A penumbra da noite entrava em conflito com a luminosidade da cidade, mais uma noite fria e vagarosa de dezembro. E eu virava, apenas, mais uma esquina, largando um pedaço de solidão e meu coração em pedaços, porque, não sei, em que momento me perdi. Os olhos fechados, e o sonho de aonde quer que eu vá, eu possa deixar a dor, que não sei ao certo, como aceitei viver uma ilusão. Os reflexos do espelho, já não eram mais iguais, a essência da alma havia se perdido a muito tempo. E tudo que eu podia concluir, era que a culpa de tudo que ocorria, era minha, por ter deixado me levar as ruinas da vida. Me peguei sussurrando comigo: Margô, como deixou isso acontecer?
Longe de todos os lugares, eu só queria fugir do seu mundo e de tudo aquilo que havia ao seu redor, mas não sabia ao certo, só não queria estar perto.
Era mais de quatro horas da manhã e eu havia desistido de caminhar, sentada agora em um banco qualquer na Redenção, o silêncio reinava naqueles instantes, e apenas encontrava meus pensamentos, nele.
- Como é possível alguém dizer que a ama e causar tantas dores e cicatrizes, o seu amor era apenas uma mentira. Como é possível ninguém ver o que estava acontecendo. Como é possível dizerem que eu estou errada e deveria perdoar e amá-lo para sempre. Como é possível perder todas as pessoas que se diziam seus amigos.
Minha consciência dizia, Margô, o erro não foi seu. Você, apenas, estava com medo e esse não é um final infeliz.
E minhas lembranças velejavam em um mar sem fim de emoções frias...
Téo, esse era o nome dele, ele se dizia o melhor namorado do mundo, que fazia tudo por mim, o único que me apoiaria em tudo, segundo ele, é claro, mas quando eu precisava, ele era o primeiro a julgar, gritar, brigar e ignorar.
Enquanto isso, o frio tomava conta do meu coração e eu buscava uma solução, mas eu estava aqui, presa e sem para onde correr, porque eu acreditava que havia amor. O seu jeito me assustava, e fazia meu coração disparar e o meu medo gritar, porque eu acreditava que você ia me destruir, com a força do seus sentimentos, palavras e atitudes.
Seus gritos sempre ecoaram como um rádio estridente prestes a romper minha felicidade, e ele conseguia, sempre rompia. E o silêncio tomava conta de cada partícula do meu corpo, que aceitava os desejos dele ao dizer, “espero, que você morra, porque só estraga tudo que faz”.
Mas, quando estávamos perto de alguém, Téo era um príncipe, dizia que eu era maravilhosa e muito amada, agora, quando estávamos perto de seus amigos, ele me largava em um canto e desaparecia por horas, e quanto voltava, gritava devido minha baixa interação social, ele me obrigava a sorrir e agradar as pessoas, mesmo quando não gostava delas. Muitas das vezes, meu imaginário ia para outro dia, outro lugar, buscar uma chuva de estrelas, mas tudo que eu queria era descobrir uma forma de fugir do Téo, que tinha a mania de gritar comigo e me empurrar antes de dormir, e eu pensava o que fiz, para merecer aquilo, será que seria tratada assim por outro, caso fugisse desse abismo do qual havia me envolvido.
O medo do desconhecido, do vazio, da incerteza me deixava presa aquele relacionamento, do qual eu não entendia mais o porque de estar ali, as atitudes de uma pessoa podem te fazer perder o amor, por ela.
Eu volto das lembranças, como se minha essência tivesse dançado sob um vazio escuro, com apenas uma luz, mas, era apenas, o nascer do sol.
Levantei daquele banco e segui para casa, o caminho foi longo, era como se os minutos não passassem e os passos não colaborassem para eu chegar, precisava alguém para conversar, mas, me sentia sozinha e sem nenhuma chance, pois ninguém estava disposto a me ouvir. Eu, já havia tentado em alguns momentos, mas não mais. Eu ouvia palavras das quais não precisava, que doíam, me perguntavam como fui capaz de tal escolha, como não perdoar o Téo, ele havia me mandado rosas por todos os dias durante uma semana.
Eu quando estava com ele, vivia com a sensação de choro trancado, estar em um poço escuro e frio, desejava sair pela porta dos fundos correndo sem nunca mais olhar para trás. Tudo que eu queria era viver, e ninguém entendia minhas escolhas entre lagrimas, mas o amor havia acabado a muito tempo. As pessoas dizem que o amor não acaba do dia para noite, ainda mais quando as pessoas ficam juntas por muito tempo.
- Margô, você nem conhece o amor, não deve escutar o que os outros falam. Você vai aprender a ficar bem sozinha e ser feliz sozinha. O amor é para somar. – Falava baixo comigo.
Entrando em casa, corri para o meu quarto, era mais fácil pensar sozinha como eu faria para contar para minha família que havia me livrado do Téo. Acreditava que já estava na hora, pois, eu já havia superado aquele termino meses antes. O Téo, não fazia mais parte da minha vida por muito tempo, eu já detestava o ver, sair com ele, preferia ficar sozinha, do que precisar ver a cara dele, ou dormir com ele, ele apenas me causava repulsa com seus gritos e surtos que dava quase todos os dias. Nós havíamos virado estranhos, eu já não sabia nada dele, pois não fazia questão, inclusive não lembrava nem sua cor preferida, dava algum jeito de vê-lo somente duas vezes no mês, ou quando necessário, pois ele me estressava me chamando de “vagabunda” ou “burra”. Qualquer pessoa era melhor do que ele.
Como eu dizia, era quase como dançar com a morte, estar perto do Téo.
O Téo, deixou marcas, buracos e cortes, que eu espero largar nas esquinas a cada madrugada, junto de meu coração idiota, assim, para não deixar ninguém mais tomar conta. Ele levou a doçura, o romantismo, a bondade de conto de fadas, que se foi, para muito longe. E isso, não volta mais, porque, precisamos dizer que crescemos. O que o Téo me proporcionou, me fez adquirir por mérito, minha liberdade, coragem e amor. Eu aprendi a não deixarem me levar aos bosques de sobras de torturas, dos quais passei, as diversas noites que dormia com ele ao meu lado, no último ano.
O meu sonho rosa, virou cinza, porque fui ingênua de deixa-lo me destruir, e foi assim, que resolvi contar, que ele já não fazia mais parte de todo meu castelo e meu mundo. E quando contei que o Téo, tinha ido embora, o vazio e o frio que estava dentro, foram embora, porque não eram nada. Assim, como ele.
Já estava tarde, e eu precisava me perdoar por tudo aquilo que eu vivi, ao estar com ele. E me reerguer em meio as cinzas, porque um coração só foi partido por mera brincadeira do subconsciente de aceitar ser quebrada em partículas de um amor infeliz e desastroso, que teve um fim.
E não adiantava mais, ter nenhuma mensagem sua me pedindo perdão, porque era impossível te desculpar. Por mais que de forma ingênua e inocente tinha esperanças de eu lhe dar o meu silencio e aceitar tudo mais uma vez. Eu só fechei a porta que havia aqui e tudo que eu tinha para te falar, eu engoli e não haveria saudade de você aqui.
Eu dava adeus para uma parte de mim, uma parte da minha vida, para velhos desconhecidos que se diziam amigos e para todas as coisas que você me deu. Porque, simplesmente acabou e eu não precisava de você aqui, eu só sei, que sempre vou me lembrar de você, um erro para não se cometer mais nenhuma vez. O sol adentrava a janela do meu quarto sob as caixas fechadas com tudo aquilo que eu não desejava ver mais uma vez, assim, como as fotos que eu cortava bem em seu rosto, porque infelizmente, às vezes, o amor machuca e você precisa livrar-se, antes que o verão chegue e acabe com suas surpresas e dias de glória.
Eu carregava as caixas para fora de casa, porque nada daquilo ali me pertencia, e não importava mais, porque faziam parte de uma história que envolvia o seu vazio e doentio, amor. Agora, eu sabia que precisava aprender a amar novamente, mas amar a mim. Não importava onde eu iria, eu sempre ia fugir de sentimentos como os quais você me deixou.
O tempo foi passando, e comecei a ver que eu vivia bem sozinha, que havia sido absurdamente idiota e enferma de ficar com uma pessoa como ele. Eu buscava em um lugar que não havia nada e ele fez eu provar da loucura, porque a vida não era aquilo. E havia um verão depois de tudo isso.
O tempo passava, como gotas de orvalho caindo em flores...
E eu descobri que havia um esconderijo da alma, a minha alma estava escondida, se protegendo de todas as pequenas bombas jogadas para apaga-la. E esconderijos da alma, são onde guardamos o nosso melhor, onde ninguém pode os quebrar e ferir. E assim, eu voltei para “casa” com passos sutis e emblemáticos, a minha vida teve suas rédeas controladas por mim, sem nunca mais me importar com todas as pequenas memórias que ficaram, da sua impossibilidade de me destruir. Porque, agora eu estava viva, só para mim.
E as pequenas coisas, começaram a fazer diferencia, como ver o meu sorriso refletindo no espelho antes de dormir, e saber que não importava o que acontecia, sempre haveria uma voz interna, dizendo você é perfeita assim, com todos os pequenos defeitos, mas que são imperceptíveis, quando se conhece a alma e a essência de um amor, o amor próprio. É a busca por um amor que nunca vou encontrar em alguém, só em mim.