( 𝑝𝑎𝑢𝑙 𝑎𝑛𝑡ℎ𝑜𝑛𝑦 𝑘𝑒𝑙𝑙𝑦 ) há algo profundamente perigoso em certas histórias… especialmente naquelas protagonizadas por 𝐰𝐢𝐥𝐡𝐞𝐢𝐦 𝐟𝐥𝐨𝐫𝐢𝐚𝐧 𝐈𝐈 𝐡𝐚𝐭𝐳𝐟𝐞𝐥𝐝-𝐭𝐫𝐚𝐜𝐡𝐞𝐧𝐛𝐞𝐫𝐠. aos 𝐭𝐫𝐢𝐧𝐭𝐚 𝐞 𝐪𝐮𝐚𝐭𝐫𝐨 anos, ele carrega o legado de 𝐩𝐫𝐢́𝐧𝐜𝐢𝐩𝐞 𝐟𝐥𝐨𝐫𝐢𝐚𝐧 ( 𝐬𝐧𝐨𝐰 𝐰𝐡𝐢𝐭𝐞 ) & 𝐬𝐢𝐥𝐯𝐞𝐫𝐦𝐢𝐬𝐭 ( 𝐩𝐞𝐭𝐞𝐫 𝐩𝐚𝐧 ) em cada aspecto de sua narrativa. ligado a casa 𝐛𝐞𝐥𝐚𝐝𝐨𝐧𝐚, tornou-se conhecido entre outros alunos por sua reputação de 𝐢𝐧𝐝𝐢𝐯𝐢𝐝𝐮𝐚𝐥𝐢𝐬𝐭𝐚 e 𝐦𝐚𝐧𝐢𝐩𝐮𝐥𝐚𝐝𝐨𝐫 — qualidades extremamente valorizadas em mythborne — ainda que existam rumores persistentes sobre uma natureza 𝐜𝐚𝐫𝐢𝐬𝐦𝐚́𝐭𝐢𝐜𝐚 e 𝐬𝐚𝐠𝐚𝐳 escondida sob toda essa deturpada perfeição.
𝖔𝖓𝖈𝖊 𝖚𝖕𝖔𝖓 𝖆 𝖙𝖎𝖒𝖊…
em algum dia, perdido no tempo, houve uma história em que o príncipe florian encontrou branca de neve sob a luz clara de uma manhã qualquer, entre os jardins do castelo e o poço. ele passava a cavalo, sem urgência, como fazia quando desejava escapar por algumas horas do nome que carregava. naquela manhã, era apenas um rapaz que ouvira uma voz entre as árvores e decidira segui-la. encontrou branca de neve vestida com a simplicidade que a rainha lhe impunha, cercada de pássaros e de pequenos animais. era pouco, quando contado. um encontro breve, algumas palavras, a maneira como ela sorrira antes de recordar que talvez não devesse. para florian, bastou. descobrira em pouquíssimo tempo que a queria. sem imaginar que, do alto do castelo, grimhilde assistia. os dois não perceberam a figura junto à janela, nem o modo como a rainha permaneceu imóvel depois que florian partiu. interessante… a casa de hatzfeld-trachenberg, do príncipe, não governava aquele reino, mas possuía terras, ouro, soldados, parentes entre cortes vizinhas e ligeira influência. e na história original, o príncipe foi convocado pela rainha depois daquele dia. atravessou os portões do castelo, foi conduzido à sala do trono, retiraram-lhe a espada e o empurraram por uma escada estreita. não houve acusação, e muito menos uma sentença. a porta de ferro se fechou, e florian esperou que alguém retornasse para explicar o engano. na história que deveria ter seguido, ele encontraria um meio de escapar. os animais da floresta o guiariam até a clareira onde branca de neve repousava sob vidro, imóvel entre flores. florian se inclinaria sobre ela, o beijo aconteceria, e o mundo reconheceria a ordem das coisas. o amor seria recompensado. mas, na reescritura, nunca houve fuga.
florian permaneceu na masmorra. dias, que se tornaram semanas. contou as refeições enquanto elas vieram com regularidade. riscou a parede com a ponta de uma fivela, até a fivela se partir. e quando os olhos se acostumaram à penumbra, a diferença entre manhã e tarde tornou-se pequena. em certos períodos ninguém abria a porta, até que uma tigela surgia empurrada pelo chão. os homens responsáveis pela guarda foram substituídos tantas vezes que alguns sequer sabiam quem estava preso ali. chamavam-no de príncipe por deboche, até simplesmente deixarem de chamá-lo. e água vinha do teto. infiltrava-se por uma rachadura, percorria a pedra coberta de limo e caía numa cavidade do chão. no início, florian a recolhia com as mãos. bebia pouco, atento ao gosto de ferrugem e terra. depois, houve noites em que encostou a boca diretamente na parede e esperou cada gota. conforme a sanidade decidia deixá-lo, falava para ocupar o espaço entre uma queda e outra. repetia conversas antigas, declamava trechos que seus tutores o obrigaram a memorizar. dizia o nome dos cavalos, das histórias. pensava que seria o seu fim. mas, em algum momento, a água respondeu. ou era apenas fruto de sua cabeça? uma gota caía depressa quando ele perguntava algo, duas quando reformulava a pergunta. às vezes, parecia que som vinha de dentro da parede, um murmúrio fino. ele riu na primeira vez que percebeu. riu por tanto tempo que terminou curvado sobre o chão, a testa apoiada nos joelhos, sem saber se havia encontrado companhia ou perdido o último pedaço de si. depois disso, passou a conversar sem vergonha. contava à água o que não diria a nenhum confessor. ela não o absolvia, mas também não o interrompia. e quando a febre vinha, florian se deitava sobre a poça. o frio lhe atravessava a roupa, alcançava a pele e os ossos, mas por alguns instantes conseguia fingir que estava no salão de mármore de trachenberg, no auge do inverno.
a porta se abriu em uma quarta feira de clemência. a claridade do corredor o fez lembrar que luz existia, exaurindo-o, obrigando-o a cobrir os olhos. viu apenas o contorno de um vestido escuro e os sapatos da rainha sobre a pedra suja. grimhilde observou o homem agachado diante dela com orgulho de seu serviço, disse que poderia sair. ele havia imaginado sua libertação tantas vezes que a realidade lhe parecia inalcançável. mas tudo tinha seu preço. os hatzfeld-trachenberg, afinal, continuavam ricos. possuíam rotas de comércio, terras férteis, vínculos militares e influência suficiente para suavizar a resistência de outras famílias. durante a ausência do herdeiro, representantes da casa haviam enviado cartas, presentes e pedidos formais, todos ignorados. nenhum ousara marchar contra o castelo; a família não sacrificaria sua posição por um filho. florian poderia regressar. poderia vestir outra vez as cores de sua casa, ocupar seu lugar à mesa, casar-se e ter filhos. conservar títulos, propriedades e ter uma vida bastante confortável, para que os outros chamassem aquilo de misericórdia. em troca, ajoelharia ali. juraria lealdade à rainha e à ordem que se erguia com a reescritura. entregaria nomes, recursos e informações. também denunciaria aqueles que tentassem restaurar as histórias anteriores, convenceria os nobres indecisos de que a submissão era prudência. quando solicitado, permitiria que a autoridade de sua família fosse usada para conferir dignidade ao governo dos vilões. e é claro que ele se ajoelhou.
o retorno a trachenberg foi recebido com sinos. a família precisava que todos acreditassem numa negociação bem-sucedida. criados lavaram as escadarias, bandeiras foram erguidas e os portões permaneceram abertos para que os moradores das terras vissem o príncipe atravessá-los a cavalo. florian vestia roupas emprestadas e mantinha a coluna reta, embora cada movimento lhe custasse. o pai morrera durante o período em que florian estivera preso. uma enfermidade curta, disseram, agravada pelo silêncio da corte e pelos rumores de que o filho seria executado. florian herdou o título, as propriedades e a obediência dos homens que antes respondiam ao pai. herdou também os acordos que não conhecia e a vergonha que a família tentava esconder sob cerimônias. os hatzfeld-trachenberg haviam negociado com aliados da rainha durante sua prisão. não por crueldade, diziam, mas para preservar terras, empregados e parentes. a mãe chamava de sobrevivência aquilo que florian reconhecia como sua própria escolha. não a condenava, mas era por isso que mal conseguia olhar para ela. os criados apararam seus cabelos, substituíram as roupas e aprenderam a deixar os corredores iluminados. e florian deitava-se sempre próximo à porta, os sapatos ao alcance da mão… pois a prisão viera com ele. estava na maneira como contava os passos entre o quarto e a escada, na dificuldade de beber água limpa sem sentir o gosto da parede. estava, sobretudo, no juramento. pois tão logo, vieram os pedidos da rainha. cumpria o bastante para não ser acusado de traição e retardava o que podia. cada gesto de resistência trazia alívio apenas até que se lembrasse daqueles que não conseguira salvar. sua culpa ainda o mantinha desperto à noite.
e havia a água, que não vinha mais do teto. mas parecia rir quando ele tropeçava numa poça, fazia círculos no copo sobre a cabeceira de sua cama à noite. durante algumas semanas, florian fingiu não perceber. até começar a deixar uma jarra cheia perto da cama. falava com ela depois que a casa silenciava, em voz baixa, embora soubesse que os criados já o consideravam estranho. a presença conhecia a masmorra. não havia como ser invenção! pensava aquilo, e logo depois, recordava quantas vezes conversara sozinho sobre aquelas coisas… afinal, silvermist demorou meses para lhe dizer o nome. uma sucessão de sons dentro da bacia em que florian lavava o rosto. ele repetiu o que julgava ter ouvido, e a água subiu pela borda do recipiente, tocando-lhe os dedos. foi assim que soube que não estava sozinho. a pixie sobrevivera à reescritura dissolvendo-se. em neverland, a magia que deformara as histórias se infiltrara no solo, contaminara riachos e tornara a própria água hostil às criaturas que antes a habitavam. para fugir, ela abandonara a forma física. desfizera pele, cabelos, asas e voz, reduzindo-se à consciência dispersa entre rios e poças. imaginara que voltaria ao corpo assim que estivesse segura… mas não voltou. alguma coisa a mantinha presa à água, impedindo que seus limites se reorganizassem. com o tempo, silvermist já não distinguia a extensão de si mesma. podia sentir chuva caindo a quilômetros de distância e, ao mesmo tempo, perder partes inteiras da memória quando um lago secava. não soube dizer por que escolheu permanecer na masmorra. ainda assim, ficou. observou florian falar sozinho, delirar de febre. viu quando ele encostou a boca na infiltração e bebeu o lodo da pedra como se recebesse água pura. parecia tão devoto ao líquido, que de retorno, foi a primeira vez em que desejou mais intensamente ter forma. ser capaz de tocá-lo. sob sua palma, nasceu intimidade. ela o conheceu sem roupas limpas, sem título, sem a voz bem colocada. conheceu a fome, o mau cheiro, os acessos de riso e os períodos em que florian permanecia horas sem falar. ele, por sua vez, amou primeiro uma presença. não havia beleza a contemplar, nome de família a avaliar ou corpo que pudesse ser apresentado à corte.
a mãe observava o filho passar horas junto às fontes e evitava perguntar. havia começado a receber propostas de casamento assim que florian regressara. famílias interessadas em unir seus nomes aos hatzfeld-trachenberg enviavam retratos, genealogias e cartas que descreviam jovens mulheres. florian recusava todas, e ainda sim, com o passar dos meses, passou a falar sobre dever. a casa precisava de continuidade, um herdeiro não podia permitir que o sofrimento pessoal encerrasse uma linhagem inteira. e, recusando-se a desistir… tomou uma atitude precipitada. procurou… a rainha má. ah, grimhilde concordou tão depressa. recebeu a água em que silvermist se manifestava, perguntou a florian se aquilo era amor. e sorriu quando o concedeu a magia. ela ganhou forma em um ritual, de pixie, de humano, conforme fosse desejado. mas não era tudo. havia dentro do encantamento um fragmento de magia das trevas, escondido entre aquilo que mantinha os ossos, a pele e as asas no lugar. a rainha não precisava mais depender somente do medo de florian; havia criado uma passagem. poderia alcançar silvermist à distância, contaminar seus sonhos, ver através de seus olhos quando lhe fosse conveniente. seu cavalo de tróia.
eles casaram-se meses depois, numa cerimônia junto ao rio que atravessava as terras dos hatzfeld-trachenberg. eram felizes, como jamais imaginavam que poderia ser. e, ainda sim, a magia implantada por grimhilde despertava em silvermist quando ela menos esperava, sem que eles sequer imaginassem. havia noites em que ela surgia diante de um espelho sem recordar como atravessara a casa. foi nesse intervalo, com uma mãe atravessada pela maldição e um pai que ainda se via ajoelhado sobre a pedra, que nasceu o primeiro filho. a família celebrou a criança como continuidade da casa. florian tornou-se um pai atento e inquieto. temia que grimhilde encontrasse naquela criança mais uma forma de puni-lo. mas, os anos não apagaram branca de neve. também não o impediram da imprudência; nem os anos, nem sua família. a curiosidade pelo proibido aproximou os dois novamente, florian e snow. não há certeza sobre quem procurou quem, mas um encontro tornou-se outro, depois outro. intimidade, ressentimento, desejo contaminado por tudo o que não acontecera. florian amava silvermist. isso não o parou. em pensar que pouco depois, surgiram os primeiros sinais da doença. quando se imaginava ainda que todos desconheciam sobre o caso. e ali estava o que o engoliria para o resto dos dias. a sombra da masmorra que foi ineficaz em apagar, voltava para morder-lhe.
𝖆𝖓𝖉 𝖓𝖔𝖙 𝖘𝖔 𝖍𝖆𝖕𝖕𝖎𝖑𝖞 𝖊𝖛𝖊𝖗 𝖆𝖋𝖙𝖊𝖗…
florian ii, wilheim, ou apenas wil, cresceu quase inteiramente sob os cuidados da mãe. quando alcançou idade suficiente para compreender alguma coisa do mundo, a doença já havia avançado pelo corpo de florian a ponto de reduzi-lo, aos poucos, aos limites de uma cadeira de rodas, de uma cama, dos braços de criados que precisavam erguê-lo e alimentá-lo. o homem que wil conheceu como pai pouco se parecia com o príncipe preservado nos retratos. restava-lhe alguém magro, de mãos instáveis, que por vezes demorava a reconhecer o próprio filho. havia momentos melhores, manhãs em que florian conseguia sentar-se junto à janela e perguntar pelos estudos do menino, mas a conversa quase sempre se perdia numa palavra esquecida, numa dor que o obrigava a fechar os olhos ou no copo de água que permanecia intocado sobre a mesa. foi, portanto, silvermist quem o criou. não fosse a influência da avó, wil talvez tivesse crescido como uma reprodução perfeita de silvermist, ou daquilo que ainda usava seu rosto. durante quase toda a infância, não havia como distinguir a mulher que o afagava antes de dormir da magia que a controlava por dentro. sua mãe era gentil, atenta, capaz de permanecer horas junto à cama quando ele adoecia. também era severa de uma forma que não admitia falhas pequenas. corrigia a posição de seus ombros, a escolha das palavras, o modo como segurava os talheres e até o tempo que demorava para responder a alguém de posição inferior. não bastava que aprendesse. precisava aprender depressa, sem hesitação e sem deixar que o esforço aparecesse. era o herdeiro dos hatzfeld-trachenberg, o filho de um homem que definhava diante do reino e, cedo ou tarde, teria de ocupar o lugar deixado por ele. sua mãe repetia isso enquanto ajeitava seu colarinho, o fazia recomeçar uma saudação ou o obrigava a permanecer numa sala cheia apesar do cansaço. ele não conhecia o juramento feito à rainha, não entendia o acordo que permitira a sobrevivência de sua família nem sabia separar o que vinha desse compromisso daquilo que era simples crueldade herdada. nele, as inclinações menos nobres nunca foram exatamente tentações. na verdade, estavam eluídas na educação, ao medo de perder o nome, às recompensas oferecidas quando se mostrava superior aos outros. ganância, avareza, gula, orgulho. ambição, prudência, apetite, dignidade. quando wil teve idade para perceber o que carregava, não sabia onde essas coisas começavam. haviam crescido junto aos ossos.
entretanto, a ausência de poderes tornava tudo mais difícil de suportar. ser filho de uma pixie e herdeiro de uma casa tocada tantas vezes por magia deveria significar alguma coisa, e ainda assim nada se manifestava. silvermist convocou tutores, feiticeiros, estudioso. num consenso, eles diziam que era cedo, e que alguns dons demoravam. por fim, com os anos, passaram a evitar qualquer resposta. wil observava os pequenos prodígios de outras crianças e não importava que dominasse línguas, genealogias, comércio, política ou que conseguisse compreender, ainda muito jovem, os movimentos de uma sala antes mesmo de alguém lhe explicar quem possuía poder ali. também não importava o carisma, tudo aquilo lhe parecia compensação. e na adolescência, a inquietação adquiriu método. passou a estudar magia sozinho, leu sobre bênçãos, pactos, heranças, deuses menores, maldições capazes de conceder aquilo que o sangue falhara em fornecer. foi assim que chegou a wonderland. entre relatos contraditórios e mapas que não coincidiam, encontrou menções a dois espíritos que habitavam uma floresta onde os caminhos mudavam de lugar. diziam que poderiam elevar um mortal comum, aproximando-o do divino em troca de uma prova que nenhum texto descrevia por inteiro. o rumor era diluído por traduções, havia boas razões para não acreditar. ainda assim, partiu sem avisar à mãe. procurava a pedra, com o símbolo da kindred entalhado nela. o que os relatos falhavam em dividir era que… a marca permanecia à espera desde a morte do último portador, um homem que, consumido pelo que carregava, tirara a própria vida na tentativa de escapar. ninguém mencionava que a bênção e a maldição eram a mesma coisa.
mas talvez wil já estivesse condenado desde o dia em que recebeu o nome do pai. tolice hereditária. ele a encontrou. e na noite em que tocou a marca, não soube o que aconteceu. lembrava-se da pedra fria na palma, das árvores inclinadas sobre ele e de um som baixo, semelhante à respiração de um animal muito próximo. acordou em sua própria cama, no castelo, com terra sob as unhas e a pedra guardada no bolso das vestes. ninguém soube explicar como voltara. silvermist permaneceu ao lado dele durante dois dias, molhando-lhe a testa e fazendo perguntas que wil respondia apenas pela metade. a compreensão plena do que acontecera, entretanto, só lhe veio com os anos. as vozes. julgou que o cansaço tivesse alterado o ruído habitual dos pensamentos. surgiam em sua mente frases que pareciam não nascer inteiramente dele, impressões completas, inferências, uma fome repentina por coisas que nunca desejara. com o passar dos dias, as presenças deixaram de se confundir com sua voz e começaram a conversar entre si. às vezes o ignoravam. em outras, falavam através de suas lembranças, sugerindo caminhos, interrompendo ideias. parecia enlouquecer; foi flagrado gritando para exigir silêncio diante de uma mesa onde ninguém havia dito nada. parava no meio de uma conversa para escutar alguém que não estava ali, respondia perguntas que não lhe haviam feito, apertava as têmporas quando as vozes discordavam. aqueles que o conheciam pouco atribuíram o comportamento à excentricidade dos hatzfeld-trachenberg. e em algum tempo, ele já conseguia distingui-las… as vozes. wolf trazia a violência, a fome, o prazer simples de destruir aquilo que demonstrasse fraqueza. sheep falava mais baixo. sábia, nunca tinha pressa, e envolvia as ideias mais cruéis numa lógica difícil de recusar. eram espíritos, demônios, algo ao meio. wil compreendeu apenas que a marca lhe dera companhia e que, a cada dia, o espaço reservado a ele dentro da própria mente parecia menor.
a sanidade, naquele momento, pareceu-lhe uma moeda negociável. a marca havia despertado algo que ele já possuía ou implantado aquilo que antes faltava, e wil não se deteve na diferença. descobriu os reflexos. sob a orientação de sheep, aprendeu a prolongar as imagens, a procurar lugares específicos, a seguir vozes até que se tornassem nítidas. escutava conversas ocorridas muito longe, assistia a reuniões fechadas, via mãos trocando documentos e testemunhava o impossível. o poder ainda era incerto, mas lhe oferecia aquilo que jamais tivera; acesso. de repente, as portas diante das quais o sobrenome de sua família hesitava podiam ser atravessadas. wil descobriu quais conselheiros roubavam, quais nobres tramavam alianças, quais promessas grimhilde fazia em particular e negava diante dos outros. e já possuía inteligência suficiente para entender o valor dessas informações. wolf tornou o desejo insuportável. soprava que ouvir não bastava, que todo segredo deveria produzir vantagem, que a vida do pai era prova do que acontecia aos homens que aceitavam permanecer à margem. florian aparecia cada vez mais franzino, as pernas cobertas por mantas mesmo no verão, a voz falhando. o filho o observava e sentia algo que não admitiria diante de ninguém. havia desprezo quando jurou que não chegaria ao mesmo fim. os fragmentos recolhidos nos reflexos lhe ensinaram como se aproximar do conselho, quando se mostrar útil e de que maneira transformar uma informação em dívida. cultivou essa habilidade com a disciplina que silvermist lhe ensinara para outras coisas. se empenharia em provar que podia tornar-se um vilão com a mesma competência daqueles que haviam condenado sua família. não seria apenas filho de um homem que cedeu, não… seria alguém diante de quem os outros precisariam ceder.
a pergunta sobre o custo não veio, e ele pagou seu preço sem saber. durante algum tempo, wil acreditou que poderia interromper as vozes quando desejasse, afastar-se da pedra, dormir sem ouvi-las. wolf e sheep aprenderam a esperar. ocupavam seus sonhos, confundiam lembranças, novamente faziam surgir desejos que ele reconhecia como estranhos apenas depois de realizá-los. pouco a pouco, a necessidade de poder deixou de explicar tudo. havia gestos que não lhe serviam, crueldades sem ganho, impulsos que permaneciam em seu corpo mesmo quando os recusava. perda de autonomia silenciosa, sucessão de pequenas concessões. só compreendeu a extensão do que havia cedido na manhã em que acordou com as mãos ao redor do pescoço do pai. estava no quarto de florian, ajoelhado sobre a cama, o corpo inclinado sobre o homem já imóvel. os dedos ainda pressionavam a pele fria. não sabia como chegara ali. a última lembrança era de ter adormecido em seus aposentos, duas alas adiante, após horas observando um encontro pelo fundo de uma bacia. wolf ria. e o som enchia sua cabeça com uma alegria que o nauseava. nos pergaminhos, o lobo era descrito como aquele que caçava os que fugiam do próprio fim, levando-lhes a violência derradeira. florian passara anos escapando da morte, aprisionado num corpo que se desfazia sem terminar de morrer. wolf considerara aquilo um convite para a correção. e wil permaneceu sobre o cadáver sem conseguir afastar as mãos, encarando o rosto do pai. silvermist o encontrou assim. retirou os dedos dele um por um, ajeitou as roupas de florian e chamou dois criados de confiança. falou em agravamento súbito da doença, em uma morte tranquila durante o sono. tão calma. enquanto a casa se enchia de passos e ordens sussurradas, wil esperou que a mãe lhe perguntasse o motivo ou lhe dissesse que sabia. silvermist apenas lavou suas mãos. nada fazia sentido.
a morte de florian trouxe benefícios. wil herdou oficialmente o título, as propriedades e o assento que a doença do pai mantivera apenas por tradição. aproximou-se de grimhilde porque agora possuía utilidade própria. talvez a perda tivesse valido o preço, wolf sugeria, nos dias em que a culpa começava a adquirir forma. sheep não concordava nem negava. foi nesse período que se aproximou de charlize, filha de grimhilde. a atração impensada. havia nela alguma coisa que abafava as vozes. diminuía o atrito constante, como se wolf e sheep recuassem para observá-la. wil procurava sua presença com a mesma urgência com que antes buscara a pedra. conversas breves se tornaram uma relação da qual ele não soube se proteger. entregou-se com a intensidade de uma salvação. achou que aquilo fosse amor porque, perto dela, conseguia ouvir o próprio pensamento durante alguns minutos. e era amor, para sua infelicidade futura. pediu-a em casamento e… assistiu tudo ruir. charlize queria saber onde ele estava, com quem falava, o que pensava quando permanecia calado. lia demora como traição, distração como desprezo. fechava portas, retirava chaves, mantinha-o em seus aposentos quando acreditava que ele pretendia afastar-se. havia momentos em que o abraçava até que lhe faltasse ar e jurava que tudo aquilo nascia do medo de perdê-lo; vigiava seu sono. wil reconheceu tarde demais a masmorra sem paredes. não era seu pai, mas wolf falava como estava parecendo-se com ele. e ela… não queria perdê-lo. dizia isso tantas vezes, que não o queria ver jamais com mais ninguém. que o mataria. e com os meses, a proibição parecia a única saída. não havia outra maneira de fugir dela, e nem suportaria a ideia de continuar preso sob aqueles olhos obcecados. terminou fazendo exatamente aquilo que ela temia. traiu-a e esperou, com uma parte obscura de si, que a descoberta produzisse a libertação. produziu o fim. e depois, durante anos, perguntou-se se fora wolf quem contaminara também aquilo, se a marca havia transformado amor em outra fome e utilizado seu corpo para destruí-lo.
o tempo lhe provou que a resposta era ainda pior. desde a noite em que matara o pai, wil passou a investigar a kindred com mais afinco. procurava uma forma de separar dom e maldição, de impor limites às vozes ou arrancar a marca antes que não restasse suficiente dele para desejar ser salvo. e a busca o levou a estudar pactos, possessões, heranças mágicas, encantamentos. tornou-se, aos poucos, especialista naquilo que o consumia. foi assim que começou a suspeitar de charlize, a dualidade tão bem partida do antes e depois do pedido. a confirmação veio em um reflexo invadido, numa tarde. era precisamente o que pensava, lizzie fora amaldiçoada pela própria mãe. o controle, a obsessão, a neurose e os impulsos que haviam tornado o relacionamento uma prisão eram alimentados por grimhilde. wil havia colhido, mais uma vez, o fruto de uma maldição. pouco depois, compreendeu também o que acontecia com silvermist. a severidade da mãe, a lealdade inabalável ao acordo, os lapsos que ela ocultava, a calma diante da morte de florian. tudo remontava ao fragmento deixado por grimhilde quando lhe devolvera a forma. era mais grave, mais que colher seus frutos, as maldições sustentavam sua vida. no corpo da mãe, na doença do pai, no amor que terminara em confinamento, nas vozes que ocupavam sua cabeça e na posição que conquistara dentro do conselho. cada pilar sobre o qual construíra alguma certeza. ele buscara poder para não repetir a decadência de florian, entrara na floresta para deixar de ser insuficiente, aceitara ouvir monstros porque acreditava que ainda seria capaz de decidir o que fazer com aquilo. agora, sentado entre os responsáveis pela reescritura, cercado por segredos roubados e pela autoridade que tanto desejara, começava a perceber a profundidade do lugar em que havia entrado. descera sozinho, passo por passo, convencido de que escolher o fundo tornava a queda menos verdadeira. e quando enfim olha para cima, já não consegue distinguir a abertura do poço.
𝔴𝖍𝔞𝖙 𝖑𝔦𝖊𝔰 𝔴𝖎𝔱𝖍𝔦𝖓…
hidrocinese!
durante muito tempo, wil acreditou não possuir poder algum. quando a habilidade enfim se manifestou de forma reconhecível, diferente de sua mãe, não tinha nada do domínio ostensivo sobre rios, chuvas ou grandes massas de água. no princípio, eram apenas… espelhos-d’água. superfícies líquidas suficientemente ou minimamente estáveis passaram a funcionar como aberturas de observação, permitindo que ele enxergasse pessoas, ambientes e acontecimentos ocorridos em outros lugares. a água não reproduz apenas o reflexo diante dela, mas pode revelar imagens distantes quando conduzida pela intenção de wil. sua observação, entretanto, nunca foi completamente livre. localizar um lugar específico exige que possua algum vínculo com o destino, como uma lembrança clara, o conhecimento de sua localização, a imagem de alguém presente ou um objeto relacionado ao que deseja encontrar. quanto mais desconhecido ou distante for o alvo, mais instável se torna a visão. as imagens podem surgir fragmentadas, deformadas pelo movimento da água ou limitadas a poucos segundos, sobretudo quando ele está cansado, emocionalmente perturbado ou tentando observar locais protegidos por magia. sons atravessam o espelho-d’água com menos clareza, chegando como ruídos abafados, que ele teve que aprender a decifrar.
apenas recentemente, após poucas tentativas, wil começou a perceber que essas superfícies não servem somente como janelas, como ferramentas de vigilância. sob determinadas condições, ele é capaz de atravessá-las, utilizando um espelho-d’água como passagem para emergir em outro. para realizar o deslocamento, precisa visualizar com precisão o destino e encontrar nele uma superfície aquática minimamente compatível com a travessia. alterações inesperadas no local de chegada podem interromper o transporte, desviá-lo para outro corpo d’água próximo ou expulsá-lo novamente pelo ponto de origem.
por ainda compreender pouco essa aplicação, wil consegue transportar apenas a si mesmo, suas roupas e objetos mantidos em contato direto com o corpo. atravessar grandes distâncias exige mais concentração e provoca desorientação intensa, perda momentânea de equilíbrio, náusea, sensação de afogamento e dificuldade para distinguir o lugar abandonado daquele em que chegou.
além da observação e do transporte, possui um controle limitado sobre a água ao seu redor. ele pode movimentar pequenos volumes sem contato físico, alterar o curso de um fluxo, erguer porções de água, fazê-las permanecer suspensas por alguns instantes ou moldá-las em formas simples. não é capaz de produzir água, transformar outras substâncias nela ou controlar líquidos presentes no interior de organismos vivos. embora consiga desviar um jato, abrir espaço em uma corrente fraca ou lançar água contra alguém, ele ainda não possui força suficiente para sustentar grandes massas, erguer ondas destrutivas ou comprimir o líquido a ponto de utilizá-lo como lâmina. formas criadas por ele perdem coesão assim que sua concentração é interrompida. o uso prolongado da habilidade provoca dores de cabeça, visão turva, tremores, queda da temperatura corporal e uma sensação persistente de pressão nos pulmões. sob exaustão, medo ou ferimentos graves, os espelhos-d’água podem responder de maneira imprevisível, revelar destinos incorretos ou deixar de reconhecê-lo como ponto de passagem.
𝖙𝖍𝖊 𝖉𝖆𝖎𝖑𝖞 𝖗𝖔𝖚𝖙𝖎𝖓𝖊…
auxiliar do conselho.
é um investigador para o conselho. sua habilidade não é plenamente conhecida pelos vilões que integram, afinal, para a grande maioria, ele é mais um expert em maldições que efetivamente um habilidoso mágico. se sabe, na verdade, que é perfeito em conseguir informações, sempre extremamente valiosas, como se conseguisse estar em mais de um lugar ao mesmo tempo. para a maioria dos vilões que integram o conselho, mantém acordos individuais, atividades paralelas para reinos em exclusivo, como o caso de marelis, wonderland, e rosengarde.
𝖙𝖗𝖎𝖛𝖎𝖆 𝖙𝖎𝖒𝖊!
vem aí!














