đžđą đ đđą đđđąđđđ đđąđ đĄđ đđ đ đđ đĄđđą đđđđđđ
Eu nĂŁo morri, mas gostaria. Eu nĂŁo quero mais viver no mesmo mundo que ela, eu nĂŁo quero respirar o mesmo ar que ela. Eu sĂł quero viver a minha vida sem qualquer mĂsero toque dela. Ou melhor, dele. Ă assim que ela quer ser tratada? Eu sĂł sei que ele nĂŁo existe na minha vida, porque ele acaba com ela em cada gesto, cada palavra, cada respirada.
NĂŁo tenho playlist, minha dor jĂĄ Ă© barulhenta demais.
TASK 003: NPCS parte final TW: Transfobia (uso de nome morto em todo o texto), luto, aborto, texto longo. @aletheiahotelrp
MamĂŁe sempre falou pra encontrar um homem que me puxasse pra dançar qualquer mĂșsica que nĂŁo fosse uma dança lenta, porque isso significava que ele nĂŁo tinha medo nenhum de ser visto feliz e passando vergonha ao meu lado. Foi assim que ela escolheu meu pai e nunca se arrependeu.
E papai gostava de dançar. Era o jeito dele de dizer que amava as pessoas. Nossa famĂlia sempre dançava.
Conheci o Ricardo no aniversĂĄrio de uma amiga, ele era o cara popular, o mais bonito, tinha acabado de se alistar e a famĂlia de militares sĂł tinha patente alta, o que significava que Ricardo era a melhor opção pro meu futuro. Todas queriam ele, mas ele me quis. Veio atĂ© meu pai, pediu minha mĂŁo em namoro, sĂł encostou em mim depois da permissĂŁo, e essa permissĂŁo demorou DEMAIS porque seu Joaquim nĂŁo tinha ido com a cara dele.
Ele, o prĂncipe encantado, e o Nico, seu primo e fiel escudeiro. Um hippie que sĂł sabia falar de mĂșsica. Era um saco, todo dia levava o violĂŁo pra escola, ninguĂ©m aguentava mais. AtĂ© cantava bem, mas isso nĂŁo diminuĂa o fato de que era impossĂvel andar pela escola sem esbarrar no violĂŁo.
tw: menção a aborto espontùneo e luto
Apesar de caçula, fui a primeira a casar e isso criou muitas expectativas sobre mim, como ser a primeira a sair de casa, ter filhos logo, prosperar na carreira. Isso parece ter mudado o Ricardo. JĂĄ nĂŁo era mais tĂŁo atencioso, estava alheio demais e nĂŁo foi difĂcil suspeitar da traição. Eu fiquei arrasada, mas o que diriam de mim se deixasse um homem que me sustentava? Talvez eu nĂŁo tivesse sido a melhor esposa, talvez as diversas tentativas de engravidar, as duas perdas, o feto no vaso e a minha total incapacidade de conseguir manter uma criança em meu ventre tivessem sido motivos. Cinco anos de casados e nenhum filho? Cristiana teve um bebĂȘ no primeiro ano do casamento, Adriana e Nico no terceiro porque queria aproveitar a lua de mel. E eu? Eu queria tanto! Eu fiz promessa, ritual, pulei onda, usei calcinha preta, fiquei de cabeça pra baixo... Nenhum bebĂȘ ficava. Eu era um fracasso, eu era uma coisa ambulante e sem propĂłsito, nĂŁo poderia dar ao meu marido um filho. NĂŁo poderia... eu nĂŁo parava de chorar, o meu peito queimava enquanto apertava aquela descarga.
VocĂȘ acorda de manhĂŁ e precisa de ajuda pra levantar a cabeça? VocĂȘ lĂȘ obituĂĄrios e sente inveja dos mortos? Ă como viver em um penhas sem nunca saber quando vai despencar. VocĂȘ sabe como Ă© morrer e continuar viva?
Tinha sido o quinto. O quinto! Era sempre no quarto mĂȘs.
fim do tw.
No aniversårio da Gabriele foi que as coisas começaram a fazer sentido. Ricardo não largava a churrasqueira. Do outro lado da årea, Nico, Adriana e alguns amigos riam, bebiam e lembravam da época de escola em um jogo antigo. Era fim de festa e só tinha os adultos acordados.
â Ok... tĂĄ! Eu nunca... fui apaixonado pela esposa do meu primo. - quando Ricardo soltou aquela, todo mundo riu. Isso nĂŁo era mentira, Nico realmente teve uma queda por mim na Ă©poca de escola, mas eu nĂŁo faço o tipo Maria ViolĂŁo. â AĂ Ă© covardia! O namorado do Ăngelo Ă© irresistĂvel mesmo. - Nico sempre foi engraçadinho, e Adriana gostava de um comediante. â Ai, Ricardo, vai olhar a linguiça! â AĂ, Nico! Sua mulher quer me mostrar a linguiça. â Quem vai ver a linguiça depois sou eu. - Ricardo parou e olhou pra todo mundo. Talvez fosse o ĂĄlcool falando, mas quando Nico nĂŁo estava com o violĂŁo, atĂ© que ele era bonitinho. Logo começou a tocar uma mĂșsica, era um daqueles charmes de letra duvidosa que tocava nos bailes. - Ah nĂŁo! Essa Ă© a minha mĂșsica! - era alguma coisa bem ofensiva que eu me recuso a citar por aqui. Enquanto Nico puxava Adriana pra dançar, Ricardo sentou ao meu lado com um tabuleiro de coração que ele sabia que eu gostava. Me abraçou e me segurou. â Vem, Lu! Vamos mandar o passinho. Eu sei que vocĂȘ sabe. â Pode deixar, primo, a gente vai se curtir aqui um pouco. SĂł nĂŁo mexe muito senĂŁo sua mulher vai parir agora. E nĂŁo me soltou. Enquanto isso Adriana gargalhava conforme ele dava seus passos tortos e era corrigido pelo Helder, marido de Cristiana, que era tĂŁo ruim quanto, mas ele pelo menos sabia mexer o quadril. Eu estava atraĂda por aquela bagunça e Ricardo estava atraĂdo pelo meu pescoço. Eu queria dançar. Eu dancei depois, mas nĂŁo foi com meu marido. Eu ainda me recuperava da descarga quando saĂ naquela madrugada pra pegar um ar fresco e encontrei o Nico juntando as cracudinhas. SĂł tinha eu, ele, as estrelas, uma porcentagem bem alta de ĂĄlcool no corpo e confissĂ”es adolescentes aos 30 anos.
Positivo. Eu nĂŁo estava mais tĂŁo esperançosa. Sabia que depois do quarto mĂȘs doeria mais uma vez. Cinco meses. Nunca tinha chegado no quinto mĂȘs. Quando bateu seis, a gente jĂĄ nĂŁo sabia o que fazer. Era difĂcil se planejar jĂĄ esperando pelo fim, mas aos 9 meses era certeza. Ela ia nascer. Ela ia nascer viva e saudĂĄvel. Colocamos o nome de Gertrudes para seguir a tradição: trĂȘs meninas, trĂȘs nomes com G. Giovana tinha nascido meses antes e Gabriele jĂĄ andava. Ricardo queria chamar de Milagre ou VitĂłria, mas Nico dizia que aquela era a ideia mais genĂ©rica e ultrapassada. Ela jĂĄ era um milagre por existir.
Ela nasceu com aqueles olhos esbugalhados, muito cabelo na cabeça e a minha cara. Nada do pai, graças a deus. Mas aos poucos a face que conhecemos hoje foi tomando forma. Malandra, cĂnica, sarcĂĄstica. A cara de quem tinha milhares de planos infalĂveis e colocaria a prova a toda semana.
Gertrudes era tudo o que uma mĂŁe de menina queria: quieta, educada, aprendia as coisas com facilidade. Pelo menos por dois anos foi a primeira da turma, no que poderĂamos chamar de QI de uma criança. Ela era sempre bem elogiada pela sua educação, pelo seu prazer em ajudar as pessoas, em estar sempre cuidando dos colegas de turma. Aos 2 ela começou a ter dificuldades e foi quando descobrimos a dislexia. Tudo bem, nĂŁo tinha problema. Algumas pessoas sĂŁo diferentes, mas aquilo nĂŁo era um empecilho. Nada seria. Gertrudes era um milagre por existir.
Por isso foi difĂcil aceitar a mudança. Com 4 anos ela começou a sentir uma dor muito forte no estĂŽmago, uma dor que parecia nĂŁo parar por nada. Junto disso vieram as ideias de virar menino, cortar o cabelo, mudar de nome, jogar bola. E eu atĂ© conseguia aceitar o carrinho e a roupa azul, mas menino? NĂŁo, de jeito nenhum! Eu tava mais preocupada em fazer aquela dor parar. Era desesperador a forma como ela chorava, implorava para aquilo acabar. Nenhum mĂ©dico soube diagnosticar.
â Por que a gente nĂŁo corta o cabelo dela? â Pai... nĂŁo. De jeito nenhum! â Olha pra ela, filha. Ela nĂŁo tĂĄ feliz. â E como isso vai fazer a dor parar? â De qual dor estamos falando? Tira pelo menos essa agonia dela. â Eu nĂŁo sei. â Se ela tivesse nascido menino, vocĂȘ ia rejeitar? â Ă claro que nĂŁo. â EntĂŁo corta! Se nĂŁo der certo, pelo menos cabelo cresce.
Foi no mesmo dia. A gente cortou e ela parou de chorar, parou de reclamar de dor, ficou atĂ© mais... radiante, eu acho. Ela brincava mais, conseguia ser mais criativa. Meu pai tambĂ©m estava diferente. Ele sempre dizia que queria ter um filho homem, mas deve ter comido muita soja quando mais novo. Parecia que eu tinha dois pirralhos em casa novamente. Papai e Gertrudes soltavam cafifa o dia todo, jogavam bola, bola de gude, faziam as maiores bagunças, coisa que vocĂȘ nĂŁo via Gabriele ou Giovana fazendo. Com 6 anos ele queria mudar de nome e mais uma vez as dores de barriga sĂł pararam quando a gente acatou. Genaro... pra seguir a tradição do nome com G. Aquilo era temporĂĄrio, eu tenho certeza.
Mas eu jĂĄ nĂŁo conseguia mais. NĂŁo conseguia olhĂĄ-la da mesma maneira. Era pra ser minha garotinha, minha pedra preciosa, nĂŁo um moleque que corria descalço na rua. A gente tinha um nome de peso, uma marca mundialmente famosa, nĂŁo dava pra ficar agindo como trogloditas. Depois do que aconteceu na escola, a gente decidiu que era hora de Genaro voltar a ser Gertrudes, nĂŁo tinha mais condiçÔes de viver nessa fantasia. O risco de ela voltar a sentir as dores novamente eram grandes, mas a gente poderia contornar de outras maneiras. Mudamos de escola, mudamos toda arrumação do quarto, mudamos tudo o que era possĂvel para que ela voltasse a ser minha menina. E com isso eu sĂł coloquei um assassino pra dentro de casa.
â Ela nĂŁo sai do quarto. â Ela tĂĄ arrasada. â Ela precisa ir pra escola, Luciana. VĂŁo bater na nossa porta, dizer que estamos sendo negligente. â Ricardo, sĂł deixa ela passar por isso. â Por dois meses? Larga de ser besta, Luciana. Ela tĂĄ inventando desculpas pra nĂŁo ir Ă escola. â Meu pai Ă© uma desculpa agora? â NĂŁo fala merda... â NĂŁo sou eu quem tĂĄ falando. â SĂł tem titica nesse teu cĂ©rebro! Parece que come minhoca. Presta atenção, se vocĂȘ nĂŁo for lĂĄ agora, eu vou fazer ela ir pra escola Ă força. â NĂŁo encosta na minha filha! â Ela Ă© minha tambĂ©m! - infelizmente. â Isso nĂŁo te dĂĄ o direito. Ela tĂĄ sofrendo. VocĂȘ nĂŁo percebe? VocĂȘ lembra de como eu sofri? Ah nĂŁo, vocĂȘ nĂŁo lembra. Nessa Ă©poca era quem? â Ai, Luciana, vai pra casa do caralho, vai. â Meu pai estava certo sobre vocĂȘ. â E agora ele tĂĄ morto. Eu subi pro quarto de Gertrudes decidindo nĂŁo manter a conversa. NĂŁo ia pra lugar nenhum. Quando entrei no quarto, ela ainda estava debaixo do cobertor de carros. Na nuca eu via a gola preta. JĂĄ havia trĂȘs semanas que ela sĂł vestia aquele smoking que meu pai tinha comprado. SĂł tirava pra lavar, entĂŁo vestia novamente e passava o dia deitada na cama. â Ge? - ela nem se moveu, mas eu tinha certeza de que ela estava acordada. - Filha, vocĂȘ precisa levantar e ir pra... â Foi culpa minha. - sua voz era chorosa, trĂȘmula, quase incapaz de completar aquela frase. - Fui eu... foi a minha pipa... foi a minha linha com cerol. â NĂŁo fale bobagens. Levanta, eu deixo vocĂȘ ir com o smoking pra aula hoje, mas vocĂȘ precisa pelo menos tomar um cafĂ© an... â NĂŁo Ă© bobagem, mĂŁe. Fui eu! - ela levantou com velocidade, ainda tinha o corte de cabelo masculino, apesar de um pouco maior, seu rosto estava inchado, os olhos vermelhos, as olheiras... â VocĂȘ tem dormido? E entĂŁo eu vi, entre seus dedos, o carretel de linha. Linha verde. A mesma linha que tinha sido encontrada na rua onde meu pai estava.
Aquela foi a pior dor que eu poderia ter sentido, mais do que todas as perdas. Meu pai era meu herĂłi, minha razĂŁo, minha força. Ele quem tinha me abraçado em todas as perdas, ficado do meu lado em cada teste, me confortado em cada noite mal dormida, dançado todas as minhas danças. Ele quem virava noite cuidando as crianças pra gente poder dormir tranquilo, ele quem mantinha a ordem na casa mesmo sendo um grande bobĂŁo. PerdĂȘ-lo foi uma desgraça, mas perdĂȘ-lo para minha prĂłpria filha? Naquela tarde uma parte de mim se foi tambĂ©m, junto com a morte de Gertrudes.
Ricardo decidiu que divulgaria aquilo como um acidente, faria campanhas contra o uso de cerol e mandaria Gertrudes para o mais longe possĂvel de nĂłs. Desde que nunca mais colocasse os pĂ©s na nossa casa, atĂ© os 18 anos ela poderia viver onde quisesse e fazer o que quisesse.
â Senhorita Luciana, tem uma pessoa no portĂŁo querendo falar com a senhora. â Eu nĂŁo estou esperando visitas, Edson. Pode dispensar. â JĂĄ tentei, senhorita, mas ele insiste que sabe que a senhora estĂĄ aqui e sĂł vai sair quando for atendido. Disse que se vocĂȘ ama o falecido Joaquim, vai atender a porta. â Esses malditos jornalistas que nĂŁo deixam meu pai morrer. JĂĄ vou pra avisar que a polĂcia estĂĄ a caminho. - Quando me deparei com a figura no portĂŁo, a raiva me consumiu. - Eu nĂŁo disse pra vocĂȘ sumir? O que te dĂĄ o direito de aparecer no meu portĂŁo? Edson, chama a polĂcia, eu nĂŁo tenho dinheiro pra dar pra pedinte. VocĂȘ nĂŁo pode mesmo ser tĂŁo cara de pau a ponto de aparecer aqui pra pedir dinheiro... â Eu nĂŁo vim aqui pedir dinheiro. NĂŁo pra mim. â VĂĄ embora! Edson, a polĂ... - Gertrudes puxou a bolsa pro lado revelando uma barriga de gravidez. Poderia ter sido a cena mais bizarra que eu jĂĄ vi, mas o sentimento que me despertou era outro. â Eu vim por ela. - ela...
O acordo foi simples: ela ficaria na casa sĂł atĂ© o bebĂȘ nascer, eu teria total controle sobre a criança, podendo nomear e dar o rumo que eu gostaria. Assinado em contrato. Depois nunca mais apareceria. E como faltava 2 meses pra isso acontecer, seria rĂĄpido. NĂŁo foi. Eu nĂŁo sei o que aconteceu, mas ele ali facilitava as coisas. Ela. Gertrudes. Gertrudes tinha assumido uma postura centrada, inteligente... masculina. NĂŁo era o mesmo pirralho atentado, como se a existĂȘncia daquele bebĂȘ tivesse trazido uma maturidade que eu nunca acreditei que existiria. Era tudo muito fĂĄcil com ele ali.
A bebĂȘ nasceu, registramos como Gertrudes. Ele nĂŁo se opĂŽs. Talvez porque nĂŁo iria se aproximar. Mas ele cuidava tĂŁo bem, com tanto carinho. O plano era ir embora assim que nascesse, mas nĂŁo aconteceu porque eu pedi pra ele ficar.
Essa bebĂȘ tinha algum poder, alguma coisa, mas ela tornava tudo mais confortĂĄvel entre nĂłs trĂȘs. Dava uma esperança, uma sensação de que as coisas voltavam aos eixos. Mas que eixos? Seus olhos eram de uma ingenuidade e pureza que assassino nenhum carregaria, como uma criança sapeca e obediente ansiando pelo prĂłximo passeio ao parque, como um filho que segurava sua irmĂŁ mais nova no colo, como... a primeira vez que Genaro a pegou no colo, eles dançaram. Uma playlist com as melhores do funk anos 2000 porque era o tipo de mĂșsica que ele realmente apreciava. E enquanto aquela imagem dançante se concretizava na minha frente ao som de Claudinho e Buchecha, ele me olhou da maneira mais empolgada, com olhos brilhantes de uma criança que ganhava uma bicicleta.
_ Ela tem um sorriso lindo.
_ Deve ser de famĂlia.
Meu filho. NĂŁo era palavras difĂceis de dizer, afinal.
Estava chegando o dia do batizado e eu sĂł podia pensar em uma coisa: o vestido branco que Genaro usou. Ainda estava nas coisas guardadas, assim como vĂĄrios brinquedos e pelĂșcias. Quando cheguei no quarto, Genaro a tinha vestido com uma roupa horrorosa. Aquele era o momento mais importante da vida dela e ele queria marcar da forma menos feminina possĂvel?
â VocĂȘ trate de tirar isso dela. â Ela tĂĄ com frio. â Ă dezembro no Rio de Janeiro. â Ainda Ă© frio. Esse vestido tem muita passagem de ar, o macacĂŁo segura melhor. â Se vocĂȘ estĂĄ vivo atĂ© hoje, Ă© porque eu soube muito bem quando era calor e frio. â Se eu estou vivo atĂ© hoje, Ă© porque eu fiz umas boas aulas de jiu-jitsu. E o leite dela, jĂĄ deu? â Eu trouxe uma bananinha. â Introdução alimentar agora? - arrumei a fruta em um pratinho e amassei atĂ© ficar pastoso o suficiente. â Ela jĂĄ tem tamanho pra isso. â Ela Ă© bem grande sim... pra um recĂ©m-nascido. Ela Ă© muito pequena, nĂŁo acho que Ă© uma boa. â Eu tive uma filha e duas sobrinhas, entĂŁo se vocĂȘ estĂĄ vivo... â ... jiu-jitsu! â Vem, minha lindinha, vamos usar essa roupinha feia como babador mesmo. â Eu to falando sĂ©rio, pega o leite na geladeira, mĂŁe... MĂŁe. O mundo ficou silencioso depois daquela palavra. Coloquei a bebĂȘ de volta na cama. Como ele ousava proferir aquela palavra? â Eu nĂŁo sou sua mĂŁe! A gente nĂŁo tem nenhum tipo de relação. JĂĄ era pra vocĂȘ ter ido embora daqui. SĂł te permito nessa casa porque vocĂȘ Ă© ajuda e nada mais, entĂŁo coloque-se no seu lugar de hĂłspede. Eu mando nessa casa, eu mando nessa famĂlia, eu mando nessa merda. Se eu digo, Ă© a lei. E vocĂȘ nĂŁo vai me tirar o direito de ter algo meu mais uma vez. â Ă isso? Ă sempre sobre vocĂȘ? - a bebĂȘ tinha começado a chorar, mas ele estava no meio do caminho. â Ă sobre a minha Ășnica chance de ser mĂŁe. â VocĂȘ... tĂĄ tentando me substituir? â Como substituir o que nunca existiu? â VocĂȘ Ă© doente! â Quer saber? Sai da minha casa. - a bebĂȘ chorava mais alto.
Aquele pesadelo outra vez. Dias de uma criança que não parava de chorar, noites acordada sem achar uma solução, visitas a médicos que não sabiam o que fazer até decidirem que seria melhor ir pra UTI. Talvez... ela só parava de chorar quando estava com ele, ela só ficava calma em seus braços. Foram vårias ligaçÔes rejeitas até finalmente ele atender no segundo dia. Não sei o quão perto ou longe ele estava, mas ter aparecido no hospital com uma fantasia de espantalho deixava claro que ele tinha largado tudo para estar lå.
E funcionou. Quando a tocou, quando ouviu sua voz, Gertrudes parou de chorar. Talvez eu tivesse subjugado, talvez eu tivesse sido dura demais. Ele nĂŁo sĂł fazia de tudo por ela, ele era tudo pra ela.
Eu assisti de longe, da porta. NĂŁo consegui entrar na sala. A Ășltima vez que o vi chorar daquela maneira foi 25 anos atrĂĄs quando o meu pa... NĂŁo. NĂŁo. Ele nĂŁo parava de falar sobre o quanto ela estava fria e tudo o que eu precisava era que ele calasse a merda da boca. Me agarrei ao batente da porta porque a pressĂŁo foi ao chĂŁo, a cadeira de rodas me levou pra longe dali.
Nunca ficamos tĂŁo prĂłximos desde aquela tarde. Ele nĂŁo me soltava e nem eu soltava ele. O luto veio outra vez, tĂŁo forte quanto todas as outras, mas dessa vez, dessa vez eu tive conforto. Ele segurava meu braço com carinho, com vontade de me segurar, com vontade de me abraçar. Pela primeira vez eu pude sentir o luto, pude viver aquela dor de verdade, nĂŁo me sentir culpada por nĂŁo conseguir respirar. Era uma dor horrĂvel, mas com o meu filho ali, com ele ao meu lado, com seu abraço, eu nem mesmo sentia culpa pela noite com Nico. E sĂł agora eu entendo porque a ida de Ricardo foi um alĂvio, nĂŁo uma dor.
_ A autĂłpsia concluiu algo que... - o mĂ©dico prendeu a respiração por dois segundos e soltou em um. Nos entregou o papel com o laudo, como se aquilo concluĂsse sua frase, e nenhuma palavra parecia existir.
_ Obrigado pela preocupação, doutor, mas eu agradeceria se as palavras estivessem em bom portuguĂȘs. - meu filho estava irritado e coberto de razĂŁo. Quase um mĂȘs pro resultado sair e ainda nem conseguimos velar o corpo.
_ Sua filha - ele me olhou - tinha uma irritação estomacal grave. Ă um caso raro em que o bebĂȘ estĂĄ completamente formado por fora, mas seus ĂłrgĂŁos internos, mais especificamente o aparelho digestivo, nĂŁo estĂŁo completamente desenvolvidos. Ou seja, era um bebĂȘ de 8 meses com ĂłrgĂŁos de aproximadamente 4 ou 5 meses.
Genaro tinha uma expressĂŁo complicada. Muitas vezes ele fazia aquela cara e eu nunca sabia se estava pensando em tudo o que poderia ter causado aquilo ou no que irĂamos almoçar naquela tarde. Logo a minha mente fez o mesmo.
_ VocĂȘ estĂĄ dizendo que... meu deus... Genaro... - ele segurou minha mĂŁo com delicadeza antes mesmo de as lĂĄgrimas escorrerem. Ele nĂŁo me culpava? Ainda assim seus olhos nĂŁo paravam quietos, como se buscasse uma resposta nos quadros do consultĂłrio.
_ Eu preciso perguntar. Os bebĂȘs absorvem tudo o que a mĂŁe coloca pra dentro do corpo. Um bebĂȘ com esses sintomas sĂŁo normais quando sĂŁo prematuros, mas ela completou a gestação, entĂŁo eu preciso que me responda com sinceridade. Dona Luciana, vocĂȘ tentou abortar?
Genaro soltou a minha mĂŁo.
Eu nunca mais dancei.















