A palavra inocente nunca tivera muita serventia para designar Staffan, nem mesmo em sua tenra idade. Acostumado a olhar tudo - e todos - sobre as lentes espectrais da desconfiança, assim como sabendo o quanto sua aparência agradava aos olhos, ele deveria ter sacado o que os olhares e o rubor de Vincent poderiam significar. Deveria. Não era como se ao descobrir o fosse afastar, pelo contrário, adorando ser alvo do spotlight, sua reação mais natural provavelmente seria incentivar ainda mais o francês. Ao invés disso,tudo que foi capaz de fazer foi soltar uma risada leve assim que voltou a observar o outro. — Claro que existe, até porque nossa cultura culinária não é tão parecida assim com a trouxa. Somos capazes de coisas que a maioria deles nem conseguem imaginar, então por que não aproveitar para adoçar um pouco mais nossa vida e por que não premiar? — Brincou com as palavras, um sorriso ainda lhe adornando os lábios enquanto largava o garfo sobre o prato vazio. — Okay, então espero que esteja pronto para ter as suas expectativas superadas outra vez, Russeau. — Ergueu a sobrancelha como se o desafiasse, ainda que o tom da voz permanecesse brincalhão. O irlandês então levantou da cadeira, pronto para sair do local, mas não sem antes tirou alguns galeões do bolso e colocar sobre a mesa.
De imediato, os pelos de sua nuca se arrepiaram em contato com o tempo que começava a esfriar,fazendo-o fechar mais o casaco ao passo que enchia os pulmões. Era um pouco estranha a sensibilidade que as ervas lhe davam ao tato, fazendo com que cada mínimo contato fosse maximizado, porém estava longe de ser algo ruim. As pessoas indo e vindo lhe chamavam a atenção como nunca antes e por conta da fluidez de seus pensamentos Maxon quase esquecera o que estava fazendo ali fora, só lembrando ao se virar para Vincent. — Nós temos que ir naquela direção ali, vem. — Indicou o caminho oposto que a maioria tomava, pegando na mão alheia em um ato instintivo para que Vincent não se perdesse a medida que guiava a ambos por entre as ruas.
A risada. Foi ela que o fez sair dos seus pensamentos retrospectos, trazendo-o de volta ao presente. Olhou para o amigo e apenas deixou os próprios lábios curvarem-se em algo semelhante, mas taciturno. Permaneceu observando-o enquanto pegava mais e mais pedaços do conteúdo de seu prato; o seu próprio já estava vazio. Ele usava um tom descontraído, o fez Vincent imaginar como deveria ser se sentir assim sempre. Por causa das incansáveis buscas pelo paradeiro da mãe, descontração e sorrisos bobos não eram exatamente rotinas em sua vida. Mas ali, com o bruxo em sua frente, fazia parecer tudo muito natural. Gostava daquela sensação. “Olha que promessa é dívida.” brincou, levantando-se da cadeira e deixando alguns galeões sobre a mesa. Quando estava prestes a sair da loja, viu-o fechar o casaco, percebendo que este provavelmente estava começando a sentir o frio que o início da noite trazia consigo. Vince estava acostumado àquele clima, de modo que não era algo que realmente o incomodava; então a camisa de manga curta que usava era suficiente para esquentá-lo do jeito que precisava. Isso, e o bater levemente acelerado do coração. Olhou na direção que o outro apontou e, enquanto o fazia, foi surpreendido por sentir que ele segurou sua mão. Abriu levemente a boca, como se para falar algo, mas, em seguida, a fechou novamente, a medida que iniciava seus passos na direção em que ele o puxava. A mão dele estava quente e encaixava bem na sua própria. "Eu não conheço esse caminho aqui. É uma espécie de atalho ou você só tá me levando a um lugar perigoso mesmo? Olhe que já o conheço há algum tempo e não sei se vale muito a pena confiar em você, não.” permitiu-se falar em bom humor. Não entendia o porquê, mas aquele passeio deixava-o levemente nervoso.