos em praticamente todas as províncias do Império. A agremiação nasceu com a agenda cheia: aliciou escravos, acoitou fugitivos, produziu panfletos e manifestos, organizou conferências. Também esteve a postos para apoiar os fugitivos do quilombo do Leblon, e contribuiu ativamente para a proteção, organização e manutenção do refúgio de escravizados que Seixas instalou em sua chácara. No entanto, o quilombo do Leblon tornou-se famoso graças a uma particularidade: os que lá permaneciam se dedicavam ao cultivo e ao comércio de flores, mais especificamente camélias brancas. A associação da flor com a abolição foi uma ótima tirada. A camélia era rara no Brasil e, diziam eles, em sua fragilidade assemelhava-se à liberdade que os escravos lutavam por conquistar. Assim como a liberdade, ela necessitava de cuidados e abrigo especial, além do manejo de técnicas complexas de cultivo que dependiam, é claro, do trabalhador livre, e não da mão de obra escrava.
Levar uma camélia na botoeira do paletó ou cultivá-la no jardim de casa virou gesto político e simbólico: significava uma declaração de princípios e indicava disposição para a ação, ou seja, mostrava-se adesão à causa da abolição e a intenção de proteção aos cativos fugidos. E o que era iniciativa isolada foi virando um sentimento nacional: em São Paulo, por exemplo, os “caifases”, contando com a figura mítica de Antônio Bento de Sousa e Castro — que em São Paulo assumira o lugar de liderança do célebre rábula Luís Gama —, ajudavam a embarcar para a corte os escravizados amotinados e fugitivos das fazendas de café, com a orientação de aguardarem que alguém, usando uma camélia branca na lapela, os viesse buscar na plataforma de desembarque da Estação Dom Pedro II. Os abolicionistas do Recife evocavam igualmente o simbolismo da flor e batizaram de Camélia uma barcaça que levava libertos para o Ceará.
in: Lima Barreto - Triste Visionário. p.65. Lilia Schwarcz, Companhia das Letras, 2020.









