Three Goblin Art
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@the-eternal-ghost
Santuário
Uma porta se abriu para mim, Era a porta do meu santuário. Agora que o outro mundo não existe mais, E após me desfazer o quanto pude, Ela pôde se abrir enfim. Ao adentrar pela porta, Percebo que não há luz. As velas que iluminavam cada cômodo, Caíram em virtude dos tremores do outro mundo. Pego uma por uma e tento acendê-las, Mas poucas conservam um filete de fogo. As restantes, sem qualquer sinal de reação. Assim, pego uma das poucas ainda iluminadas, E caminho para um vulnerável cômodo. No momento em que entro no novo ambiente, Um monstro aparece à minha frente, E grita com a intenção de me atacar. Porém, conforme me aproximo dele, Vejo que era apenas uma sombra, De um ferido filhote inofensivo. E então me direciono para outro cômodo, No qual vejo o pior dos destinos, Com um papel no chão dizendo: "Eu sabia que isso aconteceria". Porém, no único passo antes de ficar paralisado, Esbarro em um oculto projetor. Percebo que era apenas um filme o que passava, Que se repetia dia após dia, Em virtude de um dano ao projetor, Que impediu a exibição de outro filme. Ao tampar a lente do projetor, Noto que o filme ocultava uma porta, Uma porta que deixa escapar sua luz.
Nada mais
Aqueles que diziam olhar para as estrelas, Aqueles que diziam ser elevados perante a natureza, Agora brigam com os vermes, Querendo descobrir quem devora quem, Até encontrarem uma mão alheia para trucidar apenas pelo prazer, Dizendo com soberba que se fez a lei do mais forte. Se crê num deus, Se crê na razão, Se crê no amor, Se crê na evolução, Se crê na boa-fé, Se crê na arte, Se crê na paz. Se age pelo eu, Se age pelo medo, Se age pela conveniência e nada mais. Podemos ser muito mais, mas não seremos. O único caminho é o precipício e nada mais.
Espinhos da rosa
Ela segura uma rosa contra seu coração, Agindo de maneira angelical, Tal como foi em sua vida inteira. E assim ela descansa, Sem uma iniquidade qualquer.
Porém, suas mãos se abrem, E a rosa voa para longe. Eis que se percebe sangue em suas mãos, A rosa que lhes disseram para segurar, Pelos diversos espinhos da rosa que segurou durante sua vida. E mais sangue, mais sangue escorre, De um ser que mal se sabia que sangrava de verdade.
E seu sangue não possui coloração normal, Pois carregou um veneno durante toda sua vida, Sem que ninguém a avisasse.
Cubo mágico
Não há movimento que imagine, Para alinhar os lados de teu cubo. Muitas cores, pouco tempo. Já não há mais como questionar: O cubo que segura em mãos é amaldiçoado. (Há prova maior que a escuridão debaixo de cada peça?)
Mas não há mal em demorar a montar, Nem mesmo se nunca finalizá-lo. Cada um com seu próprio cubo, Cada qual com suas cores. O importante é não deixá-lo inerte.
Fileiras e mais fileiras surgirão, Provocando novos lados em seu cubo, Clamando por sua reorientação. Contudo, não se desespere pelo clamor, Pois o alinhamento somente será feito, Se fizer ao teu ritmo, ao teu desejo.
Eis que um dia notará, Que não havia motivo algum, Para deixar tua mão queimar: As colunas impossíveis de se harmonizarem, Eram apenas colunas, como quaisquer outras.
Sobrevivência
E com uma brisa, As portas abriram, E os monstros se trancaram. Um sopro de esperança acinzentada. Um golpe de vista, Que de repente se tornou um punho. E porta se abriu, E uma outra, E uma outra, E uma outra, E uma outra... E o mundo se abriu. No topo da masmorra de misérias, Um horizonte escuro e seu oceano, E outro da vila reluzente. Para qualquer lado que eu caia, Há alguma chance de sobrevivência?
Meta cumprida
No mais claro dos dias, Me lembrei de minha alma, E a doença que a acompanha.
Protelei sua cura, Até quando não deu mais, Mas a areia da ampulheta se acabou.
A alma envenenou e poluiu o corpo, O corpo atacou a alma. A arrancou de si, Com tamanha delicadeza, Que quase não se percebe: Litros de vida maldita, Escapam da luta perdida... Escapei e fugi de mim mesmo.
Eis então que o corpo se curou, Tal como eles dizem: Cortou-se o mal pela raiz.
Caminhada
Nos meus passos pelas sombras, Olhei para o horizonte anêmico, E desejei ser uma criança novamente.
Retorno aos dias de descoberta, Retorno às dores da inocência. Oh... Retorno ao vislumbre daquilo, Que nem ao menos desejava. Oh... Retorno à exclusividade, De ser o único caminhando nas sombras.
O dia em branco
Aperitivo de uma vida sem passado, O primeiro dia sem correntes. Sobremesa ineditamente doce, O último dia sem mentes.
Não há fardo contaminante, Ou linha determinante. Foi-se a proteção por sufocamento.
O que há é um manto de aconchego, Que protege cada um sem sofrimento. Um peso que dá leveza à alma.
Porém, quando o deslumbre acabar, Mesmo o mais doce suspiro na vida, Conseguirá suportar a pressão, Da sujeira de milhares de dias?
Relógio
Os ponteiros do relógio, De cima para baixo, De baixo para cima, Os ponteiros giram...
... E agora não giram mais. Uma mola se quebrou, E os ponteiros não giram mais. Todos se apontam para baixo.
O ponteiro dos segundos, Murmuria alguma vida própria. Sobe até a metade do dia, Num dia de boa sorte.
Os ponteiros dos minutos, Os ponteiros das horas, Não se levantam por conta própria. Diariamente se deslocam para baixo, Independente de como pender o relógio.
Entretanto, com ou sem giros, O tique-taque final se aproxima, Do relógio já descascado de sua cor, Do relógio dos ponteiros dormentes.
Eclipse
Há uma Lua bloqueando a luz do Sol, E seus fios dourados de vida. Eis um eclipse desalentador, Que somente se impõe para você.
Não se sabe como mover o pedregulho, E então maldita passa a ser o planeta, Assim como o Sol que se esconde de ti.
Pena que não te ocorreu, Que existem outros sem luz, Mesmo que luas existam, Num espectro de cor, Imperceptível aos teus olhos.
Cada Lua tapa um Sol diferente, Para cada um com uma Lua para lamentar.
Retirada estratégica
Litros da essência de esperança, Sangram em direção ao céu, Em busca de um refúgio distante, Usando véu preto pelos que ficaram.
Viram que aquela luta estava perdida, E que detrás da calada neblina, Havia para cada gotícula essencial, Uma não muito relutante guilhotina.
Com o testemunho do tempo, de fato, O pessimismo se provou correto. Uma cortina vermelha abraçou o corpo, E o fez dormir ali perto.
Os participantes restantes da essência, Então retornaram apesar do cenário assustador. As gotículas criaram vida com grande sofrimento, Conscientes de que não há renascimento sem dor.
Imperatriz desistente
As águas estão paradas. Toda gota de arrependimento, Já se cansou do gosto do conflito. Todas as gotas aceitaram seu destino.
Mas a imperatriz que move cada mundo humano, Impede a amarga doçura da completa paz. Ela é uma boa intencionaa egoísta sem perceber, Escolhe te afogar lentamente, Mesmo que já não exista costa alguma, Para ser alcançada por você.
Aspire o amargo doce com que ela quer embriagar, Feito a partir dela, sua própria essência doente. Vá para algum lugar para fechar os olhos, E por um momento não pense. Acredite, tudo se resolverá. ... ... ... (Não havia mais nada para tentar lá em cima. Fez uma boa escolha, mas suporte as consequências.)
Água cinzenta
Bebo minha água cinzenta, Noite ou dia, sempre que for possível, Para que possa sobreviver, Impedindo que meu sangue dissolva.
Bebo a completa ausência, Para que possa me salvar do incurável, Para que seja a máscara de oxigênio, De um espírito quase sem pulmão.
Minha vitalidade ainda caminha, Todavia, só é capaz de mancar agora.