ARESTO MOMENTUM — Diretamente da casa HAUS LAND de DURMSTRANG, quem se aproxima é AURELIO LEMONANDI. Com seus DEZESSETE ANOS, está cursando seu SÉTIMO ANO e faz parte de ADIVINHAÇÃO e CLUBE DE FEITIÇOS em sua escola. Seu status sanguíneo é PURO e dizem por aí que ele se parece muito com o trouxa STYN (@STYNRAKOS), mas não sabemos se é verdade.
Dons mágicos: clarividência.
Quadribol: torcida.
Postos: nenhum.
𝒉𝒊𝒔𝒕𝒐́𝒓𝒊𝒂𝒔 𝒄𝒐𝒏𝒕𝒂𝒅𝒂𝒔 || 𝒃𝒊𝒐
𝓢obre
MUNDO MÁGICO —
Escola: Durmstrang
Casa: Haus Land
Matérias preferidas: Adivinhação, Astronomia, Feitiços e Transfiguração.
Varinha: Feita com madeira de Lima-Prata, núcleo de Pó de Cinzal. Meio grossa e de 27 centímetros.
Patrono: Esquilo
Bicho-papão: Ser esquecido.
Espelho Ojesed: Aurelio vê seu nome estampado em jornais bruxos, denotando que ele teve seu reconhecimento.
Amortentia: Chocolate branco, limonada de morango e novelos de lã.
Doce favorito: Pena de açúcar.
HEADCANONS —
Sua família pertence à mesma linhagem de Madame Lenormand, ainda que ninguém dê ouvidos para issi. Por não possuírem uma descendência direta da mulher, a clarividência, um dom recorrente em seus integrantes, não possui a mesma potência que fizera a francesa conquistar sua fama. O sobrenome original acabou sendo alterado há muito tempo quando integrantes da família migraram da França para a Noruega. A diferença de idiomas fez a escrita se tornar Lemonandi.
Aurelio é o filho de meio de Gardenia e Lucrecio Lemonandi. Ninguém acredita em sua clarividência (nem ele mesmo), já que nunca provou na prática que a tinha, embora esta tenha sido anunciada por muitos membros da família. A verdade é que as visões e presságios do garoto vêm por meio dos sonhos, ainda pouco claros, afinal nunca houve um treinamento definitivo da habilidade.
Em Durmstrang, não houve dúvidas quanto à sua seleção para a Haus Land, visto que o garoto sempre tivera o entusiasmo como característica principal.
Aurelio gosta de consumir sua energia de uma maneira um pouco mais pacata e relaxante. É por isso que não é raro pegá-lo tricotando ou fazendo crochê em algum canto qualquer (as peças produzidas — quando dão certo — até que dão pro gasto, diga-se de passagem).
O jovem Lemonandi pode não ser o mais proativo em adivinhação, mas é certo que ele nutre um apresso pela matéria como resquício das expectativas que possuía. Partindo da mesma linha de raciocínio, apegou-se à astronomia numa tentativa de incrementar os estudos astrológicos. As estrelas e os planetas têm muito a contar sobre o futuro.
Às vezes o garoto sonha com letras de músicas que ainda serão lançadas. Vira e mexe ele as canta como se todos conhecessem.
Seu animal de estimação é um Corujão-Orelhudo chamado Gull. Aurelio usa-o direto para envio de memorandos.
“Eu tô bêbado, mas ainda posso dizer que você está se aproveitando do meu belo corpinho” Reclamou com a pessoa que procurava coloca-lo debaixo d’água para amenizar um pouco o efeito do álcool. Sabia pelo fato de ainda estar escuro que logo voltaria para a festa e voltaria a exagerar na bebida de novo, usando apenas a cueca, a pessoa lhe deixou ali, deitado na banheira do banheiro dos monitores. Quando a silhueta voltou ao seu campo de visão, percebeu que não era a mesma pessoa. “Temos aqui mais um aluno fora da cama… e você veio me ajudar? Porque não era você que tava tirando a minha roupa mais cedo…”
“Aaahn, uma pessoa me parou no corredor e disse que era melhor eu dar uma olhadinha em alguém que estava praticamente estribuchado...” Aurelio poderia até não ter ficado alarmado com a situação — afinal adolescentes bêbados não se é bem uma novidade —, mas um pouco de altruísmo não é de todo o mal. O loiro estava em pé no vão da porta e logo deixou que um vinco se formasse entre suas sobrancelhas, aproximando-se da banheira para assim poder avaliar melhor a condição do outro. “... Você sabe de quem ela estava falando? Porque, cara... para mim você tá totalmente estribuchado.” Ele conteve uma risada, embora esboçasse um sorriso mínimo no canto do rosto. “Como você está se sentido, uh?”
“Sei que posso estar parecendo completamente doida, mas você pode beber isso aqui, por favor?” Os olhos dela brilhavam enquanto estendeu o frasco contendo um líquido vermelho fumegante, que Sage tinha preparado depois de muitas tentativas. “Eu já tomei, é claro, mas o meu organismo funciona… Diferente. Por conta da minha doença crônica e tudo mais, aí apenas queria que alguém mais normal testasse. O máximo que vai acontecer é um pouco de calor, eu prometo.”
Com uma curiosidade visível, Aurelio aceitou o recipiente que lhe era entregue. “Vou provar só porque é você quem está pedindo.” Emendou um sorriso torto para Sage, embora segurasse o frasco quase que pelo gargalo, com medo daquela reação acabar esquentando demais o vidro, o que certamente poderia trazer consequências pouco agradáveis. De qualquer forma, sequer pensou na possibilidade quando virou aos pouquinhos o líquido entre os lábios. Ele ficou alguns tempos encarando um ponto qualquer para poder analisar aquele sabor que alastrava em sua boca. “Eeer... Está ótimo, sim, claro. Por que não estaria? Mas vem cá, qual é o seu parecer sobre essa adorável bebida?” Balançou a cabeça em concordância, deixando outro sorriso tomar conta do rosto.
१ ╱ › ❛ Era comum que encontrassem a garota na companhia de Aurelio pelas mesas da biblioteca, estando ela sempre disposta a ajudar o rapaz durante seus estudos, aproveitando também para revisar as matérias durante suas sessões. Contudo, naquela tarde pôde notar que havia algo incomodando-o, e logo concluiu que suas explicações não eram o motivo de tal sentimento. Súbita e delicadamente fechou o livro que liam, voltando-se para ele com um sorriso singelo no rosto. ─── Ei, tá tudo bem com você? A gente pode fazer uma pausa se quiser. ─── Perguntou, parecendo preocupada. De nada adiantaria passarem horas estudando, se qualquer problema que estivesse o consternando o impedisse de absorver qualquer conhecimento.
Num geral, até que Aurelio gostava daqueles momentos que tinha com Astrid, mesmo que se tratassem de uma pseudomonitoria e muitas das vezes os assuntos estudados fossem um pouco cansativos. No final das contas, aquilo ajudava o garoto a se manter balanceado nas diversas aulas que carregava no currículo. Naquele dia, no entanto, Aurelio parecia ter seu olhar fisgado por qualquer coisa que não fosse os livros ou as falas da amiga. Parecia um pouco mais perdido que o habitual. “O quê?” Ele focou as pupilas em Astrid ao perceber que ela havia fechado o livro. “Ah, sim, está tudo bem. É que, você sabe, toda essa coisa de cálice e torneio deixa a gente meio paranoico, hm? Parece até que não existe outra coisa...” O loiro suspirou, quase num bufo, afundando-se de maneira espalhafatosa na cadeira. “Mas a gente pode continuar falando sobre... qual era mesmo o nome da criatura?”
Aquele dia não eram um dos seus melhores dias para processo criativo, contudo, havia feito o melhor que podia. Encontrava-se sentado no banquinho à frente da sua tela, no dormitório, os pensamentos em conflitos enquanto mordiscava a ponta superior do pincel e observava a meia pintura que jazia ali: um longo pier à margem do mar mediterrâneo. @vtagevsions· havia chegado à pouco tempo e, embora fossem completamente diferentes de gostos e personalidade, Niklaus acabou por simpatizar pelo seu colega de quarto. — Então Aurélio, o que me diz? Hoje não é um bom dia então se sua mente criativa puder me dar uma ajudinha… vou agradecer. Ou pelo menos sua opinião.
"Quando você entrou nessa pegada artística e eu não fiquei sabendo?" Aurelio largou um caderno no canto da cama e ajeitou a postura, antes largada, para poder observar (e analisar) melhor a pintura que Niklaus havia deixado na tela. O garoto abriu e fechou a boca diversas vezes, mexendo a cabeça para lá e para cá enquanto as ideias iam surgindo. "Uuuh, está ficando legal. Eu daria um pouco de destaque pro céu. Tenta algo, sei lá, meio 'finzinho do crepúsculo', com algumas nuvens e talvez alguma criatura alada. Confia no que eu tô dizendo. Na minha mente não tem como isso dar errado." Ele assentiu para a própria fala, satisfeito. Olhou de soslaio para a janela e até afastou um pouco mais as cortinas para o caso do colega precisar de um pouco de inspiração no mundo real. Se aquilo realmente daria certo? Só saberiam com a obra finalizada.
“Vamos lá, isso de por o nome no cálice é muito legal eu sei, mas a questão é quem você acha que o cálice vai escolher? Quer participar do bolão? Um galeão e você já pode tentar três nomes”
@tripontos
"Você está falando em apostar de verdade?" Aurelio virou-se bruscamente para Isaac ao ouvi-lo, juntando as sobrancelhas numa careta meio duvidosa. "Espera aí, hm... Eu vejo com meu sexto sentido que um dos três vai ter A no nome. Anota aí!" O garoto deu algumas batidinhas no centro da testa com o indicador num tentativa de reafirmar sua habilidade desconhecida até por ele mesmo. "Talvez um I ou um R... Enfim, eu posso vir com nomes concretos daqui a um ou dois dias. Mas como sei que você vai me pagar se eu acertar?"
“[...] Beauxbatons é realmente um lugar encantador. Quer dizer, não que as demais Escolas não sejam (não sei dizer ao certo a respeito de Hogwarts, mas obviamente que ela também deve ter sua parcela de magia), mas este Palácio em especial parece tornar tudo muito mais leve. Diferentemente de Durmstrang (deixo claro que isso não é uma crítica, talvez muito pelo contrário), a escola francesa tem uma sutiliza descabida, sublime, incrustada de alguma forma sob os enfeites dourados que decoram aqui e ali. Faz-me sentir capaz de absolutamente tudo... mas será que realmente sou? Hm... Não sei. Ao menos isso não parece tão certo quanto deveria.”
Trecho de uma nota deixada no canto de uma página qualquer.
Mesmo que não quisesse, dia após dia o jovem Lemonandi se pegava encarando a imponência do cálice. Era impossível não repará-lo, afinal se destacava com suas chamas excêntricas no meio de um salão moldado em mármore (ou seria porcelana? ou seda?), destoando completamente dos enfeites costumeiros. Poderia facilmente ser assimilado ao ponto de fuga de um pintura classicista senão pelo fato de que não havia como fugir dele.
Diante daquele espectro azul que bruxuleava motivado pelo fogo do cálice flamejante, as inseguranças de Aurelio eram repassadas em sua mente como as reprises de um seriado não tão bem quisto. Ninguém as queria ali, mas lá estavam elas fazendo sua história pouco amistosa se tornar inevitável. Os pensamentos surgiam para assombrar aquele pobre garoto e contestar as palavras que havia escrito fazia não muitos dias num caderno em que guardava algumas anotações corriqueiras. Não, Aurelio não era capaz de fazer tudo o que quisesse e ele muito bem sabia disso. Mal conseguia a graça de ser notado por sua família, quem dirá passar por diversas provas tão mais difíceis que um simplório teste prático para saber se ele sabia conjurar feitiço X. Era por isso que ele gostava de Durmstrang. A escola nórdica desafiava-o de maneiras diferentes e não o enchiam com a falsa esperança de um futuro tão brilhante quanto o ouro que o nome Aurelio significa (embora um pouco de utopia nunca seja demais).
A questão é que sim, ele havia se preparado para aquele momento desde que soubera da possibilidade de haver um outro torneio entre escolas. Sua rentabilidade como aluno poderia não ser das melhores e uma consagração como destaque era quase impossível, mas para falar a verdade ele até que tinha seus méritos. Mesmo que os retornos fossem sempre ali, no mais ordinário dos graus, Aurelio se esforçava para conquistá-los. Ficar acordado em uma aula de História da Magia às vezes pode ser uma tarefa difícil...
É em meio a esse enovelado de situações e poréns que chegamos ao momento em que Aurelio, mais uma vez, reclamava em silêncio aquelas fulguras para si. Os braços envolviam um caderno levemente surrado pelos anos enquanto os dedos da mão direta alisavam a capa preta como se dessa forma pudesse ler as frases inscritas dentro daquele amontoado de folhas. O garoto buscava um quê de calma no que já lhe era comum.
Insinuando avançar um tanto em direção às delimitações do objeto mágico em sua frente, Aurelio trocou a perna que sustentava o peso do corpo diversas vezes antes de finalmente dar um mísero passo. Em sua cabeça, isso fora o suficiente para poder sentir o calor daquele fogo lamber seu rosto e expor, mais uma vez, as seguranças que lhe faltavam.
A sensação o fez vacilar da mesma forma que acontecera no dia anterior... e no anterior a ele... e em todas as vezes que se dispusera a enfrentar as lamúrias que o crepitar das chamas ressoava pelo interior oco do cálice.
Hoje tem que ser diferente, ele postulou em seus pensamentos, e, de fato, tinha que ser! Por tantas noites Aurelio havia sonhado com aquilo, tanto em forma de desejos quanto nas fantasias oníricas que acobertavam seu sono. Ele almejava aquela conquista, mesmo a derrota podendo trazer justamente o oposto. Ser escolhido como o campeão tribruxo de Durmstrang já se fazia a glória necessária para quem queria mais e mais histórias para contar.
Em um ato de coragem momentânea, o garoto norueguês apoiou o caderno na mesa mais próxima e folheou incansavelmente as páginas até encontrar o pedaço de papel com seu nome. A caligrafia desenhada com cuidado parecia bailar pelos espaços em branco, tomando toda a extensão daquela face para si, de aresta a aresta.
Aurelio fisgou o papel com rapidez, logo deixando o caderno para trás e marchando rumo ao cálice em sua frente. Fingindo não existir a presença de mais ninguém no salão, ele estendeu a mão e deixou que sua inscrição fosse carbonizada (ou conservada) pelo fogo azul. Poderia não estar ligando lé com cré, mas seguia exatamente a linha de acontecimentos apresentada uma vez em um sonho.
Sentindo apenas o êxtase por ter deixado para trás o peso da decisão, ele voltou para o posto de observação de outrora. Arcaria com as consequências de suas ações depois, mas quem sabe fantasias sejam apenas prelúdios de um futuro e coisas boas estejam programadas para um destino próximo, uh?
Sentado num canto de um dos degraus quase aos pés do Hall de Entrada, Aurelio tricotava como se fosse a única pessoa por ali. Em meio a pontos e mais pontos, ele ia trançando a lã com cuidado para não errar (o que fazia constantemente), embora, claramente, a escadaria não fosse o lugar mais indicado para isso. Mesmo que pudesse atrapalhar, o fluxo constante de pessoas animava aquela figura escanteada. Observar os rostos novos (e também os não-novos) parecia um perfeito passatempo complementar para aquela guerra travada entre as agulhas na mão de Aurelio. Os olhos mantinham-se atentos ao trabalho feito com os fios, sim, mas não fazia mal erguer a cabeça para espiar algum aluno ou outro que transitava em sua frente.
Mas aquela singularidade única logo fora quebrada quando... PLOFT, um barulho se fez audível e a cesta com novelos saiu bolando ao lado de Aurelio. Ele franziu o cenho e elevou o olhar para saber o que havia causado aquilo. Não poderia ser esperado outra coisa: alguém havia tropeçado ali. “Uh, desculpa, desculpa, desculpa! Eu não deveria estar fazendo isso aqui...” Aurelio colocou as agulhas ao lado e apressou em resgatar os novelos caídos, porém pareceu estatelado quando analisou melhor as feições do epicentro daquela breve turbulência. O vinco entre as sobrancelhas intensificou-se à medida em que aquela sensação percorria sua espinha como já houvera acontecido algumas poucas vezes. Ele entreabriu a boca, estático, e deixou o que segurava de qualquer jeito no canto di degrau outravez, levemente confuso com o pressentimento que tomava conta de sua epiderme. “Desculpe-me novamente, mas nós já nos conhecemos?”
Aurelio tinha para si que o ritmo das aulas diminuiria durante aquele ano, com toda a coisa do Torneio e hospedagem numa escola diferente. Bem, ele não poderia estar mais enganado. A correria já conhecida parecia até ter entrado num estágio frenético, impulsionado pela euforia geral e necessidade particular de provar ser mais que merecedor de participar da competição – não sabia como funcionava, mas esperava que ao menos o Cálice pudesse levar isso em consideração quem sabe. Mediante toda a necessidade de esforço, aquele dia era um daqueles em que Aurelio daria de tudo para não precisar fazer muita coisa senão ser apenas papear aleatoriamente. Caminhando pelos terrenos, ele estava decidido a tornar seu desejo realidade, nem que fosse por meia hora, afinal ainda tinha um tempo livre durante o intervalo das aulas. Um sorriso ascendeu em seu rosto quando avistou a primeira pessoa por ali, ainda mais por ser quem era. “Hey, Zarko!” Aurelio apressou os passos em direção ao outro, parando para respirar somente quando já o havia alcançado. “Como vai, meu estimado colega? Tá livre e a fim de ouvir uma história?” Era claro o tom divertido com aquele tratamento cheio de formalidades, mas o questionamento fazia-se verídico. Aurelio olhou-o com atenção, no aguardo de alguma resposta.
Aurelio já havia ouvido diversas vezes sobre como a beleza de Beauxbatons era encantadora, e ali, tão perto da arquitetura do lugar, ele poderia comprovar que era tudo verdade. Do lago à sala de astronomia, os detalhes pareciam ter sido feitos para atrair a atenção alheia por bons minutos, como se fossem quadros a serem vistos no corredor de algum museu. Dentre aqueles vastos campos, o Pátio Interno fazia-se brilhar às vistas curiosas de Aurelio. Era um lugar simples, até, comparado a outros pontos da Academia, e estava constantemente movimentado pelos alunos da escola, já tão acostumados com todas aquelas minúcias. Usavam-no como um canto para descansar entre uma aula e outra. O jovem garoto de Durmstrang poderia estar ali fazendo o mesmo, mas sua atenção estava completamente voltada para as flores dos canteiros que enfeitavam o lugar. “Elas são tão bonitas...” ele inclinou a cabeça na direção da garota ao lado e deixou o pensamento escapulir de sua mente. “É verdade que vocês têm um jardim secreto com várias dessas?” disse ao notar seu uniforme de seda azul.
Era uma tardizinha fresca de inverno na Noruega. Um menino de cabelos dourados, que não deveria ter mais que nove anos de idade, estava sentado no degrau frente à porta de sua casa, aproveitando os tímidos raios solares que lutavam sem muito sucesso contra as temperaturas baixas da época. Parcialmente acostumado com aqueles ventos que arrepiavam até os pelos das costas, o garoto nem se esforçou em ampará-los, confiante no aquecimento que sua camisa de botão e o tecido grosso de sua bermuda verde musgo poderiam proporcionar.
Não tinha muito o que fazer ali fora, mas as opções de ocupação eram muito menores do lado de dentro da casa. Estavam todos entretidos, concentrados em escutar a incrível leitura gaguejada de um poema qualquer que seu irmão Edwin, de seis anos, recitava na sala. Bem que ele poderia estar lá para também aplaudir o mais novo por aquele memorável momento, mas já o fizera tantas outras vezes que nem sabia mais uma sentença diferente para usar na ocasião. Preferiu ficar em sua própria companhia a evitar o constrangimento de um "parabéns!" repetido pela milésima vez. No mais, ninguém sentiria sua falta mesmo.
Percorrendo o olhar pelo terreno verde que se estendia em sua frente, Aurelio repousou o queixo na palma de suas mãos enquanto os cotovelos apoiavam-se nos joelhos. A atenção logo foi fisgada por uma família de patos que cruzava o gramado em direção a um lago que deveria existir por ali perto. Ao todo eram quatro: três filhotes sendo guiados pela mãe, sem muitas escolhas.
A pata corria apressada na frente, seguida pelos demais patinhos enfileirados. Eles andavam esbaforidos, tropeçando aqui ou ali quando atrapalhados por uma grama mais alta. Eram engraçados o suficiente para prender a atenção de Aurelio por um bom tempo, mas logo sumiram de qualquer campo de visão, mesmo que o menino virasse a cabeça para acompanhá-los.
Já estava aceitando voltar para seu ostracismo quando avistou outro patinho – esse mais mirrado e encolhido – caminhando pela mesma rota dos outros. Os passos desse novo filhote eram muito mais estabanados que o dos outros três e, não bastando apenas as marchadas trôpegas, fez questão de cair numa cambalhota desajeitada. A cena arrancou algumas risadas de Aurelio, que pareceram atrair aquele pequeno animal perdido.
O pato mudou sua rota, encarando o rosto de seu observador numa troca mútua de olhares. Naquele momento, uma sensação percorreu a espinha de Aurelio (ele tinha ciência que não era por causa do frio), fazendo com que suas mãos formigassem embaixo da pele de seu queixo. Sem saber direito como, ele poderia jurar já ter vivenciado aquilo no passado. O mesmo frescor, a mesma fileira de patos, o mesmo tropeço desajeitado. O aperto em seu sistema nervoso, que passou tão rápido quanto chegou, arrancou-lhe um suspiro.
A criança esticou as mãos a frente de si para recobrar o tato e balançou a cabeça como maneira de tentar esquecer daquilo. Talvez tenha sido apenas um deja vu, pensou. Com os membros ainda erguidos, tomou a ave para si, acariciando sua pequena cabeça com a ponta do indicador da destra. Aurelio levantou-se de sua estadia e mirou o rumo que os outros patos haviam tomado. Por que não voltaram para buscá-lo?
O filhote aninhou-se na concha feita por aquelas palmas. Queria andar, mas sabia que cairia de seu mais novo ninho no primeiro passo. Como Aurelio, ele não tinha muito o que fazer.
...
É isso, os dois se entendiam. Ambos deixados de lado por existirem outros em sua frente.
Um pertencimento tomou conta das duas criaturas. Aurelio cogitou tomar posse daquele animal, porém a ideia foi afastada de sua mente, principalmente após perceber que a família de patos havia voltado; os quatro grasnavam ao redor daquele par de pés, ansiosos para ter o quinto membro de volta. Sem demora, o garoto colocou seu breve amigo no chão outra vez. A ave sambou entre o marrom dos sapatos e então tomou seu caminho original junto aos demais.
Aurelio mal teve tempo para se despedir quando escutou um “...onde você está? Venha lamber a colher!” passando distante pela fresta da porta entreaberta. Talvez nem fosse com ele, mas gostou de acreditar que sim. No fim, pelo menos uma das criaturas havia sido lembrada.
Já era noite, a lua resplandecia imponente em seu império de poucas horas. Fazia um tímido frio e correntes de ar guiavam-no para dentro da sala de feitiços, ocupada somente pela presença solitária de Aurelio, que insistia em praticar alguns encantamentos por conta própria. Talvez não fosse a melhor das indicações, afinal um feitiço mal lançado poderia ter consequências desastrosas, mas ele tinha certeza que nada poderia dar errado risos. O jovem bruxo brandia a varinha aqui e acolá, satisfeito com bolhas que surgiam do nada, livros que se transfiguravam em pratos e feixes de luz que incidiam da ponta da varinha. Estaria tudo seguindo numa linearidade que agravada ao garoto se não fosse pela oscilação de temperatura no recinto. Para tentar estabilizar a sensação térmica, posicionou numa mesa ao lado um candeeiro convocado. Com movimentos circulares, ele apontou a varinha para o pavio da vela dentro do esqueleto de metal. “Lacarnum Inflamarae” proferiu com expectativas de ver as chamas sendo cuspidas, porém a realidade fora meio diferente. Um estalido se fez audível quando faíscas percorreram o comprimento da varinha até alcançar o cabo, fazendo o garoto soltá-la de súbito. Ele chiou baixinho enquanto encarava os efeitos daquele fenômeno em sua pele, agora parcialmente queimada. Estava prestes a xingar-se baixinho quando percebeu que, empoleirada no vão da porta, uma garota expectava aquele infortúnio. “Aaaahn... hmm... Veja só, eu sei executar esse feitiço sim, só gosto de ter um pouco de desafio.” Aurelio mordiscou o canto de seu lábio inferior, meio desconcertado. “Aliás, você tem alguma poção para queimaduras aí?”