Estes são apontamentos com que espero ficar nesta memória. Ler não é uma lista de títulos, nem no fim da leitura duma obra guardamos o mesmo que teríamos mais eficazmente, e possivelmente com maior precisão, ao fim do estudo de um cábula resumo. Cansado de não me lembrar de alguns livros mais distantes no tempo, comecei a dispensar alguns momentos para gravar numa página a minha leitura, não é um resumo – começou por sê-lo, – nem uma interpretação cuidada; é um acesso à lembrança, um pensar e desfrutar uma leitura prolongados além da última página escrita. Mas há mais que impressões e ideias numa obra. Por vezes, num mais marcante apontamento, que facilmente esqueço entre as páginas e leituras, encontra-se uma construção de palavras que quero manter: a citação. Tento ter durante as leituras um caderno onde apontar essas frases, as que são mais verdadeiras, as que são mais desconhecidas e as que são mais minhas. Esta é a minha colecção, Ernesto Lobos
“Viessem ver o demónio do batráquio, reluzente de luar e alheado como um poeta... Quem na freguesia inteira passeava assim cheio de calma e de compenetração no silêncio carregado de estrelas? Quem, àquelas horas mortas, se maravilhava de igual maneira, a olhar deslumbrado a poalha de luz da estrada de Santiago, aberta no céu? Ninguém, a começar por si próprio. Há sessenta anos no mundo, e ceguinho como uma toupeira. E os outros na mesma conformidade. Para todos os habitantes de Vilarinho, sem excepção, as noites eram noites – escuridão apenas. E os dias, pior ainda, apesar da claridade. Ricos e pobres nem no brilho do sol reparavam. Comiam, bebiam e cavavam leiras, numa resignação de condenados.
“foi num semáforo vermelho que o VendedorDeConchas conheceu o Cego, fez deslizar o saco das costas para o chão e o Cego gostou do barulho das conchas
– você ouve bem?
– não percebo
– você ouve mesmo bem?
– escuto só normalmente, está a falar do barulho do saco? são conchas
– sei que são conchas, sou Cego mas conheço o barulho das coisas. não é isso...
– então é o quê?
– é que eu posso ouvir o barulho do sal dentro das conchas
o VendedorDeConchas não soube o que dizer, o Cego não disse nada.
o sinal ficou vermelho mas nenhum deles se moveu”
Fantástica experiência a de ler a própria língua, sem tradução, e sentir algo mais diferente que com um russo traduzido. Não pelos termos caluandas, que vão aparecendo, alguns já conhecidos em Portugal. Pelas imagens que inicialmente aparecem apenas belas como a primeira citação, introduzem no fantástico, com termos muito simples que ganham realidade nas vozes e situações de quotidiano: a fonte mágica no prédio, o galo Camões, a cruzada do carteiro e as interacções da e com a classe bem sucedidade, menos fantásticos que os restantes, mais credíveis caricaturas e acima de tudo muito menos humanos.
Viver no que esá mal que já se conhece. Uma ganância de passar melhor nos vários níveis sociais sem a presença da ambição de um ideal. Alguns mais pobres mostram maior solidariedade, podendo mesmo evidenciar querer viver com os seus princípios, sem nunca deixar de aceitar o “como é” e assim fazer parte integrante do seu funcionamento.
Um livro enternecedor, acutilante na crueza da realidade que desmascara, política e social totalmetne absorvida pela económica, mas que em todas as passagens, mesmo as mais tristes e violentas consegue cair sempre no demasiado belo das imagens.
Uma história que consegue nascer de “obrigado ao manuel rui que um dia me passou a estória veídica de uma criança que tinha inventado essa cor: «vermelho-devagarinho»” e daí tornar-se passo a passo mais coerente.
“A casa dele espantou-me: assemelhava-se muito a um cemitério, mas ele, ao que parece, gosta dela, o que, aliás, é compreensível – uma vida plena e espontânea como a dele é demasiado auto-suficiente para precisar de qualquer ambiente.”
“...ao que tem o soldado quando, num cerco é mandado fazer a guarda num parapeito ou revelim e pressente que o inimigo está fazendo uma mina direita ao lugar por ele ocupado, e que a sua honra e o seu dever militar lhe vedam arredar-se um passo da posição onde se acha, nem lhe permitem esquivar-se ao perigo que tão próximo se lhe apresenta? O que somente pode fazer é dar parte ao seu capitão do que se sucede para que o remedeie com alguma contramina, e ele conserva-se quieto e firme no seu posto, esperando a qualquer momento voar sem ter asas e cair depois sobre a terra muito contra sua vontade.”
“Dar rendimento é a finalidade que decide tudo nesta pequena cidade que vos parecia tão bonita. O estrangeiro que chega, seduzido pela beleza dos frescos e profundos vales que a rodeiam, julga, primeiro, que os seus habitantes são sensíveis ao belo; falam continuamente na beleza da sua terra: não se pode negar que não façam caso dela; mas é porque atrai alguns estrangeiros, cujo dinheiro enriquece os hoteleiros, o que, pelo mecanismo dos impostos, dá rendimento à cidade.”
“O meu quarto dá para a rua principal do bairro. A tarde estava bonita. No entanto, o pavimento estava pastoso, as pessoas eram poucas e, para mais, iam com pressa. Passavam primeiro famílias de passeio, dois miúdos de fato à marujo, com calções até ao joelho, um pouco embaraçados nos seus trajos de ver a Deus, uma rapariguinha com um grande laçarote cor-de-rosa e sapatos pretos envernizados. Atrás deles, uma mãe enorme, com um vestido de seda castanho, e o pai, um homenzinho franzino que eu conheço de vista. Trazia um chapéu de palha, um lacinho e uma bengala na mão. Vendo-o com a mulher, percebi porque é que, no bairro, se dizia que era uma pessoa distinta. Um pouco mais tarde, passaram os rapazes do bairro, cabelos penteados com fixador, e gravata vermelha, casaco muito cintado, com uma algibeira bordada e sapatos de ponta quadrada. Pensei que iam a um dos cinemas da baixa. Por isso é que partiam tão cedo, rindo tanto e correndo para o eléctrico.
Depois deles, a rua ficou pouco a pouco deserta. Os espectáculos, julgo eu, tinham principiado em toda a parte. Só se viam na rua os comerciantes e os gatos. O céu estava puro, mas sem brilho, por cima das árvores ao longo da rua. No passeio da frente, o vendedor de tabaco pegou numa cadeira, instalou-a diante da porta e pôs-se a cavalo nela, com os dois braços nas costas. Os eléctricos, há pouco cheioos, iam quase vazios. No pequeno Café Poirot, aolado da tabacaria, o criado varria a serradura na sala deserta. Era realmente domingo.
Peguei na minha caderira e coloquei-a como a do vendedor do tabaco porque me pareceu muito mais cómodo. Fumei dois cigarros, entrei para ir buscar um bocado de chocolate e voltei parao comer à janela. Pouco depois, o céu escureceu e julguei que íamos ter uma chuvada de Verão. Pouco a pouco, no entanto, o céu foi-se descobrindo. Mas a passagem das nuvens deixara na rua como que uma promessa de chuva que a tornara mais sombria. Fiquei ali muito tempo, a olhar para o céu.
Às cinco horas, os eléctricos chegaram ruidosamente. Traziam do estádio cachos de espectadores pendurados nos degraus e nas pegas das portas. Os esléctricos seguintes transportavam os jogadores, que reconheci pelas malinhas que traziam na mão. Gritavam e cantavam aos berros que o seu clube era o melhor. Muitos deles fizeram-me sinais. Um deles, gritou-me mesmo: «Demos cabo deles!» E, sacudindo a cabeça, eu disse: «Sim,sim.» A partir deste momento, os automóveis começaram a afluir. O dia mudou ainda um pouco. Por cimados telhados, o céu tornou-se avermelhado e, com o nascer da noite, as ruas ganharam animação. Os mesmos transeuntes foram voltando pouco a pouco. Reconheci o senhor distinto no meio dos outros. As crianças choravam ou deixavam-se arrastar. Quase imediatamente, os cinemas de bairro despejaram para a rua uma onda de espectadores. Entre eles, is rapazes de há pouco teinham gestos mais decididos do que de costume e eu calculei que haviam visto um filme de aventuras. Os que regressavam da cidade chegaram um pouco mais tarde. Pareciam um pouco mais sérios. Ainda riam, mas de tempos a tempos. Tinham um ar cansado e pensativo. Deixaram-se ficar na rua, andando de um lado para o outro no passeio do lado de lá. As raparigas do bairro, de cabelos soltos, passeavam de braço dado. Os rapazes passavam por elas e dirigiam-lhes gracejos; elas riam-se e voltavam a cabeça para o lado. Algumas, minhas conhecidas, acenaram-me com a mão.
Os candeeiros da rua acenderam-se bruscamente e empalideceram as primeiras estrelas que subiam na noite. Senti os olhos fadigados, de tanto olhar os passeios, com o seu carregamento de homens e de luzes. As lâmpadas tornaram os pavimentos luzidios, e os eléctricos, a intervalos regulares, lançavam os seus reflexos sobre uns cabelos brilhantes, um sorriso ou uma pulseira de prata. Pouco depois, os eléctricos fizeram-se mais raros, a noite escureceu por sobre as árvores e os candeeiros, e o bairro esvaziou-se insensivelmente, até à altura em que o primeiro gato atravessou lentamente a rua outra vez deserta. Pensei entãoque era preciso jantar. Doía-me um bocadinho o pescoço por ter ficado tanto tempo apoiado sobre as costas da cadeira. Fui à rua comprar pão e pastéis, cozinhei eu mesmo o que tinha em casa e comi de pé. Quis fumar outro cigarro à janela, mas o ar tinha refrescado e eu estava com um pouco de frio. Fechei os vidros e, àvolta, vi no espelho um bocado da mesa onde a lâmpada de álcool estava junto a uns pedaços de pão. Pensei que passara mais um domingo, que a mãe já fora a enterrar, que ia regressar ao trabalhoe que, no fim de contas, continuava tudo na mesma.”
Brilhante ligação entre o início e o fim, mais forte e menos forçado que qualquer filme com esse truque intelectual. Deliciosa leitura que recompensa quem admira este tipo de coerência narrativa, com uma conclusão que o decorrer da obra, com algumas ameaças negadas no seu interior consegue tornar ainda mais inesperado.
Livro que expõe na narrativa principal uma dilema moral, que contrapõe o valor do amor verdadeiro e da paixão contra si mesmos, sem qualquer motivação egoísta que simplifique qual a solução mais virtuosa.
Enriquecido por narrativas sociais críticas, com o recurso a personagens que caminham em direcção à caricatura, evitando com maior ou menor sucesso entrar nos seus limites, não causando assim dificuldade em acreditar na sua verosimilhança, podendo até mesmo ser reconhecidas: onde estão, como lá chegaram, como os traços desprezados são bem sucedidos e como traços que são louvados não permitem sair da desgraça. Sem nunca esquecer o que os virtuosos desgraçados mais lamentam, não ter tido ou as forças ou a oportunidade de se valerem com desprezíveis bem sucedidos nos valores práticos que a sociedade em que se encontram aceita transversalmente recompensar como êxito.
Alguma leviandade na abordagem de alguns temas por algumas personagens, que têm interesse suficiente para dispensar alguns dos seus pensamentos em nome duma boa conversa. Um pouco como ler sobre a pena de morte ao longo de um romance lido com todo o prazer.
"Be soft. Do not let the world make you hard. Do not let pain make you hate. Do not let bitterness steal you sweetness. Take pride that even though the rest of the world may disagree, you still believe it to be a beautiful place."
" I think this is like a mathematical equation. Since we are obviously repeating some of the mistakes of the past, wether it is in Bosnia, the Bosnians repeating the mistakes, or wether it's at the level of the UN which is repeating the same mistakes as the League of Nations, or wether it's among Western powers who are passively negotiating with evil the same they did in the years prior to Word War II, there is a repeat of History. So if there is a repeat of History it means that we've not understood it well. That means we're not transmiting it well, understanding it well. There is a real crisis. I feel it's like a frontier for us, to understand and transmit to the younger generation the past better, so that there is no repeat. That's it."
"Numa época em que a História ainda caminhava lentamente, os acontecimentos, pouco numerosos, com facilidade se inseriam na memória e teciam um pano de fundo que todos conheciam, frente ao qual a vida privada desenvolvia o cativante espectáculo das suas aventuras. Hoje, o tempo avança a passos largos. O acontecimento histórico, que se esquece numa noite, cintila na manhã seguinte com o orvalho da novidade e por isso, já não é um pano de fundo na história do narrador, mas uma surpreendente aventura que se representa no segundo plano da familiar banalidade da vida privada."
“We cover our anterior nakedness with some philosophy – Christian, Marxist, Freudo-Physicalist – but abaft we remain uncovered, at the mercy of the winds of circumstance. The poor Indian, on the other hand has had the wit to protect his rear by supplementing the fig leaf of a theology with the breechcloth of transcendental experience.”
"Rule 5: Be self-disciplined – this means finding someone wise or smart and choosing to follow them. To be disciplined is to follow in a good way. To be self disciplined is to follow in a better way."
Sister Corita Kent, Immaculate Heart College Art Department Rules
Nasci num tempo em que a maioriados jovens haviam perdido a crença em Deus, pela mesma razão que os sus maiores a haviam tido – sem saber porquê. E então, porque o espírito humano tende naturalmente para criticar porque sente, e não porque pensa, a maioria desses jovens escolheu a Humanidade para sucedâneo de Deus. Pertenço, porém àquela espécie de homens que estão sempre na margem daquilo a que pertencem, nem vêem só a multidão de que são, senão também os grandes espaços que há ao lado. Por isso nem abandonei Deus tão amplamente como eles, nem aceitei nunca a Humanidade.”
Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego de Bernardo Soares
Para quem depende da meteorologia apenas para saber a quantidade de roupa ou quanto tempo demora de casa ao estacionamento mais próximo do trabalho, as forças da Natureza, desde que posteriormente explicáveis, são algo de aconchegadamente racionais. O mesmo não pode sucede compreensivelmente para quem o seu projecto de vida depende desses omnipotentes caprichos.
O projecto de vida de Joseph Wayne – John é o nome do seu filho e do seu pai venerado – é a sua terra e a sua criação.
O tom excessivamente opressivo do livro, em que a presença de felicidade e esperança reforçam a sua ausência, carrega para a possibilidade da discussão duma força superior pertencer à esfera prática, e não à urbana teoria.
O confronto com o paganismo é facilitado pelo confronto entre cristianismos de parte a parte errados. A beleza da relação com a árvore, símbolo atacado pelo famigerado Burton Wayne, e a coincidência contra todos os obstáculos dos rituais pagãos encanta para uma relação de causalidade (relembrando o conhecimento científico simplista) de, nesta obra, não ter sido negada. Também as maiores celebrações sente-se serem acompanhadas de uma sensação mais gutural que o epíteto de animal racional merece.