Ela odeia a forma como Agnes não tira a atenção de sua figura sentada a poucos centímetros longe naquele vagão, como se ela tivesse muito o que dizer, mas não vai dizer porque tem mais o que fazer.
E porque Mallard sabe que julgar Kang em silêncio, geralmente, a provoca mais do que jogar as coisas na cara dela.
Testado e confirmado, em quase 100% das vezes.
— Mas eu não imaginei que fosse, na verdade, eu acredito que mulheres e homens podem ser amigos sem necessariamente acabar se tornando um casal. — Agnes pontua analisando as próprias unhas, como se não fosse nada demais. — É uma questão social muito relevante, na verdade, e eu admiro muito que você venha quebrando tabus com… Qual é mesmo o nome dele?
— Jean, Agnes. O nome dele é Jean.
— Sim, sim. O Jean. O jeito que vocês dois estão quebrando tabus é incrível.
Mallard espera um segundo, dois, então três antes de completar.
— Mas vocês sabem disso? Porque às vezes, parece que não.
As vezes, pra não dizer quase sempre, quando ela também entra naquele trem indo para Paris para ver Margaux, eles já parecem uma dupla de pessoas se conhecendo a fim de se tornar um casal qualquer dia desses, e com a maneira cansada e raivosa que Yuri olha pra ela, Agnes diria que eles estão mais perto do que nunca de descobrir aquilo por conta própria.
— Escuta, eu sei que eu fui muito, muito insistente e irritante quando você e Margaux começaram a sair e não foi legal da minha parte virar organizadora dos encontros de vocês todas aquelas vezes, só porque eu queria que você tivesse uma experiência de filme, mas não te dá o direito de fazer o mesmo comigo. — Yuri começa seu discurso, puta da cara, como a pessoa que passa uma rasteira e que não aceita uma rasteira de volta. Coisa que ela sempre, sempre foi. — Nós somos amigos e amigos podem ter picnic juntos.
— Você passou a semana inteira checando a previsão do tempo pra ter certeza que ia conseguir usar um vestido e ter esse momento ao ar livre, porque o seu roteiro exigia que fosse assim. — Mallard aponta cruzando as pernas e abrindo um sorrisinho, porque sabe que aquele era um ponto que Yuri não podia negar. — Você se esforça muito pra um encontrinho entre amigos.
Mas a acusação não faz nada com Yuri, que sorri expondo as covinhas nas bochechas, cruzando os tornozelos pra não correr o risco de derrubar a cesta em seu colo.
— Eu sairia com meninos romanticamente, se eu tivesse interesse. — A asiática rebate, imperturbável. — Mas eu não tenho, estou focada em outra coisa.
— Você quer dizer em outra pessoa. — Agnes volta a observá-la com os olhos azuis muito atentos, mais uma vez tocando em um ponto que ela sabe que Kang não vai ter como se defender. — O cara americano. É por causa dele que você não se envolve com outras pessoas, não é?
E dessa vez, Yuri só deixa transparecer que aquela parte também não a perturba, segurando o mesmo sorrisinho de quem não tinha com o que se preocupar, enquanto seu coração começa a ficar acelerado e desesperado em seu peito.
Tudo costumava ser sempre sobre ele, mas ela se lembrava bem do dia que as coisas tinham começado a mudar ou pelo menos de quando ela percebeu que isso aconteceu.
Ela se esforçava mesmo pros encontros com Jean serem os melhores, mas só porque acreditava que ele merecia depois de todas as coisas que tinham passado e porque gostava da companhia dele e como eles eram parecidos em várias coisas; ela sabia que se chamasse as amigas pra ir ao museu com ela passar horas imergindo em uma exposição, elas só aceitariam por educação, mas ele ia viver o momento com ela.
Eles iam gostar das mesmas coisas, ficar curiosos sobre as mesmas obras e rir das mesmas aleatoriedades e ia ser perfeito; não só confortável, não só fácil, mas perfeito. Perfeito e maravilhoso.
Porque ele era perfeito e maravilhoso e deixava ela desconcertada sem esforço algum, e muito antes dela tentar se questionar do porquê aquilo acontecia e como acontecia, estava assustada por estar acontecendo em primeiro lugar.
Não era pra ser assim, eles não eram assim.
— Sabe, depois que eu soube da previsão, foi como se a química do meu cérebro tivesse mudado e a minha vida toda começou a girar ao redor dessa pessoa. — Yuri comenta quando eles param na frente de uma pintura que faz parte do roteiro, sentindo muito sutilmente os dedos dele perto dos seus. — Eu ficava me perguntando se eu ia saber exatamente quem ele era e como ia ser, se eu ia ter que procurar ele ou ele ia ser o responsável por me encontrar, mas a parte que mais me deixou ansiosa foi o tempo. Quanto tempo vai levar? Quantas pessoas até… Eu descobrir como é ser completada por outra pessoa?
Yuri faz uma pausa, sente seu coração na garganta e acha que se não respirar agora, vai acabar passando mal.
— Foi no tribruxo, então eu passei dois verões inteiros esperando um milagre quando eu voltei pra casa, mas acho que a terceira tentativa é a que dá sorte, né?
Ela não sabe, ela não tem certeza, mas está desesperada pra ouvir alguém concordando com ela, qualquer pessoa que a lembre que tem algo esperando ela nos Estados Unidos e que ela não deveria estar apaixonada por um cara que ela sentiu em uma poção do amor enquanto ele tinha uma namorada, e que agora a trata como uma amiga.
Ela precisa dizer tudo aquilo em voz alta pra se convencer que ter sentimentos por ele não é uma coisa boa e que ela não pode envolver a mão na dele tanto quanto ela quer e está quase fazendo agora. E é quando seu mindinho já está procurando o dele, que algo a puxa de volta e ela acha que é um milagre repentino.
— Não olha rápido agora, mas aquelas meninas que a gente viu na hora de entrar, estão tentando empurrar a amiga delas aqui. — O informava em um tom neutro e tranquilo, enfiando as mãos nos bolsos do casaco antes de se voltar a ele com um sorrisinho. — Eu acho que vou me afastar pra você conseguir falar com ela, vai ser melhor desenrolar um contatinho sem outra pessoa atrapalhando vocês.
E só o pensamento de ver ele flertar com outra garota a causa dor física, por isso ela empurra o braço dele com o ombro, antes de completar:
— Se lembra das coisas que eu te falei: você é um cara legal, super inteligente, bonito e os óculos são um charme. Você consegue e… Eu vou esperar você no final da galeria.
Disposta a ouvir todo o resumo da conversa, se ele quisesse contar, e sobre tudo o que ele tivesse achado dessa garota também, no tempo em que ela ficou sozinha olhando aquelas obras sem o mesmo ânimo de antes, contemplando todas as decisões que ela tinha tomado.
No geral, ela meio que acredita que só sabe tomar decisões ruins, agora, porque o picnic ao ar livre também não sai do jeito que ela quer; do jeito que ela passou dias planejando.
O céu está limpo e claro e o calor é bom também, mas ela não tinha contado que que outras pessoas também fossem sair de suas casas pra aproveitar o mesmo momento que eles e acharam de bom tom levar crianças.
Crianças com bolas de vôlei e discos de frisbee, arremessando os brinquedos muito alto e numa velocidade muito preocupante pra alguém que tinha medo de coisas voando em alta velocidade, feito Yuri Kang, quando não tiravam um tempo pra alimentar os pássaros por perto no parque e chamavam cada vez mais deles pro lugar.
O medo irracional que sente a faz passar a maior parte do tempo encolhida do lado de Jean, segurando seu braço com força ao manter o rosto protegido atrás do ombro dele, acreditando que a qualquer momento, uma bola, disco ou pombo vai acertar em cheio sua cabeça e ela vai agonizar em cima daquela grama até morrer. Se não pelo impacto, de ataque cardíaco pela ansiedade.
— Quando você virar jogador, não prometo ir aos seus jogos. Prefiro mil vezes ficar do lado de fora da universidade segurando um cartaz enquanto você faz uma prova, debaixo de chuva ou sol, escrito vaaaaaai Jean. — Murmurava em um tom contido, e apesar dele não ter nem uma visão de seu rosto, tinha certeza que ele podia ouvir o beicinho em seu tom de voz. — Eu devia ter levado a gente pra outro lugar.
Ela pensa que eles iam conseguir conversar e rir tanto quanto estavam antes de chegar lá, e que ela mesma ia ser mais feliz se tivessem escolhido passar aquela tarde de outro jeito, mas percebe que está pensando demais e isso nunca termina bem. Leva muito dela sair de seu esconderijo seguro, sem realmente desenrolar seu braço do dele, se sentindo muito confortável pra perceber o quão perto eles estavam daquele jeito.
Mesmo quando ela volta sua atenção para ele e só ele, não acha que estão perto demais, nem se importa com o que as pessoas vão pensar; se elas estivessem no lugar dela, olhando para aqueles mesmos olhos e na companhia daquela mesma pessoa, elas com certeza entenderiam como ela conseguiu ficar completamente muda antes de se inclinar e tocar os lábios dele com os dela.
Tem gosto de morango e chocolate que eles tinham acabado de comer e o poder de fazer ela esquecer dos objetos sobrevoando as cabeças dos dois, a grama começando a pinicar através da toalha estendida no chão por baixo deles e todo e qualquer tipo de pensamento além do quão bem ela se sente o beijando. É macio, quente, doce e tem o encaixe perfeito, de um jeito que ela nunca sentiu e dúvida que vai conseguir sentir de novo um dia.
Quando ela entrelaça os dedos da mão com os dele, tudo parece ficar vinte vezes melhor e ela acha que vai desmaiar, precisa apoiar a mão livre no rosto dele pra não cair, de forma figurada e real também. E depois disso, só leva um segundo pra ela se lembrar de onde eles estão, o que eles estão fazendo e o que eles são.
Sozinhos e principalmente um pro outro.
— Eu acho melhor ir devolver você pro château. — Ela diz sem fôlego e rápido demais, depois de se afastar dele, soltar seu rosto e sua mão, as três ações quase ao mesmo tempo e com a mesma quantidade de urgência.
Ela já não liga pros pássaros, nem pros discos de frisbee. Uma criança quase acerta uma bola na lateral de sua cabeça, fazendo seu cabelo se mexer sozinho no ar por causa do quase impacto e ela nem tentar desviar mais alguns centímetros pra garantir. Tem muitas coisas acontecendo em sua cabeça do momento que ela começa a juntar as coisas dele até a hora que ela o deixa em Beauxbatons, e nem uma delas a deixa respirar até ela chegar na estação e encontrar Agnes lá. Sorrindo e esperando pra fazer um milhão de perguntas como de costume, mas só até Yuri começar a chorar ruidosamente, deixando a loira mais alta imediatamente preocupada.
— Eu estraguei tudo. — Dói tanto dizer aquilo em voz alta, está tremendo dos pés a cabeça no meio de todas aquelas lágrimas que ela não consegue mais controlar. — Ele nunca mais vai querer ser meu amigo.
Porque ela tinha sido egoísta, irresponsável e agido com base só nas coisas que ela sentia. Mesmo que fizesse tanto tempo desde a última vez que tinha beijado alguém, mesmo que eles estivessem perto daquele jeito, eles ainda eram amigos e ela devia ter se comportado melhor. Jean não precisava ter passado por aquilo e com certeza pensava as piores coisas sobre ela agora, e isso era pior do que todas as vezes que teve seu cabelo puxado por Gigi quando elas eram crianças.
Mesmo que seu coração gostasse dele e ela quisesse ter beijado ele muito mais, ela não podia obrigar ele a gostar dela também, que dirá forçá-lo a beijá-la. E agora, ela não tinha mais nada.
Nada pra cultivar, nada pra cuidar e ninguém pra ver no próximo fim de semana.