poema de resgaste de mim mesma
Quando não tenho mais por onde ir, me encolho nas palavras quentes em sal, que guardei tão cuidadosa entre os bojos da memória. Lembro de todas as meninices vividas,
os fogos estralados que avistei de antemão em todos os instantes,
das batidas firmes dos tambores em terra,
das comidas feitas do milho, e claro da vivência mineira - alho e cebola,
dos feijões postos ao chão, dos pés ardidos em climas quentes (de pouco frio),
das nuvens que me passaram (passarão) como lesmas nos olhos da verdade,
dos vômitos pelo álcool, pela ausência do álcool.
dos corpos-corações que amei (e amo) de forma tão ardida e louca,
porém calma. quase sempre calma.
dos pulos de olhos fechados, e das pernas ainda mais fechadas para não correr sangue, pulos em penhascos e doçuras.
dos dois amores aquosos que tive, e agora tenho, pela alma.
da vida e da memória de voinha e suas gargalhadas que me estralaram todos os ossos da colunas. sem postura.
batata frita e limonada. dos arrotos. dos beijinhos.
dos choros gritados por dentro que tive na juventude, por não ser bonita o bastante, amada o bastante.
mas por todos os livros que me andaram em companhia, quando havia faltas.
por todas as músicas que me impôs no peito A CORAGEM para ir na beirada do rio e gritar ADIANTE a mim mesma
e mergulhar no mais fundo das águas mais fundas que sou eu.