Eu ouvi uma frase que me fez refletir profundamente sobre meus relacionamentos, inclusive o comigo mesma:
-A rejeição também liberta.
E por muito tempo eu tive medo da rejeição, e isso teve um custo muito alto.
Me custou a mim mesma, meus princípios, valores, meu amor próprio, as relações que eu julgava importante, e por medo da rejeição, enquanto eu rejeitava a mim mesma pela dor do abandono, eu me feria até sangrar.
Quantas e quantas vezes eu não me vi em barcos afundando e eu arrancava minha própria pele para tapar os buracos, e impedir o naufrágio, eu usava a mim mesma como escudo para proteger os outros, enquanto me feria profundamente por medo.
Medo do abandono do outro, e em contrapartida eu me abandonava.
Quantas e quantas vezes não me culpei, me responsabilizei, me permiti viver situações onde era nítido que aquilo me aprisionava, aquilo me martirizava.
O abandono, a rejeição é inevitável e não cabe a nós garantir que o outro irá permanecer, independente de quem é este outro.
E pouco tempo depois do inevitável, eu me via só, recolhendo meus pedaços, pedaços estes que nunca se curaram, e restaram feridas profundas e difíceis de se reparar.
Danos muitas vezes irreversíveis.
A quem responsabilizo ou culpo?
Senão a mim mesma que por medo, ou falta de amor, me coloquei em situações onde eu mesma me feri.
Quantas vezes eu poderia me doar a mim mesma e o fiz pelo outro? O fiz de maneira desesperadora de fazer o outro permanecer.
Ah, como cortei a mim mesma em pedaços, arranquei meus sonhos de mim, tirei de mim o meu brilho e fiz outros sorrirem para não conviver com a dor de estar só.
Eu tinha tanto medo desta dor que nenhuma outra era maior do que os esforços que eu fazia.
Nada me doía mais do que viver o abandono, e inevitavelmente ele vinha, e eu me via com todas as feridas abertas, e só.
E novamente eu tive que reaprender a estar só, reaprender a me curar, me curar do outro, do que eu me causei e me encontrar em meio ao caos do meu medo da rejeição.
A rejeição também liberta.
E não há nada mais lindo e prazeroso do que a liberdade.
Amar quem te ama em sua liberdade de ser, amar a si mesma em seus defeitos e qualidades, acertos e erros.
Amar a mim mesma a ponto de me escolher todas as vezes, mesmo que isso custe pessoas e coisas.
Mesmo que isso custe um sofrimento temporário, nada machuca mais do que me ver, me diminuir, me aniquilar, para ter o outro comigo, me aniquilar por medo de algo que inevitavelmente ocorrerá.
A rejeição também liberta.
E ela liberta do medo de estar só, ela liberta pros seus sonhos, e para si, para ser, para viver e para se desprender do que te aprisiona.
A rejeição funciona como um balsamo.
E foi com toda esta dor, que eu derramei lágrimas sobre minhas feridas, e pedi a Deus que me curasse com seu amor.
Foi sozinha, que eu encontrei o balsamo para minhas feridas, e pouco a pouco me curei de dores que acreditei serem eternas.
Carrego algumas cicatrizes que contam histórias que eu não me orgulho de tê-las vivido, mas elas também contam a história de alguém que sobreviveu.
E quando penso que sou fraca e que as dores são maiores, eu olho com ternura para minhas cicatrizes e elas me contam a história de alguém que foi forte e que sabe ser amor.
Eu aprendi a olhar meus erros, com amor pois eles me tornaram mais sensíveis ao outro.
Eu aprendi a ser sensível comigo, e consequentemente, me tornar sensível com o outro.
A maior das cicatrizes que tenho hoje é meu umbigo, esta marca de nascença, evidencia minha interdependência.
O marco de uma separação carnal com o outro, que nada mais quer dizer que até ali eu era dependente.
Uma vez ouvi uma frase que muito me doeu, me fez secar minhas lágrimas e sentir raiva, mas passada a angústia, compreendi.
-Você precisa cortar o cordão umbilical.
E em muitas relações precisamos fazer isso, da mesma forma que há um tempo para cicatrização e recomposição do corpo, precisamos de tempo para nos curarmos destas relações emocionais.
O umbigo simboliza a cicatrização de uma separação, uma marca que carregamos para sempre que evidencia nossa interdependência.
A rejeição também liberta. Seja livre.















