O riso brotara em meus lábios naquele entardecer. Declaro, desde já, que estava exaurido pelo preparo das aulas. Era minha incumbência atualizar e amoldar as atividades propostas no ano letivo anterior para que se encaixassem harmonicamente no que se iniciava. Ainda, alego que de modo algum concebera rir a cargo daquele evento beneficente do Instituto Wonsan. Sobretudo porque, para mim, era vagamente excêntrico ‘vender’ pessoas. Mesmo sob a título de um bem mor, a caridade ou proteção ambiental. Participei meramente porque já havia me esquivado da atividade precedente, de falar sobre si, sobre a pele que se habitava. Até tentara. Sem êxito, entretanto. Me vira diante de um quadro composto por tantos traços negros, de tamanhos, espessuras e texturas dessemelhantes, que se transfigurara em uma obscuridade plena e caótica. Era isto que me tornara?
Encontrava-me em minha sala, que se transfigurara praticamente em um ateliê pessoal por, usualmente, confundir a teoria com a prática. Afinal, o que era arte senão a práxis? Eventualmente produzia ali, no ápice da fadiga. Naquele dia, em particular, outra vicissitude me tirara aquele peso nos ombros fomentado pelos ócios do ofício. Uma fração de uma folha de papel ofício se iluminara dentre a mesa abarrotada de anotações pessoais e livros acadêmicos. A autoria era daquele aparelho que se ocultara por entre os documentos, plenamente perdido. A ironia era que simpatizava com o status daquele objeto, sentia-me igual frente copiosos deveres, diga-se de passagem. Assim, decidi tomar um leve descanso e conferir o que era, afinal, meu celular continuou recebendo notificações. Cerca de umas quatro seguidas, ou mais.
Meu celular se assemelhava, em demasia, com seu proprietário: sossegado, tangenciando o impassível. As ligações e notificações nem se quer o fazia vibrar. Quiçá a falta de exasperação em minha vida fosse tamanha. A falange deslizou da esquerda para a direita, destravando-o e pondo meu código de segurança composto por 4 (quatro) números. Enquanto isso, meu corpo pesara naquela cadeira de escritório preta e aconchegante. Recostei completamente, reclinando para trás, ao passo que o aparelho entre minhas mãos foi para a linha de minha visada.
E, aí sim, veio o riso. Finalmente.
O fundamento era nada menos que Ishihara Kou. O estudante denunciava seus votos para o leilão, quiçá por não captar que os lances deveriam ser direcionado à administração da instituição. Era adorável. O cômico não era sua equivocação, quiçá fosse a insistência permanente do licantropo. Ademais após tudo que lhe confidenciava. Se é que poderia nomear de tal maneira de tão fechado que era.
Pela quantidade de lances que atingiam meu celular, conjecturei que minha única doação não surtiria efeito algum, ele seria meu acompanhante. Ou melhor, eu seria o dele. Com aquela asserção em mente já me preparava para uma semana de invasão de privacidade. Alguns pessoas, eventualmente, viam esta oportunidade positivamente; para mim, a companhia excessiva soava como a invasão. Quiçá por quando petiz o desejar e nunca ter. Aplacar faltas, suturar feridas sempre deixava marcas. Em meu caso, uma autonomia rígida que beirava a repelir o convívio social.
Não custava tentar. Reiterava em meus pensamentos em concomitância ao preparo de um kit emergencial: sketchbook, tintas, papeis, pinceis e os livros cuja leitura exercia antes de dormir. Aqueles itens eram o suficiente para uma pequena dosagem de sanidade mental em tempos de angústia exorbitante. De resto selecionei algumas vestes, formais e informais. Mais das primeiras do que as segundas. Objetos de higiene pessoal, de identificação e as tecnologias devidamente necessárias para garantir segurança e serenidade a uma viagem. Tudo compunha uma mala harmônica em que cada peça era milimetricamente calculada em uma espécie de obsessão pelo esteticamente belo, naquela caso, o simétrico.
Deixar para traz Wonsan me permitia, ainda que ligeiramente, ser mais informal. Viajei com uma blusa de manga preta, calça jeans e tênis, bem como fazia uso de boné, objeto que raramente utilizava no campus. Os fones de ouvido assessoravam a viagem amena. Quando percebi, já estava rente a porta do quarto de hotel. Que começassem os desafios. O pensamento cortou a linha de raciocínio, invadindo-me, ainda que, recorrentemente, redarguia para deixar de encarar aquele episódio como algo exacerbado. Quiçá assim ele realmente não o fosse.
O quarto parecia vazio. Aquele fato intrigante conferira algumas marcas no cenho, ainda que este estivesse bem coberto pelo boné de coloração escura, que deixava os fios longos para trás e a visão plenamente livre de qualquer interrupção. Intrigado, captei os detalhes do ambiente. O ar condicionado estava ligado. O olhar correra pela cômodo até me deparar com pistas extras. Uma cama levemente amassada, como se alguém houvesse sentado; uma mala; pés.
A última descoberta fez a arcada dentária esbranquiçada aparecer, os dentes pontudos e excessivos deram o ar da graça por míseros segundos. As rodinhas cessam de deslizar pelo piso, deixando a mala colada a parede. Encostei a porta, retirando a mochila quase vazia das costas. Ainda, puxei o fone do celular, fazendo a música ecoar por aquele quarto, começara a tocar Welcome To The Machine de Pink Floyd. Atirei o aparelho contra a cama, para o som ficar estável, e somente assim caminhei em passos calmos. O som das passadas encoberto pela melodia.
Pela posição dos pés era clara a disposição do corpo de Kou. Aproveitei o lado cuja porção da cortina se fazia maior para aproximar-me nesta direção, longe de sua visada. Se é que ele fosse espiar. Agora minha presença era ocultada pelo, sendo este o único objeto entre o corpo do mais baixo e o meu. Aproximei os lábios grosso da região em que, possivelmente, se encontraria sua audição, pronunciando seriamente contra a cortina. Indubitavelmente ele escutaria devidamente, não só por meu timbre de voz ser rouco porém forte o suficiente para se destacar na música do ambiente. Bem como pelo tecido ser leve, ainda que escuro o suficiente para aplacar os raios solares para os hospedes e, naquele caso, impedir que Kou previsse sua aproximação.
Recuei apenas uma passada, aguardando qual seria a reação do petiz ao susto que o conferira.