Um conto sobre Raiva: Parte 2, Ira
Música recomendada: https://www.youtube.com/watch?v=F3hTW9e20d8
Meu corpo está inerte, sinto como se estivesse flutuando nas profundezas da escuridão. Eu sei que preciso continuar em frente, mas estou tão cansado... Minha mente deriva em sonhos fragmentados e pedaços de lembranças. Abro meus olhos e percebo que ainda flutuando nessa escuridão, meu corpo ainda sem forças. Eu volto a dormir, na esperança de que, pelo menos nos sonhos, as coisas possam ser diferentes.
Quanto tempo se passou desde fiquei preso aqui? Doze horas? Três dias? Seis meses? Não tenho certeza, só sei que a solidão me diz “olá” no instante em que abro meus olhos, enquanto a culpa me diz “bons sonhos” no momento em que decido fugir para o mundo do sonhar. Não importa o quanto eu durma, não há descanso neste ciclo depressivo. Eu tento escapar, mas meu corpo não consegue se mexer, apenas flutuar nessa escuridão.
Eu começo a aceitar esse destino, um no qual a minha não-existência pode ser a chave para impedir novos arrependimentos e decepções. Uma nova silhueta aparece ao meu lado. Sua presença é familiar e levemente incandescente, mas é difícil ver seu rosto… Quem é você? Seu corpo produz um brilho fraco, seu cabelo lembra uma brasa próxima do fim. Seu rosto está voltado para longe, mas seus olhos estão vendados. Eu não compreendo, o que é você? Memórias passadas inundam minha mente. Memórias de um eu impulsivo, explosivo, imprevisível, memórias agressivas, em vultos, onde minha cólera atinge principalmente aqueles que tentam me ajudar. Um sentimento de revolta começa a tomar conta de mim. Eu sei quem é você.
Ela volta seu rosto em direção ao meu. Você, que feriu várias e várias vezes as pessoas que eu amava. Você, que queimou a mão daqueles que se dispuseram a me ajudar. Você, que é indomável, incontrolável, impaciente e incapaz de enxergar qualquer coisa além da sua própria fúria, que nada além de culpa surge depois que você se mostra! O que você quer?!
Ela estende sua mão até mim, como se quisesse me ajudar. Eu, que aprendi a te reprimir, que te rejeito com todas as minhas forças, acha mesmo que posso confiar em você?! Se não fosse sua imprudência, se não fosse sua cegueira, nada disso teria acontecido!
Minha Raiva continua olhando para mim. Ela espera que eu tome uma decisão, recusar essa parte de mim e esperar que um milagre me salve, ou aceitá-la finalmente e usar sua força para sair daqui.
Suas chamas aproximam-se de meu corpo e o calor de sua fúria me lembra da sensação de estar vivo. O brilho de seu corpo se intensifica, as brasas semi-extintas transformam-se em labaredas vivas e uma determinação ardente começa a invadir meu peito. Existe algo na energia da Ira capaz de me impulsionar de volta para a vida. Minha missão ainda não acabou, meus sonhos ainda não se foram. Eu quero continuar vivo!
Meu braço agarra sua mão flamejante com todas as minhas forças e seus olhos acendem como chamas de um incêndio. A venda que ofuscava sua visão é incinerada e uma explosão incandescente de fúria e ira se estende por toda a escuridão, exatamente como um vulcão entrando em erupção.
Meus olhos se abrem mais uma vez percebo que ainda estou no chão da floresta. Fogo encontra-se ao meu redor, como se estivesse aquecendo o meu espírito novamente. Eu cerro meus punhos e permito que o calor da ira se estenda por todo meu corpo. Levante-se. Um de meus joelhos se ergue e eu me apoio nele, como se eu reverenciasse minha própria fúria. Levante-se. Meus sentidos estão embaçados, fumaça quente sai de minha boca enquanto meu coração mais forte e mais rápido que qualquer surto de adrenalina. Levante-se! Meu corpo finalmente se ergue. Um grito feroz deixa meus pulmões e atinge toda a floresta ao redor. Eu ainda estou vivo.
Eu dou um passo à frente e o impacto do meu pé parece um estrondo. Outro passo, outro estrondo, a floresta inteira parece estremecer nessa batalha. Minhas mãos encostam em algumas as árvores pelo caminho, geladas, mortas, e todas se incineram com o calor da minha fúria. Estou ofegante, mas o ar que sai de minha boca é determinado. O fogo logo atinge toda a floresta, causando um incêndio capaz de quebra qualquer silêncio ou escuridão. Cada passo que dou é mais rápido, mais veloz, mais furioso. A saída está logo alí. Corra, lute, grite! Não há passado sem o presente, não há futuro se não houver o agora! Ignore todo o resto, use minha fúria e ignore todo o resto!
Sobreviva, sobreviva, sobreviva!
OrenZ, the Pilgrim
.














