Tecno-Amizades
É tenso querer amizade
e ainda assim sustentar o peito aberto
para a conversa,
para o encontro,
para o gesto simples de conhecer alguém
sem que tudo se deforme em desejo.
Acho bonito falar sobre tudo:
trocar ideias,
ouvir histórias,
dividir silêncios,
deixar a alma respirar
na delicadeza rara de um laço sincero.
Mas, nesta pressa dos tempos,
até a ternura tem sido mal traduzida.
Ao seguir e conversar,
entro no platonismo desta era digital.
Muitos se aproximam pelo anseio do corpo,
pelo fascínio da pele,
pela fome breve do toque,
enquanto em mim
há apenas o desejo sereno
de aquietar uma solidão mansa
com escuta, afeto e presença.
Poucos compreendem.
Menos ainda respeitam.
Assuntos tornam-se insinuações
mesmo quando nascem limpos.
Em palavras tortas,
vestem minha curiosidade
com intenções que nunca lhe pertenceram.
E assim,
o que em mim é simples
passa a ser lido como ambíguo,
como se conversar já fosse prometer,
como se gentileza fosse convite,
como se proximidade exigisse entrega.
Eu não queria promessas,
nem posse,
nem a sombra apressada de uma paixão.
Queria apenas a beleza quase extinta
de uma amizade verdadeira.
Mas, quando me afasto para me guardar,
sou posta como a errada
por ter tentado somente me aproximar.
E o que fica
é essa tristeza funda e silenciosa:
a de chegar com verdade
e ser recebida por suspeita;
a de oferecer amizade
num mundo que já não sabe
o que fazer com o afeto
quando ele não vem vestido de desejo.
~ ANEumann











