O que é “falar errado”?
Ouvimos pessoas dizerem isso com muita frequência e também é muito comum apontarmos "erros" na fala ou na escrita com as quais nos deparamos.
Perceber a diferença entre a forma esperada e aquela "errada" já diz muito sobre nossa posição de privilégio. Digo "nossa" considerando um grupo de pessoas com níveis médios (pelo menos) de escolaridade. Se percebemos que alguém "fala errado" é porque tivemos acesso às formas "corretas" ensinadas na escola.
Precisamos lembrar que esses "erros" dizem respeito aos desvios das normas descritas pela Gramática Normativa, que é esse conjunto de regras da língua que vemos nos livros. Porém, é importante ter em mente que a língua vai muito além das regras apontadas por estes manuais. A língua é viva e todo falante nativo conhece sua língua materna.
O conhecimento da norma padrão da Língua Portuguesa somente pode ser adquirido (sempre parcialmente) por meio do ensino formal, que ainda mantém seus métodos tendo a gramática tradicional como centro do seu projeto.
Embora atualmente as Diretrizes Nacionais e Planos de Educação tenham considerado o que apontam os estudos linguísticos, nossa realidade permanece muito distante do que a Línguística propõe para o ensino da Língua Portuguesa. Apesar dos esforços, são mantidos os métodos e conteúdos voltados para a nomenclatura dos fenômenos da língua, cujos resultados estão longe de atingir os objetivos do ensino da língua nas escolas.
O que chamamos de "erro", portanto, denuncia a negação do direito de todos terem acesso à educação. Contudo, desde que tenhamos tido acesso a esse bem social, devemos dele fazer uso, ter um certo carinho pela língua e usá-la com atenção em contextos formais que nos exigem pôr em prática o que dela sabemos.
Do mesmo modo que a língua é uma ferramenta fundamental de dominação e exploração, é por meio da sua democratização que estas relações de poder podem ser reconfiguradas. Além disso, quando distinguimos o certo do errado na língua, sob estes parâmetros, estamos dividindo também a sociedade, a partir de critérios sociais e reproduzindo preconceitos e opressões sobre grande parte da população brasileira.











