“Toda noite ele passa na praça pedindo farinha na cumbuca. Pede, pede, pede que só a porra. Enche o saco esse bicho pidão... Eis o relato: — Me dê! — Sai pra lá, pidão!” Versinho popular nas colonias do Novo Mundo
Os lobisomens (fem. lobéria ou lobanil), também chamados licantropos, são seres amaldiçoados da classe dos teriantropos, ou seja, condenados a passar por uma metamorfose cujo resultado é um amálgama de homem (ou qualquer que seja a espécie do amaldiçoado) com uma besta, no caso dos licantropos, um enorme lobo. Em sua forma lupina, o lobisomem se torna um predador feroz e temperamental, sem qualquer resquício (ou com muito pouco) de sua antiga humanidade. Ainda assim, essa fera apresenta um comportamento social, diferente dos ailurantropos, por exemplo, que não suportam a presença de seus iguais. Os lobisomens muitas vezes são encontrados com matilhas de cães, alcateias de lobos e até mesmo, mais raramente, acompanhados de outros lobisomens.
Um lobisomem possui um corpo humanoide recoberto por pelos que refletem a cor original dos cabelos de sua antiga forma humana (o mesmo fenômeno acontece com a cor de sua íris). Eles não possuem cauda e podem apresentar tanto uma postura bípede plantígrada, que utilizam em ameaças, intimidação e ataques, quanto uma postura quadrúpede digitígrada, que geralmente é a que usam para se locomover. Suas mãos ainda conservam seus antigos dedos, agora recobertos com garras e um pouco atrofiados, o que dificulta para eles poderem agarrar coisas, mas ajuda a caminhar de modo quadrúpede. Seus pés sofrem um leve alongamento, permitindo que adotem a postura digitígrada.
Em sua cabeça, um licantropo ostenta um focinho que remete ao de um lobo, mas que, se observado com minúcia, denunciará sua antiga condição humana. Isso ocorre porque os lobisomens têm uma arcada dentária que segue uma base humanoide com 32 dentes, ao invés de 42, como é o caso dos lobos e cães verdadeiros. Outro detalhe é que seu nariz não é úmido, apesar de ter uma forma próxima à de um canino, e suas orelhas são mais lateralizadas e baixas na cabeça. Alguns músculos da face, principalmente em redor dos olhos, são preservados, o que torna o licantropo capaz de realizar algumas poucas expressões faciais.
Contaminação e Transformação
A licantropia pode ser contraída através do contato direto da saliva de um amaldiçoado com a corrente sanguínea da vítima ou com suas mucosas, como olhos, nariz e boca. Dessa forma, uma lambida de lobisomem é tão contagiosa quanto uma mordida, porém consideravelmente menos letal. Pelo que se sabe, apenas criaturas humanoides podem se transformar em licantropos. No entanto, caninos como lobos e cães podem ser portadores da maldição. Quando este é o caso, o cão se torna extremamente irritadiço e anormalmente agressivo com humanos. Esses animais devem ser sacrificados, pois, caso cheguem a morder uma pessoa, essa certamente se contaminará com a maldição.
Após ser exposta à saliva de um lobisomem, uma pessoa será contaminada com licantropia e iniciará sua transformação, isso é claro, se não morrer em decorrência de qualquer outra complicação que um ataque de lobisomem possa gerar. Essa metamorfose dura, em média, trinta dias, mas varia de acordo com a espécie e o metabolismo do novo licantropo. Além disso, a transformação pode exigir muito do corpo e levar à morte do indivíduo, principalmente se este for de idade avançada ou sofrer de alguma condição que o deixe em um estado de fragilidade. Crianças e adolescentes não manifestam a licantropia, podendo se tornar portadores da maldição até a sua puberdade quando enfim manifestarão a sua transformação.
Nos primeiros dias da transformação, o indivíduo sofrerá de febres altíssimas e poderá delirar. Dores atrás dos olhos e na cabeça também são relatadas durante esta fase. Após a febre passar, o indivíduo apresentará comportamentos singulares: buscará comer o máximo possível, evitará a presença humana e pode se tornar agressivo. O mais comum é que, durante a transformação, o infectado busque se isolar da presença humana (e depois também).
Os primeiros sinais de sua nova forma são os pelos, que crescerão desordenadamente como se a pessoa sofresse de hipertricose. Logo depois, seus dentes e unhas cairão e darão lugar a garras e presas mais robustas. Os ossos também crescerão em velocidade absurda, causando muita dor no processo, principalmente na face. Quanto à comunicação, esta vai ficando cada vez mais pobre até que, no fim, o lobisomem só consiga se comunicar com uivos e grunhidos. Ao fim de um mês, o licantropo perde toda sua humanidade e qualquer chance de cura efetivamente.
A grande maioria dos lobisomens passa por uma única transformação em toda a sua vida, conhecida entre os grandes magos da carne como “Protomorfose”. No entanto, há uma pequena parcela entre os licantropos que, devido a uma afinidade natural com a arte da transmorfose e a uma força de vontade notável, é capaz de reverter sua forma lupina (holoteriomorfo) para sua forma humanoide (ateriomorfo) ou até um tipo de forma intermediaria (hemiteriomorfo). Esse fenômeno costuma ocorrer durante o dia, quando o lobisomem está mais letárgico, e depende de vários fatores, como a saciedade do lupino e estímulos que remetam à sua vida anterior, a presença de um ente querido, por exemplo.
Essa recaída para a forma humana acontece de forma mais acelerada do que a protomorfose, podendo durar apenas algumas horas. Contudo, enquanto o lobisomem está temporariamente em uma forma humanoide, não se pode dizer de maneira alguma que ele está curado. Se receber estímulos suficientes ou passar por situações extremamente estressantes, é possível que volte à forma lupina repentinamente e de forma tão rápida quanto sua reversão a forma humanoide. Além disso, a forma humanoide nunca será exatamente a mesma que antes. O licantropo pode apresentar sinais como hipertricose, membros de tamanho anormal, compulsão alimentar e até um aguçamento em seu sentido do olfato.
A água argêntea é um preparado, frequentemente descrito como uma “poção mágica”, destinado a interromper temporariamente os processos de mutação da licantropia. Sua fórmula exata é mantida em segredo por magos e alquimistas, mas acredita-se que um de seus componentes principais seja a prata. Quando ingerida por um licantropo, a água argêntea atua sobre o metabolismo, retardando ou mesmo interrompendo a metamorfose enquanto seus efeitos perduram no corpo. Embora seja eficaz a curto prazo, ela não é uma solução definitiva, pois o uso prolongado pode causar graves problemas de saúde, como intoxicação por metais, degeneração dos tecidos ou falência orgânica. Além disso, cessar o consumo da poção resulta no retorno da maldição.
A popularidade da água argêntea, somada à sua escassez, criou um mercado de falsificações e charlatanismo, onde muitos tentam replicar a fórmula ou vender tônicos "mágicos" como substitutos. No entanto, até hoje, não há registros de outra poção que consiga reproduzir seus efeitos com a mesma eficácia.
A pratamaga atua como um inibidor mágico extremamente poderoso, sendo eficaz na supressão da licantropia, desde que o licantropo mantenha contato contínuo com o metal. Assim como em outros casos de maldição, a pratamaga neutraliza as propriedades mágicas do amaldiçoado. Relatos indicam que aqueles que tocam diretamente o metal não conseguem se transformar, ficando presos em sua forma atual enquanto utilizam um objeto de pratamaga, como um amuleto ou adorno.
No entanto, essa solução não é viável a longo prazo. A pratamaga tem um efeito tóxico sobre seres com magia inerente, como licantropos e outras criaturas sobrenaturais. O contato prolongado provoca envenenamento, manifestando-se através de sintomas como coceira, fraqueza, erupções cutâneas, espasmos, náusea e, eventualmente, deterioração física, podendo resultar na morte em casos extremos.
A Redenção de Cristóvão é, até onde se sabe, o método mais eficaz conhecido para lidar com a maldição da licantropia, embora seja consideravelmente mais arriscado do que os demais. Acredita-se que o ritual tenha sido desenvolvido por monges artamitas para tratar o caso de Cristóvão. Esse homem, em desespero por sua transformação iminente, suplicava por um milagre ao santo das causas perdidas. Conta-se que Cristóvão passou sete dias e noites prostrado diante do monastério, orando incessantemente, sem comer ou beber. Tocados por esse ato de fé, os monges imploraram pela intercessão do santo, que teria revelado a um deles em sonho o ritual capaz de interromper a transformação, exorcizando assim “A Besta” (que muitos acreditam ser um demônio associado a licantropia) do corpo de Cristóvão. No entanto, o ritual foi realizado tardiamente, quando a metamorfose já estava quase completa, o que deixou Cristóvão com uma aparência permanentemente bestial. Mesmo assim, o homem, ou melhor, o cinantropo, foi posteriormente canonizado como São Cinocéfalo. Em homenagem a ele, uma estátua foi erguida em frente ao monastério de Santo Artamo, perpetuando sua história.
Os detalhes do ritual são mantidos em segredo, restritos àqueles iniciados nos mistérios de Santo Artamo. No entanto, existem relatos de pessoas que passaram pela cerimônia. Segue o testemunho de Banzé, um cinantropo mendicante que viveu nas ruas de Erulia:
Eles (os monges artamitas) me levaram para o monastério, me banharam e rasparam meus pelos. Disseram que eu ia ser curado e que eu precisava ter fé. Sendo sincero com o senhor, eu mesmo não queria ir pra lá, acho que era o diabo falando nos meus miolos. Um tal pater me disse que eu não tinha que querer nada e me levou assim mesmo. Depois do banho, me deixaram preso num quartinho por uns dias, não sei quantos, até que a lua cheia subisse no céu. No dia do milagre, tiveram que me amarrar, e o pater começou a escrever umas letras em mim com uma faca. (Ele aponta as cicatrizes). Quando a lua chegou ao meio do céu, o homem santo começou a falar numa língua estranha e me deu uma coisa para beber. Eu quase vomitei, mas eles me forçaram a tomar. Depois disso, mal me lembro de nada, só de sonhar com um lobo... ou com o Cão, sei lá. No outro dia, acordei no monastério deles, e eu estava curado. Quer dizer, o bicho não estava mais em mim, mas eu fiquei com essa cara de cachorro pro resto da vida.
Com base nesse e em outros relatos semelhantes, pode-se supor que o ritual é realizado apenas durante a lua cheia. A adaga utilizada no processo parece ser sempre feita de prata, e a bebida mencionada por Banzé parece conter o sangue do próprio licantropo, misturado com verbena e outras ervas cuja identidade ainda é desconhecida. A última etapa do ritual supostamente também é a mais crucial, pois se essa parte falhar, o resultado é catastrófico: o amaldiçoado perde completamente sua humanidade, tornando-se um licantropo completo de uma vez só, nestes casos, muitas vezes o corpo despreparado não resiste à transformação drástica, resultando na morte do indivíduo.
O termo cinantropo (homem-cão), ou mais coloquialmente vulver, é utilizado para designar aqueles que foram "curados" da licantropia, mas que ainda assim carregam sequelas. Como mencionado anteriormente, a maldição não pode ser completamente extirpada, apenas interrompida, evitando sua progressão total. Para esse propósito, existem diversos métodos que prometem impedir o avanço da mácula, como cirurgias, derramamento do sangue do lobisomem ou forçar o indivíduo até a exaustão. No entanto, a grande maioria desses métodos não passa de superstição, revelando-se ineficaz em seus resultados.
Os cinantropos, portanto, são indivíduos que mantêm características caninas, cuja intensidade varia de acordo com o estágio de metamorfose em que se encontravam ao buscar tratamento para a maldição. Assim, existem desde cinantropos com aparência majoritariamente humana até aqueles cuja aparência é consideravelmente mais bestializada.
Devido à sua aparência não convencional, é comum que os cinantropos sejam alvo de discriminação e preconceito. Muitos os associam à sua antiga condição de amaldiçoados, temendo-os por acreditarem que ainda possam transmitir a maldição. Consequentemente, não é raro que cinantropos sejam marginalizados, vivendo nas ruas ou sendo forçados a habitar guetos de não-humanos, como acontece em cidades como Erulia, onde até mesmo a sociedade inumana os rejeita. Em virtude dessa segregação, muitos acabam por adotar um estilo de vida isolado, preferindo o ermo à hostilidade das grandes cidades. Outro destino comum para os cinantropos é o caminho da fé. Muitos acabam se tornando devotos de São Cinocéfalo ou de Santo Artamo, enclausurando-se em mosteiros ou templos, onde servem como prova viva da misericórdia dos santos.
A maldição da licantropia é tão velha quanto a própria humanidade, dizem alguns. Embora seja difícil aferir a veracidade dessa afirmação, é inegável que se trata de um fenômeno profundamente enraizado no imaginário das civilizações, a ponto de traçar sua origem exata ser uma tarefa quase impossível.
Algumas correntes de pensamento interpretam literalmente a frase "o homem é o lobo do homem" e acreditam que a licantropia tenha surgido espontaneamente, como uma manifestação dos impulsos mais sombrios da natureza humana. Por outro lado, muitos acreditam que a licantropia tenha sido uma punição divina, uma forma de os deuses castigarem os homens por seus pecados. Essa interpretação é a mais popular e aparece em diversos mitos. Um dos mais conhecidos é o de Licano, um rei que, ao desafiar os deuses e cometer atos brutais, foi condenado pelo deus Feramir a se transformar em fera.
No entanto, o mais provável, segundo estudiosos é que a licantropia tenha suas raízes no Oriente e seja fruto da feitiçaria antiga. Relatos históricos sugerem que a maldição foi criada por meio de rituais arcanos há milhares de anos, com os registros mais antigos datando de quase oito mil anos na região onde hoje é Nadia.